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Capítulo 3

Author: Histoire
last update publish date: 2026-09-15 06:39:15

Capítulo 3

Lina

A garrafa está quase vazia. Meus lábios estão secos, minha cabeça gira, e ainda não consegui esquecer. A imagem dos olhos cinzentos ficou colada no fundo de mim, como uma queimadura.

Levanto-me. Minhas pernas estão instáveis, meus saltos altos demais. Cambaleio até o fundo do lounge, em direção à poltrona vazia onde o homem estava sentado há pouco. Ele não está mais lá, mas ainda sinto sua presença. O ar está impregnado do seu perfume: couro, cedro, algo queimado.

— Procurando alguém?

A voz cai atrás de mim. Grave. Calma. Divertida, talvez.

Viro-me. Ele está lá, de pé a alguns passos, as mãos nos bolsos da calça. O colarinho da camisa continua aberto. A luz das lanternas desenha sombras sob suas maçãs do rosto, acentua a dureza do seu rosto. Ele me olha de cima. É alto. Muito alto.

— Você — digo, com a voz pastosa. Você me olhava como um animal no zoológico.

— Eu olhava uma mulher sozinha bebendo o peso dela em champanhe. Era fascinante.

— Fascinante ou patético?

Um canto da boca dele se ergue. Não é um sorriso, é uma fissura no gelo. A primeira.

— Os dois — diz ele.

A insolência. A calma com que ele pronuncia essa palavra me faz ferver o sangue. Dou um passo na direção dele, talvez perto demais. Seu perfume me envolve. Meu salto vacila, ponho uma mão no braço dele para me estabilizar. O tecido do paletó é macio, caríssimo. Ele não recua.

— Você é arrogante — digo.

— Estou acostumado a ouvir isso.

— Isso não te incomoda?

— Por que me incomodaria? É verdade.

Encaro-o, incrédula. Seu rosto está perfeitamente neutro, nem um traço de provocação. Ele diz a verdade, simplesmente. Como se a arrogância fosse um traço de caráter, nem bom nem ruim, apenas um fato.

— Você sabe quem eu sou? — pergunta ele.

— Não. E não me importo.

— Melhor assim. Prefiro que me amem ou me odeiem pelo que sou, não pelo meu nome.

— Eu não te amo, mal te odeio. Não te conheço.

— Então por que veio falar comigo?

A pergunta me pega de surpresa. Percebo que não tenho resposta. O champanhe, com certeza. Ou essa sensação estranha que seus olhos cinzentos acenderam em mim, um calor no fundo do ventre, um desafio silencioso.

— Porque você me olhou — digo. Ninguém me olhou esta noite. Todos me viam, mas você, você me olhou. É diferente.

Ele fica em silêncio um instante. Seus olhos percorrem meu rosto, lentamente, como se lessem cada linha, cada cicatriz invisível.

— Você está ferida — diz ele.

— Estou bêbada.

— As duas coisas.

— Você é psicólogo agora?

— Eu leio as pessoas. É o meu trabalho.

— Que trabalho?

Ele não responde. Tira uma mão do bolso, agarra meu pulso, afasta delicadamente meus dedos que ainda estavam pousados no braço dele. Seu contato é seco, quente, firme. Ele não segura, ele guia. Põe minha mão ao longo da minha coxa, depois recua um passo.

— Você deveria ir para casa — diz ele.

— Por que você se preocupa comigo?

— Não me preocupo. Prefiro conversas a mulheres que desmoronam.

— Eu não desmorono.

— Sim. Está desmoronando. E quer que eu seja testemunha.

Cerro os maxilares. Ele tem razão. É insuportável. Esse desconhecido me vê melhor do que Marc jamais me viu.

— Você é odioso — digo.

— Eu sei.

— E é frio. Parece um bloco de gelo.

— Já me disseram isso.

— Isso não te machuca?

— Não.

Ele me olha sem piscar. Seus olhos cinzentos são tão expressivos quanto uma lâmina de aço. No entanto, sob a frieza, algo vibra. Uma tensão. Uma energia contida. Como uma fera enjaulada.

— Por que você está sozinho? — pergunto. Você tem mulher? Filhos?

— Isso é conversa de noite regada a álcool.

— Responda.

— Não.

— Não o quê?

— Não, não tenho mulher. Não, não tenho filhos. Não, não tenho ninguém me esperando em casa.

A frase cai, plana, definitiva. Ele não busca piedade. Ele constata.

— Eu também não — digo. Não mais.

— Seu marido?

— Noivo. Ele me deixou. Pela minha prima.

Ele não ergue as sobrancelhas. Não se compadece. Apenas acena com a cabeça, uma vez.

— As pessoas são decepções — diz ele.

— Você também?

— Principalmente eu.

Há na voz dele uma nuance, algo que não consigo nomear. Autodepreciação, talvez. Ou arrependimento. Apenas uma inflexão, e depois a máscara se fecha.

— Dance comigo — digo, impulsionada por um impulso idiota.

— Eu não danço.

— Por quê?

— Porque não faço o que me pedem.

— Eu também não.

Ele me olha longamente. A música mudou, algo mais lento, mais sensual. Um violão espanhol, uma voz rouca. Os outros clientes dançam em casais, se roçam, se abraçam.

— Você nem sabe meu nome — diz ele.

— Não me importo. Não quero saber quem você é. Só quero dançar.

— Você está bêbada.

— Sóbria como um juiz.

— Você cambaleia.

— Eu danço valsa.

Há um silêncio. Depois, sem que eu entenda como, ele dá um passo na minha direção. Sua mão agarra a minha. Não com delicadeza. Com firmeza. Ele me atrai contra ele, só um segundo, o tempo de eu sentir o calor do seu torso através do tecido da camisa, o ritmo do seu coração. Depois me solta, recua, larga minha mão.

— Não — diz ele.

— Não?

— Esta noite não. Assim não.

A voz dele baixou um tom. Está grave, quase rouca. Seus olhos cinzentos brilham com um fulgor que eu não conhecia nele. Desejo, talvez. Ou raiva. Já não sei.

— Você tem medo — digo.

— Tenho contenção.

— É a mesma coisa.

Ele não responde. Recua mais, põe distância entre nós. Seu maxilar está cerrado, seus punhos enfiados nos bolsos. Ele parece um homem lutando contra si mesmo.

— Vá para casa, Lina.

Eu me congelo. Não lhe dei meu nome. Tenho certeza de que não disse.

— Como você sabe...

— O barman te chama pelo seu nome desde que você chegou. Ele disse «Lina, mais um copo?» há dez minutos. Não sou surdo.

Sinto-me idiota. O champanhe, sempre o champanhe.

— Então, Alain — digo, inventando um nome ao acaso.

Ele não me corrige. Não confirma. Sustenta meu olhar, impassível.

— Boa noite, Lina.

Ele se vira. Atravessa o lounge sem olhar para trás, desaparece no elevador de veludo vermelho. Fico ali, plantada no meio dos dançarinos, os braços caídos, a boca seca.

Meu coração b**e rápido demais.

Acabei de provocá-lo. Ele me enfrentou. Foi embora.

Mas nos seus olhos, antes de virar as costas, vi algo. Uma promessa. Ou uma ameaça.

Vou revê-lo. Não sei como, nem quando. Mas vou revê-lo.

E da próxima vez, ele não irá embora.

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