ANMELDENErick
Renata entrou na sala de reuniões às oito e doze da manhã. Eu sabia porque olhei para o relógio no mesmo instante em que o perfume dela atravessou o ambiente antes mesmo da sua voz. Uma mistura discreta de flores e pele limpa, leve o suficiente para não chamar atenção de ninguém — exceto a minha. Maldição. Mantive os olhos fixos nos documentos diante de mim, como se os números impressos tivessem alguma importância. Como se eu não lembrasse da noite anterior em detalhes perigosos demais. Como se eu não tivesse acordado com o lugar dela vazio na cama e uma irritação absurda cravada no peito. Ela fugira. E eu odiava o fato de ter sentido falta. — Bom dia — Renata disse, profissional, controlada, usando aquela voz de secretária impecável que sempre me irritou por parecer intocável. Levantei os olhos apenas o suficiente para encará-la. Camisa branca. Saia preta. Cabelo preso. Batom discreto. A imagem perfeita da competência. Mas eu sabia o que havia por baixo daquela postura. Sabia como ela tremia quando tentava fingir coragem. Sabia o som da respiração dela quando meu nome escapava dos seus lábios. Apertei a caneta entre os dedos. — Está atrasada — falei. O olhar dela vacilou por um segundo. Quase nada. Mas eu vi. — Dois minutos — respondeu. — Dois minutos ainda são atraso. O silêncio que caiu na sala fez dois diretores trocarem olhares discretos. Renata ergueu o queixo, ferida, mas não dobrada. Essa era a parte mais perigosa nela: a capacidade de continuar de pé mesmo quando eu pressionava. — Não vai acontecer novamente, senhor Monteiro. Senhor Monteiro. A formalidade dela bateu em mim como provocação. Durante toda a reunião, mantive distância. Dei ordens secas, corrigi relatórios, questionei números que eu normalmente aprovaria sem pensar duas vezes. Não porque ela tivesse errado. Renata raramente errava. Mas porque eu precisava criar um muro entre nós antes que minha cabeça cometesse uma estupidez maior. Ela ficou ao meu lado, anotando tudo, os dedos firmes no tablet. Nenhuma emoção no rosto. Nenhum sinal de que, horas antes, havia saído do meu apartamento como se carregasse uma culpa pesada demais para o próprio corpo. Aquilo me enfureceu. Eu queria que ela parecesse afetada. Queria que olhasse para mim e deixasse escapar alguma rachadura. Mas Renata me oferecia apenas eficiência. E isso me deixava insuportavelmente faminto por quebrar aquele controle. Quando a reunião terminou, todos saíram, um por um. Ela juntou os papéis com calma, evitando minha direção. A sala ficou silenciosa. Grande demais. Escura demais, apesar do vidro aberto para a cidade. — Renata. Ela parou. — Sim? A forma como não me chamou pelo nome fez meu maxilar travar. — Feche a porta. A mão dela hesitou por um segundo antes de obedecer. O clique da fechadura pareceu alto demais. Ela voltou a se posicionar diante da mesa, mantendo uma distância calculada. Inteligente. Perigosa. Uma mulher que sabia que eu era risco e, ainda assim, não desviava completamente. — Sobre ontem… — comecei. — Não precisamos falar sobre ontem. Soltei uma risada baixa, sem humor. — Agora você decide o que precisa ou não ser dito? Os olhos dela encontraram os meus. — Estou tentando preservar o pouco de profissionalismo que ainda resta entre nós. Profissionalismo. A palavra me irritou de um