Se connecterSofia passou o relatório do plantão. Os olhos ardiam de cansaço, mas a adrenalina ainda zumbia nas veias. Na UTI, atrás do vidro fosco, Ethan Callahan apagado sob sedação, a perna engessada pendurada num trambolho de tração. Monitores piscavam devagar: batimento 58, pressão 110/70, saturação 98%. Estável, mas no fio da navalha.
— Tá vivo depois da faca, mas a infecção é a próxima rodada — disse Dra. Vance, aparecendo ao seu lado com um café pela metade. — Os Callahan têm osso duro e cabeça de pedra. Não espere agradecimento.
Sofia olhou o perfil cortante de Ethan na luz branca. Sem a raiva, parecia mais novo, frágil. As cicatrizes nas mãos contavam histórias de arame e rédea puxada.
— Ele acordou?
— Por um instante. Rosnou pra enfermeira que tentou dar remédio. Chamou ela de "envenenadora da cidade". — Vance deu uma risadinha seca. — Bem-vinda a Serenity Creek, onde desconfiança é esporte. Vai descansar. Esse calor come os desavisados.
***
Sofia encostou a testa no volante, deixando o ar-condicionado soprar poeira no rosto. A cidade se estendia na frente: ruas vazias, placas de "Aluga-se" balançando, o letreiro do "Saloon do Vale" piscando capenga. Era o oposto de Houston. Exatamente o que ela precisava. Um lugar onde ninguém sabia do seu fracasso. Onde "Enfermeira Sofia Alves" ainda podia ser redenção, não o rosto do menino que perdeu na mesa.
Estacionou na frente do "Café do Moinho". O sino tilintou quando ela abriu a porta. Três homens num canto cortaram o papo. O silêncio pesou mais que o olhar deles.
— Bom dia — Sofia cumprimentou, indo pro balcão onde uma mulher de trancinhas grisalhas esfregava um bule com ódio.
— Dizem que salvou o pescoço do Callahan ontem — a mulher falou, sem levantar os olhos. — Betty Sanders. O café é por minha conta. Afinal, se o Ethan morresse, quem pagaria a conta do Ben aqui?
Sofia hesitou. A hostilidade pingava naquele lugar.
— Só fiz meu trabalho — respondeu baixinho, mas pra Betty ouvir.
— Trabalho? — Betty deu uma risada seca. — Aqui, trabalho mesmo só tem o sol torrando a terra. O resto é sobreviver. — Despejou um café preto feito piche numa caneca. — Quer fofoca com isso? Tá de graça antes das dez.
Os homens na mesa rangeram as cadeiras. Um deles, cara de bulldog, cuspiu no chão de madeira.
— Fofoca? O que tem é que os Callahan tão a um passo de perder a Terra Seca. Banco no pé, pasto morto, e o Ben torrando o resto no jogo e no uísque.
O mais novo, de boné de caminhoneiro, balançou a cabeça.
— Rick Dawson ofereceu grana limpa mês passado. Ethan cuspiu na proposta. Orgulho não enche barriga de boi, Lou.
— Orgulho Callahan é doença velha — resmungou Lou, o bulldog. — Lembra do velho Joseph? Morreu naquele 'acidente' no penhasco porque não quis vender um tico de terra pro Dawson. Teimosia pura.
Sofia sentiu um calafrio. Acidente. A mesma palavra que Ethan tinha gritado entre delírios na UTI. Tomou um gole do café, forte pra caramba.
— E a mãe deles? A Marlene? — perguntou Lou.
Betty soltou uma gargalhada áspera.
— Aquela onça? Guarda rancor que é uma beleza. Desde que Joseph morreu, tranca os filhos num cofre de regras. O Ben fugiu pelo fundo da garrafa. O Ethan... bom, o Ethan virou pedra. — Inclinando-se no balcão, baixou a voz. — Cuidado se pisar na Terra Seca, menina. A Marlene atira primeiro e pergunta depois. Principalmente em forasteira que mexe com os filhos dela.
O sino tilintou de novo. Um homem entrou, botas de cobra caras e camisa branca impecável. O silêncio caiu que nem faca.
