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O cheiro de gordura queimada e café parecia ter impregnado não só no meu avental, mas até nos meus poros. Eu encarava o relógio na parede do Diner's, contando cada minuto daquele turno no centro da cidade. Aquele era só mais um dos três empregos temporários que eu acumulava, equilibrando horas sem dormir e pés doloridos, tudo por um único objetivo: a nossa conta conjunta. O casamento com o Max exigia dinheiro, e eu estava disposta a dar o meu sangue para que cada detalhe da cerimônia saísse como nos meus sonhos.
Equilibrei o prato pesado de cerâmica com um hambúrguer e batatas fritas, e caminhei até a mesa quatro. — Aqui está. Bom apetite. — forcei o meu melhor sorriso profissional para o cliente, que mal olhou na minha cara. Ao me virar de volta para o balcão, senti o celular vibrar no bolso traseiro do meu jeans desbotado. O visor acendeu. Um número desconhecido, com DDD da capital. Meu coração deu um pulo dentro do peito. Pensei por um segundo que poderia ser o Max confirmando o nosso jantar, mas a esperança de ser algo maior fez minhas mãos suarem. Desviei do balcão de fórmica riscada, passei pela porta vai-vem da cozinha e fui para o corredor dos fundos, perto dos recipientes de lixo, onde o barulho da fritadeira e da TV pendurada não alcançavam. — Alô? Sarah falando. — Boa tarde, senhorita Wash. Aqui é do departamento de Recursos Humanos da Global Corp. Estou ligando para informar que foi selecionada na última etapa do nosso processo seletivo. A vaga de secretária da diretoria é sua. Ainda tem interesse? Minha respiração travou na garganta. Fiquei em choque por um segundo, ouvindo apenas o zumbido do exaustor ao fundo. — Eu... eu passei? Meu Deus, sério? — Sim. — Nossa... É claro que ainda tenho interesse. — Parabéns. Precisamos que compareça na próxima segunda-feira, às oito da manhã, portando seus documentos para a assinatura do contrato e integração. Seja bem-vinda. — Muito obrigada. Até segunda. Quando a ligação encerrou, desabei contra a parede descascada do corredor. Soltei um grito abafado com as mãos na boca, rindo sozinha feito uma louca. Era real. O salário da Global Corp era três vezes maior do que a soma de tudo o que eu ganhava me matando em sub empregos. Pela primeira vez em anos, senti o peso da incerteza sair dos meus ombros. Nós finalmente teríamos estabilidade. Poderíamos dar a entrada no nosso apartamento, pagar o salão de festas sem nos afundarmos em dívidas, construir uma vida de verdade. Saí dali voando. Cumpri os últimos vinte minutos de turno no automático, entreguei o avental para o gerente e saí para a rua. O ar frio da tarde bateu no meu rosto, mas por dentro eu estava tão empolgada que não me importeu com nada. Eu não podia esperar até a noite. Precisava olhar nos olhos do Max e ver o alívio no rosto dele quando eu dissesse que nossa vida ia mudar. Parei em uma loja de bebidas fina a duas quadras dali. Gastei minhas últimas notas trocadas em uma garrafa de champanhe com um laço dourado no gargalo. Agarrei a garrafa fria, acenei para um táxi na avenida movimentada e dei o endereço da agência de contabilidade onde o Max trabalhava. O trânsito estava travado, mas nem a chuva fina que começava a sujar o para-brisa do carro tirou o meu entusiasmo. Paguei o taxista, desci quase correndo e passei pela portaria do prédio comercial. O porteiro já me conhecia e apenas acenou. Subi pelo elevador social até o quinto andar, sentindo o estômago dar voltas de ansiedade. O andar da agência já estava silencioso, com a maioria das mesas vazias por conta do fim do expediente. A luz do corredor principal estava meia-vida. Caminhei a passos largos em direção à sala dele, no fundo do corredor de divisorias de vidro. À medida que me aproximava, ouvi o som de risadas baixas vindo de lá de dentro. Uma risada feminina, manhosa, seguida pelo tom grave