INICIAR SESIÓNA semana foi de muito trabalho. Lana me deixava completamente cheia de coisas para fazer que eu mal tinha tempo para me alimentar. O café da manhã era servido no quarto diariamente. Almoço e jantar num espaço destinado somente a funcionários do castelo. Eu nunca encontrei Lana lá. Não sei se alimentava por pequenos lanches, que nunca a vi fazendo ou se comia junto da família real ou mesmo da rainha. O que mais me deixava sensível era a ausência da minha família. Eu tinha uma ligação muito afetiva com meu pai. Minha mãe era extremamente preocupada e meticulosa com tudo e nos falávamos muito. Eu sentia até falta das brigas dela. E Leon então? Se eu fechasse os olhos poderia sentir os braços dele em torno de mim... Seu cheiro gostoso de criança travessa. Eu tinha até saudades de Kevin e suas hipóteses loucas, bem como seu mau humor. E Kim... De Kim eu sentia saudade de tudo. Nos falávamos todos os dias e ficar sem ouvir a voz dele era como um castigo para mim.
- Oi.
Olhei para o lado e vi Sofia sentando do meu lado.
- Sofia... Que bom vê-la.
Meu coração ficou aquecido ao ver minha amiga ao meu lado. Ficar tanto tempo sozinha estava me deixando triste nos últimos dias. Sem contar que eu não sabia nada interessante sobre a rainha ou mesmo a monarquia que pudesse ser útil ao grupo secreto. Tudo parecia andar normalmente tranquilo naquele lugar. E aquilo me perturbava.
- Como está tudo?
- Indo... Tentando me adaptar.
- No início é assim. Depois vai ficar tudo bem. Também tive dificuldades de adaptação no início... E olhe que eu não tinha Lana Davis como chefe.
Rimos. Ela disse:
- Hoje posso ir no seu quarto à noite? Podemos conversar até tarde, sobre tantas coisas...
- Claro que pode. – sentir-se acolhida por uma amiga ali dentro seria muito bom, mesmo que eu estivesse cansada e tudo que precisava era descansar.
As opções de comida vegetariana no castelo eram poucas. Uma alimentação rica em proteínas e basicamente carnes era o que serviam diariamente. Eu poderia reclamar das instalações da minha masmorra que insistiam em chamar de quarto, mas da comida eu não podia. Mesmo com a pouca variedade de legumes e vegetais, ainda assim era muito melhor do que na minha casa. A fartura no castelo era para todos que ali estavam, inclusive a “plebe”, hoje chamada de criadagem.
- Por que Lana não come conosco? Nem dorme na ala dos empregados?
- Pelo que sei ela faz as refeições com a família real na maioria das vezes... Ao menos quando a rainha está nelas. E tem um quarto de hóspedes que usa no terceiro andar como seu.
- Por quê?
- Porque ela é a dama de companhia da rainha. – disse Sofia. – Teoricamente você deveria ter os mesmo direitos.
- Pelo visto ninguém sabe exatamente o que eu estou fazendo aqui, não é mesmo?
- Sinceramente... Não. Lana jamais dividiria suas tarefas. Ela gosta do que faz.
- Eu preciso entender o que realmente acontece por aqui.
- Melhor não se meter em confusão, Kat.
- Longe de mim.
Terminei de comer e fui para meu quarto frio, úmido e sombrio. Por sorte era primavera e a temperatura era agradável. Acho que se eu estivesse ali até o inverno poderia ser congelada facilmente. Quando deitei pensei em Léo e no quanto eu devia uma explicação a ele. Eu evitei ligar e quando deixei meu telefone em casa tive a certeza de que ele ligaria mil vezes e eu não poderia atender. Mas tinha certeza de que minha mãe já havia explicado a ele tudo que havia acontecido. Eu não o considerava meu namorado, mas tinha absoluta certeza de que ele não compartilhava do mesmo pensamento que eu. Ainda tinha a questão que ele me cobraria por tudo que fez por meu irmão e tenho certeza que viria da forma que eu mais temia: um comprometimento maior. Léo me amava e eu não poderia culpá-lo por isso. Mas não havia a mínima possibilidade de eu retribuir o sentimento por ele. No entanto se ele me convocasse ao compromisso, eu aceitaria. O que ele havia feito por Leon era digno de qualquer coisa.
