ログインO enterro acontece três dias depois, num cemitério pequeno e caro nos arredores da cidade. O céu está cinza, pesado, como se até o clima soubesse que não deveria haver sol num dia como este.
Eu estou de preto. Vestido simples, longo, mangas compridas que escondem as marcas ainda visíveis nos pulsos. Meu cabelo loiro está preso num coque baixo e austero. Pareço exatamente o que devo parecer: a fil
A porta se abriu novamente horas depois.Eu não sabia quanto tempo havia se passado. O quarto não tinha janelas, apenas a luz fraca da lâmpada no teto. Meu corpo doía. O ferimento de bala pulsava embaixo do curativo improvisado, e as cordas haviam deixado meus pulsos e tornozelos em carne viva. Eu estava exausta, com sede e com uma raiva tão profunda que quase me sufocava.Margaret entrou primeiro. Atrás dela, um homem.Ele era alto, careca, com uma barriga proeminente e olhos pequenos e gananciosos. Cheirava a cigarro barato e suor velho. Vestia uma camisa social mal abotoada e calça jeans. Olhou para mim na cama como se eu fosse um pedaço de carne no açougue.— Essa é ela? — perguntou ele,
A primeira coisa que senti foi o cheiro de mofo e desinfetante barato.Depois veio a dor — uma queimadura latejante no abdômen, logo abaixo das costelas, onde a bala havia entrado. Tentei me mover, mas meus pulsos estavam presos acima da cabeça, amarrados com cordas ásperas à cabeceira de uma cama estreita. Minhas pernas também estavam abertas e amarradas nos tornozelos. Estava completamente nua. Mais uma vez.Meu coração disparou.Não. Não de novo.Abri os olhos devagar, lutando contra a tontura. O quarto era pequeno, sujo, com paredes descascadas pintadas de um bege amarelado. Uma única lâmpada pendia do teto, lançando uma luz fraca e doentia. Não era a casa dos meus
O silêncio da casa depois da morte do meu pai era ensurdecedor.Eu estava no quarto de cima, terminando de arrumar a mochila pequena que levaria comigo. Poucas roupas, o dinheiro que consegui juntar, um celular novo e o frasco quase vazio da loção envenenada — guardado como prova do que eu havia feito. Meus movimentos eram mecânicos, precisos. Não havia pressa, mas também não havia espaço para hesitação. Cada segundo que eu passava naquela casa era um segundo a mais que eu não queria viver.Olhei-me no espelho rachado pela última vez. O loiro artificial ainda me causava estranheza, mas era necessário. A mulher de cabelos negros que havia entrado neste inferno há semanas estava morta. A que sairia seria alguém nova. Alguém que havia matado seu próprio demônio.Desci as escadas devagar, a mochila pendurada no ombro. A casa estava mergulhada em um silêncio pesado, quebrado apenas pelo tique-taque distante do relógio da sala. Margaret estava na cozinha, de costas para mim, lavando a louça
O silêncio depois da morte dele é mais pesado do que eu imaginava.Fico parada ao lado da cama por vários minutos, olhando para o corpo imóvel. O peito dele não sobe mais. Os olhos estão entreabertos, fixos no teto, sem vida. A boca ligeiramente aberta, como se tivesse tentado dizer algo no último segundo. O cheiro de morte já começa a se espalhar — doce, enjoativo, definitivo.Margaret continua no chão, encolhida contra a parede, soluçando baixinho. Seus ombros tremem, mas não sai nenhum som alto. Ela aprendeu há muito tempo a chorar em silêncio.Eu respiro fundo. Uma vez. Duas. O ar entra limpo pela primeira vez em semanas.— Ele morreu — digo em voz alta, testando as palavras. Elas soam estranhas, quase irreais.Margaret levanta a cabeça devagar. O rosto dela está destruído, inchado, molhado.— O que vamos fazer? — sussurra ela, a voz rouca de tanto chorar. — A polícia… o médico… as pessoas vão perguntar.Eu me viro para ela. Meu olhar é calmo, quase sereno.— Vamos fazer o que as
O vigésimo quarto dia amanhece cinzento e pesado.O ar dentro do quarto parece denso, quase sufocante, carregado com o cheiro de morte iminente. Meu pai não acordou direito desde a madrugada. Sua respiração agora é um ruído molhado e irregular, como se os pulmões estivessem cheios de água. O peito sobe e desce em espasmos curtos, lutando por cada milímetro de ar.Eu estou sentada na poltrona ao lado da cama, as pernas cruzadas, observando-o com uma calma que me assusta. Não sinto alegria. Não sinto ódio. Apenas uma vastidão fria e vazia, como se todo o sentimento tivesse sido drenado de mim durante esses dias.Margaret está encolhida no canto do quarto, os joelhos contra o peito, balançando levemente para frente e para trás. Seus olhos estão vermelhos, inchados, sem mais lágrimas. Ela parece uma casca vazia da mulher que um dia fingiu ser minha mãe.— Ele vai morrer hoje — murmuro, sem tirar os olhos do rosto dele.Margaret não responde. Apenas balança mais forte.Meu pai solta um gem
O enterro acontece três dias depois, num cemitério pequeno e caro nos arredores da cidade. O céu está cinza, pesado, como se até o clima soubesse que não deveria haver sol num dia como este.Eu estou de preto. Vestido simples, longo, mangas compridas que escondem as marcas ainda visíveis nos pulsos. Meu cabelo loiro está preso num coque baixo e austero. Pareço exatamente o que devo parecer: a filha enlutada, devota, arrasada.Margaret está ao meu lado, vestida de viúva perfeita — véu negro, lenço na mão, soluços contidos. As pessoas que vieram (alguns antigos colegas de trabalho do meu pai, vizinhos, conhecidos distantes) murmuram condolências e olham para mim com pena.— Tão jovem para perder o pai… — ouço alguém sussurrar.Eu q