jeito irracional. Levantei devagar, apoiando as mãos na mesa. Vi a respiração dela mudar, quase imperceptível. O corpo dela lembrava de mim, mesmo que a boca insistisse em negar. — Você saiu sem se despedir. — Eu achei que era o melhor. — Para quem? Renata apertou os papéis contra o peito. — Para mim. A resposta deveria ter sido suficiente. Não foi. Contornei a mesa, e ela recuou um passo. Só um. Mas recuou. Meu orgulho gostou. Minha culpa também sentiu o golpe. — Você tem medo de mim? — perguntei. — Tenho medo do que acontece quando fico perto demais. A honestidade dela atravessou minha frieza com violência. Por um instante, eu quis tocá-la. Segurar seu rosto, apagar aquela distância, provar que o que aconteceu não tinha sido apenas desejo. Mas eu não sabia ser gentil com coisas que me atingiam fundo. Nunca soube. Então fiz o que eu sabia fazer melhor: virei gelo. — Isso não vai interferir no seu trabalho — declarou. — Não permitirei distrações dentro da minha empresa. O rosto dela empalideceu, mas os olhos ficaram duros. — Sua empresa está segura, Erick. Eu sei separar as coisas. Meu nome na boca dela foi um erro. Um golpe baixo. Uma lembrança quente demais. Aproximei-me mais um passo. — Sabe mesmo? Ela sustentou meu olhar, embora os dedos tremessem nos papéis. — Sei. Mentira. Nós dois sabíamos. O telefone da sala tocou, quebrando o momento como uma lâmina. Renata se afastou primeiro, respirando fundo, recompondo a máscara perfeita. Atendeu, anotou um recado e deixou os documentos sobre a mesa. — O senhor tem uma ligação com o conselho em dez minutos. Senhor. De novo aquela distância. Ela caminhou até a porta, mas antes de sair, parou. — Erick? Meu corpo inteiro reagiu ao meu nome. — Sim? Renata olhou por cima do ombro, linda demais para a minha sanidade. — Ontem não vai se repetir. Ela saiu sem esperar resposta. Fiquei sozinho, encarando a porta fechada, com o peito tomado por uma raiva que não era dela. Era minha. Raiva por desejá-la. Raiva por lembrar. Raiva por saber que, se Renata entrasse de novo naquela sala e me pedisse para esquecer o mundo, eu provavelmente destruiria tudo que construí só para tê-la mais uma vez. E isso era inaceitável. Porque Erick Monteiro não perdia o controle. Muito menos por uma mulher. Mas Renata já tinha começado a provar que toda regra minha podia sangrar.Renata Eu ainda sentia os olhares do salão quando a porta do apartamento se fechou atrás de nós.Mas, pela primeira vez, eles não pesavam.Durante todo o caminho de volta, uma frase de Erick ficou presa dentro de mim."Ela é minha família."Uma palavra tão pequena para uma coisa que me assustava tanto.Tirei os sapatos assim que entramos e soltei um gemido de alívio.— Nunca mais uso salto grávida.Erick afrouxou a gravata.— Eu avisei.— Você disse que eu ficaria linda.— E ficou.— Isso não é aviso.Ele riu.Eu também.A tensão do evento começou a desaparecer, mas outra ocupou o lugar.Porque Erick estava diferente.Ou talvez fosse eu.A maneira como ele tinha me defendido ainda mexia comigo. Não tinha falado por mim nem me tratado como alguém frágil. Apenas ficou ao meu lado.Quando Helena tentou me diminuir, ele não hesitou.E agora aquele mesmo homem estava diante de mim, mangas dobradas, gravata frouxa, cabelo levemente bagunçado.Bonito demais.Perigoso demais para minha paz.