Ouvi uma leve batida na porta e fui atender Sofia. Mas fiquei em choque quando vi Dereck. Ele entrou rapidamente, não esperando convite e fechou a porta.
- O que... Você está fazendo aqui?
- Boa noite para você também. – disse ele sentando confortavelmente na minha cama.
- Como você consegue ser tão abusado?
- Sou o príncipe, esqueceu?
- Verdade... Alteza, péssimos aposentos de empregados. Eu costumo carinhosamente chamar de masmorra ou calabouço. O que podemos fazer a respeito? – ironizei.
- Kat, eu sou abusado, mas você é muito ousada.
Olhei-o com desdém. Dereck era inconveniente na maioria das vezes. E se não bastasse, deitou na minha cama.
- Como está sua relação com Lana?
- O que achou da cama?
- Nada mal comparando com o quarto. – ele admitiu.
- Já tinha vindo aqui?
- Uma vez... Quando dormi com uma criada. – confessou ele.
Olhei-o mas não fiz perguntas. Não me interessava.
- E sobre Lana? – continuou ele.
- Acho que nunca tive uma relação tão ruim com alguém...
- Exceto seu namorado chato. – ele completou.
- Como assim?
- Léo é um chato e você sabe disto.
- Mas... Você nem o conhece.
- Quem disse?
- Duvido que tenha ido se apresentar a ele como o homem que chantageia sua namorada.
- Claro que não, Kat. Mas sei que você não gosta dele.
- Você não tem permissão para falar ou intervir na minha vida pessoal.
- Eu sei... Mas ainda assim quero fazer isso.
- Dereck, eu detesto você.
- Você sabe que não é verdade, Katrina. Ninguém me detesta a não ser minha mãe. E você não pode competir com ela, acredite.
Eu não sabia até que ponto ele me falava a verdade. Então novamente me calei. Ele não parecia disposto a me deixar em paz, então perguntei:
- Dereck, o que você quer de mim?
- Quero que faça Magnus notá-la.
- Isso... É impossível. Você sabe disso. Seu irmão é o próximo rei de Noriah... Ele vai casar com a filha de um duque, uma mulher requintada da Zona A. Quando ele olharia para mim? Dereck, eu sou só uma criada... Nem me intitulo dama de companhia porque não sou. Nem sei exatamente o que estou fazendo aqui e o porquê.
- Magnus precisa ver que você não tem utilidade nenhuma como dama de companhia.
- Como assim?
- Ele precisa perceber que minha mãe contratou uma nova dama de companhia somente para acalmar o povo. E então ele vai buscar saber porque o povo está se rebelando contra a monarquia... E perceberá que o problema não é monarquia, mas a rainha.
- Que no caso é sua mãe. Ou você vai me dizer agora que foi adotado?
- Não... Sou filho legítimo, infelizmente. Mas para ela só existe Magnus. Ele é o único que pode lhe trazer algum benefício. Ele já foi um fantoche nas mãos dela, mas hoje tenho tentado abrir os olhos dele quanto a coisas erradas que acontecem ao nosso redor.
- E tem conseguido?
- Um pouco... Confesso que está sendo melhor do que eu esperava. Pelo menos ele me ouve e me deu um voto de confiança.
- E seu pai?
- Meu pai está doente.
- O que exatamente ele tem?
- Um câncer na cabeça.
Eu fiquei um pouco chateada quando ouvi aquilo. Sempre soube que o marido da rainha era um bom homem.
- Não há o que fazer quanto a isso? – perguntei.
- Não... – ele disse. – É muito próximo do cérebro e a cirurgia oferece risco. Ele não quis fazer.
- Mas... Toda chance é uma chance.
- Ele não quer. Respeitamos sua vontade. Toma muitos remédios e hoje é um homem fraco que não tem condições de deixar a própria cama.
- Como meu pai... – observei.
- Talvez...
- E por que eu preciso ser notada por seu irmão?
- Como a dama de companhia que não tem utilidade. Ele se perguntará o que você está fazendo aqui... E de bônus você ganhar um príncipe e um título de princesa.
Eu ri alto:
- Você me lembra Kim, meu melhor amigo.
- Posso tentar substituí-lo enquanto você estiver longe dele aqui no castelo.
- Ninguém substitui Kim. – eu falei seriamente. – Além disto, você não tem amigos? Por que precisaria de mim para isso? Você vive rodeado de pessoas nas mais diversas festas...
