공유

4

작가: M Souza
last update 게시일: 2026-10-08 21:41:16

Selena

Calor.

Foi essa a primeira sensação que reconheci quando a escuridão começou a se desfazer dentro da minha cabeça. Depois veio o cheiro. Não era mais o cheiro de terra molhada, sangue e chuva da floresta. Era algo limpo, suave, quase reconfortante, como madeira aquecida, ervas secas e algum perfume leve que eu não soube nomear. Demorei alguns segundos para entender que estava deitada numa cama macia demais para ser real, coberta por tecidos pesados e quentes, com o corpo afundado num colchão que parecia me engolir. Abri os olhos devagar, ainda tonta, e por um instante fiquei apenas encarando o teto alto, decorado com detalhes dourados e entalhes que eu nunca tinha visto em lugar nenhum. Havia cortinas grossas cercando a cama, um lustre pendendo acima de mim e uma claridade dourada entrando por janelas enormes, filtrada por cortinas claras. Nada naquele quarto lembrava uma alcateia comum. Tudo parecia grande, silencioso e antigo demais. A memória voltou num golpe só. A chuva. A dor. O gosto de sangue. Os renegados. Os olhos dourados surgindo na escuridão. Meu coração disparou tão rápido que sentei de uma vez, ignorando a tontura, e a primeira coisa que fiz foi levar as duas mãos até o ventre.

— Meu bebê...

Uma fisgada me atravessou o abdômen e me fez prender o ar. Fiquei imóvel, apavorada, sentindo a garganta fechar.

— Respire devagar — disse uma voz masculina, calma, vinda do outro lado do quarto. — Se tentar se levantar assim, vai piorar a dor.

Virei o rosto depressa e vi um homem mais velho próximo a uma mesa coberta por vidros, ervas e frascos. Tinha cabelos grisalhos presos na nuca, usava roupas escuras de corte elegante e me observava com a tranquilidade de alguém acostumado a lidar com pessoas em pânico.

— Quem é o senhor? — perguntei, recuando contra a cabeceira. — Onde eu estou?

Ele não respondeu de imediato à primeira pergunta. Caminhou até a cama com passos lentos e parou a uma distância que talvez julgasse segura para não me assustar ainda mais.

— O filhote está vivo. Seu corpo está fraco, mas a gravidez continua segura, desde que você pare de tentar se mover como se tivesse saído inteira de uma batalha.

Só depois de ouvir aquilo percebi que estava prendendo a respiração. Soltei o ar de uma vez e fechei os olhos por um segundo, sentindo o alívio quase me desmontar.

— Graças à Deusa...

Quando os abri de novo, o homem ainda me observava com paciência.

— Agora podemos voltar ao resto. Quem é o senhor? Onde eu estou? E como sabe que estou grávida?

Ele quase sorriu.

— Porque fui eu quem a examinou. E porque, sinceramente, sua primeira preocupação ao acordar deixou a resposta bastante óbvia.

Puxei o cobertor um pouco mais para cima, num gesto automático de proteção, e examinei o quarto outra vez. Havia riqueza demais ali. E uma sensação estranha no ar. Não era apenas luxo. Era poder.

— Então me diga logo.

— Meu nome é Cedric. Sou o curandeiro-chefe deste castelo.

— Castelo?

— Sim.

— De quem?

Antes que Cedric respondesse, três batidas curtas soaram na porta. O curandeiro endireitou a postura imediatamente, e o respeito silencioso no gesto dele me fez ficar ainda mais alerta. A porta se abriu sem pressa, e o homem que entrou carregou consigo uma presença que alterou o quarto inteiro. Eu o reconheci antes mesmo de pensar. Era impossível não reconhecer aqueles olhos.

Os mesmos olhos dourados que tinham surgido na floresta.

Ele estava com roupas limpas agora, totalmente secas, mas os cabelos escuros ainda pareciam levemente úmidos, penteados para trás de um jeito descuidado demais para esconder o quanto aquele homem chamava atenção sem precisar tentar. Alto, ombros largos, expressão firme e um tipo de autoridade que não precisava de anúncio. Ainda assim, Cedric inclinou a cabeça levemente.

