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CAPÍTULO 08

last update publish date: 2021-09-09 20:18:21

      Retrospectiva.

      Almoçaram no restaurante “Ridder”, que era luxuoso e caro, com direito a ar-condicionado e som ambiente.

      Nunca havia entrado numa BMW. Adorou o cheiro do veículo! O painel! O conforto! Chegou à conclusão de que o tal de Paulo tinha muito dinheiro. Era um magnata, um sujeito da alta sociedade.

      Comeu sequência de frutos do mar → camarão, lula, mexilhão, lagosta, berbigão etc. Com vinho tinto. Delícia! Nem lembrava mais qual foi a última vez em que comeu camarão e lagosta ou tomou vinho. E esse era dos caros.

      Gostou.

      Depois do almoço → por volta da uma da tarde → seguiram para a “Anhanguera”, uma das praias mais chiques da cidade. Nunca havia estado ali. Entraram num bar de primeira classe e ocuparam uma das mesas do andar de cima → discreta →, com vista para o mar.

      Pediu cerveja; o tal de Paulo, mais vinho.

      Recebeu → das mãos do homem → uma foto colorida, tamanho, 12x15cm, que mostrava o rosto de um homem loiro, de olhos azuis, que usava um bigode fino, no estilo dos mexicanos.

      → O nome dele é Bruno Handel → o tal de Paulo começou →. É empresário do ramo de material de construção. Na verdade, é meu sócio. Temos doze lojas, espalhadas por seis cidades.

      → Sócio? → estendeu o braço, para devolver a foto.

      → Fique com a foto. Quando tiver certeza de que não esquecerá esse rosto, queime-a.

      → Peraí, meu. Tu tá me zoando? Não quero essa porcaria!

      Entregou a foto. O homem suspirou e a guardou no bolso do terno.

      → Por que quer matar o cara?

      → Ódio. Muito ódio. Temos brigado muito, nos últimos três anos. Brigamos por qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo! Brigamos, por exemplo, por causa do horário do expediente ou pela maneira como dispomos o material, nos pátios das lojas. Numa dessas brigas, Bruno me chamou de hipócrita. Então, decidi matá-lo.

      → Hipócrita? Quer matar teu sócio só porque ele te chamou de hipócrita? Isso não é coisa de “gay”?

      O homem riu, baixinho.

      → Você tem razão. Talvez não seja por ele ter me chamado de hipócrita. No fundo, estou de saco cheio de ver a cara dele. Além disso, quero ter o controle total da empresa, entende?

      → Ah, bom! Esse já é um motivo razoável. Ganância.  Tu não passa de um crápula, hein, mano? → riu, como se tivesse contado uma piada →. Quer se dar bem sem fazer força. Mas deixa pra lá. Não esquenta comigo. Agora fale do plano, antes que eu fique bêbado.

      O sujeito também riu, tomou uma dose de vinho e começou: 

      → Bruno, apesar de casado, tem uma amante. É uma morena linda e sensual. Você ficará impressionado com ela. Infelizmente não tenho uma foto dela aqui, para mostrar. Os dois se encontram todas as terças e quintas, à tarde, para fazer sexo. E, ocasionalmente, aos sábados, quando Bruno diz para a esposa que está viajando. Bruno está louco por essa mulher. Louco! Em decorrência disso, nunca falta aos encontros. Eles se conheceram há seis meses e, pelo que tudo indica, o negócio vai longe. Bruno, inclusive, é quem banca o aluguel da casa onde a mulher mora, na cidade de “FT”. Com base nessas informações, o plano que tenho se resume no seguinte: você só terá que entrar na casa e matar os dois. Depois, é fugir, receber o pagamento e curtir sua vida. Tudo muito simples e objetivo.

      → Falar é fácil, meu. Na prática, não é assim.

      → Mas com o plano que bolei você verá que será moleza. Bastará seguir minhas orientações.

      → Prossiga.

      → Primeiro, → retirou uma folha de papel do bolso e começou a ler → comprarei algumas coisinhas para você. Vejamos: mochila de plástico, com as cores dos uniformes dos fuzileiros navais; luvas de látex; pistola com silenciador; muitas balas; terno azul-marinho com gravata alaranjada; maleta preta, tipo 007; dois lenços brancos; peruca loira; óculos escuros; bigode postiço e roupas comuns → guardou a folha de papel e continuou →: segundo, você terá que cortar esse cabelo, no estilo militar. É isso mesmo que ouviu. Cortar o cabelo. Para todos os efeitos, durante a fuga, você será um reles fuzileiro naval, voltando das férias. Segundo, terá que roubar um carro, algumas horas antes do ataque. Acredito que não será uma tarefa difícil, para um cara experiente como você. Uma vez concluída a tarefa, colocará a mochila, com as roupas comuns, no porta-malas do carro. Guardará a maleta, com a pistola e as luvas, no banco do lado, e se deslocará, na parte da tarde, até a casa da morena, disfarçado de funcionário da “Mindows”. Para isso, terá que usar o terno, mais a gravata, claro, com a maleta na mão direita, e mudar sua aparência física, com a peruca, os óculos escuros e o bigode postiço.

