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Capítulo 18 - O jardim

Author: A escritora
last update publish date: 2025-12-31 07:45:56

Após o passeio pelo jardim, Constantine sentou-se em um pequeno banco cercado por flores. Era como uma cabana natural, um abrigo de pétalas coloridas. A brisa leve fazia as folhas sussurrarem, e o canto dos pássaros preenchia o silêncio suave da tarde. O som dos carros e o burburinho da cidade pareciam distantes — a mansão era ampla, cercada por natureza e calma.

Ali, imersa na quietude, ela se deixou envolver pelos próprios pensamentos. Havia tanto a refletir — sobre si, sobre os últimos dias, sobre tudo o que havia mudado. Por um instante, sentiu vontade de fugir da realidade, de mergulhar em outro mundo, em uma boa história.

Levantou-se então, decidida, e seguiu de volta para a biblioteca. Subiu as escadas lentamente, admirando a imponência daquela casa repleta de detalhes nobres que pareciam guardar segredos do tempo. A grande porta da biblioteca se abriu com um leve rangido, revelando o ambiente que mais lhe fascinava ali dentro — o escritório do senhor Zanobi.

O cômodo era vasto e elegante, iluminado por uma janela alta que deixava entrar a luz do entardecer. Em frente à janela, uma mesa de madeira maciça dominava o espaço, com papéis empilhados e uma cadeira de couro imponente. Constantine percorreu as prateleiras com o olhar, procurando algo que a fizesse viajar — um livro que a levasse para longe.

Depois de alguns minutos, encontrou um volume de fantasia e se sentou numa poltrona próxima à janela, ao lado da grande mesa. A luz dourada que entrava pelas cortinas tornava a leitura ainda mais agradável. A cada página, ela se envolvia mais com a história, até se perceber completamente absorta — o tempo parecia ter parado. O personagem principal lhe lembrava a si mesma, e de repente, ela já não estava mais ali: viajava entre reinos e aventuras, perdida nas palavras.

Foi então que uma voz grave a trouxe de volta:

— Esse é o meu favorito.

Constantine sobressaltou-se, endireitando-se na poltrona. Olhou na direção da porta e encontrou Umberto Zanobi encostado no batente, com o paletó apoiado no braço e um meio sorriso discreto.

— Me desculpe, senhor Zanobi… — disse, um pouco sem graça. — Eu só precisava de algo para me distrair. Fiz um passeio pelo jardim, mas senti falta de uma boa leitura. Sua biblioteca é… um sonho.

Umberto aproximou-se lentamente, o olhar ainda fixo no livro em suas mãos.

— Não precisa se desculpar — respondeu com serenidade. — Pode ler o quanto quiser. Leve-o para o seu quarto, se preferir. Tenho outros exemplares interessantes por aqui.

Ele se dirigiu até as prateleiras e começou a retirar alguns volumes, mostrando-lhe edições autografadas e capas luxuosas. Constantine observava tudo encantada, como uma criança diante de um tesouro.

— Esses são meus favoritos — disse ele, entregando-lhe três livros. — Acho que você vai gostar deles também.

Ela sorriu, agradecida, e saiu da biblioteca levando os volumes junto ao peito, enquanto Umberto ficou ali, organizando as pilhas de livros que, no meio da empolgação, acabaram ficando espalhadas pela mesa.

Aquela noite prometia ser de leitura.

Enquanto arrumava as prateleiras da biblioteca, Umberto sentiu um aroma agradável se espalhar pelo ar. Um cheiro quente, familiar, como se um jantar especial estivesse sendo preparado naquela casa que há tanto tempo permanecia fria e silenciosa.

Há anos ele não via a cozinha ser usada para algo além de café e sanduíches apressados. Quando a funcionária responsável pelo serviço doméstico estava presente, ela preparava bolinhos simples ou pães caseiros, mas agora ela estava de licença. Por isso, aquele cheiro — de comida de verdade, feita com esmero — o intrigou profundamente.

Movido pela curiosidade e pelo estômago já roncando, desceu as escadas. Ao chegar ao andar inferior, parou diante de uma cena inesperada e, de certo modo, comovente.

A mesa da cozinha estava posta com fartura e cor. Panelas e travessas de louça fumegavam sobre a toalha simples, e Ludovica, com o avental amarrado à cintura e um sorriso acolhedor, o recebeu com um brilho amistoso no olhar.

— Senhor Umberto, venha se sentar — disse ela, animada. — Hoje preparei um jantar especial para nós. Não é nada sofisticado, não ao nível do senhor, mas foi feito com muito carinho, como forma de agradecimento por tudo que tem feito por nossa família.

Ela apontou para a mesa:

— Temos aqui batatas cozidas, purê e carne de panela. O Tommaso foi à feira e achou uma barraca que recebe as batatas direto da nossa fazenda. Trouxe para que eu as preparasse especialmente para o senhor.

Umberto a observava com atenção, surpreso com a hospitalidade e, talvez, um pouco comovido.

— Também fiz arroz, uma salada cozida… e tem feijão, se o senhor gostar — completou Ludovica com gentileza.

— Gosto, sim — respondeu ele, com um leve sorriso. — Embora não seja algo que costumo comer com frequência.

Logo pegou o prato e começou a se servir. Ludovica e Tommaso se entreolharam, satisfeitos ao vê-lo colocar porções generosas. Aquele gesto simples — um homem tão reservado, servindo-se de comida caseira e sentando-se à mesa com eles — parecia, de certo modo, extraordinário.

