LOGINCapítulo 5
Lina
O dia mal amanheceu. Uma luz cinzenta filtra entre as cortinas, o suficiente para que eu veja o corpo dele adormecido ao meu lado.
Ele é magnífico. Os lençóis erguidos sobre as ancas, os cabelos castanhos em desalinho na testa, os lábios entreabertos. Ele respira lentamente, profundamente, como um homem que nunca tem nada a temer.
Olho-o por alguns segundos. Demasiado tempo.
Seu rosto em repouso é mais doce que ontem. A tensão desapareceu, o maxilar não está mais cerrado, as rugas ao redor da boca se suavizaram. Ele parece mais jovem. Menos perigoso.
É um engodo. Sei que ao acordar, o gelo voltará. Seus olhos cinzentos se abrirão, olharão para mim como se olha uma estranha, talvez com um pouco de constrangimento, talvez com nada. Não quero ver isso.
Não quero lhe dar a oportunidade de dizer que esta noite não foi nada.
Então me levanto. O mais silenciosamente possível.
Minhas roupas estão espalhadas no tapete. Meu vestido azul-marinho, amarrotado. Meus saltos, um perto da porta, o outro sob a poltrona. Minha lingerie fina, que tirei ontem num gesto que não lamento.
Visto-me prendendo a respiração. Cada movimento é um risco. O zíper range, eu me congelo. Ele não se move. Ele dorme.
Pego minha bolsa, meus brincos na mesa de cabeceira. Ao pegá-los, vejo seus dedos, pousados no travesseiro, onde minha cabeça estava. São longos, finos, belos. Dedos que me acariciaram, que me seguraram.
Desvio os olhos.
Não olho seu rosto uma última vez. Não quero gravar seus traços na minha memória. Quero esquecer. Esquecer seu perfume, esquecer o calor da sua pele, esquecer a forma como ele disse meu nome — aquele que inventou — com uma doçura que eu não teria acreditado possível.
Caminho até a porta. Meus pés estão descalços, meus saltos na mão. O tapete é macio, abafa meus passos.
A maçaneta está fria. Giro devagar. A porta se abre sem um ruído.
Espio o corredor. Vazio. As luzes estão suaves, a hora é cedo demais para os hóspedes, tarde demais para o pessoal. Perfeito.
Saio. Fecho a porta atrás de mim, sem bater, empurrando-a até que a fechadura se encaixe com um clique quase imperceptível.
No corredor, agacho-me para calçar os saltos. Minhas mãos tremem. Não é o frio. É a consciência de que acabei de passar a noite com um desconhecido, sem nenhuma garantia, sem nenhum amanhã.
Nunca fiz isso. Nunca fui essa mulher. A que dorme com um homem conhecido na véspera, sem nem saber seu nome, sem perguntar se é casado, se é perigoso, se tem doenças. Fui estúpida. Fui livre.
Não me arrependo de nada.
Atravesso o corredor. Meus passos ecoam no carpete espesso. O elevador chega, entro, desço ao térreo. A recepção do hotel está deserta. Um único recepcionista, ocupado ao telefone, nem me vê.
Saio para a rua.
Valésia, de madrugada, tem uma beleza crua. O sol ainda não nasceu, mas o céu é lavanda, quase rosa, e as fachadas dos prédios captam essa luz frágil. As ruas estão vazias. Um varredor passa com seu carrinho, indiferente. Uma padaria abre suas venezianas, o cheiro de pão quente flutua no ar.
Ando. Não sei para onde. Só tenho uma ideia na cabeça: afastar-me desta suíte, deste homem, desta noite que poderia me quebrar se eu a deixasse ocupar muito espaço.
Meu corpo está dolorido. Minhas coxas, minhas costas, meus ombros. Marcas na minha pele que descobrirei ao me despir, vermelhidão nos lugares onde suas mãos pressionaram, onde seus dentes morderam.
Deveria ter vergonha. Não tenho vergonha.
Tenho medo.
