LOGINSalimChegamos ao Chile depois de seis meses, Helena havia dormido bastante durante a viagem, as crianças também, exceto Kalil que estava muito ansioso para a chegada, Samar veio conversando boa parte do tempo sobre negócio pendentes que Mohamed ainda não havia realizado, se Samar não fosse como meu braço direito teria deixado para que ele auxiliasse meu irmão nesses problemas, quando chegamos logo vi algumas pessoas ao redor curiosas por nossa chegada, entre elas estava alguns da família como a minha sogra, as minhas cunhadas, é incrível porque sempre que estou em família parece em festa.Tenho a sensação de paz, alegria e segurança ao mesmo tempo, Sarin foi direto para a sua tia Louise, percebi que as duas tinham muito o que conversar já que Sarin de repente voltou a ser aquela menina enrolada nas pernas da calça da sua tia, os repórteres insistiam em tirar fotos, tudo para eles era um prato cheio, desde a minha cunhada vestida de tenente com Sarin nos braços, ou a minha outra cunha
Helena—Sei amor que você só quer o meu bem! Mas quero passar a minha gestação aqui, no seu solo, na sua terra quero que este bebê passe e sinta toda a vibração deste lugar, desde as raízes de onde ele feito, será gerado. — Salim sorri e ajeita ainda mais as mexas de meu cabelo. — Ele terá tudo isso carregado em seus genes Helena, como Miguel, como Sarin e como Kalil, sua mãe é médica, sua tia também, além da sua família ser importante neste processo habibi. — Ele segura as minhas mãos olhando dentro dos meus olhos, eu sinto que ele quer me dizer algo. — O que esta acontecendo Salim, eu corro risco? — Ele muda seu olhar e nesse momento sei que eu estou em perigo. — Não acredito, Salim olha para mim. — Grito esquecendo que o filho dele esta ali na nossa cama, olho para Kalil que apenas moveu-se um pouco na cama, nino devagar até que ele sossega.— Nunca colocaria sua vida em risco apenas para me dar filhos Helena, você é mais importante do que tudo na minha vida, até que a minha próp
— Ela está grávida!Quando ouvi o diagnóstico de Tarif, senti meu coração saltar em uma alegria retumbante. Eu seria pai novamente. Contudo, ao olhar para a minha mulher deitada naquela cama, vi uma reação diametralmente oposta à de alguém que acaba de descobrir a maternidade. Confesso que uma dúvida dolorosa me assaltou naquele instante: será que ela me amava na mesma intensidade que eu a amava?— Não é possível... — foram as palavras que saíram de seus lábios.Para mim, parecia inacreditável alguém reagir assim prestes a dar à luz a uma nova vida. Talvez Helena tenha se tornado mãe cedo demais para a realidade do seu mundo e isso a tenha traumatizado. Mas eu queria que ela soubesse, sem sombras de dúvidas, que eu estaria sempre ao seu lado para ampará-la e honrar minhas obrigações de pai.Acompanhei Tarif até a saída da casa. Ele me olhava com expectativa, como se guardasse algo urgente entre os dentes. Quando chegamos ao jardim, parou e encarou-me de um jeito solene.— Pode falar,
— O luto e a perda aqui são muito diferentes, mãe. Ninguém demonstrou um pingo sequer de tristeza pela morte de Beatrice. E o Salim? Ele parece ter ganhado na loteria com a partida dela.Vejo meu esposo aparecer na porta do quarto. O cheiro denso de incenso ainda impregna toda a casa — segundo as orientações do meu sogro, é uma espécie de ritual de limpeza para que os maus espíritos e o sopro da morte não habitem conosco, para que a doença não prevaleça. Não sou fã da queima de incensos, mas, dado o propósito, não me oponho.— Habibi, nosso Ab está perguntando se você quer ir à casa de Itzar.Olho para ele, que já desviou o foco de mim e agora sorri para a minha mãe na tela do telefone.— Mãe!Confesso que acho bonito o relacionamento dos dois. Salim nem parece um árabe quando está perto da minha família — embora sua etnia, o sotaque marcante e o jeito como age sejam traços que amo nele; ele é lindo por inteiro.— Salim, quando vocês vêm? — pergunta minha mãe do outro lado da linha. —
HelenaSeis meses se passaram da pior e mais arrastada maneira que Salim poderia imaginar. O tempo parecia ter se transformado em uma tortura lenta, em que cada hora no palacete pesava como um dia inteiro. Se no início do nosso casamento meu marido já se incomodava em dividir meu tempo e minha atenção com a nossa própria família, a presença de Beatrice e do pequeno Khalil sob o nosso teto testou todos os seus limites.Sem que eu planejasse, me vi assumindo o papel de cuidadora principal de Beatrice. Acomodei seus remédios, preparei suas sopas nos dias em que a dor a impedia de engolir alimentos sólidos e amparei suas dores. Não fiz isso por submissão ou para agradar à cultura local, e tampouco por ingenuidade em relação a uma mulher que um dia tentou retomar a posição de primeira esposa; fiz por humanidade. Na minha criação, a dor de uma mãe moribunda não se ignora.Ao final daquele dia exaustivo, Salim entrou em nosso quarto visivelmente tenso, o peso dos negócios e daquela convivênci
HelenaDeixei meu sogro e Latifa acomodados na sala de estar, imersos em suas conversas e chás gelados, e me dirigi à cozinha principal do palacete. Aquele espaço, amplo e perfurado pelos aromas de especiarias do Oriente, tornou-se o meu refúgio pessoal naquele início de tarde. Apoiei sobre a bancada de mármore o pequeno caderno de páginas amareladas que eu guardava como um tesouro sagrado: o livro de receitas da minha avó Conça. Folhear aquelas anotações feitas à mão, com a caligrafia desenhada de quem atravessara décadas servindo amor em forma de alimento, trazia um conforto imediato ao meu peito.Passei boa parte da tarde ali, imersa no ritual de preparar a massa do jantar. Sovar a farinha, sentir a textura sob os meus dedos, ajustar os temperos e o ponto exato do forno era um exercício que me reconectava com o meu passado e acalmava a tempestade de pensamentos que a chegada de Beatrice havia provocado.Quando finalmente concluí o preparo e deixei a massa descansando sob o pano lim







