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Capítulo 3

Autor: Segundo Amor
— O problema da Rita com a altitude era mais importante. Eu não te culpo.

Cláudio apertou os lábios. As mãos dele pareciam não saber onde ficar, balançando de forma inquieta.

— Está com fome? Reservei uma mesa naquele restaurante francês que você adora. Vamos sair para comer.

— Esquece. — Balancei a cabeça. — Estou muito cansada.

— Além disso, eu não gosto de comida francesa.

— Sou uma pessoa comum, não consigo comer comida crua. Me dá alergia.

Eu estava com muita preguiça de lidar com aquele lapso momentâneo de pena da parte dele.

Quem amava comida francesa não era eu, era Rita.

Quem gostava de viajar sem rumo, aproveitando uma vida luxuosa, também era Rita.

Aos olhos dele e de seus amigos.

Eu sempre fui apenas uma pessoa simples que não servia para a alta roda.

Uma plebeia tentando se passar por nobre, escalando freneticamente às custas de Cláudio, como uma sanguessuga.

Embora Cláudio nunca tivesse dito isso com todas as letras, ele também nunca havia refutado os amigos quando diziam essas coisas sobre mim.

Ele hesitou por alguns instantes.

— Andei muito ocupado ultimamente. Realmente não consegui arrumar tempo para te dar atenção.

— Viajar para os campos com a Rita também foi para buscar inspiração. Ela será a responsável pelos esboços de design da nova coleção da empresa.

— Você não entende dessas coisas, eu não te culpo, mas também não crie caso por causa disso.

Ele morria de medo de que eu tivesse a menor suspeita ou mal-entendido sobre Rita.

No coração dele, Rita seria para sempre pura e imaculada, o amor idealizado que jamais cometeria um erro.

Mesmo quando ela o havia abandonado no passado, Cláudio fez uma lavagem cerebral em si mesmo, convencendo-se de que Rita teve motivos ocultos e sofreu calada.

Era impossível para Rita ser uma amante.

Porque isso seria indigno do status que ela possuía.

Acenei com a cabeça de forma superficial:

— Entendi. Você não vai para a empresa? Não estava tão ocupado?

Ao ver minha atitude desapegada, Cláudio se irritou um pouco.

— Laura, você não pode tentar me compreender um pouco? Por que acha que eu trabalho tanto todos os dias? Para sustentar quem?

— Se você pudesse ao menos aliviar um pouco as minhas preocupações, eu não estaria nesse estado.

Acenei novamente.

— Tudo bem, não precisará mais se preocupar com isso no futuro.

O advogado de divórcio que eu havia contatado me mandou uma mensagem, marcando um encontro.

Virei-me, com a intenção de trocar de roupa.

— Volte aqui! É só eu falar duas coisas que você já fecha a cara. Que esposa ousa agir assim com o marido?

Do jeito que ele falava, quem ouvisse pensaria que a família Alves vivia na era feudal.

Cláudio tentou subir as escadas para me impedir, mas acabou tropeçando nos cacos de vidro que ele mesmo havia espalhado pelo chão.

Durante esses oito anos, quem sempre fechava a cara para mim, todos os dias, era ele, Cláudio.

Eu o ignorei, subi para me trocar e, passando reto por ele, fui embora.

Eu tinha acabado de discutir os termos do acordo com o advogado quando Cláudio me mandou uma mensagem.

[Minha mãe quer te ver. Venha logo para a casa da família.]

Eu não me importava com Cláudio, mas a mãe dele, Glenda Lacerda, nunca me tratou mal e me deu o amor materno que eu jamais havia experimentado antes.

Eu não queria que Dona Glenda ficasse triste por minha causa.

Peguei um táxi até a mansão da família. Assim que entrei apressadamente pela porta, ouvi uma onda de risadas.

— É como um carrapato mesmo. Bastou mandar uma mensagem pelo celular do meu irmão e ela já veio correndo.

A irmã de Cláudio, Elsa Alves, estava recostada no sofá de braços dados com Rita, e dizia para ela:

— Ela só conseguiu enganar meu irmão e casar com ele usando o próprio corpo.

— Mas não importa. Agora você voltou. Todos nós gostamos de você. Só você é a cunhada que eu reconheço.

Rita sorriu levemente e lançou um olhar em minha direção:

— Elsa, também não seja tão dura com ela. Ela veio de uma família humilde. Os métodos dela foram um pouco fora dos limites, mas não há o que fazer, afinal, falta-lhe visão de mundo.

É verdade, todos achavam que fui eu quem se pendurou em Cláudio para conseguir esse casamento.

Todos achavam que eu não era digna dele.

Todos achavam que Rita é quem deveria ser a esposa de Cláudio.

E eu, aquele lixo inútil que veio não se sabe de onde, nem merecia sentar-me à mesa com eles.

— Elsa, peça desculpas.

Elsa deu uma risada de escárnio.

— E por que eu deveria te pedir desculpas?

— Certo. — Ergui o celular. — Eu gravei tudo. Vou colocar para a sua mãe ouvir agora mesmo.

Os rostos de Elsa e Rita empalideceram na mesma hora.

Dona Glenda sempre foi uma mulher bondosa e era a pessoa que menos suportava o fato de Rita ter apunhalado Cláudio pelas costas.

Se ela soubesse as coisas que as duas acabaram de dizer, com certeza repreenderia Elsa severamente.
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