LOGINCapítulo 2
Lina
O lounge se chama «Noite Persa». Fica escondido no último andar de um palacete, acessível por um elevador acolchoado de veludo vermelho. Paguei cinquenta euros pela entrada, nem calculei. Meu cartão de crédito pagará os danos amanhã. Esta noite, só quero deixar de pensar.
A sala é magnífica. Lanternas de cobre penduradas no teto difundem uma luz âmbar, quente, irreal. As paredes são cobertas de mosaicos azuis e dourados, motivos geométricos que dançam quando aperto os olhos. O bar, em mármore negro, se estende por todo o comprimento da sala. Atrás, garrafas alinhadas cintilam como joias.
Mulheres em vestidos longos, homens em ternos perfeitamente cortados. Ridas abafadas, taças que tilintam, uma música lenta com acentos de violoncelo. Tudo é luxo, calma e volúpia. E eu, estou sentada num banquinho de couro, os dois cotovelos no balcão, olhando o fundo do meu copo.
— Mais champanhe, senhorita?
O barman tem uma voz suave, um sorriso profissional.
— Sim. Deixe a garrafa.
Ele ergue uma sobrancelha, mas serve. A taça se enche de ouro efervescente. Bebo. O primeiro gole é fresco, um pouco amargo. O segundo é mais doce. O terceiro começa a anestesiar a dor.
Não é o suficiente. Nada será suficiente.
Marc. Anaïs. Seus nomes giram na minha cabeça como insetos. Eu os expulso, eles voltam. Bebo, eles recuam. Bebo mais.
Não sei há quanto tempo estou aqui. Uma hora, duas horas. Ao meu redor, os rostos mudam, as conversas também. Não olho para ninguém. Estou numa bolha de champanhe e raiva contida.
Meu vestido é o mesmo de antes, aquele azul-marinho que Marc gostava. Não o troquei. Não tive coragem de abrir minha mala. Vestí-o ao sair do banho, os cabelos ainda úmidos, sem maquiagem, sem nada. Uma mulher à deriva numa cidade que não conhece.
Bebo mais um gole. Meu terceiro copo, ou quarto. A sala gira um pouco, mas não o bastante. Quero que tudo gire. Quero esquecer até meu nome.
É nesse momento que sinto um olhar.
Não o vi chegar. Não o procurei. Mas de repente, minha nuca se eriça, meus ombros se tensionam. Alguém me observa. Não como os outros clientes que me lançaram um olhar rápido antes de voltar aos seus assuntos. Não. Este me fixa. Insistente. Pesado.
Viro a cabeça lentamente.
Num canto do lounge, afastado dos grupos, um homem está sentado sozinho numa poltrona profunda de couro conhaque. Segura um copo de uísque, mal tocado. Seu terno é de um cinza escuro, quase preto, cortado num tecido que capta a luz das lanternas. Sem gravata. Uma camisa branca aberta no colarinho, revelando uma garganta fina, um bronzeado de inverno.
Seu rosto é esculpido, ângulos nítidos, um maxilar firme. Cabelos castanhos penteados para trás, deixando à mostra uma testa larga, têmporas levemente grisalhas. Tem uns trinta e tantos anos, talvez mais. Mas não é seu rosto que me atinge primeiro.
São seus olhos.
Olhos cinzentos. Não o cinza claro dos dias de chuva, não. Um cinza de aço, brilhante, quase metálico. Olhos que não piscam, que não sorriem, que nem julgam. Eles observam. Eles registram. E não soltam nada.
O homem tem um copo na mão, mas não bebe. Faz o líquido girar entre os dedos, lentamente, o âmbar ondulando contra as paredes. Suas mãos são longas, finas, sem aliança.
Ele me olha.
Eu poderia desviar a cabeça. Poderia fingir que não o vi, que seu olhar não pesa toneladas na minha nuca. Mas o champanhe me tirou toda a prudência, todo o pudor. Eu também o olho. Fixamente. Um duelo silencioso entre dois desconhecidos.
