Home / Romance / O recomeço do coração / CAPÍTULO 5: O PERIGO DA PROXIMIDADE

Share

CAPÍTULO 5: O PERIGO DA PROXIMIDADE

Author: Juh Oliveira
last update publish date: 2026-09-04 00:55:53

O final de semana chegou trazendo um céu azul sem nuvens, e Arthur tomou uma decisão que chocou toda a sua equipe de secretárias e diretores: ele cancelou todas as suas reuniões de sábado e desligou o telefone corporativo para passar o dia exclusivamente com o filho. No entanto, o plano quase foi cancelado logo cedo, pois o pequeno Léo se recusou terminantemente a entrar no carro se Letícia não fosse junto. Ele chorava e apontava para a babá, deixando claro que ela fazia parte do seu conceito de segurança. Sem graça, vestindo uma calça jeans simples e uma blusa clara, Letícia acabou aceitando o convite insistente de Arthur para acompanhá-los a um parque ecológico mais reservado e arborizado, localizado nos arredores da cidade de São Paulo.

Longe dos muros cinzentos e minimalistas da mansão e completamente despido de suas roupas corporativas, Arthur parecia um homem totalmente diferente. Usando uma calça jeans confortável, tênis e uma camisa polo escura que realçava seu porte físico, ele corria livremente atrás do filho pelo gramado do parque. Ele ria alto, pegava Léo no colo e o girava no ar, parecendo ter esquecido por completo os problemas do escritório. Letícia caminhava um pouco mais atrás, carregando uma bolsa com mudas de roupas, água e lenços umedecidos. Ela sentia suas bochechas queimarem e o coração disparar em um ritmo frenético cada vez que os olhos cinzentos dele se desviavam do menino e a buscavam na grama, apenas para compartilhar uma risada ou um olhar de cumplicidade. Era uma sensação nova, assustadora e perigosamente viciante.

No meio da tarde, enquanto caminhavam tranquilamente perto de um lago calmo cercado por árvores nativas e patos que nadavam na beirada, Léo avistou um carrinho de sorvete de estilo antigo. O menino deu pulinhos de alegria e saiu puxando Letícia pela mão com toda a força que tinha em seus bracinhos de dois anos. Arthur foi logo atrás, observando a cena com um sorriso leve nos lábios, enquanto tirava a carteira de couro do bolso de trás para pagar pelo doce. O vendedor de sorvetes, um senhor de cabelos brancos, avental limpo e uma expressão extremamente simpática, olhou para os três se aproximando e sorriu de orelha a orelha, encantado com a cena.

— Boa tarde! Que família linda e abençoada vocês formam! — elogiou o simpático velhinho, enquanto colocava duas bolas de sorvete de morango em uma casquinha crocante. Ele olhou diretamente para Léo e depois para os dois adultos. — O menininho tem os olhos expressivos do pai e o sorriso doce e acolhedor da mãe. Dá para ver de longe o amor de vocês.

Letícia sentiu o rosto queimar instantaneamente, uma onda de calor subindo por seu pescoço até as orelhas. O pânico de parecer uma oportunista ou de que Arthur achasse que ela estava tentando se colocar em uma posição que não era sua a fez abrir a boca para corrigir o homem imediatamente, com a voz ligeiramente trêmula:

— Ah, não, o senhor entendeu completamente errado... Eu não sou a mãe dele. Eu sou apenas a...

— Muito obrigado pelo elogio, amigo. Tenha um excelente dia de trabalho — Arthur a interrompeu de repente, com a voz firme, calma e incrivelmente segura.