— Majestade.

Meu estômago afundou.

Majestade.

Tentei me endireitar por impulso, mas a dor voltou e me arrancou um leve som de incômodo.

— Não — ele disse de imediato, com uma voz baixa e firme. — Fique onde está.

Havia ordem naquele tom, mas não brutalidade. Mesmo assim, obedeci antes de perceber que estava obedecendo.

Cedric deu um passo para trás.

— Ela acordou há poucos minutos. Está lúcida. Assustada, naturalmente. Mas o sangramento cessou e o filhote está estável por enquanto.

O homem assentiu sem tirar os olhos de mim.

— Deixe-nos.

Cedric não questionou. Fez uma reverência discreta e saiu, levando com ele o pouco de sensação normal que ainda existia no quarto. Quando a porta se fechou, fiquei sozinha com o desconhecido que havia me arrancado da morte na floresta. Apertei o cobertor com mais força.

— Quem é você?

Ele se aproximou apenas o suficiente para parar ao lado da cama, mantendo certa distância.

— Darian Voss.

O nome bateu em mim com a força de uma lenda ganhando carne. Eu conhecia aquele nome desde criança. Todo lobo conhecia. O soberano dos Lycans. O homem de quem as alcateias falavam com respeito, cautela e, às vezes, medo.

— O Rei Lycan — murmurei.

— Sim.

— Então eu estou...

— Em meu castelo.

O quarto ficou silencioso por alguns segundos. Tentei absorver aquilo junto com todas as outras coisas que ainda estavam latejando na minha cabeça. Eu, Selena Hart, rejeitada e expulsa da Lua Negra na noite anterior, estava deitada na cama do castelo do Rei Lycan, grávida, ferida e completamente à mercê de um homem que eu não conhecia.

— Por que me trouxe para cá?

Darian não respondeu imediatamente. O olhar dele passou pelo meu rosto, desceu até minhas mãos protegendo o ventre e voltou aos meus olhos, como se estivesse registrando cada reação minha.

— Porque se eu tivesse deixado você naquela floresta, nem você nem o seu filhote estariam vivos agora.

Engoli em seco.

— Obrigada.

Ele assentiu levemente, como se aquela palavra não fosse necessária.

— Você foi atacada por três renegados.

— Eu lembro.

— Eles não estavam ali por acaso.

Meu corpo inteiro ficou mais tenso.

— O que quer dizer?

— Quero dizer que alguém sabia que você estaria sozinha.

Baixei os olhos por um instante. A humilhação ainda queimava. Falar da minha saída da Lua Negra em voz alta fazia tudo parecer ainda mais real.

— Talvez tenham apenas me encontrado.

— Não acredito em coincidências com cheiro de emboscada.

Levantei o rosto. Havia algo afiado na maneira como ele falava, uma inteligência fria que me fez perceber o tamanho do perigo em que eu talvez realmente estivesse.

— Você sabe quem mandou?

— Ainda não.

— Então por que se importa?

A pergunta escapou antes que eu pensasse. Achei que ele fosse se irritar. Em vez disso, apenas ficou em silêncio por alguns segundos.

— Porque alguém caçando uma mulher grávida na fronteira do meu território passa a ser um problema meu.

A resposta era lógica, mas não pareceu completa. Talvez por isso o silêncio entre nós tenha se alongado. Foi ele quem quebrou primeiro.

— O Alfa da Lua Negra sabe da criança?

Meu coração vacilou.

— Não.

— Por quê?

Sorri sem humor algum.

— Porque ele me rejeitou diante de toda a alcateia antes que eu pudesse contar. E depois mandou que eu saísse do território. Não me pareceu o momento ideal para revelar que ele teria um filho.

A expressão de Darian não mudou muito, mas alguma coisa em seu olhar endureceu.

— Mesmo assim, você ia contar antes disso.

Não era uma pergunta.

— Ia.

Ele ficou em silêncio outra vez, me estudando de um jeito estranho, profundo demais.

— Você ainda o ama?

