LOGIN“Existem encontros que despertam desejo. Os mais perigosos despertam lembranças.”
Existem perguntas que fazemos por curiosidade. Outras fazemos porque alguma coisa dentro de nós exige uma resposta.
Nikolai Romanov não costumava fazer perguntas a desconhecidos.
Foi por isso que o próprio som da sua voz pareceu estranho quando ele encarou a mulher parada do outro lado da sala e perguntou:
— Qual é o seu nome?
A pergunta saiu baixa e rouca, carregada por uma urgência incomum. Dmitri ergueu ligeiramente as sobrancelhas ao ouvir o tom da voz do amigo, porque havia algo ali que não combinava com o homem controlado que Nikolai costumava ser.
Irina demorou um segundo para responder, porque a intensidade com que ele aguardava aquela resposta fez parecer que ela tinha um peso que não deveria ter.
— I-Irina — disse, com a voz um pouco mais baixa do que gostaria. — Irina Petrova.
O nome pareceu permanecer suspenso entre os dois durante alguns segundos.
Nikolai repetiu aquele nome mentalmente, procurando alguma explicação para o incômodo que sentia. Mas não havia nada. Nenhuma lembrança, nenhuma conexão aparente, apenas a sensação desconfortável de estar reagindo de forma inexplicável a uma mulher que nunca tinha visto antes.
Irina Petrova era uma desconhecida. Nikolai sabia disso. Ainda assim, precisou forçar os dedos a relaxarem ao perceber que havia cerrado a mão com força, como se seu corpo estivesse reagindo a algo que sua mente não conseguia compreender.
Atrás dele, Dmitri deixou o copo sobre a mesa lateral com cuidado e passou a observar o amigo com uma atenção muito mais séria. Conhecia Nikolai havia tempo suficiente para saber que o problema não estava na funcionária, mas na reação dele, porque Nikolai Romanov não se alterava diante de ninguém, não perdia o foco sem motivo e, acima de tudo, não olhava para uma mulher como se ela tivesse acabado de atravessar uma porta que deveria permanecer fechada.
— Pode continuar — Nikolai disse por fim, recuperando parte da frieza habitual, embora o pequeno atraso na resposta já tivesse revelado demais.
Irina assentiu rapidamente e desviou o olhar antes de voltar ao trabalho. Tentou se concentrar nos materiais que organizava, obrigando as próprias mãos a se moverem com naturalidade, mas o leve tremor em seus dedos denunciava seu nervosismo. Ela odiou perceber que ainda estava consciente da presença dele do outro lado da sala, como se não conseguisse esquecer que estava sendo observada.
Nikolai voltou para perto da mesa, mas não se sentou.
Permaneceu de pé, observando cada movimento dela enquanto tentava ignorar a sensação incômoda que ela despertava, mas quanto mais tentava, mais consciente dela se tornava.
Dmitri inclinou levemente a cabeça, analisando o perfil rígido do amigo antes de soltar uma risada baixa e sem humor.
— Eu nunca vi você olhar para ninguém assim.
Nikolai lançou um olhar frio em sua direção, mas a irritação habitual parecia enfraquecida por alguma coisa. Dmitri percebeu a mudança imediatamente e teve ainda mais certeza de que aquela mulher havia provocado uma reação que o amigo não conseguia controlar nem entender.
— Descubra tudo sobre ela.
A ordem foi baixa, direta e sem qualquer hesitação.
Dmitri ficou em silêncio por um instante, como se esperasse que o amigo percebesse o absurdo do que acabava de pedir.
— Isso é sério?
Nikolai não desviou os olhos de Irina.
— Tudo, Dmitri.
A expressão de Dmitri mudou quase imperceptivelmente, mas o suficiente para revelar que ele havia compreendido. Aquilo não parecia um interesse comum. Havia algo na postura de Nikolai, na rigidez dos ombros e na atenção incomum que dedicava àquela mulher que indicava uma reação muito mais profunda do que ele próprio parecia capaz de explicar.
— Certo — respondeu, mais baixo. — Então temos um problema?
Nikolai permaneceu olhando para Irina por mais alguns segundos antes de responder.
— Não.
A voz saiu fria, mas não inteiramente firme.
— Ainda não.
Irina terminou o trabalho mais rápido do que de costume. Permanecer naquele escritório estava se tornando cada vez mais difícil. A sensação constante de estar sendo observada a deixava inquieta e, por mais que tentasse ignorar, seu coração ainda não havia voltado ao ritmo normal desde o momento em que seus olhos encontraram os de Nikolai Romanov.
