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24 O batizado...

last update publish date: 2021-11-01 07:30:46

Azarya...

O dia do batizado finalmente havia chegado, acordei cedo com uma ligação de Lia e ri baixo quando a ouvi questionando se havia desistido encima da hora. Neguei rapidamente, explicando que depois de ter feito todos os cursos que precisava e comprado o vestido combinando com o da minha sobrinha, não poderia desistir.

Terminei de preparar a pequena mala que havia começado a arrumar na noite anterior, chequei se havia pegado tudo que precisaria, aproveitando para enfiar meu caderno de anotações também e a câmera fotográfica, sentindo que poderia tirar mais algumas inspirações daquela viagem.

Fiz um grande esforço para pensar apenas em minha família e antigos amigos, porém, o gosto amargo das lembranças ruins ainda surgia em minha boca. Uma única pessoa era a verdadeira responsável pelo inferno que a minha vida havia se tornado anos atrás quando decidi vir embora, eu não sabia se ela ainda morava em Abilene, desejava que não, mas lá no fundo, eu sabia que sendo tão “cristã”, ela não deixaria seu lugar de origem.

Quando enfim cheguei à cidadezinha texana, depois de uma longa viagem de ônibus, olhei ao redor, notando que não havia acontecido nenhuma mudança significativa em quase três anos, suspirei sentindo-me um tanto decepcionada e caminhei pela estradinha de terra em direção ao pequeno restaurante onde minha irmã marcou de me encontrar.

Rapidamente a avistei, acenando para chamar sua atenção. Ela ergueu-se sorridente e percebi que estava com a menininha em seus braços, coberta por uma manta rosinha. Corri na direção das duas, abraçando-a do modo que pude, me inclinei para fitar o anjinho que ainda dormia, era tão lindinha, e mesmo com apenas um mês de nascida, já começava a mostrar o quanto se parecia com os pais.

De repente, minha mãe surgiu por suas costas, carregando um copo grande de suco natural, e ao me ver, seu semblante tranquilo mudou para uma expressão que misturava preocupação e seriedade. Entregou o copo à minha irmã, e caminhou em minha direção, parando a menos de um metro, fitando-me como se analisasse meu estado físico, não gostando muito do que via.

– Parece ter perdido peso... – Ela comentou, a primeira coisa que disse ao me ver pela primeira vez em quase três anos, deslisou as mãos pelos meus braços, como se confirmando seu ponto de vista e em seguida, ergueu os olhos fitando-me acusatória. – Está grávida, Azarya?

– Como isso faria sentido... – Murmurei em tom de questionamento, tentando não mostrar o quanto estava magoada por seu comportamento.

É provável que não seja de propósito, mas sempre que conversamos, ela me causa essa sensação de descontentamento, como se nada do que eu fizesse a agradasse. E mesmo que isso me ferisse muito por dentro, tentei não demonstrar, esboçando um sorriso falso, uma máscara que havia aprendido a por no rosto desde a adolescência.

– Não mãe, eu não estou grávida... – Murmurei ajeitando a mochila no ombro, sentindo-a pensando tanto quanto as minhas mentiras. – Como a senhora está, e o pai?

– Eu estou ótimo! Meu pai exclamou surgindo tão abruptamente quanto a minha mãe, aproximou-se e sorriu, dando-me um de seus costumeiros abraços fortes. – O cardiologista disse que meu coração é de jovem...

– Isso é bom! Comentei retribuindo seu abraço, aproveitando cada segundo daquele calor tão aconchegante, sentindo que havia voltado ao passado quando eu e minha irmã éramos agarrávamos em suas pernas enquanto contava histórias de fantasmas.

            Contudo, não consegui relaxar o suficiente para me esquecer da peruca que estava usando, tocando-a a todo o momento para me certificar que não estava fora do lugar, mesmo sabendo que ela estava presa por grampos. Eu havia a comprado unicamente para aquele evento, sabendo que não receberia um olhar positivo da minha mãe, ainda não estava pronta para confrontá-la, então precisava ser muito cuidadosa.

– Precisamos nos adiantar, a missa não demora... – Minha irmã comentou de repente, chamando a nossa atenção, em seguida, caminhou em minha direção, sugerindo que fossemos para sua casa onde poderia tomar um banho e me trocar.

