Selena
A chuva começou antes mesmo que eu deixasse a última construção da alcateia para trás, primeiro como uma garoa fina e depois como uma cortina pesada que caiu sobre a floresta como se o céu tivesse decidido desabar junto com tudo o que restava da minha vida. O vestido que eu usara poucas horas antes, acreditando que pisaria naquele salão para me tornar Luna, agora grudava no meu corpo, sujo de lama, molhado e pesado, arrastando nas pernas a lembrança cruel da humilhação que eu acabara de sofrer. Eu caminhava sem enxergar muito além das árvores e do caminho escuro à minha frente, sentindo os pés arderem a cada passo, mas nada doía mais do que o vazio aberto no meu peito desde o instante em que aceitei a rejeição de Logan. Era uma dor estranha, funda, como se alguma coisa tivesse sido arrancada de dentro de mim à força e deixado um buraco pulsando no lugar. Levei uma das mãos ao ventre de maneira instintiva, protegendo a única parte da minha vida que ainda fazia sentido naquele momento, e fechei os olhos por um segundo, tentando respirar apesar do nó que me apertava a garganta. Eu não sabia para onde iria, não tinha feito plano algum, não tinha separado roupas, dinheiro ou qualquer coisa útil antes de sair, mas havia uma certeza crescendo dentro de mim a cada passo: eu não ficaria onde não era desejada, e meu filho também não cresceria sob o peso da rejeição do homem que deveria protegê-lo.
— Me perdoa, meu amor... — murmurei, com a voz tremendo tanto que mal reconheci meu próprio tom. — A mamãe vai dar um jeito. Eu prometo que vai.
Continuei andando, abraçando a barriga ainda pequena por baixo do tecido encharcado, tentando não pensar demais no futuro para não me desesperar. O rosto de Logan insistia em voltar à minha cabeça. O modo frio como ele pronunciou meu nome. A firmeza cruel da voz ao me rejeitar diante de toda a alcateia. O jeito como nem por um segundo pareceu se importar com o que aquilo faria comigo. Quanto mais eu tentava afastar a lembrança, mais ela voltava, como uma ferida sendo aberta de novo a cada batida do coração. Eu queria chorar, gritar, perguntar por que ele fizera aquilo daquela forma, mas já não adiantava. Nada do que eu dissesse mudaria o que tinha acontecido. Logan havia feito a escolha dele. Eu precisava fazer a minha.
— Selena!
Parei no mesmo instante, com o corpo enrijecendo. Durante um segundo tolo e vergonhoso, meu coração disparou com uma esperança absurda. Pensei que talvez fosse Logan, que talvez ele tivesse se arrependido, que tivesse ido atrás de mim antes que eu cruzasse o território da alcateia. Virei devagar e encontrei apenas Derek correndo na minha direção, com os cabelos molhados pela chuva e o maxilar tenso como se preferisse estar em qualquer outro lugar. Derek era o beta de Logan, mas também tinha crescido ao nosso lado. Havíamos treinado juntos quando éramos mais novos, dividido refeições, rido das mesmas histórias. Vê-lo ali, naquela noite, só tornou tudo mais real.
— Ele mandou você? — perguntei, antes mesmo que Derek se aproximasse o bastante.
Derek parou a poucos passos de mim e desviou o olhar por um segundo.
— Mandou.
Meu peito se apertou outra vez.
— Então ele voltou atrás?
O silêncio dele foi resposta suficiente, mas esperei mesmo assim.
— Não.
Por um instante, a chuva pareceu ficar ainda mais fria sobre a minha pele.
— O que Logan quer agora?
Derek respirou fundo antes de falar, claramente desconfortável com cada palavra.
— O Alfa ordenou que você deixe o território da Lua Negra antes do amanhecer. Se ainda estiver aqui quando o sol nascer, recebi ordens para tirá-la à força.
Fiquei olhando para ele, absorvendo aquelas palavras lentamente, porque a humilhação nunca parecia suficiente. Primeiro a rejeição pública. Agora aquilo. Como se romper o vínculo não bastasse, Logan ainda queria ter certeza de que eu desapareceria rápido, em silêncio e sem causar nenhum incômodo à vida perfeita que pretendia seguir sem mim.
— E se eu me recusar? — perguntei, embora soubesse a resposta.
