Selena
Aquela deveria ter sido a noite mais importante da minha vida. Durante semanas, ouvi minha mãe repetir que eu precisava manter a cabeça erguida, que a cerimônia de apresentação do novo Alfa acontecia apenas uma vez e que, quando Logan assumisse oficialmente o lugar do pai, eu estaria ao lado dele como sua companheira. A futura Luna. A mulher que dividiria com ele não apenas a liderança da alcateia, mas uma vida inteira. Eu havia crescido acreditando nisso e, desde que completei dezoito anos e senti o vínculo despertar entre nós, nunca tive dúvida de que Logan Black era meu companheiro destinado. Minha loba o reconhecera antes mesmo que eu pudesse compreender direito o que aquela sensação significava. O problema era que reconhecer alguém como seu não significava ser reconhecida da mesma maneira. Passei a mão discretamente sobre o tecido do vestido, bem na altura do meu ventre. Ainda não havia nada para ver, nenhuma barriga arredondada ou mudança evidente que pudesse levantar suspeitas. Apenas eu sabia. Eu e a curandeira que me examinara naquela manhã depois de vários dias acordando enjoada e percebendo meu corpo diferente. Estava grávida. A palavra ainda parecia enorme dentro da minha cabeça, e eu tinha passado o dia inteiro imaginando como contaria a Logan. Uma parte de mim acreditava que aquela criança poderia finalmente derrubar o muro que ele sempre mantinha entre nós. Talvez, quando soubesse que estávamos esperando um filhote, ele parasse de agir como se nosso vínculo fosse apenas uma obrigação da qual não conseguia escapar.
Quando as portas do grande salão se abriram, as conversas diminuíram quase imediatamente e meu coração acelerou ao vê-lo entrar acompanhado do pai. Logan vestia preto, com os ombros largos destacados pelo traje cerimonial usado pelos homens de sua família, e parecia ainda mais imponente do que de costume. Aos vinte e seis anos, ele já possuía a presença de alguém que não precisava levantar a voz para ser obedecido. Alto, forte, cabelos escuros e um olhar quase sempre difícil de decifrar, atravessou o salão enquanto os membros da alcateia inclinavam a cabeça em respeito. Sorri assim que nossos olhos se encontraram, esperando ao menos algum sinal de que ele também entendia a importância daquela noite, mas Logan não sorriu de volta. Uma sensação ruim surgiu imediatamente dentro de mim e minha loba ficou inquieta, andando de um lado para o outro como se tivesse percebido alguma ameaça que eu ainda não conseguia enxergar. Tentei ignorar. Talvez fosse apenas o nervosismo da cerimônia. O antigo Alfa começou a falar sobre tradição, força, continuidade e sobre a responsabilidade que Logan assumiria a partir daquela noite, mas eu mal consegui prestar atenção. Minha mente continuava voltando para o segredo que carregava e para a pequena caixa escondida no meu quarto, onde eu havia colocado uma roupinha minúscula que pretendia entregar a Logan depois da cerimônia.
— Um Alfa não governa sozinho — declarou o pai dele, fazendo o salão inteiro se calar. — E esta noite também conheceremos aquela que ocupará o lugar de Luna ao lado de Logan Black.
Meu coração disparou tão depressa que por alguns segundos tive medo de que todos ao meu redor fossem capazes de ouvi-lo. Minha mãe segurou minha mão e sorriu para mim, emocionada.
— Vá.
Dei um passo à frente, mas não consegui dar o segundo.
— Espere.
A voz de Logan atravessou o salão e fez meu corpo inteiro enrijecer. Ele desceu os dois degraus da plataforma e ficou de frente para todos enquanto um silêncio desconfortável tomava conta do lugar. Ninguém parecia entender o que estava acontecendo, mas, quando ele virou o rosto na minha direção, alguma coisa dentro de mim soube antes mesmo que qualquer palavra fosse dita. Minha loba recuou imediatamente e a sensação ruim que eu vinha tentando ignorar aumentou.
— Selena Hart.
Ouvir meu nome pronunciado daquela maneira me deu um arrepio.
— Logan...
— Venha até aqui.
Eu não queria obedecer. Tudo dentro de mim dizia para sair daquele salão e não olhar para trás, mas dezenas de pessoas nos observavam e minhas pernas começaram a se mover quase sozinhas. Caminhei entre os membros da alcateia sentindo cada olhar acompanhar meus passos até parar diante dele. Logan nem sequer tentou diminuir a distância entre nós. Não estendeu a mão, não procurou a minha e não fez nada do que eu havia imaginado durante semanas.
— O que está acontecendo?
— O que deveria ter acontecido há muito tempo.
Meu peito apertou imediatamente.
— Não faça isso aqui.
Os olhos dele permaneceram frios.
— É justamente aqui que precisa ser feito.
Balancei a cabeça devagar, já sentindo meus olhos arderem.
— Logan, por favor.
Ele respirou fundo e, quando voltou a falar, sua voz foi alta o bastante para alcançar todos dentro daquele salão.
— Eu, Logan Black, futuro Alfa da alcateia Lua Negra, rejeito Selena Hart como minha companheira destinada.
