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23 Algo que precisa ser feito...

last update publish date: 2021-11-01 02:35:25

Michel

Não sei ao certo quando parei de pensar em Thomas, talvez tenha sido quando me senti mais confortável em relação a minha relação com Christophe, ou quando comecei a me sentir mais confortável comigo mesmo. O que posso dizer é que provável tenha sido uma junção de ambos, e no fim, eu estava me sentindo mais feliz, as consultas com a psicóloga estavam mais espeçadas, visto que antes eu a visitava duas vezes por semana, e já não sentia nenhuma necessidade dos medicamentos para melhorar meu humor, finalmente, eu conseguia tirar a felicidade das pequenas coisas em meu cotidiano: o gatinho que adotei após encontrar perdido na rua, a estabilidade no meu trabalho, ou apenas em ficar próximo a Christophe enquanto estudávamos juntos.

E aquele era um desses dias em que passava o fim de semana em sua casa. Ele estava sentado no chão da sala com algumas pilhas de provas ao seu redor, e quanto a mim, estava sentado ao seu lado, lendo um livro enquanto repousava as pernas sobre as dele, daquele ângulo, eu podia ver seu rosto sereno enquanto lia as respostas escritas por seus alunos.

De repente, virou-se para mim, talvez por se sentir observado e sorriu de canto enquanto retirava seus óculos de grau. Inclinou-se em minha direção, acariciando as minhas pernas antes de colar os lábios aos meus, apenas um selinho singelo antes de afastar-se e apoiar o corpo em um dos braços, usando a mão livre para remexer em meus cabelos, aparentemente, ele gostava muito da cor.

– Você estava tão quietinho que quase esqueci da sua presença... – Comentou enroscando os fios arruivados em seus dedos. – Aliás, como está indo no trabalho novo?

– Penso que esteja indo bem... – Respondi voltando meus olhos para seus braços musculosos, pensando se conseguiria reproduzir em desenho. – Izzy está me incentivando a criar meu próprio projeto, então estou bem animado.

– É um bom começo, parabéns! Christophe elogiou sincero.

Ele parecia prestes a falar alguma coisa, porém, o som de seu celular vibrando chamou sua atenção, sentou-se corretamente, saindo de cima de mim, e pegou o aparelho, fazendo uma expressão de quem estava estranhando aquela ligação. De repente, ergueu-se do chão, retirando com cuidado minhas pernas de cima das suas e caminhou pela sala conversando com alguém do outro lado da linha, o seu incomodo era óbvio, e não parecia estar gostando em nada do que ouvia.

– Sabe que precisa me avisar com antecedência... – Ele reclamou um tanto grosseiro, soltou o que parecia ser um palavrão em outro idioma, e respirou fundo duas vezes antes de continuar a conversa. – Eu sei, eu sei... põe ela na linha, por favor.

Eu ouvia aqueles fragmentos de conversa cheio de curiosidade, ansioso para descobrir quem seria a mulher com quem ele estava falando, e ficando até com um pouquinho de ciúmes, sensação que se intensificou ainda mais quando vi sua expressão suavizar e um leve sorriso surgir em seu rosto enquanto conversava, ao que parecia, com outra pessoa.

– O que aconteceu, querida? Perguntou esfregando as têmporas com a mão livre.

Nesse momento, eu poderia ter realmente surtado de ciúmes se não tivesse ouvido a voz da pessoa do outro lado da linha, era a voz de uma criança, parecia uma menininha. Descobrir isso me deixou um pouco mais aliviado, porém, a curiosidade somente crescia cada vez mais afinal, ele nunca havia mencionado alguma criança em sua família, ainda mais uma tão próxima que o fizesse sorrir daquela forma.

– Tudo bem então... – Christophe respondeu depois de ficar alguns minutos apenas ouvindo o que a outra pessoa queria dizer, em seguida, voltou seus olhos para o relógio em seu pulso, como se conferisse o horário. – Irei te buscar, devo chegar em uma hora, seja boazinha e não responda a sua mãe.

Quando a ligação foi encerrada, ele voltou sua atenção para mim, suspirando enquanto jogava o celular no sofá, quase derrubando-o no chão.