Quando deixou o escritório, Irina se obrigou a continuar andando sem olhar para trás. Apenas ao alcançar o corredor vazio ela parou por um instante, levou a mão ao peito e respirou fundo, tentando entender por que uma breve conversa com um desconhecido havia sido suficiente para deixá-la tão abalada.
— O que foi isso? — sussurrou, quase sem voz.
Do outro lado da porta, Nikolai permaneceu imóvel.
O escritório voltou ao silêncio, mas já não era o mesmo silêncio de antes.
Pela primeira vez em dois anos, alguma coisa havia conseguido atravessar a muralha de indiferença que ele construiu ao redor de si mesmo, e aquilo não o deixou curioso, comovido ou esperançoso.
Deixou-o irritado.
Porque Nikolai Romanov não gostava de reações que não conseguia controlar. Muito menos de reações que não conseguia explicar.
E, no fundo, mesmo tentando negar, ele sabia que aquilo não tinha terminado ali.
Aquilo havia apenas começado.
Dmitri foi embora pouco depois, deixando para trás o silêncio que costumava ocupar o escritório sempre que Nikolai ficava sozinho. Quando a porta se fechou, ele voltou para a mesa e tentou retomar o trabalho. Abriu relatórios, respondeu alguns e-mails e obrigou a própria atenção a permanecer na tela do computador, mas a tentativa durou menos de cinco minutos.
Por mais que tentasse se concentrar, sua mente continuava voltando para a mesma pessoa.
Irina Petrova.
Naquela noite, sozinho no apartamento silencioso que pouco havia mudado desde o funeral, Nikolai permaneceu alguns minutos diante da biblioteca antes de afastar um dos painéis de madeira escura e revelar o cofre escondido atrás dele.
Fazia dois anos que não abria aquele compartimento.
Dois anos que evitava tocar em qualquer coisa relacionada àquela noite, que fingia não lembrar de detalhes que, na verdade, continuavam presos dentro dele com uma precisão cruel.
A senha foi digitada lentamente e o clique da trava soou alto demais no silêncio do apartamento.
Dentro do cofre, havia uma única caixa.
Nikolai permaneceu alguns segundos observando a caixa antes de puxá-la para fora. A tampa se abriu sem resistência, revelando fotografias, cartas e documentos que ele conhecia de cor, mas que passou os últimos dois anos evitando encarar.
Ele passou os documentos um a um até encontrar o prontuário médico da mulher que havia perdido. Então releu as informações em silêncio, mantendo uma frieza que exigia mais esforço do que gostaria de admitir, até que seu olhar se deteve em uma linha específica.
Uma única informação.
“Coração: doado.”
Nikolai permaneceu imóvel enquanto lia aquela informação novamente. E depois mais uma vez. A tensão se espalhou lentamente por seu corpo à medida que uma possibilidade impensável começava a surgir em sua mente.
Pela primeira vez desde que Irina Petrova atravessou a porta do seu escritório, a reação que teve ao vê-la deixou de parecer uma simples falha do próprio controle.
Porque, se aquele coração ainda batia em algum lugar, então talvez existisse uma explicação para tudo aquilo.
E talvez o passado não estivesse tão enterrado quanto ele acreditava.