Medo de querer recomeçar. Medo de pensar nos seus olhos cinzentos e ter vontade de revê-los. Medo de que esta noite não seja um simples parêntese, mas o início de algo que não posso controlar.
Paro diante de uma fonte. A água corre, clara, viva. Inclino-me, molho meus pulsos, minha nuca. A água gelada me desperta, apaga os últimos vestígios de champanhe, os últimos resquícios de embriaguez.
Olho-me na água que redemoinha. Meu reflexo está deformado, irreconhecível.
— Você veio a Valésia para esquecer — digo em voz alta. Então esqueça.
Um transeunte me lança um olhar curioso. Endireito-me, aliso meu vestido, ponho meus cabelos atrás das orelhas.
Caminho até o hotel onde deixei minha mala. Tomarei um banho, trocarei de roupa, voltarei a ser uma mulher respeitável. Uma analista financeira. Uma funcionária modelo. Não a garota que dorme com desconhecidos em suítes imperiais.
Meu celular vibra. Eva. Uma mensagem: E aí, como foi a noite? Você conheceu alguém?
Digito uma resposta vaga: Não. Só dormi.
Mentirosa.
Guardo o celular. O sol começa a despontar entre os prédios, projetando sombras longas no asfalto. A cidade desperta. As pessoas saem, os cafés abrem, a vida recomeça.
Eu também vou recomeçar.
Vou esquecer seu nome que não conheço, seu rosto que não quero lembrar, sua pele ardente contra a minha.
Vou esquecer esta noite.
Eu devo.
Chegando ao hotel, pego minha mala, pago meu quarto. A recepcionista sorri, deseja bom dia. Não retribuo o sorriso.
Lá fora, um táxi passa. Eu o chamo.
— Estação, por favor.
No carro, vejo Valésia desfilar. Os jardins suspensos, as cúpulas douradas, as pontes de pedra. Esta cidade me ofereceu uma noite de esquecimento. Não guardo rancor.
Na estação, compro uma passagem para voltar para casa. Não para o apartamento que dividia com Marc — não posso voltar lá. Para a casa de Eva, até encontrar um novo lugar, um novo começo.
O trem entra na estação. Subo. Escolho um lugar perto da janela.
Fecho os olhos.
Penso em suas mãos na minha pele. Afasto a imagem.
Penso em sua voz grave. Afasto o som.
Penso em seus olhos cinzentos. Não consigo afastá-los.
O trem parte. Valésia se afasta.
Não choro. Não vou chorar por um desconhecido. Não vou chorar por uma noite sem amanhã.
Sou Lina Varel. Sou forte. Vou virar a página.
Uma página em branco.
Sem ele.
Capítulo 56AdrianO avião aterrissa em Paris com um rugido de reatores que não cobre o tumulto dos meus pensamentos, essa tempestade que ruge na minha cabeça há quarenta e oito horas, desde que recebi essa foto, desde que vi aquele menino de olhos cinzentos de aço e sorriso radiante, desde que li essa mensagem que fez voar em estilhaços tudo o que eu acreditava saber. Ele se chama Liam. Tem dois anos. É teu filho. As palavras giram na minha cabeça, martelam minhas têmporas, cavam um sulco de fogo no meu peito, e não sei o que é mais forte, a raiva, a incredulidade, a dor ou essa alegria selvagem que pulsa nas minhas veias como um álcool forte demais. Um filho. Tenho um filho. Eu, Adrian Kessler, o Diretor Glacial, o homem que todos acreditam incapaz de amar, sou pai. E não sabia.Não respondi à mensagem de Lina. Não pude, não soube, n&ati
Capítulo 55LinaNa manhã seguinte, estou sentada na cama do meu quarto de hotel, os olhos fixos no telefone que seguro entre os dedos trêmulos. A noite foi longa, povoada de pesadelos em que eu revia sem cessar o rosto de Adrian, seus olhos cinzentos cheios de dor e raiva, seus lábios sobre os meus, o gosto do sangue. E depois Anaïs, sempre Anaïs, essa sombra que me persegue há anos, que parece determinada a destruir tudo o que construo.Não consegui falar com ele cara a cara, não consegui lhe dizer a verdade. Mas há outro meio. Um meio covarde talvez, um meio distante, mas um meio que não poderá ser interrompido por primas vingativas ou pais tirânicos. Pego meu telefone, abro minha galeria de fotos e passo os cliques até encontrar aquele que procuro. A foto que tirei na semana passada, no parque em frente ao nosso apartamento. Liam está sentado na grama, seus cac
