LOGIN— Aquela garota ingrata e egoísta!
Frederico bateu a mão sobre a mesa. — Como ousa fugir assim? Se os Falconi souberem, será o nosso fim! Amélia continuava olhando para a tela do celular, lendo e relendo a última mensagem enviada pela filha. Uma parte dela temia as consequências daquela fuga, mas outra se sentia aliviada por ela ter ido embora. — Assim é melhor... — murmurou, olhando para a foto de família sobre a mesa. — O quê? Do que você está falando?! — Frederico perguntou, irritado. — Eu já perdi uma filha por causa dos Falconi. A Josefina morreu no carro que o Damian dirigia, e agora eles querem destruir também a vida da Serafina? Prendê-la a um homem paraplégico, preso a uma cadeira de rodas?! — Pare de falar essas besteiras! — Frederico elevou a voz. — Não! Eu não vou parar! As minhas filhas não têm que pagar pelos erros dos outros! Uma vida por uma vida, não é assim? Eles já tiraram a vida da minha Josefina e não têm o direito de me tirar a Serafina também! O homem olhou para a esposa com irritação, mas logo suspirou e se acalmou. Aproximou-se dela e segurou-lhe os ombros com carinho e gentileza. — Eu entendo, meu amor. Mas você sabe como as coisas funcionam. Damian também perdeu muita coisa naquele acidente... mas isso não muda o fato de que os Falconi nunca esquecerão aquela dívida. Josefina morreu, mas nossa dívida com os Falconi permanece. Frederico fez uma pausa, encarando a esposa. — E, se não encontrarmos a Serafina antes que os Falconi descubram que ela fugiu, eles considerarão isso uma quebra do acordo de paz. E, neste momento, não temos força suficiente para enfrentá-los. Então, precisamos encontrar a Serafina e trazê-la de volta. Amélia desviou o olhar, encarando o rosto das duas filhas na fotografia. — Você sempre manteve contato com ela. Você sabe onde ela está. Diga-me, e eu a trarei de volta para casa, em segurança, para perto de nós. Mas, se ela não voltar, os Falconi irão atrás dela... e isso será muito pior. Frederico ergueu delicadamente o rosto da esposa, falando baixo e com ternura. — Me diga para onde ela foi. Esse é o único jeito de proteger a nossa menina. Amélia voltou a abaixar o olhar, e uma lágrima caiu sobre o rosto da filha na fotografia. . . . NOVA IORQUE... Serafina acordou e se espreguiçou, sorrindo ao olhar pela janela do pequeno apartamento compartilhado. Mais um dia de trabalho. Mais um dia comum. Ela se levantou, se arrumou e logo saiu para pegar o metrô rumo ao hospital. Naquele último mês, aquela havia sido sua rotina. Para muitos, talvez parecesse cansativa e sem graça. Mas ela não se imaginava vivendo de outra forma. Gostava daquela vida simples e comum. Completamente diferente da realidade em que cresceu, e para a qual quase foi arrastada de volta. Ela chegou ao hospital, assumiu o turno e passou a manhã visitando e cuidando dos pacientes. Mais tarde, durante a pausa, foi pegar um café na cafetaria e ouviu uma voz chamá-la. — Serafina! Aqui! Ela pegou seu café e se aproximou da mesa onde algumas colegas conversavam. — Hoje não era seu dia de folga? — uma delas perguntou. — Estou cobrindo o professor Lowen. Ele precisou viajar. — Você trabalha demais — outra reclamou. — Se continuar vivendo dentro desse hospital, nunca vai arrumar um namorado. — Verdade — concordou uma terceira. — Às vezes me arrependo de ter escolhido medicina. Queria ter nascido herdeira rica. Viver em mansões, viajar, usar roupas de grife... — Ainda dá tempo. Arranja um herdeiro milionário e casa com ele. — Aqui? No máximo, ela consegue um velhinho simpático com uma boa aposentadoria. As garotas caíram na risada. — Esses herdeiros ricos só se casam entre eles mesmos — comentou outra. — Casamentos arranjados, contratos, essas coisas. O dinheiro nunca sai do círculo deles. — Meu sonho de adolescente era ter um casamento arranjado com um bilionário bonito e gostoso. — Ah, vai sonhando! As risadas continuaram, mas Serafina permaneceu em silêncio, girando lentamente o copo entre os dedos. Já fazia um mês desde que fugira da Itália. Cortou todos os contatos e pegara voos diferentes para não deixar rastros, mas ainda tinha pesadelos frequentes onde era encontrada e arrastada de volta. Ela respirou fundo, tentando afastar a ansiedade e se tranquilizar. Ninguém sabia onde ela estava, ninguém poderia encontrá-la ali. — Serafina? Ela piscou, despertando dos próprios pensamentos. — Estávamos perguntando por que você não foi com o professor Lowen. Todo mundo sabe que você era a aluna favorita dele. O sorriso dela vacilou por um instante. — Ouvi dizer que ele foi chamado para a Itália — comentou outra jovem médica. — Parece