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Capítulo 8 - Um pedido inusitado

Author: A escritora
last update publish date: 2025-07-13 10:22:29

Umberto parou diante da cerca baixa de madeira, com o céu escurecendo ao fundo e o som leve dos grilos preenchendo o silêncio.

Ele pigarreou discretamente, como se preparasse a garganta para algo que não costumava dizer. Abriu a boca, tentou uma palavra… e então pigarreou de novo, mais uma vez hesitante.

Constantine virou o rosto em sua direção, desconfiada, os olhos semicerrados pela dúvida.

Foi então que ele a encarou. Os olhos fixos nos dela, sem desviar. A voz saiu grave, firme, mas com uma nota difícil de definir — talvez constrangimento, talvez sinceridade.

— Desejo me desculpar pelo que ocorreu na Zanobi Corporation durante esta semana — disse, direto. — Eu sei que estava no meu direito…, mas não devia ter agido daquela forma contigo.

O silêncio que se seguiu foi denso. Um silêncio diferente de todos os que já haviam pairado entre eles até ali.

Ela não soube o que fazer, nem o que responder.

Aquela fala a atingiu como uma pedrada lenta: inesperada, precisa, e cheia de significados ocultos. Ela nunca imaginaria ouvir uma desculpa daquele homem, ainda mais ali, entre o portão do quintal e o banheiro externo da casa dos seus tios.

O vento leve tocou os cabelos trançados dela, enquanto seus olhos permaneciam presos aos dele, tentando entender… por quê agora?

Por um instante, Constantine quis rir, chorar, gritar ou simplesmente continuar andando. Mas tudo o que conseguiu foi permanecer parada, sustentando aquele olhar, como quem espera o outro dizer mais… ou se afastar.

Diante do pedido de desculpas do Senhor Zanobi, ela simplesmente o encarou, imóvel. Nenhuma palavra. Nenhum gesto. Nada que sugerisse aceitação ou recusa — apenas silêncio.

E talvez o que mais incomodasse fosse isso: o vazio da resposta.

Mas Umberto não insistiu. Apenas permaneceu ali, quieto, respeitando a ausência dela com a mesma frieza contida que usava para comandar salas cheias de executivos.

Sem dizer nada, Constantine se virou e seguiu até a porta do banheiro externo. Ligou a luz, acionou o chuveiro e girou a chave, deixando que a água começasse a aquecer. O vapor começou a escapar devagar, subindo pelas frestas da janela antiga.

Então, retornou à porta, ainda sem encará-lo diretamente, e disse com a voz firme, porém controlada:

— O senhor pode entrar.

Umberto assentiu com um leve movimento de cabeça.

Ela deu um passo para o lado, abrindo caminho. Ele passou por ela em silêncio, e a porta se fechou suavemente atrás dele.

Do lado de fora, Constantine ficou parada por um momento, ouvindo o som da água cair, tentando reorganizar o turbilhão que se formava por dentro — como se as palavras que ele dissera ainda estivessem reverberando no ar, mesmo depois de já terem passado.

Após um longo banho, Umberto saiu do banheiro sentindo-se revigorado. A água quente parecia ter dissolvido parte do peso que ele carregava nos ombros — ao menos por ora. Havia algo de reconfortante naquela simplicidade que o cercava. E ele, que não estava acostumado com rotinas tão rústicas, começava, de alguma forma estranha, a se sentir... à vontade.

Mas a sensação de tranquilidade logo foi interrompida por uma cena que, sem querer, se tornaria inesquecível.

Ao cruzar a porta do banheiro, surgiu vestindo o pijama emprestado por Tommaso. A parte de cima, folgada e puída nos ombros, até passava desapercebida. Mas a calça... ah, a calça!

Ela terminava bem acima dos tornozelos — para ser mais exato, um pouco abaixo dos joelhos. O elástico esticado fazia com que o tecido subisse ainda mais, revelando parte das pernas e denunciando, sem piedade, que aquele pijama não fora feito para alguém de sua estatura.

Constantine estava do outro lado do pátio, voltando distraída para dentro da casa quando deu de cara com a cena.

Ela parou. Piscou. Olhou de novo.

E então, sem conseguir se conter, soltou uma gargalhada alta e espontânea, como não fazia há tempos.

