LOGIN
ARIA
Passava pouco da uma da manhã quando me vi sentada no piso frio da cozinha, com o iPad do Ethan equilibrado no colo, encarando um vídeo que eu jamais quisera ver na vida. Mila havia adormecido mais cedo no sofá, ainda agarrada ao seu copo favorito de unicórnio. Eu a carreguei gentilmente para o andar de cima, a coloquei na cama e voltei para terminar de arrumar a casa. Foi então que vi o iPad do Ethan deixado aberto no balcão. Ele nunca o deixava largado assim. Normalmente, tratava o aparelho como se contivesse informações ultrassecretas, levando-o para todo lugar — até para o banheiro. Ele sempre alegava que precisava ficar de olho nas vendas da empresa em tempo real, ou algo do tipo. Pensei em apenas pegá-lo e levá-lo para o quarto dele. No instante em que meus dedos o tocaram, a tela se iluminou. O que vi me deixou paralisada. A imagem de fundo não era mais a foto da nossa família, tirada no primeiro aniversário da Mila. Em vez disso, mostrava Ethan, Mila e Sienna Vale sentados juntos em um café ao ar livre. Uma luz solar intensa banhava tudo. Sienna mantinha Mila confortavelmente em seu colo, com um braço envolvendo os ombros de Ethan. Os três sorriam como se pertencessem um ao outro, como uma unidade perfeita. Meu estômago deu um nó instantâneo. Tentei convencer a mim mesma a não tirar conclusões precipitadas, mas aquela imagem parecia totalmente errada. Sienna deveria ser apenas uma amiga da família — ou melhor, uma conhecida imposta pela situação. Mila adorava os vídeos dela como criadora de conteúdo infantil popular e, como Ethan havia estudado na faculdade com ela, eu me obrigava a tolerar sua presença. Olhei para a escada. A luz do quarto estava apagada. Ethan provavelmente já estava dormindo profundamente. Fiquei ali paralisada por um momento, sem saber o que fazer com aquela imagem que agora estava gravada a fogo na minha mente. Aquilo nem fazia sentido. Antes que eu pudesse desistir da ideia, levei o iPad para a cozinha, sentei-me novamente no chão frio e abri a galeria de fotos dele. Comecei a rolar a tela. Foto após foto, o impacto vinha como um soco no peito. Ethan sorrindo com confiança. Mila radiante. Sienna sorrindo bem ao lado deles. Eles apareciam juntos em todo tipo de lugar — cafés, parques, uma loja de brinquedos e até mesmo numa selfie rápida dentro do carro, com milkshakes nas mãos. Cada foto transmitia aquela sensação acolhedora de família feliz. O tipo de coisa que eu tanto desejava, mas para a qual só recebia desculpas. Foi então que finalmente entendi por que a Mila vinha se afastando de mim nos últimos meses. Eu sempre relevava, achando que era apenas um comportamento normal de criança. Sempre que eu me oferecia para levá-la à escola, ela dizia que o papai e a tia Sienna fariam isso. Se eu planejava algo simples só para nós duas, ela dizia que a tia Sienna já havia prometido algo melhor. Eu havia me convencido de que eram apenas palavras inocentes, o tipo de coisa que as crianças aprendem assistindo a muito conteúdo online. Como a Sienna produzia conteúdo infantil, nunca imaginei que houvesse algo mais profundo por trás disso. Mas aquilo havia se tornado um padrão claro. Já fazia meses que Ethan e Mila saíam juntos constantemente. No início, eu via aquilo como um momento doce entre pai e filha e não questionava. Depois, Mila começou a chegar em casa cheia de histórias sobre a tia Sienna — "a tia Sienna fez isso", "a tia Sienna fez aquilo". Roupas novas. Brinquedos novos. Pulseiras fofas. Presilhas de cabelo sofisticadas. Coisas que eu sabia que não tinha comprado para ela. Aos poucos, todos os sinais que eu havia ignorado estavam ali, organizados lado a lado naquele álbum de fotos. Continuei rolando a tela até notar uma pasta oculta, escondida entre as pastas comuns. Não tinha nome, apenas um registro de data e hora. Senti um aperto no estômago novamente. Meu instinto gritava para eu não abrir aquilo, mas meu dedo tocou a pasta mesmo assim. Uma sequência de vídeos apareceu. Abri o primeiro. A tela se iluminou e a imagem começou a se mover. Quase parei de respirar. Meu peito apertou dolorosamente. Minhas mãos tremiam tanto que quase deixei o iPad cair. Era um vídeo de sexo. Do Ethan. E da Sienna. Fiquei ali, completamente paralisada. Um zumbido agudo preencheu meus ouvidos. Meu corpo inteiro ficou gelado, como