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Capítulo 87 - Simplesmente acontece

last update Data de publicação: 2021-06-28 06:32:04

Eles se foram e eu fiquei ali com Dom. Kim viria buscá-lo, mas provavelmente no dia seguinte, pois já estava muito tarde. Não sei do que eu tinha mais medo: do retorno deles ou de eu ficar ali sozinha com Dom em sua casa.

Voltamos para dentro.

- Quer que eu faça algo para comermos? – ele perguntou.

- Não... Tudo bem. – eu disse. – Minha mãe deixou algumas coisas prontas na geladeira. Então não precisamos nos preocupar com isso. Além do mais não estou com fome.

Deitei no sofá e queria ficar um pouco quieta e colocar meus pensamentos em ordem.

- O que você fez com o anel? – Dom perguntou sentando na minha frente, no outro sofá.

- Eu... Mandei Kim entregar a Magnus.

- Mandou Kim ir ao castelo? – ele perguntou preocupado.

- Não, Dom, acalme-se. Eu tenho certeza de que Magnus irá procurar Kim e tentar saber o que realmente aconteceu comigo. Kim devolvendo o anel... Ele vai ter certeza de que eu estou morta.

- Por que... Você pensou nisso?

- Eu não sei... Mas eu achava que precisava devolver. Era do reino do pai dele... Talvez a maior lembrança que ele carrega do pai. Não é justo ficar comigo.

- Não acho que ele se importaria com isso, Kat.

- Dom... E se ele não perdoar? Eu sou uma mentirosa.

Dom se aproximou de mim. Passou a mão pelos meus cabelos carinhosamente e disse:

- Você nunca vai esquecê-lo?

- Não... E o que eu mais temo na minha vida é que ele esqueça de mim.

- Se ele ama de verdade, não vai esquecê-la. E a perdoará por sua mentira, pois graças a ela você está viva.

Eu peguei a mão dele, impedindo que ele continuasse a me tocar. Olhei nos olhos dele e disse:

- Obrigada por tudo. Serei grata por toda a minha vida a você. Mas eu não quero trair Magnus. E não vou fazer isso.

- Acha mesmo que eu aceitaria você comigo pensando nele? Eu não sou substituto da realeza. – ele disse se levantando e saindo.

Eu fui atrás dele. Eu gostava muito de Dom. Eu devia a minha vida a ele. Não queria magoá-lo. Quando cheguei perto, ele disse:

- Não me toque... Não se aproxime de mim, Kat.

Eu fiquei imóvel e confusa. Ele continuou:

- Eu não respondo por mim quando estou perto de você.

Eu larguei meus braços ao longo do meu corpo e fui para o quarto. Seria uma longa noite. E talvez longos dias. Eu e Dom sozinhos naquela casa era um sofrimento para ele e uma provação para mim. Nos mantermos longe um do outro era um grande desafio, quando nossos corpos queriam estar juntos. Deitei na cama e comecei a pensar em Magnus e em tudo que vivemos. E isso bastava para eu lembrar o que eu queria de verdade na minha vida. Toquei na tatuagem e podia o sentir beijando cada parte do meu corpo. Eu ardi em desejo a cada lembrança do príncipe comigo e dentro de mim. Se não fosse ele, eu não queria mais ninguém na minha vida.

Mais um mês se passou. Kim veio me trazer mantimentos naquela semana. Eu ficava esperando por ele e Dom ansiosamente. Tudo que eu queria era ver alguém quando tudo que eu fazia era ficar sozinha treinando minha mira o dia inteiro. Assim que ouvi o barulho do carro saí correndo para a rua. Quando Kim saiu do carro o abracei, derrubando suas sacolas.

- Eu também estava com saudade. – ele disse rindo.

Entramos. Eu preparei algo para comermos.

- Confessa que você prefere quando eu venho e não Dom. – ele brincou.

- Confesso que pode ser qualquer pessoa. – eu ri.

- Kat...

Olhei para ele, encontrando seus olhos muito bem maquiados com delineador preto, sua marca registrada.

- Ele... Procurou-me.

- Você está me dizendo que... Magnus foi até você?

- Sim...

- Kim, me conte tudo... Como ele está? Ele perguntou o que realmente aconteceu? Ele ainda me ama? Ele acha que... Eu posso estar viva?

Eu sentia meu coração batendo tão forte que parecia que o próprio Magnus estava ali.

- Não me poupe detalhes, Kim.

- Uma semana depois que cheguei à minha casa o carro do castelo parou lá. E Magnus e Dereck desceram...

- Claro, Dereck sempre estará com ele.

- Ele queria saber o que realmente havia acontecido.

- E...

- Eu segui com o plano, Kat. Minha vontade era dizer a ele que tudo não passava de um plano para salvarmos você. Eu podia sentir a dor nos olhos dele, eu juro... – Kim baixou a cabeça. – E eu tive que mentir ao príncipe de Noriah... E ao homem que eu amo.

- Kim, foi necessário. Eles irão nos perdoar... Eu sei disto.