e abafado do Max. Parei a dois passos da porta. Ela estava apenas encostada, deixando uma fresta de três dedos aberta. A luz interna projetava uma sombra no piso de carpete cinza. — Max, para... se alguém vir... — a voz de mulher murmurou, entrecortada por um arfar. — Não tem ninguém aqui, gata. Todo mundo já foi embora — a voz do meu noivo respondeu, macia, exatamente no mesmo tom que ele usava comigo. A garrafa de champanhe quase escorregou dos meus dedos congelados. Meu sangue gelou instantaneamente, e o ar fugiu dos meus pulmões como se eu tivesse levado um soco no estômago. Eu não pensei. Minha mão simplesmente empurrou a porta de madeira pesada, fazendo-a bater com força contra a parede. A cena se escancarou na minha frente. Max estava encostado na borda da mesa de mdf, com a gravata frouxa e a camisa entreaberta. Uma mulher loira, usando uma saia justa de escritório, estava sentada sobre a mesa, com as pernas entrelaçadas na cintura dele e as mãos presas no seu cabelo. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. A mulher deu um pulo para trás, ajeitando a saia às pressas, o rosto vermelho, com pavor. Max congelou. Os olhos dele se arregalaram ao me ver ali, de pé na porta, segurando uma garrafa de champanhe como se fosse uma arma. — Que merda é essa? — a minha voz saiu rouca, quase irreconhecível para mim mesma. Max piscou algumas vezes, tentando recompor a postura. O choque inicial no rosto dele rapidamente deu lugar a uma expressão de irritação. Ele nem sequer tentou se afastar totalmente da mesa ou pedir desculpas. — Sarah? O que você está fazendo aqui? — ele perguntou, a voz alterada, tentando inverter o jogo como se a errada fosse eu por estar ali. Soltei uma risada seca, sentindo uma queimação amarga subir pela minha garganta. — O que eu estou fazendo aqui? Sério, Max? Essa é a sua pergunta? Eu vim comemorar uma notícia, mas pelo visto você já estava comemorando outra coisa, sem mim. A mulher ajeitou a bolsa no ombro, sem ter coragem de me encarar, e passou raspando por mim na porta. — Com licença... — ela murmurou e praticamente correu pelo corredor. Ficamos só nós dois. O silêncio da sala parecia sufocar. Max passou a mão pelo rosto, soltando um suspiro pesado, demonstrando mais cansaço do que qualquer traço de arrependimento. — Quem é ela, Max? Há quanto tempo você tá me fazendo de idiota? — minhas mãos tremiam tanto que precisei segurar a garrafa com as duas mãos. — Sarah, não começa com uma cena agora. Você chega invadindo meu local de trabalho... — Eu peguei você com a mão na bunda de outra mulher na sua mesa! — gritei, e minha voz ecoou pelo andar vazio. — E você tá preocupado com a cena? Eu me matei de trabalhar hoje, Max! Passei os últimos dois anos me matando em dois, três empregos para a gente juntar dinheiro para o nosso casamento! E você faz isso comigo? Max ergueu as mãos, impaciente. Ele deu um passo à frente, mas travou ao ver minha expressão. — Quer saber? Já deu, Sarah. Já estava na hora de você cair na real de uma vez por todas — ele disse, com a voz fria, desprovida de qualquer afeto. Aquelas palavras bateram em mim como um balde de água gelada. — Cair na real? O que você quer dizer com isso? Ele deu uma risada irônica, balançando a cabeça e cruzando os braços. — Você se mudou para o meu apartamento há dois anos. Tudo aconteceu rápido demais, você foi atropelando as coisas e eu nem tive tempo de acompanhar. Eu nunca quis me casar, Sarah. Nunca esteve nos meus planos me amarrar agora! Mas você ficou me pressionando, falando de festa, de data, de terno, até me convenceu a ficar noivo só para me fazer calar a boca! Senti o chão sumir sob os meus pés. As lágrimas que eu estava segurando finalmente transbordaram, queimando minhas bochechas. Cada palavra dele destruía as memórias dos nossos últimos dois anos. — Convenci? — minha voz falhou. — Você tá dizendo que eu te