A pergunta me pegou desprevenida. Doeu justamente porque eu não tinha resposta pronta. Logan ainda estava em toda parte dentro de mim. Na ferida, na raiva, na humilhação, no vazio deixado pela rejeição. Amor e dor estavam tão misturados que eu já não sabia separar um do outro.

— Eu não sei — admiti, com a voz mais baixa. — Talvez eu só ainda não tenha aprendido a existir sem ele.

Darian virou um pouco o rosto na direção da janela, como se precisasse esconder por um instante qualquer reação que não quisesse que eu visse.

— Aprenda — disse, por fim. — Porque enquanto estiver neste castelo, ninguém vai tocá-la. Nem ele. Nem quem vier atrás de você.

A promessa caiu entre nós como pedra.

— Eu não pedi sua proteção.

— Não. Você quase morreu sem ela.

Antes que eu respondesse, batidas urgentes cortaram o silêncio.

— Entre — Darian ordenou.

A porta se abriu e um homem de armadura escura entrou, ajoelhando-se quase imediatamente.

— Majestade, preciso relatar uma descoberta sobre a clareira.

Darian se virou para ele.

— Fale.

— Voltamos ao local com mais homens para limpar os rastros. Os corpos dos renegados foram encontrados.

— Isso eu já esperava.

O guerreiro hesitou.

— Há um problema. Dois morreram pelos ferimentos da luta da noite passada. Mas o terceiro... não.

O quarto pareceu ficar menor.

— Explique — Darian disse.

— O terceiro foi morto depois que nossos homens saíram de lá. Alguém voltou ao local e o silenciou.

Senti um arrepio gelado deslizar pela minha espinha.

— Então havia outra pessoa na floresta — murmurei, antes mesmo de perceber.

O soldado abaixou ainda mais a cabeça.

— Sim, Majestade.

Darian fechou a mão devagar, mas a tensão que tomou conta do rosto dele foi instantânea.

— Isso significa que quem planejou a emboscada não queria sobreviventes.

Ninguém respondeu, porque a conclusão já era assustadora o bastante por si só. Baixei as mãos para o ventre e senti meu coração bater forte demais. Eu mal tinha escapado da primeira ameaça e agora descobria que existia uma segunda, mais próxima, mais cuidadosa e talvez muito mais perigosa.

Darian olhou para mim então, e não para o soldado.

— Reforce a guarda deste andar. Ninguém entra sem minha autorização.

— Sim, Majestade.

O homem saiu rapidamente.

Fiquei em silêncio, tentando controlar a respiração, enquanto o medo se espalhava devagar por dentro de mim. Darian percebeu.

— Você está segura aqui.

Olhei para ele.

Queria acreditar. Queria me agarrar àquela certeza porque no momento eu não tinha mais nada. Nem alcateia. Nem companheiro. Nem casa. Apenas aquela criança, aquela dor e um castelo desconhecido no qual eu tinha acordado sob a proteção do homem mais poderoso do mundo Lycan.

— Espero que esteja certo — sussurrei.

Darian não respondeu com palavras dessa vez. Apenas sustentou meu olhar por mais um segundo, firme, imóvel, como se estivesse assumindo aquele compromisso em silêncio.

이 작품을 무료로 읽으실 수 있습니다
QR 코드를 스캔하여 앱을 다운로드하세요

최신 챕터

  • Grávida do Alfa Que Me Rejeitou    4

    SelenaCalor.Foi essa a primeira sensação que reconheci quando a escuridão começou a se desfazer dentro da minha cabeça. Depois veio o cheiro. Não era mais o cheiro de terra molhada, sangue e chuva da floresta. Era algo limpo, suave, quase reconfortante, como madeira aquecida, ervas secas e algum perfume leve que eu não soube nomear. Demorei alguns segundos para entender que estava deitada numa cama macia demais para ser real, coberta por tecidos pesados e quentes, com o corpo afundado num colchão que parecia me engolir. Abri os olhos devagar, ainda tonta, e por um instante fiquei apenas encarando o teto alto, decorado com detalhes dourados e entalhes que eu nunca tinha visto em lugar nenhum. Havia cortinas grossas cercando a cama, um lustre pendendo acima de mim e uma claridade dourada entrando por janelas enormes, filtrada por cortinas claras. Nada naquele quarto lembrava uma alcateia comum. Tudo parecia grande, silencioso e antigo demais. A memória voltou num golpe só. A chuva. A

