로그인Naquela noite, depois de sair da casa, entrei no carro e fiquei alguns minutos sem ligar o motor.
Minhas mãos estavam sobre o volante.
Eu ainda conseguia sentir os dedos pequenos de Theo segurando os meus.
Fechei os olhos.
E, contra a minha vontade, lembrei do meu filho.
Eu não tinha escolhido um nome para ele. Lucas e eu nunca chegamos a decidir. Havia tantas opções. Ele queria um nome forte, eu queria um nome delicado, e brigávamos por brincadeira. Eu dizia que ele queria dar ao filho um nome de personagem de filme de ação. Ele dizia que eu escolheria algum nome impossível de pronunciar.
Eu ri sozinha.
Depois parei.
Porque lembrar doía.
Eu tinha passado quatro anos tentando não lembrar. Mas havia dias em que a saudade aparecia sem pedir licença. Principalmente quando eu via mães com seus filhos. No supermercado. No parque. Na rua.
Eu desviava o olhar.
Não por inveja. Eu nunca quis que outra mãe perdesse aquilo que eu perdi.
Era só difícil.
Eu queria saber como ele seria. Se teria meus olhos. O sorriso de Lucas. Se seria quieto ou bagunceiro. Se teria medo de escuro. Se pediria histórias antes de dormir.
Perguntas que nunca teriam respostas.
Eu só soube ser mãe por alguns minutos.
Depois, só soube como era perder um filho.
* * *
Quando voltei ao hospital, minha avó estava acordada.
— Como foi?
Coloquei a bolsa na cadeira.
— Consegui o emprego.
Ela sorriu.
— Eu sabia.
— Ainda tem o período de experiência.
— Vai conseguir. É uma boa casa?
— Enorme.
— Rico?
— Muito.
— Então cobre caro.
Ri.
— Vó.
— O quê? Você acha que gente rica gosta de economizar?
Balancei a cabeça. Ela sempre conseguia me fazer rir.
— O dono parece sério — comentei.
— Parece?
— É alguém do meu passado.
Ela me observou.
— Lucas?
Meu coração acelerou.
— Como você sabe?
— Porque você falou o nome dele dormindo algumas vezes.
Desviei o olhar.
— Isso ficou no passado.
Minha avó segurou minha mão.
— Algumas coisas ficam. Outras só ficam esperando.
Eu não respondi.
Ela não sabia o quanto aquela frase me incomodava.
* * *
Nos dias seguintes, tentei me adaptar à casa.
Theo facilitou tudo.
Ele era inteligente, curioso e tinha energia suficiente para ocupar três crianças. Gostava de histórias, de desenhar, de fazer perguntas. E tinha uma habilidade impressionante para descobrir exatamente aquilo que eu tentava esconder.
— Você está triste?
— Não.
— Está sim.
— Como sabe?
Ele apontava para o meu rosto.
— Seus olhos.
Eu sorria.
— Você é muito observador.
— Papai diz isso.
Olhei para Lucas, que trabalhava no notebook do outro lado da sala.
Ele levantou os olhos.
— Ele não deveria repetir tudo que eu digo.
Theo riu.
Eu também.
Era estranho. Porque, apesar de tudo, eu estava começando a me sentir confortável naquela casa.
Talvez confortável demais.
Principalmente perto de Lucas.
Nós evitávamos o passado. Ele não perguntava onde eu tinha estado. Eu não perguntava sobre a vida dele. Era como se existisse um acordo silencioso.
Mas havia momentos em que nossos olhos se encontravam.
E nenhum dos dois conseguia sustentar o olhar por muito tempo.
Eu não sabia o que ele sentia.
Eu sabia o que eu sentia.
Confusão.
Raiva.
Saudade.
E algo que eu me recusava a nomear.
Porque Lucas tinha sido meu primeiro amor.
E eu tinha aprendido da pior maneira que primeiros amores também acabam.
* * *
Na terceira semana de trabalho, recebi uma ligação do hospital.
