LOGINA porta dos fundos se abriu.
— Seu Tião, eu terminei de organizar as caixas do depósito... Constantine interrompeu a frase ao perceber a presença de um visitante. Por um instante, ficou surpresa. Mas logo reconheceu aquele rosto. — Doutor? O homem sorriu imediatamente. A tensão que havia tomado conta do ambiente desapareceu quase por completo. — Olá, minha querida. Tião observou os dois alternadamente. — Vocês se conhecem? — Claro que nos conhecemos — respondeu o médico. — Fui eu quem acompanhou a recuperação dela. Constantine aproximou-se alguns passos. — O que o senhor está fazendo aqui? — Procurando você. Ela arqueou uma sobrancelha. — Me procurando? — Há alguns dias. O médico guardou a fotografia dentro do bolso do casaco. — Quando voltei à mansão para a sua última avaliação, descobri que você já havia partido. — Nós nos mudamos há algum tempo. — Eu percebi. Um leve sorriso surgiu em seus lábios. — Então fui até a fazenda. — O senhor foi até lá? — Fui. — E encontrou meus tios? — Não. Encontrei apenas Pi. Ao ouvir aquele nome, Constantine sorriu. — E ele contou tudo, não foi? — Praticamente tudo. Os três riram. — Ele me disse que você estava morando nesta região e trabalhando para o Tião. Tião cruzou os braços. — Então era isso. — Era isso — confirmou o médico. Então voltou sua atenção para Constantine. — Eu só queria saber como você estava. A jovem ficou surpresa com a sinceridade daquela resposta. — Está tudo bem comigo. — Tem certeza? — Tenho. Ela olhou ao redor. — A cidade ainda é um pouco estranha para mim. — Imagino. — A casa não é perfeita. — Imagino também. — E o trabalho é mais difícil do que eu esperava. — Isso eu não tinha dúvidas. Um sorriso divertido surgiu entre os dois. Pela primeira vez, Constantine não enxergava nele apenas o médico responsável por sua recuperação. Havia algo diferente. Uma simpatia genuína. Uma preocupação sincera. Como se ele realmente tivesse se importado com o que aconteceria com ela depois que deixasse a mansão. — Fico feliz em ver que está bem — disse ele. — E eu fico feliz que o senhor não tenha desistido da minha avaliação. — Alguns pacientes dão mais trabalho do que outros. — Eu vou considerar isso uma ofensa. — Considere como quiser. Os dois sorriram. Tião observava a cena em silêncio. Afinal, poucos minutos antes estava convencido de que aquele desconhecido representava algum perigo. O médico acabou aceitando o convite de sentar-se por alguns minutos em uma pequena mesa nos fundos do açougue. A chuva lá fora continuava caindo, mas agora de forma mais suave. — Já que atravessei metade da cidade para encontrá-la, acho que posso fazer uma última avaliação — disse ele com um sorriso. Constantine riu. — Tudo bem, doutor. A conversa começou de forma simples. Ele perguntou sobre sua saúde. Se ainda sentia tonturas. Se estava se alimentando corretamente. Se as noites de sono haviam melhorado. Se havia sofrido alguma crise de ansiedade desde a mudança. Constantine respondeu a todas as perguntas com sinceridade. — Estou bem. — Tem certeza? — Tenho. Ela refletiu por alguns segundos antes de continuar. — Às vezes sinto medo. — Isso é normal. — Mas não estou sozinha. Seu olhar suavizou. — Meus tios estão comigo. Eles estão se esforçando para se adaptar tanto quanto eu. — Isso ajuda muito. — Ajuda mais do que eles imaginam. O médico assentiu satisfeito. Aquela era a resposta que desejava ouvir. Durante alguns instantes, ambos permaneceram em silêncio. Foi então que, inesperadamente, ele resolveu falar um pouco sobre si mesmo. — Sabe, quando eu tinha a sua idade, também acreditava que o mundo estava desabando sobre a minha cabeça. Constantine sorriu. — O senhor? — Difícil