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Não acredito.
Leio o convite pela terceira vez, como se as letras fossem se reorganizar e revelar que entendi tudo errado.
Não vão se casar tão cedo. Não é possível.
Quer dizer, eu sabia que isso poderia acontecer. Camilla e Alex namoram há pouco mais de um ano, e casamento é uma consequência perfeitamente normal quando duas pessoas decidem passar o resto da vida juntas.
Mas tão rápido?
— Eu ainda não acredito que vou me casar! — Camilla anuncia, praticamente saltando na cadeira à minha frente. — Liv, você viu a data? Vai ser perfeito!
Levanto os olhos do convite.
Ela está sorrindo daquele jeito que sempre me faz sorrir junto, mesmo quando não tenho a menor ideia do que está acontecendo. As bochechas estão coradas, os olhos brilham e ela parece prestes a explodir de tanta felicidade.
Quero sentir a mesma coisa.
De verdade.
— Cami, estou muito feliz por você.
Minha irmã se inclina sobre a mesa, apoiando os cotovelos perto do meu prato.
— Você está mesmo?
A pergunta me pega desprevenida.
— Claro que estou. Por que não estaria?
— Porque você está olhando para o convite como se ele tivesse acabado de anunciar a minha morte.
Olho novamente para o papel.
Talvez ela tenha razão.
— Estou tentando processar a informação. Você estava namorando ontem e hoje já quer organizar uma cerimônia inteira.
— Eu não estava namorando ontem, Olivia. Estou com Alex há mais de um ano!
— Para mim, foi ontem.
Ela revira os olhos, rindo.
— Você é impossível.
— E você é muito nova para casar.
A frase escapa antes que eu consiga pensar melhor.
O sorriso dela diminui um pouco.
Droga.
Era exatamente esse tipo de comentário que eu queria evitar.
— Liv, eu sei que você está preocupada. Mas eu amo o Alex. E quero me casar com ele.
Olho para minha irmã por alguns segundos.
Camilla sempre foi assim. Quando quer alguma coisa, quer de verdade. Não fica analisando vinte possibilidades, imaginando tudo o que pode dar errado ou procurando sinais de que deveria desistir antes mesmo de começar.
Ela simplesmente vai.
Às vezes, tenho inveja disso.
— Eu sei — respondo, mais baixo. — Só quero que você tenha certeza.
— Eu tenho.
Ela estende a mão por cima da mesa, e seguro seus dedos.
Quero dizer que ninguém tem tanta certeza assim. Que amar alguém não garante que essa pessoa vai continuar amando você. Que planos podem desmoronar de uma hora para outra, mesmo quando você acredita ter feito tudo certo.
Mas olho para o rosto dela e engulo as palavras.
Camilla não precisa que eu transforme o anúncio do casamento em uma palestra sobre as tragédias possíveis de um relacionamento.
Ela precisa da irmã.
Então respiro fundo e sorrio.
— Eu desejo toda a felicidade do mundo para você. E te amo muito, muito mesmo.
Os olhos dela ficam marejados.
— Ah, Liv...
— Mas preciso deixar uma coisa bem clara.
Ela solta uma risadinha desconfiada.
— Lá vem.
— Se, por algum acaso do destino, você precisar de mim... se alguma coisa der errado ou se, no dia do casamento, você perceber que não é mais isso que quer, eu vou estar aqui. Entendeu?
Aperto sua mão.
— Não importa o que aconteça. Você pode contar comigo.
Camilla me encara por um instante antes de se levantar e me abraçar por cima da mesa.
— Eu te amo tanto. E sei que você não hesitaria em cortar as bolas do Alex se ele me fizesse sofrer.
— Com certeza.
— Mas casar com ele é tudo o que eu quero. Vai dar certo, Liv.
Ela se afasta, segurando meus braços, e me olha com uma expressão que conheço bem.
É quase como se estivesse dizendo: Ele não é o Josh.
Meu estômago se contrai.
Desvio os olhos para o convite.
É claro que não é o Josh. Alex é o primo dele, e, pelo que conheço dos dois, são completamente diferentes.
Ainda assim, o pensamento me atinge de um jeito que eu gostaria de evitar.
Faz cinco meses.