— Senhora Alice? Precisamos conversar sobre a situação da sua avó.
Meu estômago afundou.
— Aconteceu alguma coisa?
— O médico quer falar com a senhora pessoalmente. Se puder vir hoje, seria melhor.
Olhei para dentro da sala. Theo desenhava. Lucas estava em uma reunião por vídeo.
Eu precisava do salário.
Mas minha avó vinha primeiro.
Sempre.
Pedi para sair mais cedo. Lucas apenas assentiu.
— Vai.
— Obrigada.
— Alice.
Parei.
— Se precisar de alguma coisa...
Ele não terminou.
Eu também não pedi.
No hospital, o médico explicou que ela precisaria de novos exames e que o tratamento teria que ser ajustado.
Mais despesas.
Mais preocupação.
Mais uma conta na lista.
Quando entrei no quarto, minha avó estava acordada.
— Está tudo bem?
Sorri.
— Claro.
— Mentira.
Sentei ao lado dela.
— O médico quer mudar algumas coisas.
Ela segurou minha mão.
— Você não precisa carregar tudo sozinha.
— Preciso, sim.
— Alice.
Ela apertou meus dedos.
— Você passou anos tentando sobreviver a coisas que ninguém deveria enfrentar sozinha.
Engoli em seco.
— Estou bem.
— Você ainda pensa nele?
Não precisei perguntar quem.
— Às vezes — admiti. — E penso no bebê também. Todos os dias.
Minha voz saiu mais baixa.
— Eu só queria saber como ele seria. Talvez tivesse os olhos do pai. Ou o meu sorriso. Eu queria ter tido a chance de descobrir.
Ficamos em silêncio.
Até que minha avó disse:
— Talvez algumas respostas ainda estejam esperando por você.
— Não diga isso.
— Por quê?
— Porque não existe resposta.
Ela não insistiu.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, uma pergunta que eu tinha enterrado começou a surgir.
Depois daqueles poucos minutos, eu nunca mais vi meu filho.
Nunca vi um corpo.
Nunca recebi uma fotografia.
Nunca me deixaram me despedir.
Só ouvi que ele havia morrido.
Por anos, aceitei isso porque precisava acreditar em alguma coisa.
Mas, naquela noite, lembrando de Theo, a dúvida apareceu.
Pequena.
Incômoda.
Perigosa.
Eu a empurrei para longe.
Não podia.
Não faria aquilo comigo.
Não de novo.
* * *
Quando voltei para a casa de Lucas, já passava das dez.
A casa estava silenciosa.
Encontrei Theo dormindo no sofá. Lucas estava sentado ao lado dele, sem paletó, a gravata solta, o celular esquecido sobre a mesa. Parecia cansado.
— Ele esperou por você — Lucas disse.
— Eu disse que voltaria.
Ele me observou por alguns segundos.
— Sua avó?
— Estável.
— Ainda bem.
Fui até Theo e ajeitei a manta sobre ele.
— Você realmente gosta dele — Lucas comentou.
— Sim.
— Ele gosta de você também.
— Crianças gostam rápido.
— Theo não.
Voltei os olhos para ele.
— Ele não confia facilmente nas pessoas.
Não respondi.
Lucas se levantou e pegou o filho no colo. O menino se mexeu, mas continuou dormindo.
Eu observei os dois.
Por algum motivo, aquela cena me atingiu.
Um pai carregando o filho.
Um filho dormindo seguro nos braços dele.
Era uma imagem simples.
Mas eu nunca tive aquilo.
Nunca pude ver o pai do meu filho segurando-o. Nunca pude ver meu filho crescer.
Desviei o olhar.
— Boa noite, Alice.
— Boa noite.
Lucas subiu as escadas.
Fiquei sozinha na sala.
Fechei os olhos e imaginei outra vida. Uma em que meu bebê tivesse sobrevivido. Uma em que eu tivesse escolhido seu nome. Uma em que Lucas estivesse ao meu lado e eu não precisasse olhar para crianças desconhecidas imaginando quem meu filho teria sido.