- Não são amigos. Aproveitam-se da minha fama, do meu dinheiro. No mundo em que eu vivo não existe amizade sincera e verdadeira.
- Obrigada por me deixar prevenida.
- Não entre iguais, eu quero dizer.
Alguém bateu na porta e meu coração disparou. Ele pulou imediatamente da cama:
- Você está esperando visitas?
- Sim... – eu disse.
- O que vou fazer? – perguntou ele preocupado.
- Esconda-se no banheiro. – eu falei baixo para não sermos ouvidos. Ele foi para o banheiro e trancou a porta.
Eu abri a porta do quarto para Sofia, que entrou com uma bacia com doces saborosos.
- Se importa de comer restos da realeza?
Olhei confusa para ela.
- Estou brincando. – ela disse. – Não foi mexido, não se preocupe. Eles não sabem o que é não ter o que comer.
Ela sentou-se na minha cama confortavelmente:
- Sua cama é boa. – observou ela.
- Sim... Todos dizem. – ironizei.
- Venha, Kat. Relaxe. Está tudo bem agora. Ninguém vai entrar aqui.
Mal sabia ela que estávamos com o príncipe Dereck trancado no meu banheiro. E ela jamais entenderia o motivo disto... Nem eu mesma conseguia entender aquele homem.
Sentei ao lado dela. Ele que ficasse ali o resto da noite, naquele banheiro frio e sombrio, que mais parecia um filme de terror.
- Amanhã você poderia conhecer meu quarto. – ela disse.
- Na verdade, eu gostaria de sair amanhã.
- Mas você não pode... Acabou de entrar. Só daqui há duas semanas.
- Eu preciso muito. – expliquei.
- Mas...
- Meu pai é doente... Meu irmão sofreu um acidente.
- E você acha que Lana Davis se importa com isso?
- Ela não... Mas acho que o príncipe sim.
Ela me arregalou os olhos e disse:
- Qual sua relação com os príncipes?
- Nem eu sei... Mas eu vou pedir. É um caso bem específico e importante.
Mal ela sabia que o príncipe ouvia tudo. E além de ver meu pai e meu irmão eu precisava ir ao encontro secreto anti monarquia para ver Dom, o homem que me incendiava com um olhar. Se eu não tivesse conhecido ele e toda sua coragem e liderança, não sei se eu ainda pensaria que aqueles encontros dariam realmente em alguma coisa. Mas ele me deixava querendo mais do que eu tinha, me fazia querer buscar soluções para todos os problemas. Ele ajudava pessoas doentes durante o dia e à noite colocava sua vida em risco também em prol dos outros. Por qual motivo eu não quereria ser como ele?
Nossa conversa foi superficial e logo comecei a fingir sono e Sofia se foi. Assim que fechei a porta Dereck saiu do banheiro, congelando:
- Deve fazer uns dez graus no seu banheiro.
- Insatisfeito com as acomodações que a realeza oferece?
- Confesso que sim. – ele disse. – Magnus precisa ver isso. – ele disse sorrindo maldosamente.
- Ele também costuma dormir com as criadas? – perguntei com desdém.
- Não sei... Nunca perguntei.
- Eu preciso sair no sábado. – disse.
- Encontro anti monarquia?
Olhei-o perplexa:
- Quem é você, Dereck Chevalier?
- Sou seu amigo, Kat Lee. Só isso.