— Desculpa... — disse entre risos, cobrindo a boca com a mão. — Mas essa cena... é melhor do que qualquer vingança que eu pudesse planejar.

Umberto olhou para ela com as sobrancelhas erguidas, mas um leve sorriso escapou no canto dos lábios. Não era exatamente o tipo de imagem que queria passar — o poderoso CEO em um pijama três números menor —, mas o riso dela, genuíno e desarmado, teve um efeito inesperado. Ele não se sentiu ofendido. Pelo contrário... sentiu-se humano.

— Eu acho que Tommaso tem um senso de proporção... um tanto otimista — comentou ele, com um tom seco, mas irônico.

Constantine riu ainda mais.

— Ou talvez ele tenha te achado mais franzino do que você realmente é.

Por um instante, ambos sorriram. E ali, sob o céu estrelado da fazenda, entre o pijama apertado e a risada inesperada, algo diferente pairou no ar. Uma trégua. Um raro ponto de encontro entre o riso e o rancor.

Ainda rindo, Constantine tentava recuperar o fôlego, secando discretamente uma lágrima no canto do olho. O pijama apertado, a expressão séria de Umberto contrastando com o ridículo da roupa — tudo aquilo era simplesmente bom demais para ignorar.

Mas, de repente, o riso foi se dissipando.

Umberto continuava ali, parado, olhando para ela. Não com impaciência ou vergonha, mas com algo mais… contido, pensativo. E então, em passos lentos, deu dois passos à frente, encurtando a distância entre eles.

Constantine percebeu.

A mudança no ar era quase imperceptível, mas real. O tom leve se silenciou, dando lugar a algo mais íntimo — mais humano.

Ele parou diante dela, tão próximo que ela pôde sentir o calor que vinha de sua pele recém-saída do banho, o perfume discreto do sabonete da casa e o som suave da respiração dele.

Os olhos dele se fixaram nos dela, sem pressa, sem fuga.

E então, com uma voz baixa, rouca, que soava quase como um pedido guardado por muito tempo, ele repetiu:

— Você me desculpa?

O riso já não cabia ali.

Constantine sentiu o coração acelerar um pouco, não por afeto, mas pelo inesperado da cena. Por aquele homem — que até poucos dias atrás parecia incapaz de reconhecer um erro — agora estar ali, diante dela, vulnerável, despido de todo o poder, com a barra do pijama no meio da canela e os olhos cravados nos seus.

Ela não respondeu de imediato.

Ficou ali, olhando de volta, entre surpresa, desconfiança e um resquício de raiva que ainda lhe queimava o fundo da garganta. Mas, ao mesmo tempo… havia algo desarmante na sinceridade contida dele.

Talvez, naquela noite, sob aquele céu, a resposta ainda não estivesse pronta.

Assim, a noite passou — tranquila e leve — na casa de Tommaso e Ludovica.

Lá dentro, o silêncio foi tomando conta dos cômodos, preenchido apenas pelos sons suaves do campo: o vento passando pelas árvores, o canto distante de um grilo, e, é claro, os roncos ritmados que vinham da sala.

No quarto de cima, Constantine revirava-se vez ou outra sob os lençóis, e entre um pensamento e outro, não pôde deixar de sorrir ao ouvir o eco grave dos roncos do andar inferior.

— Parece que o sofá era mesmo confortável… pensou, fechando os olhos.

Ludovica dormia profundamente ao lado de Tommaso, que ressonava baixinho, vencido pelo cansaço e pela paz do dever cumprido. Haviam recebido bem, alimentado bem e acolhido ainda melhor.

E ali, naquela casa simples, cercada por lavouras e silêncios antigos, o Senhor Zanobi — poderoso, misterioso, enigmático — dormia como uma criança satisfeita, deitado em um sofá que rangia discretamente cada vez que ele se virava, embrulhado no pijama de pernas curtas e nos aromas de uma fazenda que, por uma noite, o fez esquecer de tudo.

Nem Constantine sabia explicar o que sentia. Ainda não era perdão, ainda não era aceitação — mas também não era mais apenas raiva. Era… confusão. Curiosidade. E um pressentimento de que aquela história, longe de estar terminada, mal havia começado.

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