Erick Eu odiava eventos corporativos.Durante anos, tinha aprendido a sorrir para pessoas que eu não suportava, apertar mãos de homens que venderiam a própria mãe por uma porcentagem maior e fingir interesse em conversas que terminavam sempre em dinheiro.Naquela noite, porém, eu precisava estar ali.Depois de tudo envolvendo Marcelo, os rumores e a instabilidade dentro da Monteiro Holdings, minha ausência seria interpretada como fraqueza.Mas eu não fui sozinho.Quando Renata apareceu na sala usando um vestido preto elegante que valorizava sua barriga já grande, esqueci por alguns segundos o nó da gravata que estava ajustando.Ela parou.— Que foi?— Nada.— Erick.— Estou olhando.Renata arqueou uma sobrancelha.— Percebi.Aproximei-me.— Você está linda.Ela alisou o vestido sobre a barriga.— Estou enorme.— Está grávida.— Uma grávida enorme.— Uma grávida linda.O canto da boca dela subiu.— Você anda perigoso com esses elogios.— Estou atrasado alguns meses.O sorriso desapare
Renata No meu sonho, não havia seguranças na porta.Não havia câmeras.Não havia Marcelo.Não havia Helena.Não havia medo.Só uma casa.Nem era uma casa enorme como as que combinavam com o sobrenome Monteiro. Era bonita, confortável, iluminada pelo sol que atravessava janelas abertas. Havia brinquedos espalhados pela sala e uma manta jogada sobre o sofá.E Erick estava no meio de tudo aquilo.Descalço.Com nosso bebê nos braços.— Assim? — ele perguntou, parecendo completamente perdido.Eu ri.— Segura a cabecinha.— Estou segurando.— Erick, você administra uma empresa inteira e está com medo de um bebê de quatro quilos?— Empresas não choram quando eu seguro errado.Ri mais alto.Ele me olhou indignado, enquanto nosso filho fazia um barulhinho baixo em seus braços.Então aconteceu.Erick sorriu para o bebê.Não aquele sorriso discreto que ele dava quando tentava esconder sentimentos.Era aberto.Feliz.Livre.Meu coração ficou cheio.Aproximei-me.Ele ergueu os olhos para mim.— V
Erick Existem momentos em que você percebe que o problema é maior do que imaginava.E existem momentos em que descobre que o problema carrega o seu sobrenome.Eu estava encarando a tela do computador pela terceira vez.O relatório continuava igual.O número do aparelho usado para enviar a mensagem anônima para Renata estava ali.Confirmado.Rastreado.Identificado.E cada linha que eu lia fazia meu estômago se revirar mais.— Tem certeza? — perguntei.César assentiu.— Verificamos duas vezes.Passei a mão pelo rosto.— Não pode ser coincidência.— Também não acho.Olhei novamente para o nome.Alberto Mendes.Um funcionário antigo.Muito antigo.Trabalhava para minha família desde antes de eu assumir a empresa.Antes mesmo de eu terminar a faculdade.Antes de eu entender como funcionava o mundo dos Monteiro.Meu maxilar travou.— Ele ainda trabalha para minha mãe?— Sim.O silêncio que tomou conta da sala foi pesado.Perigoso.Porque aquilo não provava que Helena tinha enviado a mensa
Renata A confiança era uma coisa estranha.Levava meses para nascer.Segundos para morrer.Eu estava aprendendo isso da pior forma.A manhã tinha começado tranquila. Erick saiu cedo para uma reunião importante, prometendo voltar para o almoço. Antes de sair, deixou um beijo na minha testa, outro na barriga e me fez prometer que tomaria as vitaminas.Uma cena simples.Bonita.Quase normal.Mas a normalidade nunca durava muito tempo na minha vida.Eu estava sentada na sala, organizando algumas roupinhas do bebê quando o celular vibrou.Sorri automaticamente, pensando que fosse Erick.Mas não era.Número desconhecido.Meu estômago apertou imediatamente.Abri a mensagem."Você realmente acredita que Erick Monteiro contou toda a verdade?"Franzi a testa.Li novamente."Pergunte a ele o que ainda está escondendo sobre Marcelo."Meu coração desacelerou.Depois disparou.A mensagem continuava."Todo mundo mente quando tem algo a perder."As mãos ficaram geladas.A conversa terminava ali.Sem
Erick Acordei antes do despertador.Por alguns segundos, permaneci imóvel, encarando o teto escuro do quarto enquanto tentava entender por que aquela manhã parecia diferente.Então senti.O peso leve da cabeça de Renata apoiada em meu ombro.A mão dela repousava próxima à minha sobre o cobertor. A respiração tranquila preenchia o silêncio do quarto. E, pela primeira vez em muitos anos, eu não acordei pensando em reuniões, contratos ou problemas.Acordei pensando em ficar.Virei o rosto devagar.A luz suave do amanhecer atravessava as cortinas, desenhando sombras delicadas sobre o rosto dela.Era uma cena simples.Mas mexeu comigo de um jeito que nenhuma conquista profissional jamais conseguiu.Porque aquilo parecia lar.Uma palavra que sempre existiu para outras pessoas, nunca para mim.Cresci em uma casa enorme. Cercado de luxo. Cercado de regras.Mas nunca tive isso.Nunca tive paz.Nunca tive alguém dormindo ao meu lado por escolha.Nunca tive uma mulher confiando em mim o suficie







