Logan
Eu deveria estar satisfeito. Era o que repetia para mim mesmo desde que Selena atravessara as portas do casarão e desaparecera no meio daquela tempestade. Eu tinha feito exatamente o que decidira fazer muito antes da cerimônia: rejeitado o vínculo, assumido o controle do meu próprio destino e deixado claro para toda a Lua Negra que ninguém, nem mesmo a Deusa da Lua, escolheria a mulher que governaria ao meu lado. Então por que diabos eu não conseguia respirar direito? Permaneci diante da janela do meu escritório observando a água correr pelo vidro enquanto meu lobo caminhava inquieto dentro de mim. Desde que Selena aceitara a rejeição, ele não havia parado um segundo. Primeiro vieram os rosnados. Depois a raiva. Agora havia algo pior. Uma urgência que parecia crescer a cada minuto.
— Vá atrás dela.
A voz dele atravessou minha mente outra vez.
— Não.
— Ela precisa de nós.
Fechei os olhos.
— Ela não é mais nossa companheira.
O rugido que recebi como resposta quase me fez perder o controle da transformação. Minhas mãos se fecharam sobre o parapeito da janela e senti as unhas começarem a crescer. Respirei fundo até conseguir obrigar meu corpo a voltar ao normal. Eu não entendia aquela reação. Selena aceitara a rejeição. O vínculo deveria ter desaparecido. Ainda existia uma ausência dentro de mim, mas não deveria existir aquela sensação sufocante de que alguma coisa estava acontecendo longe dali.
A porta se abriu e Derek entrou, ainda molhado da chuva.
— Já voltou?
— Acabei de chegar.
Virei imediatamente.
— Selena cruzou a fronteira?
— Sim.
— Sozinha?
Ele me olhou de uma maneira que me irritou.
— Você mandou que ela fosse embora, Logan.
— Eu sei o que mandei.
— Então sim. Ela foi sozinha.
Passei a mão pelo rosto.
— Ela levou o dinheiro?
— Não.
— Por que você não insistiu?
Derek soltou uma risada sem humor.
— Porque depois de ser rejeitada diante da alcateia e expulsa na mesma noite, aparentemente Selena não estava com vontade de aceitar a caridade do homem que fez isso com ela.
Meu olhar endureceu.
— Cuidado com a forma como fala comigo.
Derek abaixou levemente a cabeça.
— Desculpe, Alfa.
Eu sabia que ele estava certo e talvez isso me irritasse ainda mais. Tinha ordenado que Selena saísse porque acreditava que mantê-la dentro da Lua Negra depois da rejeição criaria problemas. Parte da alcateia continuaria olhando para ela como minha verdadeira Luna, e eu não permitiria que minha autoridade começasse cercada por dúvidas. A decisão fazia sentido quando pensei nela. Agora, sabendo que Selena caminhava sozinha no meio de uma tempestade, parecia diferente.
— Como ela estava?
— Mal.
Meu peito apertou.
— Define mal.
— Pálida. Cansada. A rejeição mexeu muito com ela. Mas estava consciente quando a deixei.
Meu lobo começou a rosnar novamente.
Antes que eu pudesse perguntar qualquer outra coisa, um dos guerreiros responsáveis pela patrulha entrou no escritório.
— Alfa.
— O que foi?
— Encontramos rastros estranhos próximos à fronteira oeste.
Endireitei o corpo.
— Humanos?
— Lobos. Pelo cheiro, renegados.
Derek olhou para mim.
— Selena saiu pelo oeste.
Por alguns segundos, ninguém falou.
A sensação que vinha me incomodando desde que ela partira cresceu até se transformar numa pressão quase dolorosa dentro do peito.
— Quantos?
— Não sabemos. A chuva está apagando os rastros.
Peguei meu casaco.
— Reúna os homens.
Derek assentiu imediatamente.
— Vou com você.
Dei dois passos em direção à porta antes que outra voz interrompesse.
— Logan?
Bianca apareceu no corredor.
Parei.
Ela olhou meu casaco, depois Derek e o guerreiro.
— Onde você vai?
— Houve invasão na fronteira.
— Então deixe os guardas cuidarem disso.
— Eu sou o Alfa.
— Justamente.
Bianca entrou no escritório e se aproximou.
— Você acabou de assumir. Seu pai está esperando para conversar com você, o conselho ainda está reunido e existem dezenas de pessoas dentro desta casa esperando suas primeiras decisões. Você realmente vai abandonar tudo para perseguir alguns renegados no meio da chuva?
Não respondi imediatamente.
Meu lobo praticamente urrava para que eu saísse.
Selena.
Era o nome que ele repetia.
Mas eu não sabia se aquilo era instinto ou simplesmente a reação do vínculo recém-rompido.
Derek percebeu minha hesitação.
— Alfa, posso liderar a patrulha.
Olhei para ele.
— Se encontrar Selena...
Parei antes de terminar.
Bianca permaneceu em silêncio.
— Se ela estiver em perigo, tire-a de lá — completei. — Não importa se já cruzou a fronteira.
— Entendido.
— E me informe assim que souber de alguma coisa.
Derek saiu com os guerreiros. Continuei parado diante da porta, ouvindo meu lobo se debater dentro de mim.
— Você ainda se preocupa com ela — Bianca disse.
— Não confunda responsabilidade com arrependimento.
— Eu não falei em arrependimento.
Voltei para a janela.
A floresta era apenas uma massa negra sob a tempestade.
Por algum motivo, não consegui afastar a sensação de que tinha acabado de tomar outra decisão que ainda me cobraria um preço.