      → Terno? Nunca usei essa porra na vida!

      → Para que o plano dê certo você será obrigado a usar. Deverá, sim, usar o terno e a maleta. Somente com o terno e a maleta você terá um aspecto austero e inofensivo. Conseguirá se transformar num sério e dedicado funcionário da “Mindows”. Será um funcionário loiro, de bigode e óculos escuros. Causará uma boa impressão, uma vez que ela é fascinada por loiros de bigode. Captou? → o homem soltou um riso baixo; depois ficou sério →. Continuando, não se esqueça de cobrir a mão livre com o lenço, antes de abrir os portões ou apertar a campainha. Não deixe suas impressões digitais na casa. Bem, você apertará a campainha da residência da morena e iniciará sua história. E o que dirá? Depois de proferir um educado “boa tarde!”, dirá que deseja conversar com o senhor Bruno, para que assine alguns papéis. Acrescentará que foi o próprio Bruno que ligou para seu chefe, dando o endereço. A morena ficará surpresa, zangada até, mas, ao ver suas roupas, a maleta e a história do telefonema, acreditará em cada palavra que proferir. Em seguida, uma vez ciente de que você é mesmo um funcionário da “Mindows”, permitirá que entre na casa.

      → E se ela não me deixar entrar?

      → Isso não acontecerá, garanto. Para evitar tal coisa, você conduzirá, no bolso do terno, um crachá falso, elaborado por mim, com seus dados vinculados à empresa. Crachá que só deverá mostrar se ela cobrar. Além do mais, para dobrar os meios, colocarei, na maleta, algumas folhas de papel, com um texto fictício e o timbre da “Mindows”. Papéis que você só mostrará em caso de emergência, para o caso dela ficar desconfiada → o sujeito tomou uma dose do vinho →. Obviamente que não ficará desconfiada. Porém, se, numa hipótese patética, acontecer dela querer dificultar o negócio, você terá que seguir seus instintos de matador. Terá que empurrá-la para dentro da casa e estrangulá-la com as próprias mãos. Depois, sacará a pistola e matará o Bruno que, com certeza, estará num dos quartos, alheio aos acontecimentos. Mas essa é uma ação perigosa, pois, se você demorar demais com a mulher ou fazer muito barulho, dará tempo ao Bruno de reagir. Por isso é importante que você seja convincente, que tenha um bom papo, que incorpore mesmo a personagem.

      → Já sei. Tudo dependerá da minha lábia com a mina. Terei que ser um bom ator, é isso?

      → Exatamente.

      → Você citou uma tal de Mi... Mi...

      → A “Mindows” é uma das empresas que fornece material para a nossa. Bruno é acostumado a fazer negócios com eles, mais do que eu. Esse nome é apenas para convencer a mulher. Mas já posso até imaginar a cena. Quando a morena contar para o Bruno que um funcionário da “Mindows” veio visitá-lo, a pedido dele mesmo, para a assinatura de papéis, o cara, que é do tipo pavio curto, ficará muito zangado. Virará uma fera! Negará, discutirá com a morena e sairá como um foguete do quarto, querendo esclarecer de uma vez por todas essa história. A essa altura você estará na sala, com a pistola na mão, só esperando o retorno dos dois. Não esqueça do nome: “Mindows”.

      → “Mindows”. Não esquecerei. Quer dizer, se aceitar o trabalho. Ainda estou avaliando teu papo.

      → Depois de concluído o trabalho, saia da casa sem pressa, para não criar suspeitas. Não corra. Não converse com ninguém. Não pare em nenhum lugar. Apenas entre no carro e vá embora. Ah, sim! E dirija com cuidado, para não incorrer em multas ou despertar a atenção de qualquer policial. O próximo passo será abandonar o veículo roubado e se livrar do disfarce. Tenho um lugar perfeito para isso. Uma área de mato que é discreta e erma, localizada na cidade de “PQ”. Acredito que você conseguirá sair da cidade de “FT” para a cidade de “PQ” sem problemas. Uma vez com o carro dentro do mato, tire o terno e o disfarce e coloque as roupas comuns: calça jeans, camisa meia-manga e tênis. Coloque o material, mais a maleta, na mochila e esta, nas costas. Não esqueça de ... → parou de falar, quando o garçom trouxe a terceira cerveja; recomeçou, quando o referido saiu →: Não esqueça de tirar suas impressões digitais do veículo. Ao sair do mato, você não será mais um funcionário da “Mindows” e, sim, um anônimo e insignificante fuzileiro naval, caminhando numa estrada deserta. Há um ponto de ônibus nas proximidades. Você só terá que percorrer uns oitocentos metros, a pé, até o referido ponto. Será a parte mais chata da missão, devido ao peso da mochila, mas você dará conta do recado. Siga até a rodoviária e pegue um ônibus para a cidade de “NH”. Dê um nome falso para a vendedora de bilhetes. Uma vez na cidade de “NH”, pegue um táxi até um posto de combustíveis da cidade de “KL”. Em seguida, isso provavelmente já tarde da noite, pegue outro táxi até a rodoviária. Se possível, minta para o taxista, dizendo que é milico da Marinha e que está viajando para o sudeste do país. Isso pode ajudar. Finalmente, pegue um terceiro táxi até um bairro próximo do seu. Depois, é superar o cansaço e realizar outra caminhada até a casa que, a essa altura, já terei comprado para você. Missão cumprida. Agindo dessa forma, ninguém o pegará.