Abri os olhos.
Não.
Aquela vida não existia.
Eu tinha um emprego. Tinha responsabilidades. E, pela primeira vez em anos, talvez estivesse começando a construir alguma coisa novamente.
Foi o que tentei acreditar.
Até ouvir uma voz atrás de mim.
— Alice?
Virei.
Lucas estava parado no topo da escada.
— Posso te fazer uma pergunta?
Meu corpo ficou tenso.
— Pode.
Ele desceu alguns degraus. Por alguns segundos, pareceu escolher cuidadosamente as palavras.
— Na noite em que nosso filho nasceu... depois que o levaram, você chegou a vê-lo de novo?
Meu coração parou.
A pergunta atravessou quatro anos de silêncio.
— Não.
Ele desceu mais um degrau.
— Eu também não.
Eu esperava que ele tivesse visto. Que pelo menos um de nós tivesse se despedido.
— Por que está perguntando isso agora?
Lucas não respondeu de imediato.
— Porque existem algumas coisas sobre aquela noite que não fazem sentido.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— Que coisas?
Ele me encarou.
— Ainda não sei.
Silêncio.
Lucas voltou a subir as escadas. Antes de desaparecer no corredor, olhou para mim mais uma vez.
— Mas vou descobrir.
Fiquei parada no meio da sala.
Pela primeira vez em quatro anos, uma possibilidade que eu tinha medo até de pensar começou a tomar forma.
E, naquela noite, eu me permiti fazer a pergunta que nunca tive coragem de fazer:
E se meu filho estiver vivo?
Acordei antes do despertador, com o corpo dolorido e uma sensação estranha de que alguma coisa tinha mudado de lugar dentro de mim.O escritório estava cinza. A cortina entreaberta deixava passar uma faixa fina de luz do amanhecer. O paletó escorregara até a cintura de Alice, e ela dormia de lado, com a mão fechada sobre meu peito, o cabelo espalhado pelo braço do sofá.Não me mexi.Fiquei olhando.Eu tinha estado com outras mulheres nos últimos quatro anos. Nenhuma passou a noite. Nenhuma conheceu a casa. Eu tinha regras, e elas me protegiam de qualquer coisa que se parecesse com isso.Agora estava deitado num sofá de couro duro, com o braço dormente, e não queria me mover por nada neste mundo.Aquilo devia me assustar.Assustava.Mas não o suficiente para me fazer sair dali.— Você está me olhando — Alice murmurou, sem abrir os olhos.— Estou.— É estranho.— Você dormiu comigo na faculdade e nunca reclamou.— Eu tinha vinte anos. Não sabia que você olhava.— Eu sempre olhei.Ela ab
Theo dormiu cedo naquela noite, cansado da festa, com o cartaz da família preso na parede por uma fita adesiva torta.— Você vai dormir aqui hoje? — ele perguntou, já de olhos fechados.— Vou.— No quarto de hóspedes?— No quarto de hóspedes.— Tá bom.Fiquei sentada na beira da cama até a respiração dele ficar funda e regular. Depois apaguei o abajur e saí sem fazer barulho.No corredor, parei.A casa estava em silêncio, mas não era um silêncio vazio. Havia uma fresta de luz dourada sob a porta do escritório, no fim do corredor.Eu tinha passado a tarde inteira repetindo a pergunta que Lucas me fez dois dias antes. E quando não tiver ninguém?Agora eu sabia a resposta.Esse era o problema.Caminhei até a porta, bati uma vez e abri sem esperar.Lucas estava de pé diante da janela, sem paletó, o colarinho aberto, um copo de uísque na mão que ele não tinha bebido. Virou quando me ouviu e ficou imóvel.— Theo?— Dormindo.— Aconteceu alguma coisa?— Não tem ninguém — falei.Ele demorou a
Remarquei a reunião do conselho três vezes para estar naquela escola na sexta-feira.Minha assistente me olhou como se eu tivesse pedido para cancelar o Natal.— O senhor nunca remarcou nada por causa do Theo.— Então está na hora.Não expliquei mais.A escola ficava num bairro arborizado, com um pátio cheio de bandeirinhas coloridas e mesas dobráveis. Pais de terno, mães de salto, babás de uniforme, avós de bolsa grande. Theo nos esperava na entrada, com uma camiseta de dinossauro por cima do uniforme, segurando um cartaz com a palavra FAMÍLIA escrita em letras tortas.— Vocês demoraram!— Cheguei na hora — falei.— Dois minutos atrasado — Alice disse ao meu lado, e sorriu.
