INICIAR SESIÓNCapítulo 5
O bistrô escolhido por Luca tinha uma iluminação acolhedora e meia-luz, com mesas de madeira escura separadas por biombos sutis que garantiam total privacidade. Ao fundo, um instrumental suave tocava baixinho, criando uma atmosfera a anos-luz da agitação do laboratório. Assim que se acomodaram em um canto reservado perto da adega, Luca puxou a cadeira para Valéria com um gesto natural de cavalheirismo. — Obrigado por aceitar o convite — disse ele, sentando-se à frente dela e ajeitando o guardanapo de pano sobre o colo. — Eu prometi zero relatórios, então a primeira regra da noite é proibir palavras como "algoritmo", "diagnóstico" e "biomedicina". Valéria soltou uma risada sincera, ajeitando uma mecha do cabelo castanho-escuro atrás da orelha. Seus olhos castanho-dourados brilhavam com uma descontração que raramente transparecia durante o expediente. — Você está propondo um desafio difícil para duas pessoas que vivem em função disso doze horas por dia, Sr. Del Toro — provocou ela, cruzando os braços com um sorriso no canto dos lábios. — Desafios difíceis são os únicos que valem a pena — respondeu Luca, sustentando o olhar com seus olhos. Havia um brilho calmo e atento em sua fisionomia. — E pode me chamar de Luca, Valéria. Estamos fora do escritório. O garçom aproximou-se para servir as taças de vinho tinto. Luca fez questão de perguntar as preferências de Valéria antes de confirmar o rótulo, demonstrando um cuidado discreto em relação aos detalhes. Quando ficaram a sós novamente, o som do brinde sutil das taças selou o início da noite. — Devo admitir... É estranho te ver fora do terno impecável de executivo e sem uma apresentação de dados na tela — comentou Valéria, tomando um gole suave da bebida. — Na verdade, quase não sei nada sobre você além do brilhantismo da sua empresa e da parceria que você fechou com o Mateo. — O que você gostaria de saber? — perguntou Luca, apoiando os cotovelos na mesa e inclinando-se levemente para a frente, demonstrando interesse total nela. — Sem filtros corporativos. — Como você chegou até aqui? — questionou Valéria, genuinamente curiosa. — Você construiu uma das maiores empresas de tecnologia em saúde da região praticamente do zero. Sei o quanto isso exige, porque o Mateo e eu passamos por noites em claro no começo... Mas você fez isso sem o apoio de grandes herdeiros ou fundos familiares. Luca sorriu, balançando a cabeça devagar enquanto recordava o próprio percurso. — Disciplina e a teimosia de não aceitar um 'não' como resposta — explicou ele, com tom calmo. — Comecei num quarto pequeno, programando até de madrugada. Houve momentos em que pensei em desistir, mas quando você tem uma visão clara do que quer construir, o cansaço vira combustível. Você entende essa sensação melhor do que ninguém, Valéria. Eu vejo a mesma garra nos seus olhos quando você defende seus projetos na empresa. Valéria sentiu um calor suave no peito. Não era um elogio genérico sobre sua beleza ou uma frase clichê de flerte. Luca estava validando sua trajetória, sua inteligência e sua dedicação com uma admiração genuína. — É diferente quando alguém reconhece o esforço por trás da conquista — disse ela, baixando o tom de voz com uma sinceridade tocante. — Às vezes as pessoas acham que as coisas simplesmente acontecem por sorte. — Sorte não constrói um laboratório de referência em biomedicina — rebateu Luca, de forma firme e convicta. — Foi a sua inteligência e a sua resiliência que trouxeram aquela empresa até onde ela está. O Mateo é um excelente administrador, mas você é o coração e a mente técnica daquele lugar. Valéria piscou, surpresa pela clareza daquela afirmação. Por anos, no fundo do seu subconsciente, ela se acostumara a ser vista como "a companheira de equipe do Mateo", a sócia leal que estava sempre ali no fundo. Ouvir Luca colocar a luz diretamente sobre ela, reconhecendo seu valor individual, causou um impacto profundo em sua percepção. A conversa fluiu com uma leveza impressionante. Falaram sobre gostos musicais, viagens dos sonhos que nunca tiveram tempo de fazer, livros e pequenos episódios engraçados da juventude. Luca sabia ouvir com atenção absoluta — não interrompia, não checava o