Ele não sorri. Não desvia os olhos. Seu rosto permanece perfeitamente impassível, como uma máscara. Apenas uma contração ínfima do maxilar trai um pensamento, uma emoção que não sei decifrar.
Ergo uma sobrancelha. Ele não responde. Levanto meu copo na direção dele, um gesto irônico de «saúde». Ele baixa as pálpebras uma vez, só isso. Sem aceno de cabeça, sem sinal.
Insupportável.
Forço-me a olhar para outro lado. Bebo um gole, depois outro. Mas meu olhar sempre volta a ele, como um ímã. Ele ainda está lá. Não me tira os olhos de cima. Por quê? Não sou nada. Uma mulher sozinha num lounge chique, cabelos em desalinho, rímel levemente borrado. Não sou presa para um homem como ele.
A menos que seja exatamente isso. Ele me acha patética. Ele se diverte com a minha desgraça. A ideia me dá vontade de me levantar e jogar meu copo na cara dele.
Não o faço. Peço outra taça. O champanhe escorre, efervesce, sobe à minha cabeça. O mundo fica mais doce, mais difuso. O homem cinza se torna uma mancha na minha visão periférica, mas ainda sinto seu olhar. É físico. Quente. Quase um peso.
Por que ele não vem falar comigo? Por que fica ali, imóvel, me observando como um predador?
Talvez porque espere que eu vá até ele.
Não irei. Não sou esse tipo de mulher. Sou uma mulher quebrada, sim, mas não uma mulher fácil.
Bebo. Bebo mais.
A música muda, algo mais langoroso. Uma voz feminina canta em italiano, palavras que não entendo mas que soam como um lamento. Fecho os olhos. As lágrimas sobem, eu as engulo.
Quando reabro as pálpebras, o homem cinza desapareceu.
Vasculho o lounge. Não está mais na poltrona. Foi embora. Sem um som, sem um olhar. Como uma sombra.
Deveria me sentir aliviada. Ao contrário, um vazio estranho se abre em mim. Aquele olhar pesado quase me despertara. Fizera-me lembrar que eu existia. Agora, não sou mais que uma mulher bêbada num bar de luxo, sozinha, afogando a raiva no champanhe.
Peço outra garrafa.
O barman hesita, depois serve.
Bebo.
E nesta noite, não penso mais em Marc. Penso em dois olhos cinzentos que me olharam como se eu fosse algo.
Capítulo 5LinaO dia mal amanheceu. Uma luz cinzenta filtra entre as cortinas, o suficiente para que eu veja o corpo dele adormecido ao meu lado.Ele é magnífico. Os lençóis erguidos sobre as ancas, os cabelos castanhos em desalinho na testa, os lábios entreabertos. Ele respira lentamente, profundamente, como um homem que nunca tem nada a temer.Olho-o por alguns segundos. Demasiado tempo.Seu rosto em repouso é mais doce que ontem. A tensão desapareceu, o maxilar não está mais cerrado, as rugas ao redor da boca se suavizaram. Ele parece mais jovem. Menos perigoso.É um engodo. Sei que ao acordar, o gelo voltará. Seus olhos cinzentos se abrirão, olharão para mim como se olha uma estranha, talvez com um pouco de constrangimento, talvez com nada. Não quero ver isso.Não quero lhe dar a oportunidade de dizer que esta noite não foi nada.Então me levanto. O mais silenciosamente possível.Minhas roupas estão espalhadas no tapete. Meu vestido azul-marinho, amarrotado. Meus saltos, um perto
