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Capítulo 7 — O Festival de Vento Sul

ผู้เขียน: Marina Louise
last update วันที่เผยแพร่: 2026-09-12 00:24:32

O Festival da Tainha acontecia todo ano no fim de janeiro, celebrando a temporada de pesca que sustentava metade da cidade havia gerações, e transformava a pequena Vento Sul numa versão mais colorida e barulhenta de si mesma: barracas de comida na praça central, luzes penduradas entre os postes de fiação, uma banda local afinando violões e sanfonas desde cedo da tarde, o cheiro de peixe frito e milho cozido se misturando no ar quente da noite.

Dona Célia tinha explicado a Laura, dias antes, com o orgulho de quem narra uma escritura sagrada, que o festival remontava a mais de sessenta anos, criado numa época em que a pesca da tainha era a única coisa que separava a cidade inteira da fome durante o inverno. "Não é festa, minha filha, é agradecimento", tinha dito, sovando massa de pão com as mãos cobertas de farinha. "Cada barraca representa uma família de pescador. Cada prato servido é uma promessa de que ninguém aqui passa fome enquanto o mar continuar dando o que sempre deu."

Laura, que planejava passar a noite catalogando os últimos móveis da tia — trabalho seguro, previsível, longe de qualquer coisa que envolvesse sentimentos complicados —, deixou-se convencer por Marina, que tinha vindo passar o fim de semana pela primeira vez desde a mudança, a ir "só dar uma olhada, Lau, você não pode virar eremita numa cidade de trezentos habitantes".

— Trezentos e cinquenta, segundo o Amâncio — corrigiu Laura, ajustando o vestido leve que tinha comprado numa das raras idas à cidade vizinha, um tom azul-claro que combinava, ela percebeu satisfeita ao se olhar no espelho rachado do quarto, exatamente com a cor do céu ao entardecer sobre a duna.

— Ainda menos gente do que o andar do meu prédio em São Paulo. — Marina riu, prendendo o cabelo num coque apressado, os olhos já brilhando de curiosidade por aquele mundo tão diferente do que conhecia. — Vamos, quero ver essa cidade que roubou minha melhor amiga.

A caminhada até a praça, pela primeira vez desde que chegara sem o peso constante das preocupações com a reforma, deu a Laura a chance de mostrar à amiga os cantos que já tinha aprendido a amar sem perceber quando exatamente aquilo tinha acontecido: a trilha entre as dunas onde os coqueiros formavam um túnel natural de sombra, o pequeno mirante de pedra de onde se via o cais inteiro, a casa amarela onde morava a professora aposentada que cultivava as orquídeas mais bonitas da região.

— E aquele ali? — perguntou Marina, apontando para um homem idoso que consertava uma rede de pesca sentado numa cadeira de praia improvisada na calçada, os dedos ágeis e experientes apesar da idade avançada.

— Seu Osvaldo, dono da quitanda. Diz que essa rede foi do avô dele. — Laura sorriu, cumprimentando o velho com um aceno que ele retribuiu com um sorriso desdentado e caloroso. — Ele conta uma história diferente sobre a origem dela toda vez que eu pergunto. Uma vez disse que era do bisavô, outra vez que tinha ganhado de um pescador espanhol náufrago. Acho que ele nem lembra mais qual é a verdadeira, e também acho que não importa mais pra ele.

— Vocês formam uma comunidade e tanto por aqui.

— É a primeira vez que sinto isso de verdade, Marina. Fazer parte de alguma coisa maior que eu mesma, sem precisar disputar posição ou provar valor pra ninguém.

— Você mudou, Lau — comentou Marina, no meio do caminho, observando a amiga com atenção. — Não sei explicar direito o quê, mas mudou. Parece mais... leve. Menos travada nos ombros, sabe?

— Deve ser a falta de reunião de diretoria.

— Deve ser mais do que isso. — Marina sorriu, sem insistir mais, guardando a observação para depois.

A praça estava lotada quando chegaram, luzes amarelas balançando ao vento, crianças correndo entre as barracas, casais dançando forró apertado no espaço improvisado no centro. O cheiro de peixe frito misturava-se ao de pipoca doce e cerveja gelada, e uma fila comprida se formava diante da barraca principal, onde Amâncio, Seu Osvaldo e mais um punhado de homens da cidade se revezavam fritando postas de tainha com uma eficiência ensaiada de décadas.

Laura encontrou Rafa perto da barraca de peixe frito, camisa branca contra a pele bronzeada, rindo de alguma coisa que Amâncio dizia enquanto os dois ajudavam a servir os pratos para uma fila crescente de pessoas — ele parecia mais leve ali, integrado à cidade de um jeito que a marcenaria silenciosa não permitia ver, os braços sujos de óleo até o cotovelo, gritando pedidos por cima do barulho da música com a mesma naturalidade de quem faz aquilo desde criança.

Quando os olhos dele encontraram os dela por cima da multidão, o riso morreu devagar, substituído por uma expressão que Laura não soube nomear de imediato — só sentiu, como uma corrente elétrica descendo pela espinha, o peso completo daquele olhar.

— Vai ficar aí parada olhando ou vai dançar? — gritou Marina, já sendo puxada para o meio da roda por um rapaz qualquer que ela tinha conhecido há exatos noventa segundos, um sorriso largo de quem já decidira se entregar completamente ao espírito da noite.

Rafa entregou o prato que segurava para Amâncio terminar de servir e atravessou o espaço entre eles com passos tranquilos, mas os olhos fixos, como um homem que já decidiu alguma coisa e só está esperando a coragem alcançar a decisão.