— Betty, querida. Café, preto, sem açúcar. Igual meu humor hoje — Rick Dawson sorriu, os olhos azuis varrendo o lugar até pousarem em Sofia. — Ah. A heroína da hora. Sofia Alves, né? Soube que domou nosso touro bravo ontem.
Sofia sentiu o café azedar na boca. Dawson pingava perigo.
— Só tratei uma fratura, Sr. Dawson.
Ele puxou um banco, ignorando os olhares raivosos de Lou.
— Modéstia. Gosto disso. — Tomou o café que Betty despejou com força. — O Ethan é... cascudo. Igual o rancho dele. Mas até os mais duros quebram quando a terra seca e a dívida aperta. — Girou a caneca, estudando ela. — Serenity Creek precisa de sangue novo. Talvez queira saber que ofereci um posto de saúde completo pra cidade.
O subtexto flutuou no ar: Trabalhe pra mim. Fique longe dos Callahan. Sofia endireitou as costas.
— Agradeço, mas tô de boa no Mary Saint.
Dawson sorriu, mas os olhos não.
— Cidade pequena tem memória curta, querida. Mas ferida... ah, ferida pode apodrecer se não cuidar direito. — Bateu no balcão. — Até logo, Betty. E, Sofia? Cuidado com os espinhos. Até o cacto mais bonito machuca.
Quando ele saiu, o ar voltou a circular. Lou cuspiu de novo.
— Cobra de pele lisa. Só falta o chocalho.
Ben levou a mão ao rosto, não para tapar os ouvidos, mas porque o mundo girava violentamente. A raiva se dissolveu em náusea. Ele engoliu com força, o gosto amargo da bile e do uísque subindo na garganta. — Ele… o Ethan… ele sempre foi o perfeito pra ti, né? O forte. O certo. Eu nunca… nunca cheguei aos pés. — Não, nunca chegou! — Marlene cuspiu as palavras. — Mas podia ter sido mais! Podia ter sido um homem, Ben! Em vez disso, escolheu ser um fardo. Um peso morto que a gente ainda tem que carregar. Ben olhou para a mãe. A mulher de ferro, de rosto marcado pelo sol e pela perda, os ombros ainda largos, mas curvados sob um peso invisível. Ele viu, por um instante fugaz, não apenas raiva, mas uma dor profunda, uma decepção que ia além da falência do rancho. Era a falência de um filho. E aquela dor, mais do que qualquer insulto, foi o que o incomodou. Ele não teve resposta. Não teve força. A náusea venceu. Ben virou-se de repente e vomitou violentamente na pia suja, o corpo trem
Sofia terminou de checar os sinais vitais. Pressão um pouco alta, pulso acelerado. Mas a febre era o maior problema. Ela preparou uma seringa com paracetamol. — Callahan, vou administrar paracetamol no seu soro. — ela o informou ao pegar uma seringa con o remédio. Esperou que ele concordasse, mesmo carrancudo ele concordou, pois não tinha mais o que fazer. Tudo já estava fodido mesmo. — Tá feito. — Ela disse assim que terminou de administrar o paracetamol em seu soro, jogou a seringa no coletor de perfurocortantes. — Tenta dormir, seu corpo precisa se recuperar. E… — ela hesitou, mas prosseguiu. — O rancho vai esperar, Miguel tá lá. Foca em sarar. Ele não respondeu. Ficou olhando fixo pra parede, o perfil duro iluminado pela luz fria da UTI. Mas Sofia viu, viu o tremor no queixo que ele tentou conter. Viu a pálpebra pesada que não era só de cansaço físico, mas da carga imensa que ele carregava. A raiva dele, a arrogância… era armadura. E a armadura tinha rachado, deixando ver o
