ANMELDENA primeira coisa que Dakota sentiu, ao acordar na manhã seguinte, foi cheiro de queimado.Abriu os olhos devagar. A luz do sol entrava pelas persianas azuis, desenhando listras douradas no teto caiado. A cama estava vazia ao lado dela, os lençóis ainda quentes. Do andar de baixo, vinha um barulho de panela, um palavrão abafado e, por fim, o apito agudo do alarme de fumaça.Ela desceu a escada de madeira descalça, com o cabelo bagunçado, e parou no último degrau.Dominic Harrington, que já comandara reuniões com trezentos diretores, estava de avental xadrez diante de um fogão minúsculo, agitando um pano de prato sobre uma frigideira que soltava fumaça preta. Dois ovos carbonizados jaziam no fundo, como evidências de um crime.— Não diga nada — avisou ele, sem se virar.— Eu não disse.— Você está rindo.— Estou respirando.— De um jeito muito debochado.Dakota não aguentou. Caiu na gargalhada, escorada no corrimão, e ele se virou com o pano na mão, o rosto manchado de fuligem, e e
O cargueiro cheirava a ferrugem, óleo e café requentado, e Dakota achou que nunca tinha visto nada tão bonito.Estava na amurada de popa, com o vento batendo no cabelo e a ilha encolhendo no horizonte até virar uma mancha verde, depois um ponto, depois nada. Dominic se aproximou por trás e a envolveu pela cintura, apoiando o queixo no ombro dela. Ficaram assim por muito tempo, sem falar, vendo a esteira branca do navio apagar o caminho.— Ela vai estar sempre lá — disse ele, por fim.— A ilha?— A gente. Do jeito que foi.Dakota sorriu e encostou a cabeça na dele. Havia algo de leve no ar, e ela decidiu não estragá-lo com perguntas.O capitão do cargueiro, um homem silencioso chamado Ferrán, deixara a cabine do rádio à disposição deles. Era só uma salinha de ferro com um telefone via satélite e uma cadeira de espaldar torto, mas, quando Dakota entrou, sentiu o coração acelerar.— Está com sinal? — perguntou Dominic, da porta.— O capitão disse que sim. Mais ou menos.— Quer que eu
A vila fez uma festa de despedida sem que ninguém pedisse.Ao entardecer, quando Dakota e Dominic desceram o morro com a mochila de lona que Dona Clara costurava, encontraram a praia tomada. Mesas improvisadas com tábuas de barco, peixe assado em folhas de bananeira, pão ainda quente, crianças correndo com flores nos cabelos. Seu Mateus recebeu-os de braços abertos, e Dakota sentiu o peito se apertar.— Cinco semanas — disse o velho, rindo. — E parece que foi um dia.— Eu nunca vou conseguir agradecer o suficiente — respondeu Dominic. Ele já tinha dito aquilo três vezes, e a voz ainda saía diferente: baixa, sincera, sem o verniz dos negócios. — Prometo que vocês terão um rádio novo. E o que mais precisarem.— O que a gente precisa o senhor já deu — disse Dona Clara, e apontou com o queixo para as crianças que rodeavam Dakota. — Alegria nova. E um exemplo.Dakota baixou os olhos, comovida. Uma menina de uns sete anos puxou a barra da blusa dela e estendeu uma coroa de flores bra
O galo cantou às cinco da manhã, e pela trigésima vez em cinco semanas Brianna Sinclair desejou ter coragem de torcer o pescoço dele.Ela puxou o travesseiro sobre a cabeça. Do outro lado da parede fina da cabana, ouviu os passos de Jackson na cozinha, o ruído da chaleira, o tilintar das xícaras. Todas as manhãs a mesma rotina silenciosa, como se o mundo fosse um relógio bem ajustado e não a prisão de madeira e feno em que ela estava confinada.Cinco semanas. Trinta e cinco dias sem uma mensagem decente, sem uma loja, sem um salão, sem um único bar com gelo de verdade. O sinal de internet só pegava sem ficar caindo, no alto da colina, perto do estábulo. A cidade mais próxima ficava a quarenta minutos de caminhonete, e tinha um supermercado, uma farmácia e uma lanchonete que servia café aguado.Isso aqui não é vida, pensava ela, todos os dias, ao abrir os olhos. É um castigo.A porta do quarto se abriu devagar.— Brianna? O café está pronto. Os cavalos já comeram, mas o Caleb dis
O barco era um pesqueiro de madeira azul, tão velho que parecia feito de remendos. Dois homens de pele curtida pelo sol o manobravam, e um deles, de barba branca e olhos miúdos, ergueu uma lanterna ao ver as fogueiras na praia.— Santo Deus! — gritou, num inglês de sotaque carregado, quase cantado. — Gente viva! Achamos que o avião tinha caído no mar!Foi assim que conheceram Seu Mateus.O vilarejo ficava do outro lado da ilha, escondido numa baía de águas verdes: umas trinta casas de pedra e telhado de palha, barcos puxados para a areia, redes secando ao sol. Não havia postes, nem antenas, nem estrada de asfalto. À noite, a luz vinha de lampiões a óleo. O único rádio, explicou Seu Mateus, quebrara em outubro, e o barco de suprimentos só passava a cada cinco semanas, quando o mar permitia.— Cinco semanas — repetiu Dominic, e Dakota viu o músculo do queixo dele saltar.— Pode ser seis, se o tempo ficar ruim — acrescentou o velho, sereno. — Mas aqui ninguém passa fome.Acomodaram
A primeira coisa que Dominic Harrington fez ao pisar na ilha foi tentar assumir o comando.Reuniu a tripulação no pé da escada, pediu o inventário de bordo e começou a distribuir tarefas em tom de reunião de diretoria. O capitão Reeves, o copiloto Marcus e a comissária Elise ouviam com a cara de quem queria acreditar que alguém sabia o que fazer.— Vamos aguardar o resgate no avião — decidiu Dominic. — O sinal de emergência será captado em poucas horas.— Senhor — arriscou o capitão —, o localizador também está mudo. Parece que o raio queimou os circuitos.— Então vamos consertá-lo.— Eu não sou eletricista, senhor.— Eu pago uma fortuna para o senhor saber de tudo.— Não para isso, senhor.Dominic abriu a boca para responder, e foi quando a voz de Dakota se ergueu atrás deles, calma como a de quem fala com um cavalo assustado.— Antes de escurecer, a gente precisa de três coisas: água, abrigo e fogo.Todos se viraram. Ela estava a alguns passos, de calça de linho enlameada até o j







