LOGINEntrei silenciosamente no quarto da Mila e me deitei com cuidado em sua caminha, cuidando para não acordá-la. Ela estava encolhida sob o cobertor macio, abraçada ao seu ursinho de pelúcia rosa, respirando de forma lenta e tranquila.
Fiquei ali na escuridão, observando seu rosto inocente enquanto dormia, e me perguntei se ela fazia ideia do que estava acontecendo. Será que ela sabia sobre o pai e a mulher que tanto adorava? Será que ela conseguia sentir a verdade de alguma forma, ou ainda não fazia a menor ideia? Enterrei o rosto no travesseiro ao lado dela, segurando as lágrimas que insistiam em cair e me esforçando ao máximo para ficar em silêncio e não acordá-la. Mas meu coração batia descompassado no peito. Posso dizer, com sinceridade, que aquela foi uma das piores noites que já vivi. Eu costumava acreditar que a noite em que perdi meu pai tinha sido o fundo do poço. Ou aquelas outras noites dolorosas em que eu vestia uma lingerie nova, sentindo-me esperançosa e desejada, apenas para Ethan me dar um selinho rápido e murmurar que o trabalho tinha sido muito estressante. Aqueles momentos haviam doído profundamente, mas esta dor estava em outro nível — mais aguda, mais pesada e muito mais devastadora. Deitei-me ao lado da Mila, com os olhos fixos no teto e o coração disparado, a ponto de parecer que ia saltar do peito. Uma parte de mim queria ir direto para o quarto do casal, sacudir Ethan para acordá-lo e obrigá-lo a explicar tudo. Mas algo me dizia que acordá-lo naquele momento só levaria a uma discussão acalorada. Eu já conseguia imaginar nós dois gritando um com o outro, e me recusava a deixar que a Mila ouvisse qualquer coisa daquilo. Amanhã seria o primeiro dia de volta às aulas — um dia de atividades divertidas sobre as quais ela vinha falando com empolgação há semanas. Eu não ia deixar que meu pesadelo pessoal estragasse isso para ela. Aproximei-me dela e notei como seus dedinhos seguravam a borda do cobertor; senti meu peito apertar novamente. — Deus, por favor, me faça apagar para que eu possa dormir — sussurrei na escuridão silenciosa. — Preciso escapar desse pesadelo por um tempo. Fechei os olhos, mas o sono verdadeiro nunca chegou. Minha mente não parava de reprisar os vídeos e as fotos em um ciclo interminável. Na manhã seguinte, o tablet da Mila vibrou e me tirou do meu sono inquieto e superficial. Ela já estava sentada, passando o dedo pela tela com alegria, seu rostinho iluminado pelas cores vivas do desenho animado. — Mila — disse eu, tentando soar firme, embora minha voz tenha saído rouca e cansada. — Já te falei: ore assim que acordar, em vez de ir direto para os desenhos. — Desculpa, mamãe — ela respondeu baixinho, pausando o vídeo imediatamente. Então, ela olhou para mim com curiosidade e perguntou: — Por que você dormiu no meu quarto? Ergui uma sobrancelha. — É assim que a gente dá bom-dia agora? Ela revirou os olhos de brincadeira e deu um sorrisinho. — Bom-dia, mamãe. Não consegui evitar retribuir o sorriso. Por um breve instante, a dor pesada no meu peito diminuiu um pouco. — A mamãe só queria um chamego com sua princesinha — disse eu, puxando-a para um abraço caloroso e pensando em como as coisas pareciam distantes entre nós ultimamente. — Mamãe... seus olhos estão diferentes — ela disse, apontando para o inchaço e a vermelhidão. Dei um sorriso gentil para ela. Pelo menos ela notou. — Não é nada, querida. — Sentei-me direito, beijei a testa dela e a abracei com um pouco mais de força. — Então... hoje é o grande dia do retorno. Você deve estar muito animada, né? — Sim! — ela gritou, pulando de empolgação no colchão. — A tia Sienna me disse que vai vir para o evento de abertura só por minha causa! Minhas professoras estão tão felizes, e todo mundo também está animado. A escola nem vai pagar ela... ela está fazendo isso de graça! Ela riu com pura alegria. — Ela é muito legal, mamãe. Meu peito apertou dolorosamente ao ouvir o nome dela. — Você gosta tanto assim da tia Sienna? — perguntei baixinho, mantendo o tom de voz o mais firme que pude. “É! Eu a amo, mamãe. A tia Sienna é tão linda. Ela usa salto alto, como gente grande de verdade, não só tênis simples como você. Os sapatos dela estão sempre brilhando, e ela usa vestidos lindos, cheios de brilho. Ela