Cinco meses desde que meu noivo decidiu que estava apaixonado por outra pessoa. Cinco meses desde que precisei aprender a respirar normalmente enquanto tentava entender como alguém podia planejar um casamento comigo e, de repente, decidir que queria outra vida.
Cinco meses tentando convencer a mim mesma de que estou bem.
E agora vou assistir à irmã mais nova se casar com o primo do homem que me deixou.
A vida tem um senso de humor péssimo.
— Ah, antes que eu esqueça — Camilla diz, voltando a se sentar. — Coloquei uma senha extra no seu convite.
Franzo a testa.
— Uma senha extra?
— Para você levar alguém, se quiser.
Ela dá de ombros, como se estivesse oferecendo uma sobremesa.
— Sei que você não está namorando, mas já faz meses que está solteira. E o Josh vai estar lá com a noiva...
Ela não termina a frase.
Não precisa.
Você não precisa aparecer sozinha enquanto ele está feliz com outra pessoa.
É isso que escuto.
Talvez não seja o que ela quis dizer. Camilla pode estar apenas tentando me ajudar. Mas a ideia de encontrar Josh, sorrindo ao lado da mulher por quem me trocou, enquanto eu fico sozinha em uma mesa cheia de casais felizes, faz meu peito apertar.
Não quero que ele pense que ainda estou sofrendo.
Muito menos que sinta pena de mim.
— Ah, não precisava se preocupar. Eu tenho saído com uma pessoa...
Meu Deus.
O que foi que eu acabei de dizer?
Camilla arregala os olhos.
— Sério?
Tarde demais para voltar atrás.
— Não é nada tão sério. Por isso não comentei antes — acrescento, tentando parecer casual. — Mas agradeço o convite extra.
Dou uma piscadela, como se tivesse acabado de revelar um segredo divertido, e não inventado um relacionamento inteiro em menos de três segundos.
Ela parece acreditar. Ou talvez esteja ocupada demais tentando conter a própria empolgação para perceber que acabei de mentir descaradamente.
— Meu Deus, Liv! Você precisava ter me contado!
— Não achei que fosse uma informação tão importante.
— Você está saindo com alguém e não me contou? Isso é, literalmente, uma informação importantíssima!
Pego meu copo e bebo um gole para ganhar tempo.
— Você estava ocupada ficando noiva.
— E você estava ocupada escondendo um homem!
— Não estou escondendo ninguém.
Tecnicamente, não estou. É difícil esconder alguém que não existe.
Camilla estreita os olhos, mas logo abre um sorriso.
— Tudo bem. Vou deixar você contar quando estiver pronta.
Ótimo.
Agora, além de inventar um namorado, preciso fingir que existe alguma razão para não apresentá-lo imediatamente.
— Obrigada pela compreensão.
Ela pega o cardápio de sobremesas, aparentemente satisfeita com a minha resposta. Eu, por outro lado, já consigo sentir a dor de cabeça se aproximando.
O pior vem alguns minutos depois, quando ela pergunta:
— Não tem problema se eu contar para mamãe que você vai levar alguém, né?
Paro com a colher a caminho da boca.
— Por quê?
— Porque ela estava preocupada com você estar sozinha no casamento. Acho que vai ficar mais tranquila sabendo que você tem companhia.
Engulo a sobremesa com dificuldade.
Minha mãe.
Claro.
Porque uma mentira nunca vem sozinha. Ela sempre traz a família inteira para participar.
— Ah... claro. Pode contar.
— Ótimo! — Camilla sorri. — E qual é o nome dele? Quando vamos conhecê-lo?
Olho para ela.
Depois para a sobremesa.
Depois para ela novamente.
— Você quer o nome para poder investigar a vida dele ou para fazer uma entrevista de emprego?
— Os dois.
— Então vocês vão conhecê-lo no casamento.
— Você sabe que mamãe vai querer conhecê-lo antes, né?
Merda.
Minha mãe vai acabar com a minha paz assim que descobrir que estou supostamente namorando alguém. Vai querer saber o nome, a profissão, a idade, onde nos conhecemos e, provavelmente, se ele pretende se casar algum dia.
E eu não tenho nem um primeiro nome para oferecer.
Respiro fundo, tentando manter a expressão tranquila.
— Preciso ver com ele. Você sabe como minha agenda é complicada. A dele também. Não posso garantir nada.