Derek passou a mão molhada pelo rosto.
— Não dificulta, Selena.
— Responde.
Ele sustentou meu olhar dessa vez.
— Eu vou cumprir a ordem.
Assenti devagar, mais para mim mesma do que para ele. Não porque estivesse surpresa, mas porque precisava engolir mais esse golpe sem cair ali mesmo. Derek enfiou a mão no bolso do casaco e tirou um pequeno embrulho de couro, estendendo-o na minha direção. Olhei para aquilo e depois para ele.
— O que é isso?
— Dinheiro. Não é muito, mas dá para você seguir viagem e encontrar algum lugar seguro por uns dias.
Soltei uma risada baixa, amarga, sentindo o gosto do desprezo se misturar à água da chuva em meus lábios.
— Então foi isso que sobrou para mim? Umas moedas e uma ordem para desaparecer?
— Selena...
— Fica com isso.
Empurrei a mão dele de volta.
— Não preciso da piedade de ninguém.
Derek fechou os dedos ao redor da bolsa e por um momento eu vi culpa no rosto dele, o que só me fez sentir mais cansada. Eu não queria pena. Não queria consolo pela metade. Não queria restos de consideração vindos depois que minha vida tinha sido quebrada diante de todos.
— Tem mais uma coisa — ele disse, com a voz mais baixa.
Eu fechei os olhos por um instante, já sabendo que nada de bom viria em seguida.
— Fala logo.
— Logan decidiu que, a partir desta noite, você está proibida de voltar ao território da Lua Negra sem autorização dele.
Dessa vez eu não ri. Não chorei. Não fiz nada por alguns segundos, porque a dor tinha passado do ponto em que ainda conseguia se transformar em reação. Era quase como se meu corpo estivesse cansado demais para sentir outro golpe.
— Entendi.
Derek deu um passo à frente, como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas ergui a mão, impedindo-o.
— Não. Não tenta consertar isso com palavras bonitas. Você só está fazendo o trabalho que ele mandou fazer. Volta para a alcateia, Derek. Eu já entendi o recado.
Sem esperar resposta, virei as costas e recomecei a andar. Não olhei para trás. Não queria ver a expressão dele. Não queria dar a ninguém a chance de assistir mais um pedaço da minha queda.
Do alto da varanda do casarão principal, Logan observava a linha escura da floresta sendo engolida pela chuva, embora mal conseguisse distinguir a silhueta da mulher que havia acabado de expulsar da própria vida. A água fria batia no corrimão de pedra e respingava sobre as mangas da camisa negra que ele ainda usava desde a cerimônia, mas ele não se mexia. Seu pai havia tentado dizer que a decisão estava tomada e que pensar demais naquilo seria perda de tempo. Alguns membros do conselho já celebravam o fato de o vínculo ter sido rompido, como se a questão estivesse encerrada. Para todos os outros, Logan havia feito o que precisava ser feito. Apenas o lobo dentro dele não parecia concordar. Desde que Selena deixara o salão, a fera se debatia em sua mente, irritada, agressiva, recusando-se a aceitar a rejeição que o próprio Alfa impusera. Logan cerrou os dentes, apoiando as mãos na pedra úmida da varanda, enquanto tentava sufocar aquela voz instintiva que insistia em empurrá-lo na direção contrária.
— Você fez a escolha certa — disse seu pai, surgindo atrás dele. — Alguns sacrifícios são necessários.
Logan não respondeu de imediato. Continuou olhando para a mata escura, mesmo sem enxergar mais nada.
— Espero que sim.
— Ainda dá tempo de mandar esquecê-la.
Foi a primeira vez que Logan virou um pouco o rosto.
— Não.
A resposta saiu rápida demais, dura demais, como se precisasse convencer a si mesmo antes de convencer qualquer outro.
— Então sustente sua decisão — aconselhou o antigo Alfa, antes de se afastar. — Porque, depois de hoje, voltar atrás vai custar ainda mais caro.
Logan permaneceu sozinho outra vez, sentindo o próprio lobo rugir dentro dele com uma fúria que só aumentava. Pela primeira vez em muitos anos, ele não tinha certeza de estar no controle de tudo.