“Há uma tranquilidade especial em ver alguém que amamos sendo amado com cuidado.”Ekaterina RostovaNikolai ajeitou o travesseiro atrás de Irina e permaneceu inclinado, esperando que ela encontrasse uma posição confortável.— Assim?— Assim está bom.Ela sorriu para ele antes de voltar o rosto para mim.Apertei sua mão.Durante o caminho até a cobertura, eu tinha imaginado situações suficientes para deixar Dmitri preocupado comigo também. Ele explicou que Irina estava melhor, que tinha comido e descansado, mas só consegui acreditar por inteiro quando a encontrei naquela cama.Agora ela usava uma camisa de Nikolai, com as mangas dobradas e os cabelos um pouco amassados pelo travesseiro.Havia um pote de sorvete sobre a bandeja.— Então foi assim que resolveram o problema? — perguntei, olhando para ele.Irina acompanhou meu olhar.— Eu almocei antes.— Ainda bem. Por um instante, achei que precisaria conversar com seu enfermeiro.Nikolai recolheu a bandeja.— Ela também comeu parte do m
“Há cuidados que nos fazem desejar ficar, mesmo depois que já nos sentimos melhor.”Irina PetrovaQuando chegamos à cobertura, o enjoo tinha diminuído, mas Nikolai continuava observando meu rosto a cada poucos passos.Deixou minha bolsa sobre a poltrona e me acompanhou até o quarto.— Quer deitar um pouco?Assenti.Sentei-me na beira da cama enquanto ele se ajoelhava para tirar meus sapatos. Apoiei a mão em seu ombro, acompanhando o cuidado com que segurou meu tornozelo antes de retirar o segundo.— Já estou melhor — falei.Ele ergueu os olhos.— Eu sei. Mas você ainda parece cansada.Nikolai se levantou e abriu o armário.— Quer uma roupa mais confortável?Olhei para a camisa que ele retirou do cabide.— Essa serve.Seu sorriso apareceu quando a colocou ao meu lado.— Vou buscar água.Troquei de roupa enquanto ele estava fora. A camisa desceu até minhas coxas, e precisei dobrar as mangas para encontrar minhas mãos. Tinha o cheiro dele.Quando Nikolai voltou, eu já estava deitada, com
“O orgulho ferido encontra justificativas até para aquilo que não consegue aceitar.”Romena VorontsovaNikolai saiu da sala de reuniões antes dos acionistas.Ergui os olhos ao vê-lo atravessar o corredor com Elena. Ele não diminuiu o passo para responder ao homem que o chamou nem pareceu ouvir a pergunta feita perto da porta.Foi direto à mesa de Irina.Eu estava com uma pasta aberta nas mãos quando ele se ajoelhou ao lado da cadeira dela.Fechei-a devagar.Irina parecia pálida. Uma funcionária estava perto, segurando um copo, e Elena se inclinou para ouvir alguma coisa que Nikolai perguntou.Não consegui distinguir as palavras, mas vi sua mão no rosto de Irina. Vi a maneira como segurou os dedos dela e permaneceu ali, à altura de seus olhos, sem se importar com as pessoas que saíam da reunião.Um dos acionistas parou a poucos passos de mim.— Aconteceu alguma coisa?— Parece que uma funcionária passou mal.Ele acompanhou meu olhar.Nikolai afastou uma mecha do rosto de Irina e o home
“Há momentos em que o que mais importa deixa de caber na agenda.”Nikolai RomanovDmitri explicava a alteração no prazo de uma operação quando Elena abriu a porta.Ergui os olhos, esperando que me entregasse algum documento. Ela entrou sem a pasta que costumava trazer e veio diretamente até mim.— Irina está passando mal — disse em voz baixa.Afastei a cadeira.— Onde ela está?— Na mesa dela. Teve uma tontura e precisou se sentar.Levantei-me antes que terminasse.Dmitri interrompeu a explicação. Um dos acionistas, sentado perto da janela, acompanhou meu movimento.— Podemos fazer uma pausa, senhor Romanov.— Preciso sair.Peguei o telefone e olhei para Dmitri.— Remarque a reunião.Ele assentiu, já fechando o documento à sua frente.— Eu resolvo.Saí com Elena, sentindo a distância até o setor aumentar a cada passo.— Ela perdeu a consciência?— Não. Está conversando, mas ficou muito pálida. Disse que estava enjoada.Olhei adiante e a encontrei.Irina estava sentada, com uma das mão
“Algumas mudanças começam discretamente, antes que saibamos o lugar que terão em nossa vida.”Irina PetrovaNaquela manhã de quinta-feira, o café tinha esfriado ao lado do computador quando terminei de conferir a última página do relatório.Salvei o arquivo e me recostei na cadeira, levando os dedos à nuca. Fazia quase uma hora que estava concentrada na mesma tabela, procurando uma diferença que, no fim, era apenas um valor lançado na coluna errada.Olhei para o relógio.Dez e vinte.Nikolai estava em uma reunião com os acionistas. Antes de entrar, tinha passado pela minha mesa e pe
“Quando procuramos uma fraqueza em alguém, até uma informação incompleta pode parecer uma vantagem.”Romena VorontsovaSaí da sala de reuniões conferindo uma anotação na última página da pasta. Precisava encaminhar dois números ao financeiro antes do almoço, e já procurava o telefone quando ouvi uma risada perto dos elevadores.Ergui os olhos.Irina estava diante de Nikolai, com uma bolsa pequena no ombro e a mão entrelaçada à dele. Dizia alguma coisa que eu não conseguia ouvir. Ele se inclinou para escutá-la, e ela sorriu antes de terminar.Diminuí o passo.