acreditar? — Um pouco. — Pois acredite. Ele apoiou os braços sobre a mesa. — Eu nasci em uma comunidade rural muito simples. Minha família não tinha dinheiro. Muitas vezes não sabíamos como seria o dia seguinte. A jovem ouviu com atenção. — E como o senhor se tornou médico? — Estudando. — Só isso? Ele riu. — Não. Também trabalhando, errando, recomeçando e ouvindo muitas vezes que eu não conseguiria. — E conseguiu. — Consegui. O olhar dele se perdeu por alguns instantes na chuva que escorria pela janela. — Por isso aprendi uma coisa. — O quê? — Que os momentos mais difíceis da nossa vida raramente são o fim da história. Constantine permaneceu em silêncio. — Muitas vezes são apenas o começo de um novo capítulo. As palavras ficaram ecoando em sua mente. Porque, pela primeira vez desde que deixara a fazenda, ela começou a acreditar que talvez aquilo fosse verdade. Talvez aquela casa simples não fosse um castigo. Talvez aquele trabalho difícil não fosse um retrocesso. Talvez tudo aquilo fosse apenas o início de algo maior. O médico levantou-se alguns minutos depois. — Bem, minha querida, agora posso dizer oficialmente que está recuperada. — Obrigada por ter vindo. — Eu que agradeço. Enquanto observava o médico colocar novamente o chapéu e preparar-se para enfrentar a chuva, Constantine sentiu uma estranha inquietação. Havia algo naquela visita que ela não conseguia compreender completamente. Não era desconfiança. Mas também não era apenas gratidão. Alguma coisa parecia fora do lugar. Afinal, uma pessoa daquela posição social dificilmente atravessaria a cidade inteira apenas para saber se uma antiga paciente estava bem. Ela acompanhou o homem com os olhos até que ele desaparecesse sob a cortina de chuva. Foi então que Tião se aproximou. — Posso te fazer uma pergunta? — Claro. — Esse senhor é seu amigo há muito tempo? Constantine balançou a cabeça. — Não. — Então você o conheceu recentemente? — Sim. Foi quando fiquei doente. — Na fazenda? — Exatamente. Tião permaneceu pensativo por alguns instantes. — Você percebeu que ele não é daqui, não é? — Daqui do bairro? — É. Ela sorriu de canto. — O senhor está tentando dizer que ele pertence à alta sociedade? Tião soltou uma pequena risada. — Vejo que você entendeu. — Não precisava ser um gênio para perceber. — Então também percebeu que esse tipo de aproximação não costuma ser tão comum. Constantine cruzou os braços. — Olha, Tião, eu acho que estou entendendo onde o senhor quer chegar. — Está? — Está insinuando que talvez exista alguma segunda intenção por parte do doutor. Tião não respondeu imediatamente. O silêncio foi resposta suficiente. — E eu posso garantir que não é isso. — Tem certeza? — Tenho. Ela respondeu com firmeza. — Ele sempre foi respeitoso comigo. — Ainda assim, fique atenta. Constantine suspirou. — Se algum dia existir algo que ultrapasse os limites, eu saberei colocar um ponto final na situação. Tião assentiu lentamente. — Eu acredito nisso. Então seu semblante tornou-se mais sério. — Mas também acredito que você ainda está conhecendo a cidade. Ela ouviu em silêncio. — Você é uma moça inteligente, trabalhadora e sabe se defender. Mas veio da zona rural. Algumas pessoas daqui enxergam isso como uma oportunidade para se aproveitar dos outros. Aquelas palavras não foram ditas com maldade. Nem com julgamento. E justamente por isso fizeram Constantine refletir. — Eu não quero me intrometer na sua vida — continuou Tião. — Só quero que saiba que não está sozinha. Ela ergueu os olhos. — Minha família está aqui. Minha esposa está aqui. Se precisar de orientação, ajuda ou simplesmente conversar, pode nos procurar. Um sorriso sincero surgiu no rosto de Constantine. Nos