se o chão sob meus pés tivesse desaparecido. Os sons que vinham do vídeo — os gemidos altos dela, a voz dele, a maneira como as mãos dele a seguravam. Não se parecia em nada com a forma como ele costumava me tocar. Sinceramente, fazia tanto tempo que ele nem sequer chegava perto de mim. Da última vez, ele só tinha me dado um beijo rápido antes de murmurar que estava exausto do trabalho. Eu não conseguia desviar o olhar, mas também não conseguia respirar. O que eles faziam não era gentil nem carinhoso. Era intenso, bruto, quase agressivo. Eu me odiava por não ter percebido os sinais antes. Não havia desculpa que eu pudesse inventar para justificar aquilo. Ver aquela cena dava a sensação de que alguém tinha enfiado a mão no meu peito e apertado até que algo dentro de mim se quebrasse de vez. Finalmente pausei o vídeo, mas as imagens já estavam gravadas na minha mente para sempre. Minhas mãos não paravam de tremer. Meu coração batia tão forte que meu peito doía a cada pulsação. Eu não sabia se deveria subir correndo, sacudir Ethan para acordá-lo ou simplesmente fugir por um tempo para recuperar o fôlego. Agarrei o iPad com força, como se fosse a única coisa sólida que me impedia de desmoronar enquanto meus pensamentos giravam descontroladamente, buscando desesperadamente qualquer explicação ou motivo que pudesse fazer aquele pesadelo fazer sentido. Por fim, levantei-me; minhas pernas estavam rígidas e trêmulas por causa do chão frio. Caminhei lentamente em direção à escada e parei no degrau de baixo. Apoiei-me pesadamente no corrimão, segurando-o com força para me sustentar. Meu corpo inteiro tremia — não de frio, mas de puro medo. Medo do que aconteceria a seguir. De repente, toda a nossa vida parecia uma grande mentira, e eu não tinha certeza se teria forças para encarar a verdade ou para fingir que não tinha visto nada daquilo. Engoli o nó na garganta e forcei-me a subir o degrau seguinte. Quando abri a porta do quarto silenciosamente, parei. Ethan dormia tranquilamente; seu peito subia e descia em uma respiração calma e constante. Meu estômago revirou violentamente. Cada parte de mim queria jogar o iPad nele, gritar até perder a voz, acordá-lo e exigir respostas. Mas eu não conseguia me mover. Vê-lo ali deitado, tão relaxado e totalmente alheio ao que eu acabara de descobrir, fez a raiva arder dentro de mim com uma intensidade que eu jamais imaginara possível. Coloquei o iPad cuidadosamente sobre o criado-mudo. Ele fez um som suave ao ser apoiado. Então, dei um passo para trás, engoli em seco, vencendo o nó doloroso na garganta, e saí do quarto. Se eu ficasse naquela cama esta noite, temia acabar fazendo algo de que não poderia voltar atrás.Ergui o olhar para o rosto dele. Aqueles olhos cor de tempestade prenderam os meus sem piscar, com uma intensidade tal que parecia que ele estava gravando cada detalhe meu em sua memória. Mais uma vez, era como se a minha dor realmente o ferisse pessoalmente.E, naquele breve instante, algo profundo dentro de mim finalmente se rompeu.Só por esta noite, eu disse a mim mesma. Quero me sentir uma mulher de verdade novamente — desejada, vista, cobiçada. Quero fazer algo imprudente e rezar para não acabar me arrependendo depois.Porque, depois desta noite, eu entraria com o pedido de divórcio. Eu empacotaria as coisas da Mila e as minhas, deixaria esta cidade para trás, administraria meus negócios de algum lugar distante e sairia daquela casa que ainda trazia o cheiro de Ethan por toda parte. Deixaria para trás a mulher que, silenciosamente, havia roubado o meu lugar nas histórias da minha filha e na cama do meu marido.Eu faria um corte definitivo. Um recomeço em um lugar onde ninguém so
ARIATerminei de me arrumar e vesti o vestido preto. Ele se moldava a cada curva do meu corpo, como se tivesse sido feito sob medida para mim.Eu estava diante do espelho alto no quarto de hóspedes, bem longe do quarto principal, onde o perfume do Ethan ainda pairava no ar. Eu não suportava mais ficar lá dentro. O cheiro dele agora me embrulhava o estômago.O tecido ajustava-se firmemente aos meus quadris, decotava-se profundamente no busto e terminava no alto das minhas coxas. Eu não tocava naquele vestido desde a noite em que o comprei, dois anos atrás — quando eu ainda era esperançosa e ingênua, esperando que Ethan finalmente olhasse para mim como costumava fazer. Ou, pelo menos, como eu achava que ele fazia.Ele nunca se deu ao trabalho.Mas, naquela noite, o vestido não era para ele.Passei as mãos lentamente pelas laterais, sentindo um leve tremor nos dedos. Dei um passo atrás e observei atentamente a mulher que me encarava de volta. Eu sempre sonhara em sair assim, mas fui tola