– Então... – Murmurei curioso, e arrumei uma mexa do meu cabelo que teimava em ficar sobre meus olhos, colocando-a atrás da orelha. – ‘Tá’ tudo bem?

– Sim. Eu só preciso buscar minha filha... – Christophe respondeu totalmente alheio à minha surpresa, abaixou-se, pegando as folhas impressas, e as colocou numa das estantes. – Ela não gosta muito do padrasto, e como a mãe dela vai viajar com ele, tá pedindo para passar o final de semana comigo.

– Você tem uma filha? Questionei arregalando meus olhos num misto de incredulidade e surpresa.

– Sim! Ele respondeu com displicência, como se não fizesse alguma diferença no seu ponto de vista, tornou a pegar o celular e ligou a tela, me mostrando que a proteção de tela era uma foto dos dois. – Chama-se Elly, ela tem seis anos.

Eu nunca havia pego seu celular, sequer para ver a hora, acanhado que pudesse causar algum tipo de mal-entendido, e mesmo que ele tivesse quase trinta anos, nunca pensei que ele teria uma filha pois, nunca havia sequer mencionado.

– Eu irei busca-la agora, quer conhece-la? Ele comentou de repente, me surpreendendo pela segunda vez naquele dia.

Pisquei algumas vezes, descrente e senti uma absurda vontade de bater nele por agir de maneira tão abrupta. Ergui as mãos em frente ao rosto, como se pedisse tempo e quando consegui sua atenção, fiz minha melhor cara de cachorro sem dono, mostrando que não estava entendendo nada.

– Desculpe... – Ele desculpou-se com um riso baixo, fez uma negativa com a cabeça e então, puxou-me para perto, agarrando a minha cintura com suas mãos grandes. – Tem razão, relaxa, não precisa ir comigo se não estiver confortável.

– Não é isso... – Murmurei abraçando suas costas e colei meu rosto em seu peito forte, aproveitando para sentir o cheiro de seu perfume. – Eu só estou surpreso com tudo isso, foi inusitado, mas sim, eu quero conhecê-la.

Ele concordou, retribuindo meu abraço e então, beijou meus cabelos, para em seguida, puxar meu rosto, colando os lábios aos meus. O beijo foi aprofundando lentamente, ficando mais úmido, senti meu corpo sendo erguido do chão, enlacei as pernas ao redor de seu quadril e mesmo com os olhos fechados, percebi que estava sendo levado em direção ao sofá.

– Queria ter você, mas preciso realmente sair agora... – Christophe reclamou, recuperando o fôlego e pela sua expressão, estava bem claro que ainda queria continuar.

Estaria mentindo se eu dissesse que não estava no mesmo estado, porém, optei por apenas puxá-lo para a porta de entrada, antes que jogasse todas as nossas responsabilidades para o alto e me agarrasse com ele ali mesmo no sofá.

Sentei no banco do carona, fitando meu reflexo descabelado no retrovisor e quando ele fez o mesmo, segurei seu rosto com as duas mãos, virando-o em minha direção para ver se estava em estado aceitável para ver uma criança, e como seus cabelos também estavam bagunçados, tentei arrumá-los, enfiando os dedos entre os fios claros, puxando-os para o lado.

– Pronto, melhor assim... – Murmurei sorrindo de canto, achando-o muito charmoso com seu semblante surpreso por minha ação.

– Obrigado! Ele exclamou roubando-me mais um selinho enquanto passava o cinto ao redor do meu corpo, em seguida, me lançou uma piscadela e sentou-se corretamente em seu banco.

Sem nenhuma surpresa, fui tremendo durante todo o caminho, e me vi não tendo sequer a capacidade de responder corretamente às tentativas de Christophe em puxar assunto, então, suspirei sentindo as minhas mãos ficando úmidas. E quando finalmente chegamos ao local de destino, fitei uma menininha sentada junto a sua mãe num dos quiosques que ficavam em frente a um prédio de vários andares.