Dereck decidiu, por pressão do povo, concorrer à presidência do novo país. Ele nunca seria rei, foi rejeitado a vida toda por sua própria mãe, a rainha. Contudo, o povo sempre preferiu ele para liderar Noriah. O príncipe politicamente correto teria chances legais e iguais de concorrer junto de outros candidatos. Ele quis Dom para vice. Esta foi a parte difícil. Dom, líder rebelde e anti monarquista a vida inteira, jamais quis um cargo. Alegava ser sempre a oposição, a quem quer que estivesse no comando de Noriah. Mas depois de muita (eu digo muita mesmo) insistência por parte de todos nós, ele acabou dando uma chance a seu amigo King.Kim, por sua vez, certamente seria a primeira dama do novo país. Ele não continuou trabalhando no salão, mas passou a fazer uns vídeos sobre makes e cabelos perfeitos e logo viralizou nas redes sociais. Claro que ele ficou famoso,
Foi dado início à cerimônia de coroação do Príncipe Magnus Chevalier. Durou em torno de 30 minutos. Assim que Magnus foi coroado pelas mãos do líder do Conselho, ele me chamou antes de seu primeiro pronunciamento enquanto rei. Nos encaramos com todo amor que tínhamos em nossos corações e ele disse no meu ouvido:- Eu amo você.- Também amo você. – falei sem emitir som, mas deixando que ele entendesse o que meus lábios diziam.- Povo de Noriah... Por toda uma vida os Chevalier reinaram aqui. Eu fico imensamente grato por poder estar aqui hoje, recebendo a coroa que foi de minha mãe, de meu avô, bisavô e de outros tantos ascendentes meus que já viveram aqui. Mas não posso dizer que estou emocionado, pois seria mentira. Por isso, neste momento, enquanto rei de Noriah, eu declaro este lugar livre da monarquia para sempre. Que N
O castelo finalmente estava quase em ordem. Depois de tantos mortos e feridos, finalmente o reino de Noriah estava livre da rainha Anne Marie Chevalier. A maioria havia aprovado a invasão ao castelo. Nunca se soube quem atirou na rainha e nunca se saberia. Era um segredo muito bem guardado por mim, Magnus, Dom, Dereck e Kim. Claro que ainda haviam manifestações contrárias à coroação de Magnus, mesmo ela ainda não tendo acontecido oficialmente. Estávamos na mesa do café da manhã quando foi anunciado que Eva Lee Chevalier estava no castelo. Imediatamente pedimos que ela fosse recebida e se juntasse a nós.Fui até minha irmã e a abracei com carinho:- Venha, junte-se à nós para o café da manhã. – convidei.Ela aceitou. Todos começaram a rir e eu olhei-os confusa:- O que está havendo que eu não sei?-
- Por que não atirou em mim? – perguntei.- Existe algo melhor que ver sua cara de sofrimento e dor, Katrina Lee? Eu não quero você morta... Quero ver você sofrer tudo que eu sofri por você ter vindo ao mundo.Eu mirei no coração dela e disse, em lágrimas:- Eu não acabei... Ficou o mais importante: o tiro vingando meu bebê. – dizendo isso eu atirei no coração dela.Joguei-me sobre Dom aos prantos. Anne Marie Chevalier estava morta, mas antes de ir partiu meu coração mais uma vez. Magnus e Dereck entraram no quarto, me tirando de cima de Dom. Eu tinha sangue por todo meu corpo. Magnus me abraçou com força e Dereck foi verificar como Dom estava.- Ele... Está vivo. – disse Dereck. – Precisamos levá-lo a um hospital.Ainda se ouvia tiros pelo castelo.- Como vamos tirar ele daqui? – eu p
Assim que saímos do quarto, minha mãe disse:- Estarei rezando por vocês.- Mãe, tudo vai dar certo. Quando esta noite acabar, Magnus Chevalier será o novo rei de Noriah Sul.Laura Lee me abraçou com força e fez o mesmo em Magnus. Estávamos preste a sair quando a campainha tocou.- Está esperando alguém, mamãe? – perguntei.- Não. – ela falou confusa indo abrir a porta.Quando vimos Kevin ficamos surpresos. Eu fui até ele e lhe dei um abraço. Ele me apertou com força.- Veio... Visitar nossa mãe? – perguntei.- Na verdade não. – ele disse. – Vim participar da invasão ao castelo. Junto do grupo de vocês.- Como... Você sabe? – perguntou Magnus confuso.- Eu estou participando de um grupo... Longe do de Domênico... E de vocês. Ent&ati
As rebeliões foram aumentando conforme os dias iam passando. E a rainha ficando mais dura do que já era. A confusão no reino já estava feita e nada mais poderia mudar. As minorias que queriam que a rainha Anne ficasse no poder. A maior parte da população, mesmo preferindo o fim da monarquia, acabou se unindo aos grupos que queriam Magnus no poder e assim as alianças iam ganhando forças em todo o reino de Noriah Sul.Os encontros anti monarquia daquela semana foram marcados em zonas diferentes e em dias alternados a fim de confundir os delatores dos grupos, bem como os ataques dos grupos favoráveis à monarquia.Vesti-me com uma calça preta e uma jaqueta de couro, com botas de cano curto da mesma cor. Magnus vestiu-se de Black e partimos para o encontro na Zona B, pela primeira vez juntos. Quando o carro nos deixou no ponto de encontro, Magnus solicitou ao motorista que não ficasse ali. O