que um figurão importante sofreu um acidente grave. O corpo de Serafina ficou tenso imediatamente. — Não foi só o professor Lowen — acrescentou outra. — Chamaram especialistas do mundo inteiro. Fisiatras, neurologistas, ortopedistas, fisioterapeutas... estão gastando milhões na reabilitação desse homem. — Tudo isso por causa de um acidente? A garota se inclinou sobre a mesa, baixando a voz como se contasse um segredo. — Dizem que ele ficou paraplégico... e que pertence à máfia italiana. As outras arregalaram os olhos. — Máfia de verdade? — Uhum. Um amigo da minha mãe foi chamado para trabalhar lá. Ele disse que a mansão parece uma fortaleza, cheia de homens armados. E o paciente... parece ter ficado completamente amargurado e tem uma atitude e temperamento difíceis. — Credo... — Disse também que ele já expulsou vários médicos e quase atirou em um deles durante uma crise. — Para! Você assiste filmes demais. — Estou falando sério! As garotas começaram a sussurrar rumores sobre a máfia italiana, misturando exageros com histórias assustadoras. — Mas isso existe mesmo? — uma perguntou. — Tipo... famílias mafiosas e tudo mais? — Serafina, você é italiana. Deve saber alguma coisa. Serafina viu todos os olhares da mesa sobre ela. — Eu... eu cresci no interior com meus avós — respondeu rapidamente. — Nunca tive contato com esse tipo de gente. — Ainda bem — comentou outra. — Porque eu morreria de medo. — O professor Lowen foi cuidar desse mafioso, já imaginou se ele cometer um erro no tratamento e acabarem cortando as mãos dele? — Para de falar besteira! O professor Lowen é um dos melhores fisioterapeutas do mundo! As outras concordaram, confiantes, mas Serafina mal conseguia ouvi-las. Seu café esfriava lentamente entre seus dedos, nervosa. No fundo, sabia que aqueles rumores não eram apenas histórias exageradas. E, conhecendo Damian Falconi e seu último encontro com ele... não podia descartar a possibilidade de ele realmente apontar uma arma para a cabeça de um médico e atirar. No fim do turno, ao entardecer, Serafina pegou o celular para ligar para o professor e saber como ele estava, já que passara o dia inteiro preocupada após ouvir que ele estava cuidando de Damian. Mas, antes que pudesse fazer a ligação, suas colegas chegaram e a arrastaram em direção à saída. — Vamos para o barzinho da esquina? Quero tomar só um golinho para relaxar e dormir até depois de amanhã. — Céus, você só bebe. Nem parece médica. — Ah, cala a boca, eu só... Gente, o que é isso? Todas olharam para a frente. As portas automáticas do hospital se abriram. Seis SUVs pretos estacionaram na entrada, bloqueando metade da rua. Homens de terno desceram dos veículos em silêncio, espalhando-se pelo local enquanto os seguranças do hospital eram afastados e neutralizados sem qualquer dificuldade. As conversas ao redor morreram, e todos os olhares se voltaram para a cena. As colegas de Serafina recuaram imediatamente. Mas ela ficou parada. Paralisada de medo ao reconhecer aqueles homens no instante em que os viu. Um homem alto e forte desceu de um dos carros, caminhando até ela com passos firmes e expressão séria. Ele se aproximou, parando bem à sua frente, e inclinou a cabeça respeitosamente. — Senhorita Moretti. Vim levá-la de volta para a Itália. Ordens do Don Falconi.Na mansão Falconi, à mesa do jantar estava o Don, sua esposa, Riccardo e Bianca.A mesa estava em silêncio, preenchida apenas pelo tilintar dos talheres, até que Delara decidiu deliberadamente fazer aquela pergunta.— Bianca, há alguma notícia da Serafina?Bianca ergueu os olhos do prato e encarou a mulher. — Por que está perguntando isso a mim?— Vocês eram tão próximas, praticamente amigas. Pensei que talvez, ela tivesse dito algo a você.Bianca franziu o cenho imediatamente, perdendo a pouca paciência que ainda tinha para aquelas insinuações. — Ainda não sabemos se ela foi sequestrada ou se foi embora por vontade própria. E, se quer tanto saber o que aconteceu, talvez devesse perguntar a si mesma. Afinal, você é quem deveria saber.O sorriso discreto de Delara desapareceu. Ela endireitou as costas e estreitou os olhos para a jovem.— O que quer dizer com isso?— Você sabe exatamente o que eu quis dizer.— Já chega! — Caetano interrompeu antes que a discussão se intensificasse. O Do