Sofia encostou a testa na porta fria da UTI, respirando fundo. O cheiro de desinfetante e desespero já era quase familiar. O ibuprofeno lutava bravamente contra a dor de cabeça, mas nada resolvia o nó no estômago. Ethan Callahan, só o nome já dava trabalho. Ela ajustou o jaleco, afundou os ombros num gesto falso de confiança e empurrou a porta. Os passos foram firmes até uns dois metros da cama. Aí, o joelho direito decidiu pregar uma peça. Não foi um tropeção, foi uma falha total, como se o osso tivesse virado gelatina. Ela cambaleou pra frente, a mão se agarrando na grade da cama com um estalo seco que ecoou no silêncio da sala. — Taí pra me matar de susto, enfermeira? — a voz de Ethan era áspera e rouca de sono ou raiva, ela não sabia dizer. Ele estava sentado na cama, meio inclinado pra frente, tentando alcançar uma garrafa d'água na mesa de cabeceira. O movimento tinha puxado a camisa aberta do pijama hospitalar pra o lado. E foi aí que o mundo desacelerou. O torso dele,
Sofia dirigia sem rumo, as palavras do Dawson e dos homens do café martelando na cabeça. "Até os mais duros quebram quando a terra seca e a dívida aperta." A imagem do Ethan, pálido na UTI, se misturava com o tal "acidente" do pai. Quem diabos era Rick Dawson pra ter uma sombra tão grande? Distraída, pegou um desvio errado. O asfalto acabou, trocado por trilhas de trator em terra rachada. Cercas de arame serpenteavam por morros secos. Placas de "Propriedade Privada - Callahan" pendiam, descascadas pela areia. A Terra Seca. Sofia estacionou na sombra rala de um mesquite. A desolação era de cortar o coração. O pasto, que devia ter sido verde, era um tapete marrom sob o sol impiedoso. Ossos de gado branqueavam perto da cerca, e um moinho de vento enferrujado chiava feito alma penada. Lá longe, a casa principal, uma estrutura de madeira boa, mas com telhado caído e janelas cegas de poeira. — Bonito, né? — uma voz áspera cortou o silêncio. Sofia deu um pulo. Marlene Callahan tinha
Sofia passou o relatório do plantão. Os olhos ardiam de cansaço, mas a adrenalina ainda zumbia nas veias. Na UTI, atrás do vidro fosco, Ethan Callahan apagado sob sedação, a perna engessada pendurada num trambolho de tração. Monitores piscavam devagar: batimento 58, pressão 110/70, saturação 98%. Estável, mas no fio da navalha. — Tá vivo depois da faca, mas a infecção é a próxima rodada — disse Dra. Vance, aparecendo ao seu lado com um café pela metade. — Os Callahan têm osso duro e cabeça de pedra. Não espere agradecimento. Sofia olhou o perfil cortante de Ethan na luz branca. Sem a raiva, parecia mais novo, frágil. As cicatrizes nas mãos contavam histórias de arame e rédea puxada. — Ele acordou? — Por um instante. Rosnou pra enfermeira que tentou dar remédio. Chamou ela de "envenenadora da cidade". — Vance deu uma risadinha seca. — Bem-vinda a Serenity Creek, onde desconfiança é esporte. Vai descansar. Esse calor come os desavisados. *** Sofia encostou a testa no volant
Ethan Callahan apertou o chapéu contra o vento forte que soprava feito um furacão, os olhos ardendo por causa da areia. Lá embaixo, no barranco liso, o bezerro recém-nascido berrava feito doido, com as patas de trás presas num monte de raiz e arame farpado. — Ben! Preciso de ajuda com esse maldito arame! — gritou, mas o vento engoliu as palavras. Seu irmão mais novo, encostado na caminhonete, mal se aguentava em pé. A garrafa de bourbon balançava na sua mão mole. Ethan cuspiu terra, a raiva estampada no rosto. Enquanto Ben afundava no vício, ele carregava sozinho o rancho à beira do colapso. Com o facão na mão, Ethan desceu o barranco. O vento chicoteava seu rosto, reduzindo a visão a poucos metros. Quando seu cavalo, Relâmpago, pisou numa pedra solta, o mundo virou. Ethan ouviu o estalo seco da perna antes de sentir a dor, um clarão branco que o jogou contra as rochas. Ele gritou, mas o som sumiu na fúria da tempestade. Ben se aproximou de onde Ethan estava, ele teve a impres