Concordei, balançando a cabeça positivamente, e a segui, depois de me soltar do abraço apertado do meu pai. Quando chegamos em sua casa, realmente tomei um banho refrescante, aproveitando para retirar a peruca, deixando que meu couro cabeludo respirasse um pouco, e enquanto me arrumava, notei sua presença aproximando-se por minhas costas.

– Gostei dessa peruca, quase acreditei que fosse seu cabelo natural! Exclamou aproximando-se para fechar o zíper do meu vestido azul marinho, fitou minhas costas por um tempo e então, arqueou uma sobrancelha expressiva. – A mãe tá certa, você emagreceu mesmo.

– Muita coisa aconteceu, mas não se preocupe, minha saúde está bem, e eu não ‘tô’ grávida... – Esse final reclamei revirando os olhos enquanto me questionava como raios a minha mãe havia chegado àquela conclusão descabida.

– Relaxa, a mãe tem o pensamento meio tradicionalista ainda... – Lia murmurou soltando um longo suspiro, mas abriu um sorriso travesso. – Ela ainda acha que toma mulher que vai estudar fora, volta grávida e sem saber quem é o pai.

– Eu me previno, não se preocupe! Respondi, fazendo a minha reclamação,

Depois dessa conversa, tão descabida quanto a situação, ainda mais porque acontecia com uma criança presente, enfim, coloquei a peruca, prendendo-a novamente e seguimos para a igreja, aproveitando para fofocar um pouco sobre os últimos acontecimentos daquela cidadezinha, mesmo que fossem apenas situações aleatórias do cotidiano.

            Entramos na igreja alguns minutos antes da missa começar, sentados em silencio ao lado das outras mães e madrinhas que aguardavam para receber a benção religiosa, e rapidamente me perdi em devaneios, lembrando que fazia pelo menos dois anos que não assistia a uma missa, eu era o que chamavam de “ovelha desgarrada” e certamente a minha mãe pensava da mesma forma.

            Mas havia cansado de ficar triste por isso.

            Quando chegou o momento do batismo, nos aproximamos do altar para que as crianças recebessem a benção sagrada, e enquanto segurava minha sobrinha para ter sua cabeça molhada, tentei a consolar pois, estava chorando muito. Obviamente, recebi um olhar reprovador da minha mãe como se dissesse: “não pode sequer consolar a criança direito?”, algo que estava estampado por toda a sua face.

            Mia, a minha sobrinha, enfim parou de chorar quando nos afastamos da multidão, ela ainda estava em meus braços e posso dizer que senti orgulho de mim mesma em finalmente ter conseguido acalmá-la. Beijei seu rostinho macio, e a balancei em meus braços, tentando fazê-la rir, porém, tive minha diversão “roubada” quando percebi que estava sendo observada por quem eu menos queria encontrar.

            Neuza, a diretora da antiga escola primária onde eu havia trabalhado, estava parada em frente à fonte, com seus olhos fixos em mim, seu semblante não era dos melhores e era óbvio que estava incomodada com a minha presença. E antes que eu pudesse, fugir ao seu olhar frio, ouvi meu nome sendo chamado por uma voz familiar, virei-me procurando pela pessoa, e me deparei com uma antiga colega, Anna.

– Meu Deus! Quanto tempo faz que não nos vemos... – Ela comentou aproximando-se e me abraçando, deixando claro que a distancia não havia mudado nossa amizade.

Havíamos trabalhado juntas por um ano inteiro, trocávamos planos de aula e materiais de trabalho, ela havia sido uma das poucas pessoas que senti confiança em manter a amizade pois, havíamos passado por muita coisa juntas, porém, com o tempo, perdemos um pouco do contato.

– E você ‘tá’ linda! Exclamei sincera, sorrindo ao perceber que ela parecia realmente muito bem. – Como tem estado?

– Obrigada! Eu estou bem, abri um armarinho... – Ela contou sorridente, e abriu sua bolsa tirando um cartãozinho de dentro da carteira. – É simplesinho, mas a gente faz encomenda, então dá uma olhada no nosso f******k quando puder.

Concordei, balançando a cabeça positivamente, li o nome do armarinho, AnnaConfecções, memorizei enquanto guardava dentro da minha bolsa. Em seguida, ergui a cabeça, fixando minha atenção nela.

– Vou espalhar para meus amigos... – Prometi sabendo que pelo menos a doida da Mari iria adorar as bolsas bordadas a mão disponíveis para entrega, mesmo tão longe.

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