- Eu disse que você realmente havia morrido... E entreguei o anel. Foi a coisa mais triste que eu já fiz em toda a minha vida.

- Então... Ele ainda me ama?

- Eu acho que Magnus realmente vai amá-la para sempre.

- Kim... Eu tive tanto medo que ele me esquecesse...

- Mas você entende que agora ele realmente acredita que você morreu?

- Mas... Ele sabe que eu não matei o pai dele?

- Sim, ele sabe. Mas também não acredita que foi a própria mãe. Ele acha que foi algum rebelde anti monarquia que entrou no castelo naquele dia.

- Eu não acredito que eles não cogitam a hipótese da rainha ter matado o marido...

- Quem cogitaria, Kat? Acho que ninguém, principalmente os filhos dela.

- Kim... Acho que mais que provar a minha inocência perante todos, eu gostaria que eles soubessem que foi ela.

- E você tem certeza de que foi a rainha?

- Sim, eu tenho. Ela me disse minutos antes que acabaria comigo, na noite do baile.

- E Dereck acha ter visto Dom no baile...

- Mas Dom não estava no baile.

- Ele acredita ter visto ele...

- Qualquer um poderia estar usando uma máscara como a que Dom usava.

- Enfim, ele tem medo que Dom possa ter feito isso.

- E por que ele não mandou investigar?

- Ele mandou... Dom estava trabalhando na noite do baile. Ainda assim ele não acredita muito nisso.

Eu levantei com raiva:

- Eles são uns idiotas. Acreditam que Dom pode ter matado o rei? – eu ri ironicamente. – Claro, qualquer um, até mesmo eu... Menos a mãe deles.

- Eles precisam de tempo, Kat...

- Mais tempo?  Magnus teve 27 anos de tempo para ver quem era a mãe dele. Dereck nunca acreditou nela... Agora decidiu acreditar?

- Está tudo bem complicado em Noriah.

- Kim, eu vou perder o amor de Magnus... E de Dereck... Mas eu vou matar a mãe deles, assim como ela fez com o rei Albert, assim como ela fez quando tentou destruir minha vida e assim como ela fez com todo o povo de Noriah.

- Katrina Lee, eu estou com medo de você. Ainda bem que sou seu amigo.

- Pois tenha. Vingança é meu nome agora... Mas depois desta conversa eles foram embora e nunca mais voltaram?

- Sim... Nunca mais voltaram.

- E você e Dereck?

- Dereck nunca assumirá o que temos, principalmente agora que você está longe de Magnus.

- E como você se sente?

- Como se tivesse perdido um pedaço de mim...

Eu o abracei:

- Eu sei exatamente o que você sente. Mas... Você não vai lutar por ele, Kim? Eu estou morta, mas você está vivo.

- Chega de lutar por homens, Kat... Se ele me quer, ele que lute por mim.

- Kim, eu tenho tanto orgulho de você.

Ele riu amargamente, marejando os olhos:

- Vivi algo que não sei explicar com Dereck...

- Isso se chama amor, Kim. Não há como explicar... Simplesmente acontece.

- Mas... E você e Dom sozinhos aqui por vários dias? Como foi?

- Eu sou fiel a Magnus, o homem com o qual me casarei.

Kim olhou para mim e riu, limpando as lágrimas que quase brotavam de seus olhos:

- Se você está dizendo que este casamento vai acontecer, eu acredito. Mas... Vocês ainda não estão casados. Então...

- Eu e Dom não ficamos muito próximos desde que vocês foram embora. Nossos corpos não resistem um ao outro...

- Kat... Você tem certeza de que não gosta de Dom?

- Tenho certeza, Kim. Eu amo Magnus. E quero que ele seja o único homem da minha vida, embora eu tenha desejado tanto Dom.

- Mas ele dormiu com Vitória...

- Como acha que eu me sentiria fazendo amor com Dom e pensando que Magnus está sofrendo com a minha morte? Que tipo de pessoa você acha que eu sou?

Mas nós estávamos tão enganados quanto a tudo que pensávamos. Principalmente eu.

A próxima visita foi de Dom. Eu o recebi com a mesma ansiedade que recebi Kim. Assim que ele saiu do carro eu corri até ele e o abracei. Logo ele me afastou e entrou. Eu sabia que qualquer contato mais próximo entre nós era perigoso, então me contive.

- Eu trouxe vegetais frescos. – ele disse colocando a sacola sobre a mesa. – Pouca coisa... Acho que você já pode voltar.

Eu olhei para ele e meu coração bateu mais forte:

- Você está falando sério?

- Sim... Katrina Lee não existe mais em Noriah... Nem para realeza. Não há nenhum vestígio dela.

Olhei-o confusa, não entendendo do que ele falava. Ele jogou o jornal que trazia dentro da jaqueta sobre a mesa. E eu li na capa: “Confirmada data do casamento do Príncipe Magnus com Vitória Grimaldo. Em dois meses eles estarão na igreja do palácio de Noriah, oficializando seu amor perante Deus.”

E ali, naquele momento, meu mundo desabou.

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