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Darian
O cheiro de sangue foi o primeiro sinal.
Parei no meio da floresta e ergui a cabeça, deixando meus sentidos se espalharem pelo território. Não estava sozinho. Dois dos meus homens vinham alguns metros atrás, mas ergui a mão ordenando que permanecessem onde estavam. Além do sangue, havia cheiro de lobos desconhecidos, medo, chuva e alguma coisa que fez meu coração bater diferente.
Uma mulher.
Não fazia sentido.
Ainda assim, meu corpo reagiu antes que minha mente pudesse compreender.
— Majestade? — ouvi um dos guerreiros chamar.
— Fiquem aqui.
Segui sozinho.
Quanto mais avançava, mais forte ficava aquela sensação estranha. Era como seguir uma memória que eu não conseguia alcançar. Durante anos eu tivera o mesmo sonho. Nunca todas as noites, nunca de maneira previsível, mas vezes suficientes para deixar de acreditar que fosse apenas fruto da minha cabeça. Uma mulher caminhava por uma floresta banhada pela lua. Eu nunca via seu rosto inteiro. Às vezes ouvia sua voz. Em outras, apenas sentia sua presença. Toda vez que tentava alcançá-la, acordava.
Depois de tantos anos, eu tinha aprendido a ignorar aquilo.
Até aquela noite.
Um rosnado veio da frente.
Acelerei.
Quando alcancei a clareira, encontrei uma mulher caída próxima às raízes de uma árvore e três renegados ao redor dela. Um deles já estava ferido. Os outros pareciam discutir o que fariam antes de carregá-la.
Meu lobo despertou com uma violência que quase me surpreendeu.
Mate-os.
Não precisei ouvir duas vezes.
— Afastem-se dela.
Os três se viraram.
O maior deles me analisou.
— Essa mulher não é problema seu.
Inclinei a cabeça.
— Acabou de se tornar.
Ele avançou primeiro.
Foi um erro.
Desviei do ataque e o derrubei antes que os outros dois conseguissem reagir. O segundo se transformou e tentou me atingir pela lateral, mas meu lobo já estava próximo demais da superfície. Segurei-o e o lancei para longe. O terceiro percebeu rapidamente que a luta estava perdida.
— Espera!
Parei diante dele.
— Quem são vocês?
— Só estamos passando.
Olhei para a mulher caída.
— Não parece.
— Encontramos ela assim.
— Outra mentira.
Ele recuou.
Meus homens finalmente chegaram à clareira e cercaram o lugar.
— Amarrem esse.
O renegado arregalou os olhos.
— Eu não fiz nada!
— Então vai ser fácil explicar.
Um dos meus guerreiros o segurou.
Aproximei-me da mulher pela primeira vez.
Meu coração falhou uma batida.
Cabelos escuros estavam grudados no rosto molhado. A pele estava pálida demais e havia sujeira em suas roupas, mas nada disso foi o que me deixou imóvel.
Era ela.
Não uma mulher parecida.
Não alguém que minha mente estivesse tentando encaixar em uma lembrança.
Era a mulher dos meus sonhos.
Eu conhecia aquele rosto sem nunca tê-lo visto acordado.
— Majestade?
Não respondi.
Ajoelhei ao lado dela.
Quando meus dedos tocaram seu pulso, meu lobo ficou completamente silencioso.
Aquilo quase nunca acontecia.
— Está viva — murmurei.
Então percebi a mão dela sobre o ventre.
Mesmo inconsciente, protegia a barriga.
Passei os olhos por seu corpo e senti outro cheiro misturado ao dela.
Um filhote.
— Ela está grávida — disse um dos meus homens.
— Eu percebi.
Retirei meu manto e a cobri.
Quando a ergui nos braços, ela se mexeu levemente, mas não acordou. A cabeça caiu contra meu peito e, naquele instante, uma imagem atravessou minha memória. O mesmo rosto. A mesma mulher. Só que em meus sonhos ela sempre estava muito longe para que eu conseguisse tocá-la.
Agora estava nos meus braços.
— Para onde vamos levá-la? — perguntou meu capitão.
Olhei para ele.
— Para casa.
Ele pareceu surpreso.
Eu raramente levava desconhecidos para dentro do território central dos Lycan, muito menos para minha residência.
— Chame a curandeira antes de chegarmos.
— Sim, Majestade.
Comecei a caminhar, mas parei ao ouvir o renegado preso se debatendo atrás de nós.
— Eu posso explicar!
Virei o rosto.
— Então explique.
— Pagaram para encontrarmos uma mulher.
Meu corpo ficou imóvel.
— Qual mulher?
— Não deram nome.
— Como saberiam quem procurar?
Ele hesitou.
— Disseram que ela estaria sozinha esta noite. Que sairia de uma alcateia próxima depois de um problema com o Alfa.
Olhei para a mulher em meus braços.
Alguém sabia que ela estaria vulnerável.
E soubera antes mesmo que aquilo acontecesse.
— Quem contratou vocês?
— Não sei.
— Descubra — ordenei ao meu capitão. — Quero saber quem pagou, como sabia que ela estaria aqui e o que pretendia fazer com ela.
— E ele?
Olhei para o renegado.
— Leve vivo.
Voltei a caminhar.
Ainda não sabia o nome da mulher que carregava.
Não sabia de qual alcateia vinha.
Não sabia por que havia sido abandonada no meio de uma tempestade nem quem estava disposto a pagar para capturá-la.
Mas sabia uma coisa que nenhum dos meus homens poderia compreender.
Depois de anos acordando antes de conseguir alcançá-la, eu finalmente tinha encontrado a mulher dos meus sonhos.