Camilla aceita a resposta com um aceno.
— Tudo bem. Mas me avisa quando vocês puderem jantar conosco.
— Aviso.
Sorrio.
Ela sorri de volta.
E, naquele momento, percebo que acabei de criar um problema que não faço a menor ideia de como resolver.
***
O restaurante fica perto do meu trabalho. Depois de me despedir de Camilla, caminho até o escritório tentando convencer a mim mesma de que a situação não é tão grave quanto parece.
Tudo bem. É apenas um casamento.
Tenho alguns meses para encontrar alguém disposto a me acompanhar, conhecer minha família e fingir que gosta de mim durante algumas horas.
Não deve ser tão difícil.
Pelo menos é o que digo a mim mesma enquanto me sento à mesa, apoio os cotovelos na superfície e escondo o rosto entre as mãos.
Porque, quando penso no casamento de verdade, no momento em que vou entrar naquele salão e encontrar Josh com a nova noiva, a minha tranquilidade desaparece.
As feridas ainda são recentes demais.
Eu gostaria de dizer que já superei tudo. Que não me importo mais com o que aconteceu, que não penso nele quando vejo um casal trocando alianças ou quando alguém menciona casamento.
Mas seria mentira.
E, considerando a quantidade de mentiras que acabei de contar hoje, acho melhor não acrescentar mais uma à lista.
Fecho os olhos.
Cinco meses atrás, eu ainda acreditava que me casaria com Josh.
Cinco meses atrás, eu ainda acreditava que algumas coisas eram seguras.
Então, na manhã da minha prova da Ordem dos Advogados, ele apareceu à minha porta e acabou com tudo.
***
Cinco meses antes
Abro a porta do apartamento com um sorriso.
— Josh? O que você está fazendo aqui?
Por um segundo, penso que ele veio me desejar boa sorte. Talvez tenha lembrado da prova e decidido aparecer antes de eu sair. A ideia me deixa feliz o suficiente para esquecer o nervosismo por alguns instantes.
Mas ele não sorri.
— Precisamos conversar. Sério. Agora.
Meu sorriso desaparece.
Ele entra no apartamento sem esperar que eu o convide, e fecho a porta atrás dele.
— Josh, eu vou fazer a prova da Ordem daqui a pouco. Não podemos conversar depois?
Estou nervosa desde que acordei. Passei semanas estudando, mal consegui dormir na noite anterior e sinto que meu cérebro está prestes a desligar a qualquer momento.
A última coisa de que preciso é uma conversa séria antes da prova.
Ele passa a mão pelo rosto.
— Merda. Eu tinha esquecido.
Por um instante, parece arrependido. Quase penso que vai pedir desculpas e dizer que podemos conversar mais tarde.
Mas sua expressão muda.
Ele parece ter tomado uma decisão.
— Eu... — Respira fundo. — É melhor arrancar o band-aid de uma vez.
Franzo a testa.
— Arrancar o quê?
Josh me encara.
— Nós precisamos terminar.
Fico em silêncio.
Não porque esteja tentando encontrar uma resposta inteligente. Não porque queira fazer uma cena.
Simplesmente não entendo o que ele acabou de dizer.
Terminar?
Nós?
Olho para ele, esperando que explique. Que diga que está brincando, que houve algum mal-entendido ou que está falando de outra coisa.
Mas ele não diz nada.
O relógio na parede parece alto demais.
Tenho uma prova daqui a algumas horas. Preciso revisar os últimos tópicos, tomar um banho e sair de casa. Não tenho tempo para processar uma separação agora.
Não posso processar uma separação agora.
— Tudo bem — digo, por fim. — Podemos conversar sobre isso depois.
Josh franze a testa.
— Liv...
— Não, sério. Eu vou fazer a prova, vou passar e, quando você acordar dessa sua vontade maluca de terminar o nosso relacionamento, a gente conversa.
Tento sorrir.
Até faço uma pequena brincadeira, como se isso pudesse transformar o que está acontecendo em algo menos absurdo.
Ele não ri.
— Eu conheci outra pessoa.
A frase me atinge com mais força do que a anterior.
Por alguns segundos, não consigo pensar em nada.
Depois olho para o relógio novamente.
— Meu Deus, eu vou fazer uma prova agora, caralho.