— Dona Laura sabe dançar forró?

— Dona Laura sabe fazer relatório de fluxo de caixa e apresentação de trimestre pra diretoria. Forró é território completamente desconhecido.

— Então está na hora de explorar território novo.

Ele estendeu a mão, calejada e firme, e Laura olhou para aquela mão por um segundo mais longo do que precisava, pensando em todas as razões pelas quais deveria recusar — o negócio pela frente, a vida que precisava reconstruir sozinha e por conta própria, o fato de que homens como Rafael Duarte, com seus silêncios cheios de história e olhares carregados demais, eram exatamente o tipo de complicação que ela tinha vindo para Vento Sul para evitar.

Segurou a mão dele mesmo assim.

Dançaram mal no início, os dois rindo dos próprios passos errados, os pés se atrapalhando no ritmo desconhecido — Laura pisou no pé dele pelo menos três vezes, e na terceira ele fingiu um tombo tão exagerado que os dois acabaram gargalhando alto o suficiente para chamar a atenção de quem dançava por perto —, até que a música desacelerou numa toada mais lenta e o corpo de Rafa se aproximou do dela quase sem que Laura percebesse a transição — só percebeu o calor dele, a mão firme nas costas dela, o cheiro de sal e sabão e madeira que ela já reconhecia de longe, mesmo entre a multidão inteira.

— Por que você nunca sai à noite de barco? — perguntou ela, baixinho, arriscando a pergunta que carregava desde a conversa com Amâncio semanas atrás, quando o velho tinha mencionado o assunto de passagem e depois mudado de tema tão rápido que só reforçou a curiosidade dela.

O corpo dele enrijeceu apenas um milímetro, quase imperceptível, mas Laura sentiu.

— Quem te contou isso?

— A cidade inteira, ao que parece. Descobri que aqui ninguém guarda segredo por muito tempo.

Rafa ficou calado por um momento tão longo que Laura pensou ter estragado tudo, ter tocado num nervo exposto demais para uma dança de festival. Então ele respirou fundo, os olhos fixos em algum ponto atrás do ombro dela, longe, no escuro do mar que se via ao fim da rua principal.

— Meu pai morreu numa saída noturna. Eu tinha vinte anos, ele saiu numa noite calma, dessas que ninguém desconfiaria de nada, e simplesmente não voltou. Encontraram o barco dele dois dias depois, virado, longe de qualquer rota normal. Nunca souberam exatamente o que aconteceu. Desde então, o mar de noite... não é meu lugar mais.

— Sinto muito, Rafa.

— Não sinta. — A voz dele era gentil, mas firme, o tipo de firmeza que vinha de quinze anos processando a mesma dor de formas diferentes. — Foi há muito tempo. Só... não gosto de falar sobre isso na primeira dança de verdade que tenho com uma mulher em muito tempo.

— Então não fale mais. Só dance.

E ele dançou, e por alguns minutos, sob as luzes penduradas e a música de sanfona, os dois esqueceram — ou fingiram esquecer, o que às vezes dava quase no mesmo — tudo o que os empurrava para direções opostas: o medo dele, a fuga dela, os fantasmas que cada um carregava sem nem sempre perceber o próprio peso.

De longe, sem que nenhum dos dois percebesse, uma mulher de cabelos grisalhos observava a cena com uma expressão indecifrável, um misto de esperança cautelosa e preocupação antiga — Dona Marlene, que tinha vindo ao festival como fazia todo ano, mais para ver os vizinhos do que para dançar, e que agora via o próprio filho sorrir de um jeito que não via fazia tempo demais para contar nos dedos de uma mão só.

Ao lado dela, uma vizinha comentou baixinho, sem perceber que Dona Marlene estava mais interessada na cena do que na conversa: — Aquela é a moça da pousada, não é? — e Dona Marlene apenas assentiu, um sorriso pequeno e privado brotando nos lábios, o tipo de sorriso de quem guarda uma esperança recém-nascida com o cuidado de quem já aprendeu, da pior forma possível, como esperanças podem ser frágeis.

Mais um pouco de tempo se passou, a banda emendando uma música na outra sem pausa, e quando finalmente a sanfona desacelerou de novo, Amâncio apareceu do lado da barraca gritando por Rafa para ajudar com um problema na fritadeira, a chama baixa demais ameaçando estragar toda a próxima leva de peixe. Rafa se afastou relutante, prometendo voltar assim que resolvesse a situação, e Laura ficou observando-o correr entre a multidão, cumprimentando conhecidos no caminho, parte natural daquele organismo vivo que era a cidade inteira reunida numa só praça.

Quando a música finalmente parou, os dois ainda de mãos dadas, ofegantes de tanto rir e dançar, Marina apareceu do nada, o rosto vermelho de calor e alegria, puxando Laura pelo braço.

— Preciso de água antes de morrer de calor aqui. Vem comigo?

Laura hesitou, olhando para Rafa, que assentiu com um sorriso pequeno, entendendo perfeitamente a interrupção necessária.

— Vai. Eu preciso voltar pra barraca antes que o Amâncio decida que estou de folga permanente.

Ela se afastou com Marina, o coração ainda acelerado, sentindo pela primeira vez em muito tempo que talvez estivesse, devagar e sem pressa nenhuma, encontrando o próprio caminho de volta para casa — não a casa de tijolo e telha, mas aquela outra, mais difícil de definir, que a gente só reconhece quando finalmente pisa dentro dela de novo.

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