Antes que Letícia pudesse terminar a frase, ele estendeu a nota de dinheiro ao vendedor com um sorriso tranquilo, recusando o troco com um aceno sutil, sem esboçar o menor sinal de desconforto ou irritação com o mal-entendido.Letícia travou completamente no lugar, com os pés colados no caminho de terra do parque. Ela olhou para Arthur com os olhos arregalados, sentindo o coração bater tão forte contra o peito que teve medo genuíno de que ele ou o vendedor pudessem ouvir o som. O senhorzinho agradeceu a generosidade, pegou o dinheiro e empurrou o carrinho de sorvete em direção a outros clientes. Arthur pegou a casquinha da mão de Léo por um instante para ajudá-lo a não se sujar inteiramente, deu dois passos para trás e parou exatamente ao lado de Letícia. A proximidade física era tanta que ela conseguia sentir o calor do corpo dele. Arthur se inclinou levemente para frente, aproximando os lábios do ouvido dela, e sussurrou em um tom confidencial:

— Não achei que fosse necessário estragar o dia do senhorzinho corrigindo-o, Letícia. E para ser completamente sincero com você... eu gostei muito do modo como soou. Ficou bem em nós.

O hálito quente dele contra a pele sensível do seu pescoço enviou uma descarga elétrica violenta direto para a espinha de Letícia, fazendo suas pernas fraquejarem por um breve segundo. Ela engoliu em seco e continuou andando apressadamente, fixando os olhos estritamente na trilha de terra à frente, tentando de todas as formas disfarçar o impacto avassalador e devastador daquela confissão. Arthur Montenegro estava jogando um jogo extremamente perigoso com ela, e Letícia sabia que, se não impusesse limites profissionais rígidos o quanto antes, acabaria entregando àquele homem a única coisa que ainda lhe restava proteger com unhas e dentes: o seu próprio coração.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • O recomeço do coração    CAPÍTULO 32: O INÍCIO DO PROCESSO

    A manhã de quarta-feira nasceu com uma luz mansa que parecia iluminar os novos horizontes da mansão Montenegro. Conforme o combinado na noite anterior, Arthur não foi para a sede da holding na Faria Lima logo cedo. Ele permaneceu trancado em seu escritório residencial desde as sete da manhã, acompanhado por Letícia e por dois advogados seniores de seu setor jurídico pessoal, especialistas em direito de família e processos de adoção legal no Estado de São Paulo.A mesa de vidro maciço estava coberta por pastas de documentos, certidões fiscais da holding e os relatórios estatutários da Fundação Montenegro de Amparo à Infância. Arthur mantinha sua postura de comando firme, mas seus olhos cinzentos transmitiam uma calma que acalmava o coração de Letícia a cada segundo.— O processo de adoção legal no Brasil possui trâmites rígidos e auditorias psicossociais detalhadas, Sr. Montenegro — o advogado sênior explicou, ajeitando os óculos enquanto analisava os papéis. — No entanto, o fato de a

  • O recomeço do coração    CAPÍTULO 31: A FORÇA DE UMA ESCOLHA

    Quando o utilitário blindado estacionou na garagem subterrânea da mansão naquela noite, Letícia permaneceu sentada no banco do passenger por alguns minutos, segurando contra o peito o desenho do mar calmo que Pedro havia ajudado a pintar. Sua mente estava completamente obscurecida pela imagem dos olhos castanhos e melancólicos daquele garotinho de quatro anos. Ela subiu as escadas lentamente e encontrou Arthur em seu escritório residencial, revisando alguns relatórios de auditoria na mesa de vidro.Ao erguer os olhos cinzentos e perceber o semblante profundamente reflexivo e os olhos marejados de Letícia, Arthur largou a caneta no mesmo instante e levantou-se da cadeira de couro, caminhando na direção dela com passos rápidos.— O que aconteceu, meu amor? A visita ao abrigo hoje trouxe lembranças dolorosas demais para o seu coração? — ele perguntou, a voz grave carregada de uma preocupação imediata enquanto segurava as mãos dela, sentindo-as frias.Letícia negou com a cabeça, desabando