Não dormi.Fiquei deitada de olhos abertos até o teto ficar cinza, repassando os mesmos dez segundos. As mãos dele no meu cabelo. O balcão frio nas costas. A voz baixa pedindo que eu mandasse parar.Eu mandei.E ele parou.Era isso que me assustava. Não o que eu tinha sentido, mas a facilidade com que ele obedeceu. Eu passei quatro anos aprendendo a desconfiar de quem toma o que quer. Não sabia o que fazer com um homem que se afasta ao primeiro sinal.Levantei às seis. Tomei banho, prendi o cabelo, vesti a roupa mais sem graça que tinha na bolsa. Uma armadura de algodão cinza.Desci repetindo a mesma frase: você é a babá, você é a babá, você é a babá.Lucas já estava na cozinha.Camisa branca abotoada até o colarinho, paletó, gravata no lugar. O rosto, uma máscara de negócios. Do homem que me beijou contra um balcão restava apenas o perfume.— Bom dia, Alice.— Bom dia.— Há café.— Obrigada.Ele voltou ao tablet. Nem um olhar além do necessário.Era exatamente o que eu tinha pedido.
O jantar com os investidores durou três horas a mais do que deveria.Sorri nos momentos certos. Apertei mãos. Assinei um memorando que não li até o fim, algo que eu nunca fazia. Quando o último deles me agradeceu pela “visão”, eu já tinha olhado o relógio pela quarta vez.Eu não estava pensando em fusões.Pensava numa melodia sem letra. Numa mulher encostada na cabeceira de uma cama, embalando meu filho. Numa manhã em que fiquei parado na porta da cozinha só para vê-la rir de uma panqueca queimada.— Tudo bem, Voss? — um deles perguntou.— Tudo.Mentira.Eu estava perdendo o controle da única coisa que sempre soube administrar: eu mesmo.Cheguei em casa à meia-noite e quarenta. O motorista abriu a porta do carro e eu entrei no hall sem acender a luz.Subi primeiro até o quarto de Theo. Ele dormia atravessado na cama, com o dinossauro de pelúcia debaixo do queixo. No criado-mudo havia um bilhete em letra de criança, corrigido por uma letra adulta: Papai, a Alice deu boa noite por você.
Acordei com um cobertor que eu não tinha puxado.Foi a primeira coisa que percebi, antes mesmo de abrir os olhos: o peso macio sobre os ombros, a lã contra o queixo. Demorei alguns segundos para lembrar onde estava. O quarto de hóspedes. A chuva, reduzida a um chuvisco preguiçoso na janela. O lado da cama onde Theo tinha dormido, vazio.Eu não me lembrava de ter dormido.Sentei devagar e olhei para o cobertor. Era escuro, de tecido caro, com cheiro de cedro e de uma colônia que eu reconheceria em qualquer lugar.Não precisei de muito para entender quem o tinha trazido.Desci a escada descalça, com o cabelo preso de qualquer jeito. Do hall já dava para ouvir: risadas de criança, o chiado de uma frigideira e a voz de Lucas, baixa e tensa.— Não é para virar ainda.— Mas está grudando!— É assim mesmo.— Papai, está queimando.Parei na porta da cozinha.Lucas Voss, CEO de uma das maiores empresas do país, estava de camisa social amarrotada, mangas dobradas até os cotovelos, brigando com