Capítulo 54LinaO beijo de Adrian ainda queima nos meus lábios, esse beijo selvagem e desesperado que me deixou trêmula, os lábios em sangue, o coração em migalhas, a alma em carne viva. Ficamos muito tempo nos jardins, enlaçados um no outro, sem falar, sem nos mexer, apenas embalados pelo canto distante da fonte e pelo perfume das rosas que flutuava no ar noturno. Depois ele me pegou pela mão, me levou de volta para dentro do hotel, e atravessamos a sala de baile sem olhar para ninguém, ignorando os olhares curiosos, os murmúrios, as perguntas mudas. Victoria, a mulher que estava ao seu braço, desapareceu sem que eu soubesse onde nem como, e não fiz perguntas. Não tinha forças, não tinha vontade. Tudo o que eu queria era falar com ele, dizer-lhe finalmente a verdade, confessar-lhe que nunca o traí, que sempre o amei, que temos um filho.Agora, estamos
Capítulo 53AdrianEla está ali, diante de mim, os olhos cheios de lágrimas, os lábios entreabertos sobre uma confissão que não vem, as mãos trêmulas que se torcem uma contra a outra como se procurassem arrancar de si as palavras que não ousa pronunciar. A luz da lua acaricia seu rosto, esculpe suas maçãs do rosto, faz brilhar suas íris cor de avelã com um fulgor que me enlouquece, que me embriaga, que me torna violento. Dois anos. Dois anos que ela desapareceu, dois anos que me deixou sozinho com aquela carta que me dilacerou o coração, dois anos que me consumo no silêncio e na solidão, e eis que ela volta, que se põe diante de mim, que murmura promessas de explicações sem nunca dá-las.— Adrian — diz ela com uma voz trêmula, uma voz que se quebra no meu nome —, eu sei que está com raiva,
Capítulo 52AdrianO copo se quebra na minha mão antes mesmo que eu compreenda o que está acontecendo, antes que meu cérebro registre a pressão dos meus dedos, antes que a dor suba ao longo do meu braço. Num instante, seguro minha taça de champanhe, finjo ouvir as platitudes desse ministro que me fala de fiscalidade, de taxas de imposto, de reformas por vir, e no instante seguinte, o cristal explode sob a pressão dos meus dedos, estilhaços cortantes se enterram na minha palma, e o sangue começa a correr, quente, vermelho, pegajoso, manchando a toalha branca, escorrendo pelo punho da minha camisa. Ao meu redor, gritos abafados, exclamações de surpresa, mãos que se estendem para me ajudar, garçons que acorrem com guardanapos, mas não vejo nada, não ouço nada, não sinto nada. Nada além desse olhar. Esse olhar cor de avelã que acaba de
Capítulo 51LinaValésia não mudou. Suas avenidas ladeadas de palmeiras que se balançam suavemente na brisa de junho, suas fontes cantantes que murmuram melodias esquecidas, suas cúpulas douradas que cintilam sob o sol como promessas de riqueza e poder, tudo está exatamente como na minha lembrança, como se o tempo tivesse parado no dia em que fugi desta cidade chorando sob uma chuva torrencial. Mas eu mudei. Não sou mais a jovem mulher quebrada que subia num avião com uma mala e um coração em migalhas, que olhava pela janela a Torre Kessler desaparecer nas nuvens murmurando um adeus definitivo. Sou Lina Varel, mãe de um menino de dois anos, uma mulher que sobreviveu ao exílio, à solidão, às ameaças de um homem sem escrúpulos. E voltei para lutar.É uma reunião de ex-alunos que me serve de pretexto, uma noite organizada nos s







