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Capítulo 2

Author: Genesis
last update publish date: 2026-08-22 18:15:51

Entrei silenciosamente no quarto de Mila e subi delicadamente em sua pequena cama, tomando cuidado para não acordá-la. Ela estava encolhida sob o cobertor macio, abraçando seu ursinho de pelúcia rosa junto ao corpo, respirando lenta e tranquilamente.

Fiquei sentada ali no escuro, observando seu rostinho inocente enquanto dormia, e me perguntando se ela fazia alguma ideia do que estava acontecendo.

Será que ela sabia sobre o pai e a mulher que adorava tanto? Será que conseguia sentir a verdade de alguma maneira, ou ainda estava completamente alheia a tudo?

Enterrei o rosto no travesseiro ao lado dela, lutando contra as lágrimas que insistiam em ameaçar cair, fazendo o possível para permanecer em silêncio e não acordá-la.

Mas meu coração continuava batendo descontroladamente dentro do peito.

Posso dizer sinceramente que aquela foi uma das piores noites que já vivi.

Eu costumava acreditar que a noite em que perdi meu pai havia sido o pior momento da minha vida.

Ou aquelas outras noites dolorosas em que eu vestia uma lingerie nova, sentindo-me esperançosa e desejada, apenas para Ethan me dar um beijo rápido nos lábios e murmurar que o trabalho havia sido estressante demais.

Aqueles momentos haviam me machucado profundamente, mas aquela dor estava em outro nível — mais afiada, mais pesada e muito mais devastadora.

Deitei-me ao lado de Mila, com os olhos fixos no teto e o coração acelerado, tão rápido que parecia prestes a explodir dentro do peito.

Uma parte de mim queria marchar direto para o quarto principal, acordar Ethan e obrigá-lo a explicar tudo.

Mas alguma coisa me dizia que acordá-lo naquele momento só resultaria em uma briga enorme.

Eu já conseguia imaginar nós dois levantando a voz, e me recusava a deixar Mila ouvir qualquer coisa.

Amanhã seria o primeiro dia dela de volta à escola — um dia especial repleto de atividades divertidas que ela vinha comentando animadamente havia semanas.

Eu não permitiria que meu pesadelo pessoal estragasse aquilo para ela.

Aproximei-me mais dela, percebendo seus dedinhos segurando a ponta do cobertor, e meu peito doeu novamente.

“Deus, por favor, simplesmente me faça apagar para que eu consiga dormir”, sussurrei na escuridão silenciosa. “Eu preciso escapar desse pesadelo por um tempo.”

Fechei os olhos, mas o verdadeiro sono nunca veio.

Minha mente continuava reproduzindo os vídeos e as fotos em um loop interminável.

⸻

Na manhã seguinte, o tablet de Mila vibrou e me despertou do meu sono inquieto.

Ela já estava sentada, passando alegremente o dedo pela tela, seu rostinho iluminado pelas cores vibrantes dos desenhos.

“Mila”, falei, tentando parecer firme, embora minha voz tenha saído rouca e cansada. “Eu já disse antes — ore assim que acordar, em vez de pular direto para os desenhos.”

“Desculpa, mamãe”, respondeu baixinho, pausando o vídeo imediatamente.

Então ela me olhou curiosa e perguntou:

“Por que você dormiu no meu quarto?”

Ergui uma sobrancelha.

“É assim que damos bom-dia agora?”

Ela revirou os olhos de maneira brincalhona e deu um pequeno sorriso.

“Bom dia, mamãe.”

Não consegui evitar sorrir de volta.

Por um breve segundo, a dor pesada em meu peito diminuiu um pouco.

“A mamãe só queria ficar abraçadinha com sua princesinha”, falei, puxando-a para um abraço caloroso e pensando em como as coisas haviam ficado distantes entre nós ultimamente.

“Mamãe… seus olhos estão diferentes”, ela disse, apontando para o inchaço e a vermelhidão.

Dei-lhe um sorriso gentil.