celular e mantinha o olhar fixo nela, fazendo com que Valéria se sentisse a única mulher no ambiente. Enquanto saboreavam a sobremesa, Luca observou a postura relaxada de Valéria e o brilho em seu olhar. — Você parece mais leve hoje, Valéria — comentou ele de forma suave, sem invadir o espaço dela. — Como se tivesse tirado um peso invisível dos ombros. Valéria olhou para a própria taça por um instante, lembrando-se da noite da festa e de toda a trajetória que a trouxera até ali. Ela deu um sorriso maduro e em paz. — Eu tirei — confessou ela, encarando-o nos olhos. — Passei muito tempo presa a ideias do passado, guardando coisas que deveriam ter sido ditas ou superadas há anos. Mas recentemente tomei a decisão de virar a página. Decidi que mereço viver o meu presente de verdade. Luca sustentou o olhar dela por alguns segundos em silêncio. Havia um entendimento mudo e profundo entre os dois naquela troca de olhares. — Uma decisão sábia — disse Luca, com a voz pausada e aveludada. — O presente costuma guardar coisas muito melhores do que o passado... Desde que você esteja disposta a olhar para a frente. — Eu estou — afirmou Valéria, com uma firmeza tranquila na voz. Ao final do jantar, Luca fez questão de levá-la até o carro no estacionamento do bistrô. A noite estava fria, e a brisa suave movia os cabelos de Valéria. — Obrigado pela companhia, Luca — disse ela, ao lado da porta do veículo, quebrando suavemente a última barreira de formalidade. — Há muito tempo eu não tinha uma conversa tão agradável e estimulante. — O prazer foi meu, Valéria — respondeu ele, dando um passo à frente, mantendo uma distância respeitosa, mas próxima o suficiente para que ela sentisse a presença marcante dele. — E que fique registrado: este foi apenas o primeiro de muitos jantares sem relatórios na mesa. Valéria sorriu, sentindo um frio sutil na barriga que há muito tempo não experimentava. — Vamos ver se a sua agenda permite — provocou ela, abrindo a porta do carro. — Para você, a minha agenda sempre terá espaço — respondeu Luca, abrindo um sorriso charmoso antes de desejar uma boa noite. Ao entrar no carro e ver Luca acenar antes de caminhar em direção ao próprio veículo, Valéria encostou a cabeça no banco e soltou um longo suspiro. Um sorriso involuntário surgiu em seus lábios. Pela primeira vez em anos, ela não estava pensando no Mateu. Seu pensamento estava completamente preso aos olhos azul-esverdeados de Luca e na promessa silenciosa de um novo começo.Capítulo 9: O Retorno dos Pais e o Olhar de FamíliaO saguão do aeroporto internacional de Verona Heights estava movimentado na noite de terça-feira. Entre o fluxo constante de passageiros e o som das malas rolando pelo piso polido, Valéria aguardava perto da saída do desembarque. Ela vestia um jeans ajustado, uma blusa de gola alta e um casaco leve, mantendo a postura serena e elegante que lhe era natural.Quando as portas automáticas se abriram mais uma vez, ela avistou os pais caminhando juntos.Roberto e Cecília vinham de mãos dadas, trocando risadas e cumplicidade. Tinham acabado de passar dez dias nas praias paradisíacas do Caribe, celebrando mais um aniversário de casamento na chamada "quinta lua de mel" do casal.— Minha filha! — Cecília abriu os braços com um sorriso iluminado assim que os olhos encontraram Valéria.As duas se abraçaram com calor e saudade. Em seguida, Roberto envolveu as duas em um abraço protetor e acolhedor, beijando o topo da cabeça da filha com cari
Capítulo 8: O Aroma das Flores e o Convite Pessoal Na manhã de sábado, o sol brilhava suavemente através da varanda do apartamento. Valéria ainda estava de roupão de seda e xícara de café na mão quando a campainha tocou. Era Valentina, de vinte e dois anos, que havia saído cedo da mansão de seus pais e trazia uma sacola com croissants frescos de uma padaria artesanal. — Eu nem esperei dar dez horas da manhã! — disse Valentina, entrando radiante e deixando os pães na bancada da cozinha. — A sua carona ontem com o Luca... Como foi? Me conta tudo! Valéria riu, servindo mais uma xícara de café para a amiga. — Foi tranquila, Tina. Ele me deixou na portaria do prédio, conversamos um pouco... — "Conversamos um pouco"? Valéria, eu vi o jeito que ele te olhava durante todo o jantar no restaurante! — provocou Valentina, sentando-se na banqueta da bancada. — O Luca é lindo, comanda uma empresa gigante e não tirou os olhos de você por um segundo sequer. Valéria olhou para a própri