Pouco depois, Constantine desceu, unindo-se ao grupo. E foi ali, ao redor daquela mesa iluminada por uma luz amena, que Umberto experimentou algo que há muito tempo não vivia: o calor de um jantar em família.

Entre risadas suaves, lembranças e o som de talheres tocando pratos, o ambiente se encheu de uma leveza quase esquecida. Depois do jantar, houve sobremesa — uma torta simples, mas deliciosa. Umberto repetiu o prato, lanchou um pouco mais e, ao fim, agradeceu discretamente.

Cada um seguiu para o seu quarto. Mas ele permaneceu um pouco mais, sozinho na sala, degustando um vinho antigo enquanto deixava o silêncio envolver a casa.

Pela primeira vez em anos, aquela mansão não parecia tão vazia.

As horas se arrastavam, e Umberto ainda estava ali, sozinho na sala, saboreando o vinho enquanto deixava os pensamentos correrem soltos. A mente fervilhava de planos, de números, de estratégias. Negócios grandiosos se formavam e se desmanchavam em sua cabeça, como se ele estivesse em constante negociação com o futuro.

Lá fora, a noite havia se consolidado. O silêncio da casa era profundo, cortado apenas pelo tique-taque distante de um relógio antigo. Tudo estava às escuras. A mansão parecia ainda maior sob aquela penumbra.

Foi então que ele ouviu algo — como som de passos leves, quase tímidos, vindos do corredor. Ele parou por um instante, erguendo o olhar. Pensou que talvez fosse Ludovica ou Tommaso, mas os passos eram diferentes… mais delicados, hesitantes.

Continuou escutando. Os sons se afastaram e, logo depois, um novo ruído que gelou seu peito: um choro baixo, contido, quase sufocado.

A princípio, ele tentou ignorar, achando que talvez fosse um engano da sua mente cansada. Mas o som persistia. Levantou-se, deixou a taça sobre a mesa e apanhou o pequeno abajur de mão que ficava ao lado do sofá. A luz amarelada iluminava apenas o caminho à sua frente, criando sombras longas nas paredes.

A cada passo, a mansão parecia mais sombria, mais viva. As cortinas se moviam com a brisa noturna que entrava por alguma fresta, e o som dos seus passos ecoava pelo corredor.

O barulho do choro o guiou até o fundo da casa, onde ficava a porta envidraçada que dava acesso ao jardim. Ao se aproximar, Umberto viu, através do vidro, uma silhueta sentada no banco de flores. A luz prateada da lua delineava os contornos delicados da figura — era Constantine.

Ela estava sozinha, os ombros tremendo, o rosto escondido entre as mãos. Chorava em silêncio, completamente alheia à sua presença.

Umberto parou, hesitante. Por alguns instantes, apenas observou — o vento agitava suavemente os cabelos dela, e as flores ao redor balançavam, como se partilhassem daquela dor.

Ele sentiu algo estranho no peito — uma mistura de preocupação e ternura. Aquela visão o desarmou por completo. O mesmo homem acostumado a lidar com frieza e controle agora se via diante de uma fragilidade que não sabia como consolar.

Não sabia o que dizer, tampouco o que fazer. Apenas entendeu, em silêncio, que Constantine escondia algo muito maior do que deixava transparecer.

Constantine percebeu a presença de Umberto antes mesmo que ele dissesse qualquer palavra. O perfume dele — único, e inconfundível — misturou-se ao ar frio da noite.

Com o rosto ainda úmido de lágrimas, ela sussurrou, sem olhar para trás:

— Eu sei que o senhor está aí.

Umberto permaneceu imóvel por um instante, oculto pela sombra de uma planta alta. Então, com passos lentos, surgiu na penumbra. A lua desenhava seu rosto sério, e sua voz soou grave, mas surpreendentemente serena:

— O que houve, Constantine? Por que você está assim... sozinha, no meio da noite, nesse estado? O que aconteceu? Conte para mim.

As palavras dele era um convite à conversa, e talvez por isso, as lágrimas voltaram a escorrer. Constantine levou as mãos ao rosto e balançou a cabeça, sem conseguir conter o choro.

— São muitas dúvidas... — disse entre soluços. — É inexplicável... não consigo colocar em palavras. São tantos acontecimentos... tantas coisas pesadas que guardo comigo...

Ela tentou continuar, mas a voz falhou. A dor parecia maior do que qualquer explicação.

Ao ouvir novamente aquele som de choro — a voz embargada, os soluços contidos — Umberto, que ainda segurava o abajur como se fosse uma arma, apenas o deixou escorregar de sua mão. O objeto tocou o chão com um som seco.

Sem dizer uma palavra, ele se aproximou devagar e, num gesto inesperadamente humano, envolveu Constantine em seus braços.

Ela não resistiu. Desabou contra o peito dele, permitindo que toda a dor reprimida escapasse em lágrimas silenciosas.

Por um instante, nada mais existiu — apenas o vento e o peso compartilhado de duas almas feridas.

Foi um momento de união improvável, nascido da dor, como se ambos tivessem atravessado as mesmas tempestades. Mesmo sem que Constantine dissesse uma só palavra, Umberto compreendeu, de alguma forma, o que ela carregava.

Ficaram ali, em silêncio, e as lágrimas dela umedeciam a camisa dele.

E, pela primeira vez em muito tempo, Umberto não tentou entender apenas sentiu.

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