Tornei a tremer novamente, com medo que a menina me detestasse à primeira vista, voltei meus olhos na direção de Cristophe e recebi outra piscadela. E ainda dentro do carro, tivemos uma conversa rápida sobre como seria apresentado, nenhum de nós achava uma boa ideia que eu fosse apresentado como namorado de imediato, e mesmo eu, imaginava que isso poderia deixar a menina confusa já que ela poderia ainda desejar os pais juntos, então concordamos em me apresentar como amigo.

Namorados também são amigos afinal, então não seria mentira.

            Descemos do carro, e fitei a menina correndo em nossa direção com os bracinhos abertos enquanto chamava o nome do pai, quando ambos encontraram-se, ele se agachou para abraça-la, muito carinhoso. Ela era linda, suas feições eram parecidas com as dele, porém, as características físicas eram da mãe, principalmente a pele branca e os cabelos escuros.

            De repente, ela pareceu notar a minha presença, erguendo os olhos em minha direção, sorrindo e mostrando que estava com uma janelinha nos dentes superiores, muito fofa. Seus grandes olhos desviaram-se de mim para ele, e logo, questionou quem eu era.

 – Olá moço amigo do papai! Exclamou esticando a mãozinha para me cumprimentar, quase me matando de tanta fofura. – Meu nome é Elly, como se chama?

– Olá lindinha... meu nome é Michel! Sorri para ela, inclinando-me para apertar sua mãozinha, mesmo que a verdadeira vontade fosse de apertar suas bochechas.

Logo percebi que Elly não era nenhum pouco tímida, e enquanto seu pai conversava rapidamente com a mulher que imagino ser sua mãe, continuamos conversando sobre algum tipo de jogo que haveria naquele dia. Eu não sabia ao certo do que ela estava falando, então apenas concordava, balançando a cabeça positivamente enquanto a ouvia falando “pelos cotovelos” das jogadoras.

– Já se enturmaram? Christophe questionou surgindo de repente, mas não parecia incomodado com a nossa aproximação. – Então, que faremos da vida?

– Podemos assistir a um filme? Elly questionou saltitando e sorrindo enquanto agarrava-se ao tecido da calça de seu pai. – Hoje tem sessão infantil, quero pipoca e refrigerante.

Ela definitivamente tinha um plano, e sabia exatamente o que queria, quase me deixando com inveja. Então, como nós os adultos, não tínhamos tanta certeza, optamos por segui-la, indo para o cinema ver o filme que ela tanto queria. No caminho, enquanto Christophe esperava na fila para pegar a pipoca, notei mais uma das mensagens do meu irmão, esporadicamente, ele questionava-me sobre como estava, e sempre respondi com monossílabos, apenas para não o deixar tão preocupado.

Porém, naquele momento, finalmente tive coragem para responder direito, explicando que estava bem e perguntando como ele e a nossa família estava. Para a minha surpresa, Matteo respondeu as mensagens quase no mesmo momento em que as recebeu, ele parecia muito feliz por estarmos enfim, tendo aquela conversa, sugerindo que conversassemos por áudio. Nada de muito significativo foi dito, ele não perguntou sobre meu relacionamento, ou sobre os estudos, parecia satisfeito apenas em ouvir e se certificar de que estava bem. 

Matteo, depois de algum tempo, questionou se poderíamos nos encontrar algum dia desses, fiquei observando aquela mensagem por longos minutos, ansioso pois, não sabia como reagir. As coisas estavam acontecendo tão rápido que não soube como agir direito, quase começando a chorar como um idiota, e no fim, acabei concordando com um murmuro, fungando.

Fui tirado dos meus devaneios quando ouvi meu nome sendo chamado, virei-me na direção de Christophe e lhe sorri enquanto secava a umidade em meus olhos.

– Tudo bem? Ele questionou entregando-me um combo grande de refrigerante e pipoca, tocando os meus dedos discretamente. – Porque estava chorando? Recebeu uma notícia ruim?

– Não... – Respondi tornando a fungar. – Na verdade, foi uma noticia muito boa, eu falei com meu irmão.

Ele sorriu, puxando-me para perto em um abraço carinhoso, chamando-me de corajoso enquanto apoiava o cheiro em minha cabeça. Já havíamos conversado sobre a situação delicada em que eu me encontrava com a minha família, e agora, me parabenizava por aquele grande avanço.

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