A dor veio antes mesmo que eu conseguisse entender completamente as palavras. Não era apenas uma dor emocional. O vínculo reagiu à rejeição como se tivesse sido arrancado à força de dentro de mim. Levei a mão ao peito quando uma queimação atravessou meu corpo, e minha loba soltou um ganido desesperado dentro da minha cabeça, tentando alcançar aquele que acabara de nos rejeitar. Ao nosso redor começaram os murmúrios, mas eu quase não os escutava. Continuei olhando para Logan porque precisava encontrar alguma coisa no rosto dele que dissesse que aquilo era um erro, uma brincadeira cruel ou qualquer outra coisa que não fosse a realidade.
— Por quê?
Ele cerrou o maxilar.
— Selena...
— Eu perguntei por quê.
— Porque eu não vou construir minha vida baseado em uma escolha que a Lua fez por mim.
Engoli o choro, recusando-me a deixar as lágrimas caírem na frente dele.
— Você sabia desde o início que éramos companheiros.
— E nunca prometi que aceitaria.
As palavras atingiram um lugar ainda mais doloroso porque eram verdade. Logan nunca havia me prometido nada. Eu é que havia passado anos acreditando que o vínculo acabaria sendo suficiente, que ele amadureceria, que algum dia olharia para mim e finalmente enxergaria aquilo que eu sempre enxerguei quando olhava para ele.
— Então todos esses anos não significaram nada?
Logan desviou os olhos por apenas um segundo, mas foi o suficiente para eu perceber que havia alguma coisa além da rejeição. Segui a direção do olhar dele e encontrei uma mulher parada próxima à plataforma. Alta, bonita, os cabelos claros caindo sobre os ombros e uma tranquilidade no rosto que me incomodou imediatamente. Eu já a tinha visto algumas vezes perto da casa do Alfa, embora nunca tivesse dado importância. Naquela noite, porém, ela olhava para Logan de uma forma diferente. Não havia surpresa no rosto dela. Não havia desconforto. Ela parecia saber exatamente o que estava acontecendo.
— É por causa dela?
— Não torne isso mais difícil.
Soltei uma risada curta, completamente sem humor.
— Mais difícil para quem?
Minha mãe começou a se aproximar, mas ergui a mão antes que ela chegasse até mim. Eu precisava terminar aquilo sozinha. Precisava sair daquele salão ainda sendo capaz de caminhar com minhas próprias pernas, porque já tinha perdido coisas demais diante daquelas pessoas.
— Você me trouxe até aqui sabendo o que faria?
— Eu precisava deixar minha decisão clara para a alcateia.
— Poderia ter falado comigo antes.
— Selena...
— Poderia ter me rejeitado em qualquer outro lugar, Logan. Poderia ter feito isso sem colocar dezenas de pessoas para assistir. Mas escolheu fazer aqui.
Ele não respondeu, e o silêncio dele foi pior do que qualquer justificativa. Minha mão desceu instintivamente até meu ventre e Logan acompanhou o movimento com os olhos, mas não pareceu perceber o significado. Algumas horas antes, eu havia imaginado sua reação quando descobrisse que seria pai. Imaginei surpresa, talvez felicidade. Cheguei a pensar que ele colocaria a mão sobre minha barriga mesmo que ainda não existisse nada para sentir. Naquele momento, senti vergonha de ter criado tantas expectativas em torno de um homem que estava me rejeitando diante de toda a alcateia.
— Aceite a rejeição — ele disse em um tom mais baixo. — Assim o vínculo será encerrado completamente.
Minha loba se desesperou dentro de mim, recusando aquela ideia, mas eu não daria a Logan o prazer de me ver implorar por um lugar que ele acabara de deixar claro que não queria me dar. Respirei fundo, endireitei os ombros e ergui o rosto.
— Eu, Selena Hart, aceito sua rejeição.
A dor explodiu no meu peito com tanta força que precisei dar um passo para trás. Minha mãe chamou meu nome e algumas pessoas se moveram ao redor, mas consegui permanecer em pé. O vínculo que havia me acompanhado durante anos desapareceu aos poucos, deixando um vazio estranho em seu lugar. Logan avançou na minha direção por instinto.
— Selena...
— Não encoste em mim.
Ele parou imediatamente.
— Você conseguiu o que queria, Alfa.
Foi a primeira vez que o chamei pelo título daquela maneira. Sem carinho, sem esperança e sem qualquer intimidade entre nós. Virei as costas e comecei a andar em direção à saída.
— Selena, precisamos conversar.
Não parei.
— Não temos mais nada para conversar.
Atravessei o salão enquanto as pessoas abriam caminho para mim. Algumas me observavam com pena, outras com curiosidade, e eu odiava cada um daqueles olhares. Minha mãe veio atrás de mim, mas, quando chegamos ao corredor que levava aos quartos, pedi que me deixasse sozinha. Ela tentou insistir, porém acabou respeitando minha decisão. Entrei no quarto, tranquei a porta e só então permiti que as lágrimas que eu vinha segurando corressem pelo meu rosto. Sentei na beirada da cama e levei as duas mãos até o ventre ainda plano. Naquela manhã eu era a companheira do futuro Alfa e carregava seu filho, acreditando que talvez estivesse prestes a começar uma família. Algumas horas depois, havia me transformado na mulher que Logan Black rejeitara diante de toda a alcateia. Olhei para a pequena caixa que tinha preparado para ele e senti outra onda de choro subir pela garganta. Eu ainda não sabia o que faria nem para onde iria, mas uma decisão começou a tomar forma enquanto apertava as mãos sobre minha barriga. Logan tinha escolhido uma vida sem mim e eu não correria atrás dele para obrigá-lo a querer alguma coisa.
Por enquanto, ele também não saberia sobre a criança que eu carregava.