Eu não sinto mais meu corpo.Não é metáfora. É literal. A mente se desprendeu completamente, flutuando em algum lugar acima da cama, observando de longe o que acontece com a carne que já foi minha. O teto do quarto de infância tem a mesma rachadura em forma de Y que eu contava quando criança — um, dois, três, quatro… conto de novo, como se o número pudesse me ancorar em algum lugar seguro.O peso dele ainda está sobre mim. O cheiro dele — suor velho, colônia barata que ele usa há décadas, e algo azedo que nunca consegui nomear — invade cada respiração que consigo puxar. Seus grunhidos são baixos, ritmados, satisfeitos. Cada estocada envia ondas de dor que meu cérebro registra como dado distante, como se estivesse acontecendo com outra pessoa.Esta não sou eu. Esta não sou eu. Esta não sou eu.Repito o mantra internamente, como fazia aos doze anos. Aos quatorze. Aos dezesseis. Aos dezenove, depois da praia, quando ele me encontrou de novo e decidiu que eu ainda era propriedade dele.Ma
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