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CAPÍTULO 5

last update publish date: 2026-10-21 19:23:17

Dante se afastou devagar, os dedos ainda tocando levemente o rosto dela, como se hesitasse em soltá-la — como se aquele contato fosse a única coisa que o mantivesse de pé. A ponta dos dedos ainda sentia o calor da pele dela, a suavidade da bochecha que ele havia acariciado quase sem querer, e a consciência do que tinham acabado de fazer. O beijo não foi planejado, não fazia parte de nenhum esquema, não estava nos planos de sua vingança e era por isso que o assustava tanto.

— Não devia ter feito isso — murmurou, mais para si mesmo do que para ela. A voz soou rouca e estranha. Dante Morelli estava acostumado a dominar as palavras, a calcular cada sílaba antes de pronunciá-la, mas ali, naquela noite, sob a luz das lanternas de vidro que pendiam dos galhos das árvores, ele não tinha domínio de nada.

Valentina permaneceu imóvel, os lábios ainda úmidos e entreabertos, o coração batendo tão forte que temeu que ele pudesse ouvir. O ar lhe faltava, e ainda assim não queria respirar, não queria que aquele instante terminasse, não queria voltar ao mundo onde eles eram apenas um bilionário frio e uma simples organizadora de eventos.

— Eu não pedi que parasse — respondeu ela, a voz firme apesar de todo o tremor que percorria seu corpo. Erguera o queixo, desafiadora, mas os olhos denunciavam a confusão que a dominava por completo. Não era uma mulher que costumava perder o controle, entretanto ali, com ele, tudo parecia escorregar entre os dedos como areia fina.

Ele a olhou e por um instante frágil e quase impossível de capturar, quase disse tudo. Quase pronunciou as palavras que carregava consigo há mais de dez anos, doídas e afiadas como pedaços de vidro: quem era? O que Ricardo havia feito? Por que estava ali? Por que ela nunca deveria ter se aproximado? 

Quase contou sobre a noite em que o seu pai caiu do vigésimo andar de um prédio que deveria ter sido dele; sobre a mãe que definhou aos poucos, sem conseguir aceitar que o homem em quem confiou tivesse destruído tudo; sobre os anos de escassez, sobre a irmã pequena que ele havia criado com as próprias mãos enquanto construía um império sob a raiva, mas as palavras ficaram presas. Morreram em sua garganta, sufocadas pelo medo, não de ser rejeitado, mas de feri-la. Não, Valentina. Não ela, que tratava um garçom derrubando uma bandeja com mais gentileza do que a maioria das pessoas tratava os próprios filhos. Não ela, que ria com os olhos e parecia carregar uma luz que não vinha de nenhuma lanterna, mas de algum lugar dentro de si. Se ele dissesse a verdade agora, ela partiria. Ou pior: ficaria por compaixão, e ele não suportaria ser o objeto da piedade da filha de Ricardo Almeida.

— Dante… — ela chamou o nome dele suavemente, como se estivesse tentando despertá-lo de um pesadelo.

Ele desviou o olhar, fixando-o no mar escuro que se estendia diante deles. A superfície da água brilhava sob a luz da lua, bela e traiçoeira, escondendo correntes que podiam arrastar tudo para o fundo sem que ninguém percebesse. Era assim que se sentia: como alguém que acabara de perceber que estava nadando em águas profundas demais para voltar à costa.

— Não devia ter chegado tão perto — disse ele, e a frase saiu dura, como se estivesse falando para as ondas. — Não devia ter te envolvido.

— Eu não sou uma estranha que você escolheu por acaso, sou? — perguntou Valentina, e a pergunta saiu mais suave do que pretendia. — Desde o primeiro momento, havia algo… diferente na forma como me olhava. Como se já me conhecesse.

Ele cerrou as mãos até que os nós dos dedos ficassem brancos. Respirou fundo, tentando encontrar o ar que parecia ter fugido de seus pulmões. Não podia dizer, ainda não e talvez nunca.

— Você imagina coisas — respondeu e se odiou por mentir.

— Não imagino — insistiu ela, dando um passo à frente, diminuindo a distância que ele havia criado entre os dois. — Você sabe quem eu sou e sabia antes de falar comigo no jardim, não é?

Dante não respondeu. Foi então que o celular dela vibrou. O som foi curto, seco e quebrou o feitiço que os envolvia. Valentina pestanejou, afastando o olhar dele por um instante, e retirou o aparelho da bolsa. A tela brilhou, iluminando seu rosto, e o nome que apareceu na notificação fez o coração dela despencar.

Pai.

Ela deslizou o dedo sobre a mensagem e leu:

“Descubra o que Morelli pretende. Precisamos saber seus passos antes da reunião. Não me falhe, Valentina.”

Leu uma vez, depois outra, e sentiu o frio subir-lhe pela espinha. A frase etra curta mas a atingiu, pois o homem citado estava na sua frente e ela ainda tinha o gosto do beijo dele nos lábios; soava como uma traição. Como se o pai estivesse observando, vendo cada movimento dela, esperando que cumprisse o papel que nem mesmo ela sabia que havia aceitado.

Guardou o aparelho lentamente, com dedos que pareciam ter ficado tremulos de repente. O brilho nos olhos havia se extinguido. A postura, antes confiante, agora denunciava uma nova hesitação.

Dante percebeu a mudança nela. Viu o modo como os ombros caíram levemente, como o olhar se perdeu no chão de pedras, como se estivesse carregando algo que não esperava ter de sustentar.

— Seu pai? — perguntou baixo. A voz soou sem força, sem a firmeza que costumava ter.

Valentina assentiu, sem conseguir mentir. Não conseguia mentir para ele, não quando ele a olhava daquela forma, como se conseguisse ver cada pensamento que ela tentava esconder.

— Ele quer saber sobre você — disse, e as palavras doeram ao sair. — Sobre seus planos. O que pretende fazer? Quem são seus aliados? Tudo.

Dante cerrou o maxilar com tanta força que sentiu a mandíbula doer. A realidade voltou a bater à porta, rude e implacável, afastando de uma vez por todas a doçura do momento anterior. Ela era filha de Ricardo Almeida. A filha do homem que havia destruído a vida de sua família. 

O plano era simples: se aproximar, ganhar confiança, usar o acesso que ela poderia proporcionar para desmontar o império do inimigo tijolo por tijolo e agora, quando o plano parecia estar funcionando melhor do que jamais ousara sonhar, ele descobria que não queria mais vencer daquela forma.

— E você vai me entregar? — perguntou. A pergunta saiu mais baixa do que pretendia e doeu em ambos.

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