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Capítulo 2

last update publish date: 2026-04-14 06:38:45

 Sofia passou o relatório do plantão. Os olhos ardiam de cansaço, mas a adrenalina ainda zumbia nas veias. Na UTI, atrás do vidro fosco, Ethan Callahan apagado sob sedação, a perna engessada pendurada num trambolho de tração. Monitores piscavam devagar: batimento 58, pressão 110/70, saturação 98%. Estável, mas no fio da navalha.

  — Tá vivo depois da faca, mas a infecção é a próxima rodada — disse Dra. Vance, aparecendo ao seu lado com um café pela metade. — Os Callahan têm osso duro e cabeça de pedra. Não espere agradecimento.

  Sofia olhou o perfil cortante de Ethan na luz branca. Sem a raiva, parecia mais novo, frágil. As cicatrizes nas mãos contavam histórias de arame e rédea puxada.

  — Ele acordou?

  — Por um instante. Rosnou pra enfermeira que tentou dar remédio. Chamou ela de "envenenadora da cidade". — Vance deu uma risadinha seca. — Bem-vinda a Serenity Creek, onde desconfiança é esporte. Vai descansar. Esse calor come os desavisados.

  ***

  Sofia encostou a testa no volante, deixando o ar-condicionado soprar poeira no rosto. A cidade se estendia na frente: ruas vazias, placas de "Aluga-se" balançando, o letreiro do "Saloon do Vale" piscando capenga. Era o oposto de Houston. Exatamente o que ela precisava. Um lugar onde ninguém sabia do seu fracasso. Onde "Enfermeira Sofia Alves" ainda podia ser redenção, não o rosto do menino que perdeu na mesa.

  Estacionou na frente do "Café do Moinho". O sino tilintou quando ela abriu a porta. Três homens num canto cortaram o papo. O silêncio pesou mais que o olhar deles.

  — Bom dia — Sofia cumprimentou, indo pro balcão onde uma mulher de trancinhas grisalhas esfregava um bule com ódio.

  — Dizem que salvou o pescoço do Callahan ontem — a mulher falou, sem levantar os olhos. — Betty Sanders. O café é por minha conta. Afinal, se o Ethan morresse, quem pagaria a conta do Ben aqui?

  Sofia hesitou. A hostilidade pingava naquele lugar.

  — Só fiz meu trabalho — respondeu baixinho, mas pra Betty ouvir.

  — Trabalho? — Betty deu uma risada seca. — Aqui, trabalho mesmo só tem o sol torrando a terra. O resto é sobreviver. — Despejou um café preto feito piche numa caneca. — Quer fofoca com isso? Tá de graça antes das dez.

  Os homens na mesa rangeram as cadeiras. Um deles, cara de bulldog, cuspiu no chão de madeira.

  — Fofoca? O que tem é que os Callahan tão a um passo de perder a Terra Seca. Banco no pé, pasto morto, e o Ben torrando o resto no jogo e no uísque.

  O mais novo, de boné de caminhoneiro, balançou a cabeça.

  — Rick Dawson ofereceu grana limpa mês passado. Ethan cuspiu na proposta. Orgulho não enche barriga de boi, Lou.

  — Orgulho Callahan é doença velha — resmungou Lou, o bulldog. — Lembra do velho Joseph? Morreu naquele 'acidente' no penhasco porque não quis vender um tico de terra pro Dawson. Teimosia pura.

  Sofia sentiu um calafrio. Acidente. A mesma palavra que Ethan tinha gritado entre delírios na UTI. Tomou um gole do café, forte pra caramba.

  — E a mãe deles? A Marlene? — perguntou Lou. 

  Betty soltou uma gargalhada áspera.

  — Aquela onça? Guarda rancor que é uma beleza. Desde que Joseph morreu, tranca os filhos num cofre de regras. O Ben fugiu pelo fundo da garrafa. O Ethan... bom, o Ethan virou pedra. — Inclinando-se no balcão, baixou a voz. — Cuidado se pisar na Terra Seca, menina. A Marlene atira primeiro e pergunta depois. Principalmente em forasteira que mexe com os filhos dela.

  O sino tilintou de novo. Um homem entrou, botas de cobra caras e camisa branca impecável. O silêncio caiu que nem faca.

  — Betty, querida. Café, preto, sem açúcar. Igual meu humor hoje — Rick Dawson sorriu, os olhos azuis varrendo o lugar até pousarem em Sofia. — Ah. A heroína da hora. Sofia Alves, né? Soube que domou nosso touro bravo ontem.

  Sofia sentiu o café azedar na boca. Dawson pingava perigo.

  — Só tratei uma fratura, Sr. Dawson.

  Ele puxou um banco, ignorando os olhares raivosos de Lou.

  — Modéstia. Gosto disso. — Tomou o café que Betty despejou com força. — O Ethan é... cascudo. Igual o rancho dele. Mas até os mais duros quebram quando a terra seca e a dívida aperta. — Girou a caneca, estudando ela. — Serenity Creek precisa de sangue novo. Talvez queira saber que ofereci um posto de saúde completo pra cidade.

  O subtexto flutuou no ar: Trabalhe pra mim. Fique longe dos Callahan. Sofia endireitou as costas.

  — Agradeço, mas tô de boa no Mary Saint.

  Dawson sorriu, mas os olhos não.

  — Cidade pequena tem memória curta, querida. Mas ferida... ah, ferida pode apodrecer se não cuidar direito. — Bateu no balcão. — Até logo, Betty. E, Sofia? Cuidado com os espinhos. Até o cacto mais bonito machuca.

  Quando ele saiu, o ar voltou a circular. Lou cuspiu de novo.

  — Cobra de pele lisa. Só falta o chocalho.

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