arruma o cabelo assim...” Mila girou as mãozinhas de forma dramática ao redor da cabeça. “E ela tem cheiro de flores. Ela canta comigo, lê histórias e me compra presentes, mesmo quando o papai esquece.” Eu ouvia em silêncio, sentindo meu coração apertar cada vez mais a cada palavra. Ela não estava tentando me magoar — era apenas uma criança feliz falando sobre o que a fazia sorrir. Ainda assim, doía muito ouvir o tamanho do espaço que Sienna havia conquistado no mundo dela. Parecia que Mila tinha ido esquecendo, aos poucos, os momentos especiais que costumávamos compartilhar. “Mila… você também ainda ama a mamãe, não é?” perguntei baixinho, lutando para não deixar minha voz falhar. “Eu te amo, mamãe”, ela respondeu rapidamente, sem qualquer hesitação. “Mas… você ama a tia Sienna mais do que a mamãe?” A pergunta escapou, embora eu soubesse que soava infantil. Senti um aperto no estômago, mas não conseguia ignorar como Sienna parecia estar me substituindo — não apenas com Ethan, mas com Mila também. Ou será que eu estava apenas sendo paranoica? “Mamãe...” ela começou, mas a voz de Ethan interrompeu de repente, vindo da porta. “Bom dia, minha rainha e minha princesinha”, disse ele, radiante. Mila saltou com um gritinho de alegria e correu para os braços dele. Ele a pegou no colo, abraçou-a com força e depois se abaixou para beijar minha bochecha. Forcei um sorriso e assenti, mas ele não pareceu notar meus olhos inchados e cansados, nem a noite sem dormir que eu tivera. Os dois começaram a rotina habitual de cumprimento secreto, sussurrando e rindo de coisas que só eles entendiam. Era para ser algo adorável, mas, naquele momento, senti-me como se estivesse do lado de fora olhando para dentro, completamente excluída do mundinho deles. “Vou me arrumar para o trabalho. A babá chegou, Luna... Mila, hora de começar a se vestir”, disse Ethan. Continuei sentada ali, encarando o chão com o olhar vago, como se estivesse atordoada. “Querida… por que você dormiu aqui em vez de no nosso quarto?” perguntou Ethan. “É crime querer passar a noite com a minha própria filha?” disparei, com a voz mais ríspida do que eu pretendia. Ele recuou levemente, parecendo confuso sobre o motivo de uma pergunta tão simples ter provocado aquela reação. “Vou me vestir”, murmurou ele, saindo do quarto. Fiquei chocada — ele nem sequer comentou sobre meus olhos visivelmente inchados. Eu não conseguia mais guardar tudo aquilo dentro de mim. Queria explodir, gritar, chorar até não sobrar mais nada. “Ethan”, chamei, enquanto ele se afastava...Ergui o olhar para o rosto dele. Aqueles olhos cor de tempestade prenderam os meus sem piscar, com uma intensidade tal que parecia que ele estava gravando cada detalhe meu em sua memória. Mais uma vez, era como se a minha dor realmente o ferisse pessoalmente.E, naquele breve instante, algo profundo dentro de mim finalmente se rompeu.Só por esta noite, eu disse a mim mesma. Quero me sentir uma mulher de verdade novamente — desejada, vista, cobiçada. Quero fazer algo imprudente e rezar para não acabar me arrependendo depois.Porque, depois desta noite, eu entraria com o pedido de divórcio. Eu empacotaria as coisas da Mila e as minhas, deixaria esta cidade para trás, administraria meus negócios de algum lugar distante e sairia daquela casa que ainda trazia o cheiro de Ethan por toda parte. Deixaria para trás a mulher que, silenciosamente, havia roubado o meu lugar nas histórias da minha filha e na cama do meu marido.Eu faria um corte definitivo. Um recomeço em um lugar onde ninguém so
ARIATerminei de me arrumar e vesti o vestido preto. Ele se moldava a cada curva do meu corpo, como se tivesse sido feito sob medida para mim.Eu estava diante do espelho alto no quarto de hóspedes, bem longe do quarto principal, onde o perfume do Ethan ainda pairava no ar. Eu não suportava mais ficar lá dentro. O cheiro dele agora me embrulhava o estômago.O tecido ajustava-se firmemente aos meus quadris, decotava-se profundamente no busto e terminava no alto das minhas coxas. Eu não tocava naquele vestido desde a noite em que o comprei, dois anos atrás — quando eu ainda era esperançosa e ingênua, esperando que Ethan finalmente olhasse para mim como costumava fazer. Ou, pelo menos, como eu achava que ele fazia.Ele nunca se deu ao trabalho.Mas, naquela noite, o vestido não era para ele.Passei as mãos lentamente pelas laterais, sentindo um leve tremor nos dedos. Dei um passo atrás e observei atentamente a mulher que me encarava de volta. Eu sempre sonhara em sair assim, mas fui tola