forcei a me pedir em casamento? A morar comigo? Max, você olhava nos meus olhos e dizia que me amava! Você fez planos comigo, planos para o casamento. — Eu fiz o que era mais fácil para não ter briga! — ele esbravejou, dando um passo em minha direção. — Você vive num conto de fadas, Sarah! Acha que a vida é perfeita, que a gente tem que seguir um roteirinho desses livros de romance que você lê. Você sufoca! — Você algum dia me amou? — perguntei, a voz reduzida a um sussurro quebrado. Eu precisava saber. Precisava olhar na cara dele e entender se toda a minha vida tinha sido uma mentira. Max desviou o olhar para a janela, onde a chuva agora batia com força contra o vidro. Ele demorou longos segundos para responder. Quando olhou de volta para mim, não havia nada em seus olhos além de distância. — Eu não sei te responder isso, Sarah. Porque, sinceramente? No momento, a única coisa que eu sinto quando olho para você é que eu tô sufocado. A resposta veio limpa e cortante. Não sobrou nada. Nenhum argumento, nenhuma briga, nenhum pedido de explicação valeria a pena depois daquilo. O homem que estava na minha frente se transformou em um completo estranho. Dei dois passos para trás, saindo da sala dele. Minha visão estava embaçada pelas lágrimas, mas mantive a cabeça erguida o máximo que consegui. — Obrigada pela honestidade atrasada, Max — disse, com a voz embargada. — Você não precisa mais se sentir sufocado. Virei as costas e caminhei pelo corredor longo e frio. Não olhei para trás, mesmo ouvindo ele chamar meu nome uma única vez, sem nenhum entusiasmo. Passei pela portaria, saí para a tempestade que agora desabava sobre a cidade e caminhei pela calçada molhada. A água fria encharcou minhas roupas e meu cabelo em poucos segundos, misturando-se com as lágrimas no meu rosto. Mas eu nem me importei.A presença de Oliver no acostamento da avenida congelou o tempo. Ele caminhou na nossa direção com passos firmes. Cada passada do seu sapato de couro contra o chão, fazia com que qualquer um notasse sua aura autoritária. Max soltou meu braço imediatamente, dando um passo involuntário para trás, mas tentando se recompor logo em seguida. A diferença entre os dois era brutal: Max, com o casaco desalinhado e a expressão descontrolada; Oliver, totalmente controlado em seu terno sob medida, exalando poder. — Quem é você? — Max peitou, inflamando o peito numa tentativa desesperada de parecer ameaçador, embora sua voz tenha falhado no final. — Isso é um assunto particular entre mim e a minha noiva. Não se mete! — Ex-noiva — corrigi imediatamente, dando dois passos para trás e ficando mais próxima de Oliver. O aroma amadeirado do seu perfume me envolveu, um contraste absurdo com o caos daquela calçada. Oliver nem se deu ao trabalho de olhar para Max no primeiro segundo. Seus olhos c
A segunda-feira começou com a chuva fina batendo contra os enormes painéis de vidro da Global Corp. O café da manhã com Gia tinha sido rápido, e a sensação de ter bloqueado o número do Max no fim de semana ainda me dava uma onda estranha de leveza, com uma pontinha de ansiedade. Ele tentara me ligar de outro número no domingo à noite, mas recusei sem hesitar. Eu não voltaria para aquele buraco. Cheguei à minha mesa às sete e quarenta. Ajustei a agenda, chequei as confirmações das reuniões e organizei as pastas da diretoria. Quando o elevador privativo abriu às oito em ponto, Oliver surgiu. Ele usava um terno cinza-escuro que acentuava seus ombros largos e o olhar atento. Passou pela minha mesa, mas desacelerou os passos assim que nossos olhos se cruzaram. — Bom dia, Sarah — disse ele, a voz grave cortando o silêncio do andar. — Bom dia, senhor Pattinson — respondi, me levantando ligeiramente. — A pauta da reunião das dez com o setor financeiro já está na sua mesa. Oliver p
