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Entre Vinhos e Olhares

Autor: G.A.Maia
last update Fecha de publicación: 2026-09-19 12:23:59

Capítulo 5

​O bistrô escolhido por Luca tinha uma iluminação acolhedora e meia-luz, com mesas de madeira escura separadas por biombos sutis que garantiam total privacidade. Ao fundo, um instrumental suave tocava baixinho, criando uma atmosfera a anos-luz da agitação do laboratório.

Assim que se acomodaram em um canto reservado perto da adega, Luca puxou a cadeira para Valéria com um gesto natural de cavalheirismo.

— Obrigado por aceitar o convite — disse ele, sentando-se à frente dela e ajeitando o guardanapo de pano sobre o colo. — Eu prometi zero relatórios, então a primeira regra da noite é proibir palavras como "algoritmo", "diagnóstico" e "biomedicina".

Valéria soltou uma risada sincera, ajeitando uma mecha do cabelo castanho-escuro atrás da orelha. Seus olhos castanho-dourados brilhavam com uma descontração que raramente transparecia durante o expediente.

— Você está propondo um desafio difícil para duas pessoas que vivem em função disso doze horas por dia, Sr. Del Toro — provocou ela, cruzando os braços com um sorriso no canto dos lábios.

​— Desafios difíceis são os únicos que valem a pena — respondeu Luca, sustentando o olhar com seus olhos. Havia um brilho calmo e atento em sua fisionomia. — E pode me chamar de Luca, Valéria. Estamos fora do escritório.

​O garçom aproximou-se para servir as taças de vinho tinto. Luca fez questão de perguntar as preferências de Valéria antes de confirmar o rótulo, demonstrando um cuidado discreto em relação aos detalhes.

​Quando ficaram a sós novamente, o som do brinde sutil das taças selou o início da noite.

​— Devo admitir... É estranho te ver fora do terno impecável de executivo e sem uma apresentação de dados na tela — comentou Valéria, tomando um gole suave da bebida. — Na verdade, quase não sei nada sobre você além do brilhantismo da sua empresa e da parceria que você fechou com o Mateo.

​— O que você gostaria de saber? — perguntou Luca, apoiando os cotovelos na mesa e inclinando-se levemente para a frente, demonstrando interesse total nela. — Sem filtros corporativos.

​— Como você chegou até aqui? — questionou Valéria, genuinamente curiosa. — Você construiu uma das maiores empresas de tecnologia em saúde da região praticamente do zero. Sei o quanto isso exige, porque o Mateo e eu passamos por noites em claro no começo... Mas você fez isso sem o apoio de grandes herdeiros ou fundos familiares.

​Luca sorriu, balançando a cabeça devagar enquanto recordava o próprio percurso.

​— Disciplina e a teimosia de não aceitar um 'não' como resposta — explicou ele, com tom calmo. — Comecei num quarto pequeno, programando até de madrugada. Houve momentos em que pensei em desistir, mas quando você tem uma visão clara do que quer construir, o cansaço vira combustível. Você entende essa sensação melhor do que ninguém, Valéria. Eu vejo a mesma garra nos seus olhos quando você defende seus projetos na empresa.

​Valéria sentiu um calor suave no peito. Não era um elogio genérico sobre sua beleza ou uma frase clichê de flerte. Luca estava validando sua trajetória, sua inteligência e sua dedicação com uma admiração genuína.

​— É diferente quando alguém reconhece o esforço por trás da conquista — disse ela, baixando o tom de voz com uma sinceridade tocante. — Às vezes as pessoas acham que as coisas simplesmente acontecem por sorte.

​— Sorte não constrói um laboratório de referência em biomedicina — rebateu Luca, de forma firme e convicta. — Foi a sua inteligência e a sua resiliência que trouxeram aquela empresa até onde ela está. O Mateo é um excelente administrador, mas você é o coração e a mente técnica daquele lugar.

​Valéria piscou, surpresa pela clareza daquela afirmação. Por anos, no fundo do seu subconsciente, ela se acostumara a ser vista como "a companheira de equipe do Mateo", a sócia leal que estava sempre ali no fundo. Ouvir Luca colocar a luz diretamente sobre ela, reconhecendo seu valor individual, causou um impacto profundo em sua percepção.

​A conversa fluiu com uma leveza impressionante. Falaram sobre gostos musicais, viagens dos sonhos que nunca tiveram tempo de fazer, livros e pequenos episódios engraçados da juventude. Luca sabia ouvir com atenção absoluta — não interrompia, não checava o celular e mantinha o olhar fixo nela, fazendo com que Valéria se sentisse a única mulher no ambiente.

​Enquanto saboreavam a sobremesa, Luca observou a postura relaxada de Valéria e o brilho em seu olhar.

​— Você parece mais leve hoje, Valéria — comentou ele de forma suave, sem invadir o espaço dela. — Como se tivesse tirado um peso invisível dos ombros.

​Valéria olhou para a própria taça por um instante, lembrando-se da noite da festa e de toda a trajetória que a trouxera até ali. Ela deu um sorriso maduro e em paz.

​— Eu tirei — confessou ela, encarando-o nos olhos. — Passei muito tempo presa a ideias do passado, guardando coisas que deveriam ter sido ditas ou superadas há anos. Mas recentemente tomei a decisão de virar a página. Decidi que mereço viver o meu presente de verdade.

​Luca sustentou o olhar dela por alguns segundos em silêncio. Havia um entendimento mudo e profundo entre os dois naquela troca de olhares.

​— Uma decisão sábia — disse Luca, com a voz pausada e aveludada. — O presente costuma guardar coisas muito melhores do que o passado... Desde que você esteja disposta a olhar para a frente.

​— Eu estou — afirmou Valéria, com uma firmeza tranquila na voz.

​Ao final do jantar, Luca fez questão de levá-la até o carro no estacionamento do bistrô. A noite estava fria, e a brisa suave movia os cabelos de Valéria.

​— Obrigado pela companhia, Luca — disse ela, ao lado da porta do veículo, quebrando suavemente a última barreira de formalidade. — Há muito tempo eu não tinha uma conversa tão agradável e estimulante.

​— O prazer foi meu, Valéria — respondeu ele, dando um passo à frente, mantendo uma distância respeitosa, mas próxima o suficiente para que ela sentisse a presença marcante dele. — E que fique registrado: este foi apenas o primeiro de muitos jantares sem relatórios na mesa.

​Valéria sorriu, sentindo um frio sutil na barriga que há muito tempo não experimentava.

​— Vamos ver se a sua agenda permite — provocou ela, abrindo a porta do carro.

​— Para você, a minha agenda sempre terá espaço — respondeu Luca, abrindo um sorriso charmoso antes de desejar uma boa noite.

​Ao entrar no carro e ver Luca acenar antes de caminhar em direção ao próprio veículo, Valéria encostou a cabeça no banco e soltou um longo suspiro. Um sorriso involuntário surgiu em seus lábios. Pela primeira vez em anos, ela não estava pensando no Mateu. Seu pensamento estava completamente preso aos olhos azul-esverdeados de Luca e na promessa silenciosa de um novo começo.

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