      O homem fez uma pausa. Tomou mais uma dose do vinho.

      → Terminou?

      → Sim. Quase. Só mais alguns detalhes. É o seguinte: caso aceite o trabalho, você será obrigado a realizar dois reconhecimentos: um na área onde a morena reside e o outro no local de mato onde deverá abandonar o carro roubado. Só assim terá uma ideia mais nítida de como funcionará o negócio. Para completar, treine tiro com a pistola, para não errar os alvos. Treine também dicção, para não proferir gírias ou palavrões diante da morena. Nada de palavrões. Vista o terno pelo menos umas três vezes, para se acostumar. Coloque a peruca, os óculos e o bigode. Sinta a força do disfarce em seu corpo! Quando do roubo do carro, escolha um que não possua trava elétrica nem alarme. Ah, sim! Eu quase esquecia um detalhe importante: Bruno, provavelmente por inveja, também possui uma BMW. O desgraçado comprou uma só para me irritar! A diferença é que a minha é preta e...

      → Lá está ela, no estacionamento. Um carro bom pra caralho!

      → Concordo. É uma excelente máquina. Prosseguindo, a diferença é que o idiota do Bruno tem uma BMW azul-búzios. Portanto, quando você se aproximar da residência da morena, dê uma olhada na garagem. A BMW vai estar lá, claro. Tem que estar! Porém, se, por um azar qualquer, a BMW não estiver naquela garagem, afaste-se imediatamente da casa. Entendeu o que eu disse?

      → Sim. Se a BMW não estiver lá, terei que ir embora.

      → Isso mesmo.

      → E se houver outro carro?

      → Pior ainda. Afaste-se da casa, sem pensar duas vezes → fez uma pausa para tomar o vinho →. Depois, é marcar o ataque para outro dia. Pronto. Esse é o plano. Como você pôde perceber, pensei em todos os detalhes. Não deixei absolutamente nada de lado. Agora é sua vez. E aí? O que tem para me dizer?

      → Tenho algumas dúvidas. E se, por acaso, houver mais de duas pessoas naquela casa?

      → Não haverá. Tenho certeza disso. Tenho certeza por um motivo simples: vigiei a rotina dos dois por um mês. A morena mora só e não está traindo o Bruno. Além disso, ela nunca recebe visitas.

      → Ela trabalha?

      → Trabalhava como garçonete, numa lanchonete, mas saiu, a pedido de Bruno. O imbecil passou a fornecer uma mesada para ela, para compensar. Uma generosa mesada, diga-se de passagem. Ela só frequenta academia, duas vezes por semana e pela parte da tarde, nos dias úteis.

      → Academia. Nossa! Deve ser uma gata gostosa. Outra coisa: e se, ao invés da mulher, for o tal de Bruno que abrir a porta?

      → Ele não fará isso. É um homem casado e está na casa da amante. Com certeza não desejará ser visto por ninguém. Acredito, inclusive, que, caso esteja na sala, quando você tocar a campainha, rapidamente se esconderá no quarto, como um coelho assustado. É como diz o ditado: quem tem cu tem medo. Além disso, o sujeito não quer se separar da esposa, que é tão rica como ele. Com relação a esse ponto, fique tranquilo.

      → E se, no momento em que eu estiver prestes a atirar nos dois, alguém apertar a campainha?        

      → Você tem a imaginação fértil → o homem riu →, mas sua pergunta é pertinente. Isso não vai acontecer. A probabilidade é mínima, quase zero. Todavia, caso aconteça, não há outra solução: mate a pessoa, seja ela quem for.

      Ao ouvir as palavras do tal de Paulo, não soube mais o que dizer. Tentou buscar, na mente, outras informações, mas não conseguiu.

      → Mais alguma pergunta? → o homem quis saber.

      Refletiu por alguns segundos. Seus neurônios fervilhavam! Casa mobiliada! Carro! Dinheiro na conta! A adrenalina prazerosa de voltar a apertar o gatilho! De voltar a matar! A prisão! A maldita prisão!

      Suspirou e disse:

      → Realmente tenho que admitir que esse teu plano é bom. Porém, ainda estou em dúvida se aceito ou não. Vou pensar e amanhã à noite te darei uma resposta. Pode ser?

      → Tudo bem. Amanhã à noite te farei nova visita, então.

      Saíram do restaurante quando faltavam dez minutos para as três horas da tarde.

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Comments (1)
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James Nungo
......... Uau, este capítulo foi nota 10. Amei imensamente. Parabéns caro autor. Já estou dentro da estória.
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