Serafina acabava de sair do banho, já vestida, quando ouviu batidas na porta.— Entre.A porta foi aberta, e o homem loiro apareceu parado à entrada.— Professor.Dorian sorriu. — Bom dia. Como você está?— Estou bem. — Serafina deu um leve sorriso.Dorian entrou no quarto e caminhou até ela. — Tem certeza? Eu trouxe alguns equipamentos. Podemos examiná-la se não estiver se sentindo bem.— Não é necessário. Estou bem.Dorian ficou em silêncio por um tempo, observando-a. — Hum... Se sentir alguma coisa ou precisar de algo, não hesite em me chamar.— Está bem. E... obrigada. Obrigada por ter me ajudado.Dorian sorriu e tocou o ombro dela. Era um gesto que costumava fazer naturalmente depois de uma conversa, mas, dessa vez, o toque demorou um pouco mais, e seu olhar parecia diferente.Serafina percebeu a maneira como ele a olhava e logo se lembrou das coisas que Alessandra havia dito."Acha mesmo que ele desafiaria a máfia por qualquer pessoa? Ele claramente não vê você como uma simples
Serafina acordou devagar, remexendo-se entre os lençóis antes de finalmente abrir os olhos. Por alguns segundos, ficou imóvel, ainda sonolenta, até perceber que aquele não era o quarto ao qual estava acostumada. As paredes eram brancas, as cortinas finas deixavam a luz do sol entrar suavemente, e o cheiro de lavanda tomava conta do ambiente. Não havia as cores escuras que dominavam o quarto de Damian, nem o cheiro dominante dele que ela reconhecia assim que acordava.Durante os últimos meses, o aroma dele tinha se tornado a primeira coisa que sentia todas as manhãs, a ponto de seu corpo quase esperar por aquilo antes mesmo de sua mente despertar.Ela virou o rosto e ficou olhando para o outro lado da cama por alguns segundos. Talvez por hábito. Talvez por sentir falta. Talvez porque, durante tanto tempo, aquela tivesse sido a primeira coisa que fazia ao acordar. Mas, dessa vez, a cama estava vazia. Não havia Damian ali. Não havia sua presença, sua voz, nem o som da cadeira de roda
Amélia estava no quarto de Serafina, arrumando a cama e organizando algumas coisas dentro do armário. Desde que soube que a filha poderia receber alta logo, decidiu preparar tudo para que ela voltasse para casa. Não queria que Serafina retornasse à mansão dos Falconi depois de tudo o que havia acontecido. Queria que, quando ela saísse do hospital, encontrasse um lugar onde pudesse descansar sem que ninguém lhe dissesse o que deveria fazer, e não a pressionasse com coisas absurdas.A porta se abriu, e Frederico entrou. Ele parou ao ver a esposa mexendo nas coisas da filha e franziu o cenho.— O que você está fazendo?Amélia nem sequer se virou.— Arrumando o quarto da minha filha para recebê-la quando ela tiver alta.Frederico fechou a porta atrás de si e caminhou alguns passos para dentro do quarto.— Você ainda está com isso? Já conversamos sobre esse assunto. A Serafina é casada e vai continuar na casa do marido.Amélia virou-se lentamente para ele, segurando uma peça de roupa nas m
“Eu quero ir embora desse lugar. Para sempre. Por favor. Me ajude a sair daqui.”Dorian ouviu a voz de Serafina do outro lado, apertando o celular em suas mãos. Sua expressão estava séria, e sua voz saiu sem hesitar.— Está bem. Hoje à noite, eu vou tirar você desse lugar.Serafina ficou em silêncio do outro lado, como se não esperasse uma resposta tão rápida, ou, como se estivesse hesitando.Dorian continuou.— Não precisa se preocupar com nada. Eu vou tomar todas as precauções. Agora descanse. Eu cuidarei de tudo e entrarei em contato quando chegar a hora. Entendeu?— Uhum... Professor, obrigada.— Eu disse que você podia contar comigo para tudo. Agora descanse.A ligação encerrou, e Dorian continuou encarando a tela.Já sabia do envenenamento, o que apenas o tinha deixado mais apreensivo; e agora, vê-la pedir por sua ajuda havia sido a gota de água. Precisava tirar ela de lá a qualquer custo.Ele entrou nos contatos do aparelho e discou para um número.Antes do segundo toque, o out
Damian permaneceu em silêncio por alguns segundos. O olhar de Serafina sobre ele não vacilou.— Eu perdi o nosso filho, e você não ficou aqui comigo para falar sobre isso! E agora eu descubro que fui envenenada, que alguém causou o aborto, e você já sabia disso e não me disse nada? Você continuou me evitando e escondendo coisas de mim depois de tudo isso?!Serafina segurou a voz para não desabar no choro, mas não pôde conter as lágrimas que já rolavam livremente.— Esse bebê também era seu! E você não estava aqui quando eu soube que ele se foi, não estava aqui para me dizer o que realmente aconteceu... Você... Você sequer se importava com esse bebê? Ou... Ou, assim como eu e esse casamento, para você ele também era um fardo que você foi obrigado a aceitar?!Damian apertou o punho sobre o braço da cadeira e fechou a cara, antes de mover a cadeira até a cama, ficando ao lado dela. — Você e esse bebê são as únicas pessoas com as quais eu me importo! — Então por que não esteve aqui?!