Capítulo 7: O Percurso, a Intimidade e o Despertar do Corpo O jantar comemorativo havia se encerrado sob risos e um clima de dever cumprido. Pouco antes de solicitarem a conta, enquanto Mateo e Luca ajustavam alguns detalhes do transporte com o garçom, Natália levantou-se discretamente da mesa para ir ao toucador. Valéria olhou para Valentina, que lhe deu um leve aceno de aprovação com a cabeça. Sentindo que aquele era o momento perfeito para ter a conversa que havia planejado, Valéria levantou-se com passos tranquilos e seguiu até o lounge reservado que antecedia a entrada dos banheiros do restaurante. Natália estava retocando o batom diante do espelho quando percebeu a presença de Valéria através do reflexo. Ela virou-se com um sorriso gentil: — A noite foi maravilhosa, não foi, Valéria? A integração das equipes foi um sucesso. — Foi impecável, Natália — respondeu Valéria com suavidade, aproximando-se um passo. Ela manteve a postura elegante, mas seu olhar expressava tota
Capítulo 6 O café da manhã na cozinha do apartamento de Valéria começou sob o olhar curioso e o interrogatório animado de Valentina. — Sem relatórios na mesa? Um bistrô reservado? Carta de vinhos? — Valentina apoiava os queixos nas mãos, com os olhos castanho-esverdeados brilhando de empolgação. Aos seus vinte e dois anos, ela vibrava com cada novidade na vida da amiga. — Valéria, isso não foi um jantar comum de trabalho. Foi um encontro impecável! Valéria sorriu, ajeitando a xícara de chá sobre a mesa. Suas bochechas coraram levemente, mas seu olhar expressava a serenidade de quem estava aproveitando aquela nova fase. — Foi apenas uma conversa agradável entre dois profissionais que se admiram, Val — explicou Valéria com serenidade. — O Luca é extremamente inteligente e tem uma visão de mundo incrível. Ele não me tratou como "a sócia do Mateo". Ele conversou comigo de igual para igual. — E é exatamente assim que você merece ser tratada! — Valentina levantou-se da cadeira e de
Capítulo 5 O bistrô escolhido por Luca tinha uma iluminação acolhedora e meia-luz, com mesas de madeira escura separadas por biombos sutis que garantiam total privacidade. Ao fundo, um instrumental suave tocava baixinho, criando uma atmosfera a anos-luz da agitação do laboratório. Assim que se acomodaram em um canto reservado perto da adega, Luca puxou a cadeira para Valéria com um gesto natural de cavalheirismo. — Obrigado por aceitar o convite — disse ele, sentando-se à frente dela e ajeitando o guardanapo de pano sobre o colo. — Eu prometi zero relatórios, então a primeira regra da noite é proibir palavras como "algoritmo", "diagnóstico" e "biomedicina". Valéria soltou uma risada sincera, ajeitando uma mecha do cabelo castanho-escuro atrás da orelha. Seus olhos castanho-dourados brilhavam com uma descontração que raramente transparecia durante o expediente. — Você está propondo um desafio difícil para duas pessoas que vivem em função disso doze horas por dia, Sr. Del Tor
Capítulo 4: A Nova Rotina e o Convite do Luca Se a conversa na varanda havia sido a porta de saída de um passado silencioso, as semanas seguintes tornaram-se o portal de entrada para a nova vida de Valéria. Cumprindo a promessa que fizera no café, Valentina arrastou a amiga para shopping centers, renovou peças do seu guarda-roupa de trabalho e a incentivou a aceitar convites sociais. Valéria voltou a frequentar jantares, eventos do setor de biotecnologia e até aceitou dois encontros casuais organizados por conhecidas em comum. Nenhum daqueles homens fez seu coração acelerar — a maioria parecia intimidada pela sua independência ou focada em conversas superficiais —, mas o simples ato de se arrumar, sair e ser vista como uma mulher livre trouxe um brilho radiante à sua fisionomia. No entanto, o último desses encontros, em especial, rendeu uma história que arrancaria gargalhadas de Valentina no dia seguinte. O pretendente, um executivo do setor financeiro chamado Gustavo, pareci