ROMANA mensagem surgiu às 14h29.“O que acontece se eu for hoje à noite?”Fiquei encarando aquelas palavras até a tela escurecer. Toquei nela para despertá-la novamente. Elas continuavam ali.Dez segundos depois de eu ter respondido “A porta tranca às 20h15. Não se atrase”, meu polegar ainda pairava sobre a tela, como se ela pudesse responder a qualquer momento.Recostei-me totalmente na cadeira do escritório. O couro gemeu sob o meu peso. A academia estava bem silenciosa àquela hora — apenas o zumbido constante do ar-condicionado e o barulho ocasional de equipamentos sendo movidos no andar de baixo. Mas a minha própria pulsação era mais alta do que tudo isso.Ela tinha enviado a mensagem às 14h29.Bem no meio do maldito dia.Aquilo me dizia que ela estivera carregando meu cartão consigo a manhã toda, girando-o entre os dedos, provavelmente imaginando se eu era algum tipo de psicopata ou apenas mais um vendedor insistente.Droga.Mudei de posição na cadeira. Minha mente voltou imedia
De repente, percebi que estava encarando aquele estranho há tempo demais. Lancei um olhar para Debby e fiz um leve sinal com a cabeça para que ela fosse embora. Ela saiu de fininho, sem dizer nada.— Oi — eu disse, mas minha voz saiu incerta e fraca.— Oi — ele respondeu, abrindo um sorriso.Que droga. Ele realmente sorriu.— Já passei por aqui antes — continuou ele, mantendo aquele sorriso tranquilo. — Mas parecia que não havia ninguém por perto.Ele estendeu o panfleto em minha direção e continuou falando, com a voz calma e suave.— Acabamos de abrir uma academia nova aqui perto. Equipamentos de ponta, personal trainers, várias modalidades... o pacote completo. Estamos distribuindo cupons de desconto para o pessoal da região. O primeiro mês sai pela metade do preço e...Academia.A palavra, por si só, me atingiu como um soco. Minha mente nem sequer registrou o resto do que ele dizia. Tudo voltou à tona: Ethan parado no quarto, mais cedo, apontando para minha barriga e minha cintura,
“Quer dizer...” Ethan fez um gesto displicente com a mão na minha direção, como se estivesse afastando algo sem importância. “Você provavelmente deveria focar mais em si mesma. Talvez isso... ajudasse a colocar as coisas em ordem.” Eu o encarei, completamente desconcertada. “Colocar o quê em ordem, exatamente?” Ele fez uma pausa. Seus olhos passaram por mim, desviaram e voltaram, como se ele precisasse se forçar a continuar. “Aria... é só olhar para a sua barriga. Sua forma física. Sua cintura. Quer dizer... você sabe... você ficou meio...” As palavras dele me atingiram como um golpe pesado direto no peito. Meus olhos arderam imediatamente, com um calor intenso. Não eram lágrimas suaves — eram daquelas carregadas de raiva e dor, nascidas de uma mágoa profunda. “Você está falando sério? Está criticando o meu corpo agora, Ethan?” Minha voz falhou, mas ainda saiu incisiva. Ele ergueu as mãos levemente. “Não estou criticando. Só estou dizendo que, talvez, se você...” “Depois de tud
Ethan parou a meio caminho da porta, como se já sentisse algo pesado se aproximando. Ele se virou lentamente, com as sobrancelhas franzidas, esperando que eu falasse.Minha garganta apertou dolorosamente. Tudo o que eu havia ensaiado na cabeça durante a noite veio à tona de uma só vez, tudo misturado. Engoli em seco e forcei as palavras a saírem.— Você pode voltar para casa mais cedo hoje? — Minha voz falhou um pouco. — Precisamos sentar e conversar.Ele franziu a testa, como se eu tivesse pedido algo impossível. — Conversar sobre o quê?Antes que eu pudesse começar a explicar, Mila entrou correndo no cômodo, cheia de energia e empolgação. Ela pegou a mochila da escola e mais algumas coisas que estavam no canto.Lancei um olhar rápido para ela. Como ela estava ocupada tentando calçar os sapatos da escola, baixei o tom de voz.— É importante, Ethan.Ele soltou um suspiro longo e pesado — aquele tipo de suspiro que deixava claro que ele via meus sentimentos como um fardo irritante. — A