  • O recomeço do coração    CAPÍTULO 30: O MENINO DO MOLETOM VERMELHO

    A calmaria que se seguiu à noite de gala no Palácio dos Bandeirantes trouxe um ritmo novo e revigorante para a mansão Montenegro. Com a documentação do prêmio de inovação social oficialmente entregue e o orçamento da fundação blindado contra as investidas de Otávio, Letícia finalmente tinha os recursos necessários para colocar o Projeto Recomeço em plena expansão. Duas vezes por semana, ela deixava o campus da faculdade de psicologia e, acompanhada por Marcos e uma equipe de assistentes sociais dedicados, passava as tardes coordenando as primeiras oficinas de arteterapia nos abrigos públicos parceiros da periferia de São Paulo.Em uma tarde de terça-feira, sob um céu cinzento que ameaçava desabar em chuva a qualquer momento, Letícia retornou ao Lar Esperança, a instituição de acolhimento onde passara toda a sua infância. O imenso pátio interno e o refeitório amplo, antes marcados por um silêncio institucional e frio, estavam transformados. Mesas compridas haviam sido forradas com plás

  • O recomeço do coração    CAPÍTULO 29: O RETORNO DA VITÓRIA

    O trajeto de retorno para a mansão no Jardim Europa após o encerramento da recepção oficial no palácio governamental foi feito sob uma atmosfera de leveza e libertação absoluta que a nova família nunca havia experimentado antes. Letícia permanecia sentada no banco de couro do utilitário blindado, segurando a placa de bronze do prêmio sobre o colo com as duas mãos, olhando fixamente para a paisagem noturna da cidade de São Paulo através do vidro escuro do passageiro. No entanto, sua mente não estava focada nos aplausos das autoridades ou nos flashes dos fotógrafos que haviam cercado a rampa de saída; seus pensamentos estavam inteiramente voltados para a figura de Arthur, que dirigia o veículo com uma postura relaxada e exibia um semblante de pura paz e felicidade real no canto dos lábios. Quando o carro finalmente cruzou os portões de ferro fundido da mansão e estacionou na garagem subterrânea com o clique metálico do motor sendo desligado, a bolha de isolamento e formalidades do even

  • O recomeço do coração    CAPÍTULO 28: A NOITE DOS BANDEIRANTES

    A noite da grande cerimônia de premiação no Palácio dos Bandeirantes chegou trazendo um vento sutil que parecia intensificar a expectativa que flutuava pelos cômodos da mansão. No quarto de hóspedes do segundo andar, Letícia encontrava-se de pé diante do espelho de corpo inteiro, ajustando os últimos detalhes de sua vestimenta com a ajuda atenciosa de Olga. Arthur havia feito questão de acionar pessoalmente o mesmo estilista de alta costura dos Jardins para desenhar um modelo exclusivo para a ocasião: um vestido longo de seda pura na cor verde-esmeralda, com um corte minimalista, clássico e de uma elegância aristocrática impecável. O tecido caía de forma fluida até o chão de madeira, destacando sua silhueta jovem com uma sofisticação discreta que não precisava de exageros para se fazer notar. Seus longos cabelos castanhos estavam presos em um coque frouxo e elegante, deixando algumas mechas livres para emoldurar o rosto corado. No pescoço, o colar de brilhantes discretos brilhava suav

  • O recomeço do coração    CAPÍTULO 27: O CONVITE DO PALÁCIO

    A rotina na mansão Montenegro havia encontrado um equilíbrio bonito e vibrante. A presença de Léo enchia as tardes com o som de carrinhos batendo pelo tapete emborrachado e passos rápidos pelo jardim dos fundos. Letícia dividia suas horas com uma precisão cirúrgica entre as leituras densas de introdução à psicologia clínica e a gestão diária da recém-criada fundação social. O impacto das oficinas de arteterapia que ela havia implementado nas semanas anteriores no Lar Esperança já começava a render frutos, transformando a atmosfera fria daquela instituição e trazendo sorrisos para os rostos de tantas crianças desamparadas. Arthur cumpria rigorosamente a promessa de se manter o mais próximo possível desse universo; ele passava os finais de tarde revisando os relatórios de orçamento do comitê social em seu escritório residencial, garantindo que o patrimônio da holding estivesse blindado por lei contra qualquer tentativa de boicote vinda de seu pai, Otávio, ou da velha guarda de acionist

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status