  • Grávida do Alfa Que Me Rejeitou    3

    LoganEu deveria estar satisfeito. Era o que repetia para mim mesmo desde que Selena atravessara as portas do casarão e desaparecera no meio daquela tempestade. Eu tinha feito exatamente o que decidira fazer muito antes da cerimônia: rejeitado o vínculo, assumido o controle do meu próprio destino e deixado claro para toda a Lua Negra que ninguém, nem mesmo a Deusa da Lua, escolheria a mulher que governaria ao meu lado. Então por que diabos eu não conseguia respirar direito? Permaneci diante da janela do meu escritório observando a água correr pelo vidro enquanto meu lobo caminhava inquieto dentro de mim. Desde que Selena aceitara a rejeição, ele não havia parado um segundo. Primeiro vieram os rosnados. Depois a raiva. Agora havia algo pior. Uma urgência que parecia crescer a cada minuto.— Vá atrás dela.A voz dele atravessou minha mente outra vez.— Não.— Ela precisa de nós.Fechei os olhos.— Ela não é mais nossa companheira.O rugido que recebi como resposta quase me fez perder o

  • Grávida do Alfa Que Me Rejeitou    2

    SelenaA chuva começou antes mesmo que eu deixasse a última construção da alcateia para trás, primeiro como uma garoa fina e depois como uma cortina pesada que caiu sobre a floresta como se o céu tivesse decidido desabar junto com tudo o que restava da minha vida. O vestido que eu usara poucas horas antes, acreditando que pisaria naquele salão para me tornar Luna, agora grudava no meu corpo, sujo de lama, molhado e pesado, arrastando nas pernas a lembrança cruel da humilhação que eu acabara de sofrer. Eu caminhava sem enxergar muito além das árvores e do caminho escuro à minha frente, sentindo os pés arderem a cada passo, mas nada doía mais do que o vazio aberto no meu peito desde o instante em que aceitei a rejeição de Logan. Era uma dor estranha, funda, como se alguma coisa tivesse sido arrancada de dentro de mim à força e deixado um buraco pulsando no lugar. Levei uma das mãos ao ventre de maneira instintiva, protegendo a única parte da minha vida que ainda fazia sentido naquele mo

  • Grávida do Alfa Que Me Rejeitou    1

    SelenaAquela deveria ter sido a noite mais importante da minha vida. Durante semanas, ouvi minha mãe repetir que eu precisava manter a cabeça erguida, que a cerimônia de apresentação do novo Alfa acontecia apenas uma vez e que, quando Logan assumisse oficialmente o lugar do pai, eu estaria ao lado dele como sua companheira. A futura Luna. A mulher que dividiria com ele não apenas a liderança da alcateia, mas uma vida inteira. Eu havia crescido acreditando nisso e, desde que completei dezoito anos e senti o vínculo despertar entre nós, nunca tive dúvida de que Logan Black era meu companheiro destinado. Minha loba o reconhecera antes mesmo que eu pudesse compreender direito o que aquela sensação significava. O problema era que reconhecer alguém como seu não significava ser reconhecida da mesma maneira. Passei a mão discretamente sobre o tecido do vestido, bem na altura do meu ventre. Ainda não havia nada para ver, nenhuma barriga arredondada ou mudança evidente que pudesse levantar sus

더보기
좋은 소설을 무료로 찾아 읽어보세요
GoodNovel 앱에서 수많은 인기 소설을 무료로 즐기세요! 마음에 드는 작품을 다운로드하고, 언제 어디서나 편하게 읽을 수 있습니다
앱에서 작품을 무료로 읽어보세요
앱에서 읽으려면 QR 코드를 스캔하세요.
DMCA.com Protection Status