Capítulo 4AdrianNão a procurei. Ela veio até mim, como uma onda contra uma rocha.A porta da suíte imperial bate atrás de nós. Meus dedos ainda estão impregnados do calor do pulso dela, aquele que agarrei no elevador para impedi-la de fugir. Ela não queria fugir. Seus olhos brilhavam com um fulgor de desafio, seus lábios entreabertos numa provocação que ela não teve tempo de formular.Eu a beijei no elevador.A lembrança desse beijo me atravessa como um relâmpago. Sua boca era quente, salgada de champanhe, impaciente. Ela respondeu com uma fúria igual à minha, como se nos conhecêssemos desde sempre, como se tivéssemos algo a provar um ao outro.Agora, estamos na suíte. As cortinas de veludo estão fechadas sobre a cidade de Valésia. Uma única lâmpada ilumina o quarto, uma luz dourada que dança nos lençóis brancos, na pele dela.Ela está de pé diante de mim, a alguns passos. Seu vestido azul-marinho está levemente caído sobre um ombro. Seus cabelos castanhos caem em desalinho sobre o
Capítulo 3LinaA garrafa está quase vazia. Meus lábios estão secos, minha cabeça gira, e ainda não consegui esquecer. A imagem dos olhos cinzentos ficou colada no fundo de mim, como uma queimadura.Levanto-me. Minhas pernas estão instáveis, meus saltos altos demais. Cambaleio até o fundo do lounge, em direção à poltrona vazia onde o homem estava sentado há pouco. Ele não está mais lá, mas ainda sinto sua presença. O ar está impregnado do seu perfume: couro, cedro, algo queimado.— Procurando alguém?A voz cai atrás de mim. Grave. Calma. Divertida, talvez.Viro-me. Ele está lá, de pé a alguns passos, as mãos nos bolsos da calça. O colarinho da camisa continua aberto. A luz das lanternas desenha sombras sob suas maçãs do rosto, acentua a dureza do seu rosto. Ele me olha de cima. É alto. Muito alto.— Você — digo, com a voz pastosa. Você me olhava como um animal no zoológico.— Eu olhava uma mulher sozinha bebendo o peso dela em champanhe. Era fascinante.— Fascinante ou patético?Um ca
Capítulo 2LinaO lounge se chama «Noite Persa». Fica escondido no último andar de um palacete, acessível por um elevador acolchoado de veludo vermelho. Paguei cinquenta euros pela entrada, nem calculei. Meu cartão de crédito pagará os danos amanhã. Esta noite, só quero deixar de pensar.A sala é magnífica. Lanternas de cobre penduradas no teto difundem uma luz âmbar, quente, irreal. As paredes são cobertas de mosaicos azuis e dourados, motivos geométricos que dançam quando aperto os olhos. O bar, em mármore negro, se estende por todo o comprimento da sala. Atrás, garrafas alinhadas cintilam como joias.Mulheres em vestidos longos, homens em ternos perfeitamente cortados. Ridas abafadas, taças que tilintam, uma música lenta com acentos de violoncelo. Tudo é luxo, calma e volúpia. E eu, estou sentada num banquinho de couro, os dois cotovelos no balcão, olhando o fundo do meu copo.— Mais champanhe, senhorita?O barman tem uma voz suave, um sorriso profissional.— Sim. Deixe a garrafa.
Capítulo 1LinaO restaurante está lotado. Risos, o tilintar de talheres, uma luz suave que acaricia as toalhas brancas. Estou sentada diante de Marc, e sorrio porque é o que se faz quando se está noiva e ainda se ignora a verdade.Ele põe o garfo no prato. Quase não tocou na comida. Eu também não. Meu estômago está embrulhado desde esta manhã, desde aquela mensagem que ele recebeu e escondeu rápido demais. Achei que fosse trabalho. Sou ingênua.— Lina — diz ele.O tom é doce. Doce demais. É o tom que se usa para anunciar uma má notícia esperando que ela passe melhor.— O quê?Ele passa uma mão nos cabelos loiros. Marc é bonito. Bonito como um garoto que nunca precisou lutar por nada. O terno é novo, o relógio também. Seis meses atrás, ajudei-o a conseguir esse emprego. Incentivei-o, revisei suas cartas de apresentação, suportei suas noites de angústia. Hoje, ele ganha três vezes o meu salário. E já não me olha como antes.— Precisamos conversar.— Fala.Pego minha taça de vinho. Um t