últimos meses ela havia perdido muita coisa. Mas também havia encontrado pessoas boas pelo caminho. — Muito obrigada, Tião. — Não precisa agradecer. — Preciso sim. Ele sorriu. — Então considere isso um investimento. — Investimento? — Em alguém que ainda vai dar muito orgulho para todos nós. Tião sorriu e voltou ao trabalho. Constantine permaneceu parada por alguns instantes, observando a chuva escorrer pela vidraça do açougue. As palavras do amigo ainda ecoavam em sua mente. Talvez ele estivesse preocupado à toa. Talvez estivesse exagerando. Ou talvez estivesse enxergando algo que ela ainda não conseguia ver. Mas uma coisa era certa. Aquela visita havia despertado uma dúvida que não existia antes. Ela recordou a forma como o médico insistira em encontrá-la. A longa distância que percorrera. A preocupação genuína em saber como ela estava. E, acima de tudo, a expressão que ele demonstrava sempre que a observava. Não era pena. Não era interesse. Não era simples cordialidade. Era outra coisa. Algo que ela ainda não conseguia definir. Constantine cruzou os braços e soltou um pequeno suspiro. — Eu sei que não existem segundas intenções aí, Tião. O homem ergueu os olhos do balcão. — Tem certeza? — Tenho. Ela sorriu de leve. Então voltou a olhar para a chuva. — Mas existe alguma coisa que eu ainda não consigo entender. Seu olhar tornou-se pensativo. Profundo. Curioso. — E eu vou descobrir. Do lado de fora, um trovão distante ecoou entre as nuvens.Os dias seguintes foram dedicados aos preparativos para a Feira do Empreendedor.Umberto e sua equipe organizaram tudo com cuidado. Um espaço foi alugado na própria comunidade, para que os moradores não precisassem se deslocar para longe. O local foi preparado para receber as pessoas com conforto, e não faltaram comida, bebidas e um ambiente acolhedor.Ainda assim, havia certa desconfiança.Quando os moradores perceberam que a Montreau Industries estava por trás do projeto, algumas pessoas preferiram manter distância.Afinal, a empresa de Edvaldo não era vista com bons olhos naquela comunidade.Durante anos, os moradores haviam convivido com os problemas causados pela fábrica instalada nas proximidades. Por isso, para muitos, aquela iniciativa parecia apenas mais uma tentativa da empresa de melhorar sua imagem diante das mídias.Mas Constantine conseguiu mudar aquela percepção.Ela não falou como representante da empresa.Falou como alguém que vivia ali.Contou um pouco da própria tra
Depois da conversa com Vito, Umberto finalmente deixou a empresa.Os últimos dias haviam sido uma verdadeira correria.Três dias na casa de Edvaldo, conversas que preferia esquecer, documentos que ainda precisava analisar e, assim que havia saído da casa do pai, fora diretamente para a empresa.Nem sequer tivera tempo de passar em casa.Agora, enquanto dirigia de volta, sentia o peso daqueles dias sobre os ombros.Precisava descansar.Quando finalmente chegou, entrou em casa e deixou a pasta sobre o móvel da entrada. Tirou o paletó, afrouxou a gravata e soltou um suspiro profundo.— Finalmente...Seguiu diretamente para o quarto.Um banho quente e demorado parecia ser exatamente o que precisava naquele momento.Depois, vestiu uma roupa confortável e pediu algo para comer.Enquanto esperava o delivery, levou os documentos que Edvaldo havia lhe entregado para o escritório.Sentou-se na poltrona e abriu a pasta.Começou a analisar cada página com atenção.Havia informações sobre a comuni