É a única coisa que consigo dizer.
Estou prestes a fazer a prova que pode mudar minha carreira. Tenho passado noites acordada estudando, revisando artigos e tentando controlar a ansiedade. Estava nervosa o suficiente antes de ele aparecer.
E agora meu noivo está terminando comigo porque conheceu outra pessoa.
Outra pessoa.
Nós estávamos noivos. Estávamos discutindo quando casar, onde morar, como seria nossa vida depois que eu passasse na prova.
Ele quis isso. Ele me pediu em casamento. Eu não o obriguei a colocar um anel no meu dedo.
E agora tudo acabou antes mesmo de eu conseguir colocar os sapatos.
— Você está falando sério? — pergunto, finalmente.
Josh baixa os olhos.
Isso é resposta suficiente.
Sinto alguma coisa se partir dentro de mim, mas não tenho tempo para descobrir exatamente o quê. Estou com raiva, triste e tão nervosa que minhas mãos começam a tremer.
— Quer saber? Vai para o inferno, Josh.
Ele tenta dizer alguma coisa, mas levanto a mão.
— Não. Não quero ouvir. Você não podia esperar mais quatro horas? Quatro horas! Era só isso que eu estava pedindo.
Minha voz falha no final.
Odeio isso.
Odeio que ele esteja aqui, que tenha escolhido justamente aquela manhã, que tenha conseguido transformar um dia importante em uma lembrança que provavelmente vou carregar por muito tempo.
E odeio, principalmente, que uma parte de mim ainda queira que ele diga que se arrependeu.
Mas ele não diz.
Josh vai embora, e eu fico parada no meio da sala, olhando para a porta fechada.
Tenho uma prova para fazer e não posso desmoronar agora. Então faço a única coisa que consigo: vou ao banheiro, lavo o rosto e tento respirar até minhas mãos pararem de tremer.
Não me lembro de como terminei de me arrumar. Não me lembro do caminho até o local da prova. Só me lembro de repetir para mim mesma que precisava continuar, porque, se havia uma coisa que eu não permitiria que Josh levasse embora, era o futuro pelo qual tenho lutado tanto.
O elevador começou a descer e, antes que as portas se abrissem no estacionamento, meu celular vibrou dentro da bolsa com uma mensagem da minha mãe.“Pode me ligar quando estiver livre?”Suspirei ao ler a notificação.Minha mãe tinha uma relação bastante particular com a palavra livre. Na cabeça dela, “livre” significava qualquer momento em que eu não estivesse segurando alguma coisa com as duas mãos. E, mesmo nesses casos, ela provavelmente consideraria que eu poderia usar o ombro para apoiar o telefone.— Tudo bem se eu ligar para minha mãe enquanto vamos ao restaurante? — perguntei a Lewis, segurando o celular na palma da mão. — Ela é um pouco insistente.Ele olhou para mim de lado.— Claro. Desde que não se importe comigo ouvindo a conversa.— Ah, não. Provavelmente é alguma besteira.Apertei o botão para ligar antes que pudesse mudar de ideia. Minha mãe atendeu no segundo toque.— Olha só quem está viva!Fechei os olhos por um instante.— Oi, mãe.— Você ainda está trabalhando?—
Passei o dia sem encontrar com Lewis, e se alguém me perguntar se eu o estava evitando, vou negar até a morte.O encontrei na copa com Mason, e troquei de rota. Depois o vi entrar na sala da Maia, bem quando eu ia falar com ela, e desisti na hora. E tenho quase certeza que ele tentou falar comigo na hora do lanche da tarde, mas eu saí de fininho como a grande covarde que sou.Às cinco e quarenta da tarde, eu já tinha lido o mesmo parágrafo de uma petição quatro vezes sem entender uma palavra.Não era culpa do texto. O texto estava ótimo. Claro, objetivo e sem qualquer referência a namoros falsos, ex-noivos infiéis ou beijos impulsivos em restaurantes.Uma obra-prima da literatura jurídica.Meu celular vibrou ao lado do teclado.Lewis: Sala de reuniões. Cinco minutos.Olhei para a mensagem, depois para o relógio.Eu: Você sempre dá ordens assim ou isso faz parte do pacote de namorado?A resposta chegou antes que eu pudesse guardar o celular.Lewis: Quatro minutos.Revirei os olhos.O h