ROMANA mensagem surgiu às 14h29.“O que acontece se eu for hoje à noite?”Fiquei encarando aquelas palavras até a tela escurecer. Toquei nela para despertá-la novamente. Elas continuavam ali.Dez segundos depois de eu ter respondido “A porta tranca às 20h15. Não se atrase”, meu polegar ainda pairava sobre a tela, como se ela pudesse responder a qualquer momento.Recostei-me totalmente na cadeira do escritório. O couro gemeu sob o meu peso. A academia estava bem silenciosa àquela hora — apenas o zumbido constante do ar-condicionado e o barulho ocasional de equipamentos sendo movidos no andar de baixo. Mas a minha própria pulsação era mais alta do que tudo isso.Ela tinha enviado a mensagem às 14h29.Bem no meio do maldito dia.Aquilo me dizia que ela estivera carregando meu cartão consigo a manhã toda, girando-o entre os dedos, provavelmente imaginando se eu era algum tipo de psicopata ou apenas mais um vendedor insistente.Droga.Mudei de posição na cadeira. Minha mente voltou imedia
De repente, percebi que estava encarando aquele estranho há tempo demais. Lancei um olhar para Debby e fiz um leve sinal com a cabeça para que ela fosse embora. Ela saiu de fininho, sem dizer nada.— Oi — eu disse, mas minha voz saiu incerta e fraca.— Oi — ele respondeu, abrindo um sorriso.Que droga. Ele realmente sorriu.— Já passei por aqui antes — continuou ele, mantendo aquele sorriso tranquilo. — Mas parecia que não havia ninguém por perto.Ele estendeu o panfleto em minha direção e continuou falando, com a voz calma e suave.— Acabamos de abrir uma academia nova aqui perto. Equipamentos de ponta, personal trainers, várias modalidades... o pacote completo. Estamos distribuindo cupons de desconto para o pessoal da região. O primeiro mês sai pela metade do preço e...Academia.A palavra, por si só, me atingiu como um soco. Minha mente nem sequer registrou o resto do que ele dizia. Tudo voltou à tona: Ethan parado no quarto, mais cedo, apontando para minha barriga e minha cintura,
“Quer dizer...” Ethan fez um gesto displicente com a mão na minha direção, como se estivesse afastando algo sem importância. “Você provavelmente deveria focar mais em si mesma. Talvez isso... ajudasse a colocar as coisas em ordem.” Eu o encarei, completamente desconcertada. “Colocar o quê em ordem, exatamente?” Ele fez uma pausa. Seus olhos passaram por mim, desviaram e voltaram, como se ele precisasse se forçar a continuar. “Aria... é só olhar para a sua barriga. Sua forma física. Sua cintura. Quer dizer... você sabe... você ficou meio...” As palavras dele me atingiram como um golpe pesado direto no peito. Meus olhos arderam imediatamente, com um calor intenso. Não eram lágrimas suaves — eram daquelas carregadas de raiva e dor, nascidas de uma mágoa profunda. “Você está falando sério? Está criticando o meu corpo agora, Ethan?” Minha voz falhou, mas ainda saiu incisiva. Ele ergueu as mãos levemente. “Não estou criticando. Só estou dizendo que, talvez, se você...” “Depois de tud
Ethan parou a meio caminho da porta, como se já sentisse algo pesado se aproximando. Ele se virou lentamente, com as sobrancelhas franzidas, esperando que eu falasse.Minha garganta apertou dolorosamente. Tudo o que eu havia ensaiado na cabeça durante a noite veio à tona de uma só vez, tudo misturado. Engoli em seco e forcei as palavras a saírem.— Você pode voltar para casa mais cedo hoje? — Minha voz falhou um pouco. — Precisamos sentar e conversar.Ele franziu a testa, como se eu tivesse pedido algo impossível. — Conversar sobre o quê?Antes que eu pudesse começar a explicar, Mila entrou correndo no cômodo, cheia de energia e empolgação. Ela pegou a mochila da escola e mais algumas coisas que estavam no canto.Lancei um olhar rápido para ela. Como ela estava ocupada tentando calçar os sapatos da escola, baixei o tom de voz.— É importante, Ethan.Ele soltou um suspiro longo e pesado — aquele tipo de suspiro que deixava claro que ele via meus sentimentos como um fardo irritante. — A