Pelo menos ela havia percebido.

“Não é nada, querida.”

Sentei-me direito, beijei sua testa e a abracei um pouco mais forte.

“Então… hoje é o grande dia de voltar às aulas. Você deve estar muito animada, não é?”

“Sim!” ela gritou, pulando de empolgação sobre o colchão.

“A tia Sienna me disse que vai ao dia de portas abertas só por minha causa! Meus professores estão muito felizes, e todo mundo também está animado! A escola nem vai pagar nada para ela — ela está fazendo isso de graça!”

Ela riu com pura alegria.

“Ela é muito legal, mamãe.”

Meu peito se apertou dolorosamente ao ouvir o nome dela.

“Você gosta tanto assim da tia Sienna?” perguntei baixinho, mantendo minha voz o mais firme que conseguia.

“Sim! Eu amo ela, mamãe. A tia Sienna é tão bonita. Ela usa salto alto igual às mulheres de verdade, não tênis simples como você. Os sapatos dela estão sempre brilhando, e ela usa vestidos lindos com brilhos.”

Ela começou a gesticular animadamente.

“Ela arruma o cabelo assim…”

Mila torceu as mãozinhas dramaticamente ao redor da cabeça.

“E ela cheira a flores. Ela canta músicas comigo, lê histórias para mim e compra presentes para mim até quando o papai esquece.”

Fiquei em silêncio, sentindo meu coração se apertar ainda mais a cada palavra.

Ela não estava tentando me machucar — era apenas uma criança feliz falando sobre aquilo que a fazia sorrir.

Mesmo assim, doía muito ouvir o quanto espaço Sienna havia ocupado em sua vida.

Parecia que Mila havia lentamente esquecido os momentos especiais que costumávamos compartilhar.

“Mila… você ainda ama a mamãe também, não é?” perguntei baixinho, lutando para impedir minha voz de falhar.

“Eu amo você, mamãe”, ela respondeu rapidamente, sem qualquer hesitação.

“Mas… você ama mais a tia Sienna do que a mamãe?”

A pergunta escapou, embora eu soubesse que soava infantil.

Meu estômago se revirou, mas eu não conseguia ignorar a sensação de que Sienna estava me substituindo — não apenas com Ethan, mas também com Mila.

Ou talvez eu estivesse apenas sendo paranoica?

“Mamãe…” ela começou, mas a voz de Ethan surgiu de repente na porta.

“Bom dia, minha rainha e minha princesinha”, ele disse alegremente.

Mila levantou-se de um salto, soltando um gritinho feliz, e correu para os braços dele.

Ele a pegou no colo, abraçou-a com força e então se inclinou para beijar minha bochecha.

Forcei um sorriso e assenti, mas ele pareceu não notar meus olhos inchados e cansados, nem a noite sem dormir que eu havia enfrentado.

Os dois começaram sua habitual rotina de aperto de mãos secreto, sussurrando e rindo sobre coisas que somente eles entendiam.

Era para ser adorável, mas naquele momento parecia que eu estava do lado de fora olhando para dentro, completamente excluída daquele pequeno mundo deles.

“Vou me arrumar para o trabalho. A babá já chegou, Luna — Mila, está na hora de começar a se vestir”, Ethan disse.

Continuei sentada ali, olhando fixamente para o chão, como se estivesse em transe.

“Amor… por que você dormiu aqui em vez de no nosso quarto?” Ethan perguntou.

“É crime querer passar a noite com a minha própria filha?” rebati, minha voz saindo mais ríspida do que eu pretendia.

Ele recuou levemente, parecendo confuso sobre por que uma pergunta tão simples havia provocado aquela reação.

“Vou me vestir”, murmurou antes de sair do quarto.

Fiquei chocada — ele nem sequer havia comentado sobre meus olhos obviamente inchados.

Eu não conseguia mais guardar tudo dentro de mim.

Queria explodir, gritar e colocar toda aquela dor para fora através das lágrimas.

“Ethan”, chamei atrás dele…

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