À meia-noite, mandei uma mensagem para Julie dizendo que precisava conversar com ela pessoalmente. O quanto antes.Às seis da manhã, ela apareceu na minha porta com café, donuts e a expressão de quem estava prestes a descobrir o maior escândalo da semana.Minha casa nem fica no caminho do trabalho dela, mas Julie nunca economizou esforços quando o assunto era se meter na minha vida.Eu a amo por isso.Na maioria das vezes.— Certo. Deixa eu ver se entendi. — Ela se senta no sofá, ainda mastigando um donut. — Você surtou na frente do Josh, beijou Lewis, que, vale lembrar, é alguém de quem você não gosta e que também não parece gostar de você… e agora vocês estão namorando de mentira?Fico olhando para o cappuccino entre minhas mãos.Quando ela coloca dessa forma, parece ainda pior.— Resumindo, sim.Julie mastiga devagar, como se estivesse tentando decidir se ri ou se chama uma ambulância.— Meu Deus, Liv.— Eu sei.— Não, você não sabe. Se soubesse, não teria feito isso.— Obrigada pe
O primeiro encontro foi horrível, odiei cada minuto. Mas imaginei que o segundo seria melhor... Acontece que o segundo também é um desastre.O restaurante é aconchegante demais para uma noite tão ruim. Luz âmbar, velas baixas nas mesas, um violão suave tocando em algum canto, cheiro de pão quente e alho. Um cenário que pede conversas longas e olhares demorados. Em vez disso, estou presa há quarenta minutos a um monólogo sobre placas de vídeo.Evan tem trinta anos e é bonito, não dá para negar. Cabelo escuro bem cortado, camisa azul-marinho de bom caimento, um relógio discreto no pulso. O problema é que, em menos de dez minutos, descobri que a paixão dele por computadores e jogos não desperta em mim absolutamente nada além de vontade de conferir as horas.Ele gesticula enquanto fala, os dedos desenhando no ar algo que imagino ser uma arquitetura de processador. Eu apoio o queixo na mão e assinto no que espero ser os momentos certos.— ...e aí a atualização quebrou tudo, porque eles mex
Entrei no escritório naquela manhã com a sensação de que havia cometido um pequeno delito.A culpa era de um batom vermelho e de um encontro depois do expediente que revirava meu estômago desde a noite anterior.O batom era daqueles que não passam despercebidos. Exigem confiança e, principalmente, coragem para não acabar removido com um guardanapo antes do almoço. Só o passei porque a Jullie insistiu até eu ceder. Combinava com a blusa preta de gola alta, a saia off white de alfaiataria que marcava minha cintura e os saltos que eu reservava para dias em que precisava parecer mais confiante do que realmente me sentia.Aquele dia tinha um motivo. E, se tudo desse certo, ninguém ali precisaria saber qual.— Meu Deus.Mal havia pousado a bolsa na cadeira quando a voz de Maia soou às minhas costas.— O quê? — perguntei, virando-me.Ela estava parada na entrada, com uma caneca de café na mão e a expressão de quem acabara de encontrar uma fofoca e decidia por onde começar.— Você está vestid
Assim que consigo sair dessa espiral depreciativa, pego o celular e mando uma mensagem para Julie.Olivia: adivinha quem acabou de receber um convite de casamento da irmã com direito a acompanhante que não tem? uhuu!Ela responde quase imediatamente.Julie: NÃO BRINCA.Julie: Você não pode aparecer lá sozinha. O que você falou pra sua irmã?Olivia: Eu disse que estava saindo com alguém. NÃO PRECISA FALAR NADA, EU SEI. ENTREI EM PÂNICO.Largo o telefone na mesa antes que ela tenha tempo de responder. Conhecendo Julie, isso pode levar a uma conversa bastante longa, e tenho documentos da conciliação de divórcio que vou conduzir no fim da tarde para analisar.Eu odeio divórcios. São o tipo de processo em que prefiro não me envolver, embora nem sempre tenha esse luxo. De vez em quando, especialmente quando o volume de demandas aumenta, acabo tendo que assumir alguns. E, bom, não dá para escolher só os casos agradáveis da profissão.Estou tentando me concentrar nos documentos quando a tela







