ANMELDENLEONNão deixei Henrique trabalhar muito tempo. Sabia que meu amigo estava doido para ver a "onça" dele, e eu não ia atrasar isso. Dispensei-o com um sorriso de canto, e ele saiu do escritório com pressa mal disfarçada. A porta mal se fechou e eu já ouvia seus passos apressados em direção à sala, onde sabia que Ana ainda estava. Sorri sozinho. Meu amigo estava "perdido", e eu conhecia bem aquela sensação.Fiquei ali, sentado, processando tudo o que havia descoberto. Quando mandei aquele e-mail para Henrique pedindo todas as informações sobre a família de Valentina, nunca imaginei que fosse descobrir tanta coisa. Os pais dela estavam em uma situação financeira ruim, tão grave que precisavam vender o ranchinho que adquiriram com tanto trabalho. Aquela terra era o orgulho deles, o fruto de anos de suor. E eu queria ajudar. Mas não da mesma forma que antes — fazendo algo sem consultar Valentina. Dessa vez, eu ia conversar com eles e com ela, ainda mais depois dos toques de Henrique.— Cui
HENRIQUELeon me chamou para ajudá-lo com o respaldo legal do caso da praça. As câmeras de segurança haviam registrado tudo, e a comoção na mídia era grande, mas ele sabia que, no Brasil, a justiça nem sempre protege a vítima como deveria. Conversamos por horas no escritório, analisando cada detalhe, cada possível desdobramento. Ele também fez questão de que o nome dele e de Valentina não vazasse para a imprensa — pelo menos não enquanto a poeira não baixasse.No fim, fui convidado para jantar. E foi ali que a noite mudou completamente.Há dias não conseguia tirar Ana da cabeça. Aquele sorriso bonito e despretensioso, o rostinho oval, os olhos que brilhavam quando ela falava de algo que amava. Tudo nela me atraía de um jeito que eu não esperava. Mas eu havia prometido a mim mesmo que não tentaria nada. Ela não era como as outras mulheres que eu conhecia. Ana era do tipo que se ama, que se protege. Não era uma aventura passageira. E eu não queria ser o canalha que a trataria como tal.
VALENTINAQuando Leon olhou para todos, prendemos a respiração. O silêncio na mesa era pesado. Eu conhecia aquele olhar no rosto do meu marido. Era o olhar de quem tem más notícias.— Infelizmente, Murilo escapou — Leon disse, a voz grave. — A polícia não faz ideia de onde ele está. O bom é que eles prometeram que não vão desistir de procurar, afinal ele é um traficante muito conhecido, já tinha prisão decretada. Disseram que é uma questão de tempo até encontrarem, mas... parece que ele sumiu como se tivesse sido ajudado por alguém.— Como assim? — Rafael perguntou, a voz tensa.— Dos três homens que estavam com ele, todos traficantes conhecidos, foram presos. Mas ele tinha outros trabalhando com ele. A polícia está varrendo o local onde ele era conhecido, mas ainda não o encontraram.Rafael ficou em silêncio por um momento, os olhos azuis intensos escurecendo de preocupação. Não era por ele — era por Verônica e Lili. Tava na cara pelo jeito como ele olhava pra elas.— Bom, se a políc
ANA Eu tinha acabado de sair do meu trabalho na loja de carros quando uma colega me chamou: — Ana, você viu o que tá passando na TV? Parece que teve um atentado na praça! — O quê? — perguntei, sentindo o coração acelerar. — Que praça? — A da Faria Lima, ali no Jardim Paulista. Tão falando que foi uma tentativa de sequestro, porque tem muita gente com grana por lá. Até uns seguranças reagiram ao ataque. Minha colega mostrou as imagens, e eu gelei na hora. Reconheci os seguranças. Eram os dois homens que Leon havia contratado para proteger Valentina. Meu coração disparou. Liguei imediatamente para minha amiga. Ela atendeu no segundo toque. — Valentina! O que aconteceu? Eu vi os seguranças na TV! Você está bem? Está com o Benjamin? — Estou bem, Ana, estou em casa — ela respondeu, a voz um pouco cansada, mas firme. — Foi uma confusão, mas estamos todos bem. Olha, está todo mundo aqui em casa, e eu queria muito que você viesse. Preciso te contar o que aconteceu. — Já estou indo — r
LEON Me levantei do sofá e comecei a explicar:— Desde o dia que perdi Anya, prometi que nunca mais amaria ninguém. Por isso me envolvi com a Isadora. Queria uma esposa que ocupasse espaço sem eu precisar me devotar. Mas quando conheci Valentina, o que senti foi surreal demais pra ser chamado meramente de paixão. Era algo que não sentia nem por Anya, muito menos por Isadora.Rafael me olhou, sorrindo.— Era a tal loucura?— Sim, uma doce loucura — falei, também sorrindo, e então me aproximei da mesa do escritório. — Vou te mostrar uma coisa.Abri a gaveta da minha mesa e peguei um pequeno estojo. Quando o abri, Rafael viu um pequeno óculos feminino na minha mão.— Ué, um óculos? — ele perguntou.— Sim o óculo de Valentina. A primeira noite que fizemos amor, ela esqueceu isso aqui. Você não faz ideia de quantas vezes eu fiquei alucinado lembrando desses óculos no rosto da minha pequena.Rafael riu, mas era um riso diferente. Divertido e suave.— Eu deveria rir de você e te chamar de b
LEONDepois que Verônica e Valentina se afastaram para nos dar privacidade, fiquei ali com Rafael, sentindo o peso dos anos de mágoa e desconfiança que nos separavam. Ele parecia tenso, como se esperasse que eu o julgasse ou o expulsasse a qualquer momento. Mas eu não estava mais com a mesma raiva de antes. Verônica tinha contado tudo — sobre Isadora, sobre a avó de Anya, sobre o que estava acontecendo. E, pela primeira vez, vi meu irmão cCAPÍTULO 113 – A CONVERSA DOS IRMÃOSom outros olhos.— Você quer beber alguma coisa? — perguntei, tentando quebrar o gelo. — Você parece meio afobado.Rafael soltou um riso que eu conhecia desde a nossa infância.— Que palavra estranha para um almofadinha como você, Leon.— Só não é estranha para um doidivanas como você, Rafael.Ele riu novamente, e eu peguei a garrafa de uísque que guardava para ocasiões especiais.— Vamos tomar pelo menos um uísque — falei, servindo dois copos. — Ainda tenho que ir à delegacia dar depoimento sobre o que aconteceu n