A pedra que marcava a fronteira do território surgiu à minha frente algum tempo depois, meio escondida entre galhos molhados e névoa baixa, e foi só quando a vi que percebi o quanto meu corpo já estava no limite. Minhas pernas tremiam, meu peito ardia e minha respiração saía curta, como se a rejeição ainda continuasse trabalhando dentro de mim, rasgando tudo aos poucos. Dei mais dois passos e precisei me apoiar no tronco de uma árvore quando uma pontada forte atravessou meu ventre e fez meu estômago revirar. Levei a mão à boca, mas não consegui impedir o gosto metálico que subiu pela garganta. Quando afastei os dedos, havia sangue misturado à chuva. Meu coração disparou de pânico.
— Não... não, por favor...
Abracei a barriga com as duas mãos, inclinando o corpo para frente, forçando o ar a entrar nos pulmões.
— Fica comigo, meu amor. Só mais um pouco. A mamãe está aqui.
O silêncio da floresta durou pouco. Primeiro ouvi galhos partindo ao longe. Depois um rosnado baixo, arrastado, tão próximo que senti os pelos da nuca se arrepiarem. Ergui a cabeça devagar e encontrei dois olhos brilhando entre as sombras. Logo surgiu outro par. E depois mais um. Três lobos enormes saíram do escuro com movimentos lentos, cautelosos, farejando o ar enquanto me cercavam. Eram renegados. Dava para reconhecer pelo estado selvagem deles, pelo cheiro forte de sangue e sujeira, pela agressividade estampada no modo como mostravam os dentes.
— Olha o que temos aqui — disse um deles, voltando à forma humana pela metade, com a voz rouca e um sorriso nojento surgindo no rosto. — Cheiro de Alfa... e de filhote.
Meu corpo inteiro entrou em alerta, mesmo fraco, mesmo com a dor me atravessando.
— Não se aproximem.
Eles riram.
— Sozinha, machucada e fora da alcateia. Que azar o seu.
Dei um passo para trás, embora soubesse que não tinha para onde correr. Tentei chamar minha loba, mas ela ainda estava ferida pelo vínculo rompido, debilitada, incapaz de responder com a força de antes. Um dos renegados avançou primeiro, rápido o bastante para me obrigar a me jogar para o lado. Caí de joelhos na lama e senti outra fisgada atravessar meu ventre, tão forte que por um segundo minha visão escureceu. Eles começaram a se aproximar de novo, percebendo minha fraqueza, saboreando o medo que eu me recusava a demonstrar.
— Não vou deixar ninguém tocar no meu filho — rosnei, mesmo com a voz falhando.
O líder dos três mostrou os dentes e flexionou o corpo para saltar, mas o movimento morreu no mesmo instante em que um uivo profundo cortou a floresta e fez o chão parecer vibrar sob nós. O som era tão poderoso que os renegados congelaram. O líder virou a cabeça para a escuridão antes de recuar um passo, e eu vi o medo surgir onde antes havia deboche. Entre as árvores, duas íris douradas apareceram primeiro, brilhando de um jeito sobrenatural na noite molhada, seguidas pela silhueta de um lobo absurdamente maior do que qualquer um que eu já tinha visto. A presença dele tomou conta do lugar inteiro. Não era apenas força. Era autoridade. Era poder bruto, antigo, esmagador. Os renegados hesitaram só por um segundo, mas foi o bastante. A criatura avançou com violência e o primeiro lobo mal teve tempo de reagir antes de ser lançado contra uma árvore. Os outros dois tentaram atacar juntos, mas o confronto foi rápido demais para meus olhos cansados acompanharem. Ouvi rosnados, gritos e o som surdo de corpos batendo no chão encharcado.
Eu tentei me levantar, tentei entender o que estava acontecendo, mas meu corpo não respondeu. Minha visão oscilou outra vez, cada vez mais turva, enquanto o gosto de sangue voltava à minha boca. A última coisa que enxerguei com clareza foi uma figura alta saindo das sombras depois que o silêncio tomou conta da floresta, parando diante de mim com aqueles mesmos olhos dourados fixos no meu rosto. Havia alguma coisa estranhamente familiar na maneira como ele me observava, mas eu já não tinha forças para pensar. O mundo girou devagar, a chuva pareceu ficar distante e, antes de cair por completo na escuridão, ainda consegui apertar a mão contra o ventre numa última tentativa de proteger meu bebê.