— Umberto, preciso conversar com você — disse Vito, assim que o amigo entrou na empresa.Umberto deixou a pasta sobre a mesa e soltou um suspiro cansado.— Certo, mas não agora. Acabei de chegar. Esses últimos dias foram uma loucura.Vito assentiu.— Tudo bem. Passo aqui mais tarde. Bom te ver, meu amigo.Ele já estava se afastando quando Umberto o chamou:— Ah, já que você está indo na direção da cafeteria, pede para alguém trazer um café caprichado e um pedaço de torta da Ludovica.Vito acenou positivamente.— Deixa comigo.Assim que saiu da sala, encontrou Nay no corredor.— Nay!Ela se virou.— Oi?— O chefe está pedindo café. Se vira e vai levar para ele agora.Nay congelou. Por um instante, sentiu o coração acelerar.— Eu?— Você mesma.Ela olhou para a porta da sala de Umberto. A lembrança daquela noite no restaurante voltou imediatamente. Pegou a bandeja e seguiu pelo corredor. A cada passo, suas mãos ficavam mais trêmulas. A xícara e os talheres balançavam sobre a bandeja, pr
No terceiro dia, Umberto já não conseguia esconder a impaciência. Havia passado tempo demais naquela casa. Três dias. Três dias longe de sua empresa, de seus negócios e de tudo aquilo que havia construído com tanto esforço e dedicação. Mesmo que tivesse conseguido trabalhar remotamente em alguns momentos, sabia que precisava voltar. Naquela manhã, encontrou o pai no escritório. Edvaldo estava sentado atrás da enorme mesa de madeira, analisando alguns documentos. Umberto entrou sem bater. — Pai. Edvaldo ergueu os olhos. — Sente-se. — Não. Dessa vez eu vim avisar que preciso voltar. O homem pousou os documentos sobre a mesa. — Já? — Já estou aqui há três dias, pai. — E isso é muito? — Para mim, é. Edvaldo o observou em silêncio. Umberto continuou: — Preciso voltar para os meus negócios. A empresa de mim. Existem muitas coisas que preciso analisar e revisar pessoalmente. Não posso continuar afastado por tanto tempo. Ele esperava uma discussão. Ou então,
— Eu sempre quis te orientar da forma correta, mas você sempre me desafiou — disse Edvaldo, com a voz carregada de ressentimento. Umberto o encarou. — Eu nunca quis fazer as mesmas coisas que você fazia. O rosto de Edvaldo endureceu. — Porque você é um frouxo! Mole, chorão. A sua mãe te arruinou com aquele jeitinho dela. Deixou você assim. Por alguns segundos, Umberto permaneceu em silêncio. Aquelas palavras atingiram um lugar que ele tentava manter protegido havia anos. Sua mãe. Edvaldo sabia exatamente onde tocar. Mas, daquela vez, Umberto não abaixou os olhos. Deu um passo na direção do pai e respondeu, com a voz baixa e firme: — Não foi minha mãe que me tornou diferente de você, pai. Mas foi justamente ela que me mostrou que eu não precisava me tornar um homem cruel para ser forte. Edvaldo ficou em silêncio. Umberto continuou: — Você chama de fraqueza tudo aquilo que não consegue controlar. Minha escolha, minha consciência, minha liberdade... até o amor que
Após aquele dia cansativo na empresa, Umberto organizou os documentos que levaria na viagem. As malas já estavam prontas e, em poucos minutos, ele precisaria apenas entrar no táxi em direção ao aeroporto. Tudo estava perfeitamente organizado. Conferiu pela última vez os contratos, os relatórios e alguns documentos importantes. Pegou os últimos papéis e os colocou dentro da pasta escura que sempre carregava consigo. Era quase um ritual. Nada podia sair do lugar. Depois de verificar se havia esquecido alguma coisa, desligou o computador, apagou as luzes da sala e saiu. O corredor central estava praticamente vazio. Seus passos ecoavam pelo ambiente silencioso enquanto caminhava em direção às escadas. Antes de descer, pegou o celular e enviou uma mensagem para Emilyke. Ela também viajaria naquela noite, embora para um evento completamente diferente. Mesmo com a rotina corrida dos dois, Umberto fazia questão de saber se ela havia chegado bem ao aeroporto. Guardou o celular