Os passos de Oliver ecoaram pelo corredor como tiros. O passos lentos, firmes e pesados trazia a tensão que fez o ar do décimo quinto andar parecer instantaneamente rarefeito. A analista do financeiro, que há segundos flertava com August, murmurou uma desculpa esfarrapada e desapareceu por uma das portas laterais. August nem se deu ao trabalho de se recompor. Continuou apoiado na borda da minha mesa, ajeitando o copo de café na mão, com um sorriso debochado estampado no rosto enquanto via o irmão mais velho se aproximar. — O que você está fazendo aqui, August? — a voz de Oliver veio baixa, mas com a autoridade tão cortante que me fez encolher sutilmente na cadeira. — Vim visitar meu irmão favorito — August respondeu, ajeitando a postura e dando um gole no café. — E, de quebra, conhecer a nova contratação. Você tem um gosto excelente, Oliver. Ela é muito mais simpática que a anterior. Os olhos de Oliver faiscaram ao ouvir August se referir a mim. Ele não olhou para mim; mante
A frase dele reverberou dentro da cabine do elevador, fazendo o meu sangue congelar e subir direto para as minhas bochechas. Encarei o painel espelhado à nossa frente. No reflexo, os olhos cinza-azulados de Oliver estavam fixos em mim, carregados de uma ironia calma e divertidamente presunçosa. — Eu posso explicar... — comecei, engolindo em seco e me virando de frente para ele. — Naquela noite, a gente não se conhecia. Eu estava sozinha, no meio da madrugada, e... bom, achei que "Chloe" era uma camada segura de proteção caso você fosse um psicopata. Oliver soltou um riso baixo, um som grave e contido que fez meu estômago dar uma volta estranha. Ele ajeitou os punhos do paletó, sem tirar os olhos do meu rosto. — Um psicopata que te deu carona e esperou você entrar na estação de metrô para garantir que ficaria bem? — ele arqueou uma sobrancelha. — Exatamente — mantive o tom firme, embora por dentro estivesse me desfazendo de vergonha. — Pessoas cautelosas sobrevivem mais tem
A supervisora parecia pronta para fazer o discurso de apresentação, mas a voz do meu novo chefe cortou o silêncio do ambiente antes que ela dissesse uma palavra. — Na verdade, nós já nos conhecemos — Oliver disse, a voz grave e perfeitamente ritmada, com a postura confiante de quem tem controle absoluto do espaço. Um leve sorriso de canto surgiu em seus lábios, quase imperceptível para quem olhava de fora, mas claro o suficiente para fazer meu rosto queimar de calor. Chloe. Aquele sorrisinho irônico gritava o nome falso que eu tinha inventado no carro. — É um prazer conhecê-la, senhorita Wash — ele continuou, estendendo a mão para um aperto firme, seco e profissional. — Acredito que a equipe RH já tenha lhe mostrado o andar? — Ainda não, senhor Pattinson — a supervisora interveio, visivelmente sem jeito. — Estávamos esperando a primeira apresentação com o senhor para depois circular pelas áreas. — Não se preocupe, eu mesmo posso orientá-la com o básico mais tarde — Oliver
Parada na frente da porta metalizada do elevador, no saguão espelhado da Global Corp., meu coração errou algumas batidas dentro do meu peito. As portas duplas se abriram com um bipe suave e lá estava ele. Oliver. Ele vestia um terno cinza-chumbo perfeitamente alinhado e carregava uma pasta de couro na mão. Não parecia tão mal-humorado quanto naquela noite no pub, mas ainda ostentava uma aura austera e inalcançável. Fiquei completamente desconcertada. O ar fugiu dos meus pulmões e a única coisa que consegui fazer foi dar um aceno rápido e tenso com a cabeça de ouvir ele me chamar de Chloe. Oliver retribuiu com um olhar atento e um leve inclinar de queixo, saindo do elevador e passando ao meu lado. Entrei rapidamente na cabine, me virando a tempo de vê-lo se afastar pelo saguão enquanto conversava com um homem mais baixo e com ar preocupado. Soltei um suspiro longo, sentindo o alívio lavar meu peito conforme ele desaparecia de vista. Apertei o botão do terceiro andar. O trajet







