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Capítulo 4

Author: Pink Whisky
Fabiano se endireitou, apoiando o peso nos próprios braços. Ele lançou um olhar gelado para Ivone, encolhida no canto do sofá, depois ele pegou o celular, deslizou o dedo pela tela e atendeu a chamada. Ivone não conseguiu ouvir o que foi dito do outro lado.

— Cuidar da sua saúde é o mais importante agora. Qualquer outra coisa, pede pra alguém falar com o Rui. — Respondeu ele.

A voz de Fabiano soou suave, paciente, cheia de uma gentileza que ele nunca usava com Ivone.

Depois de encerrar a ligação, Fabiano pegou os óculos que tinha largado ali perto. Ele não olhou para Ivone nem por um segundo. Apenas se levantou, ele alcançou o paletó e o colocou no braço.

— Você vai atrás da Maia? — Perguntou Ivone, com os olhos completamente vermelhos.

Fabiano nem se virou.

— Isso não te diz respeito. — Respondeu ele.

Ivone apertou a perna direita dolorida e se obrigou a ficar de pé. Enquanto ela encarava aquele homem impecavelmente vestido, tão frio com ela, ela sentiu o coração afundar de vez.

— Fabiano! — Chamou ela.

Ela tropeçou até ele e o abraçou por trás, enlaçando a cintura dele. Com medo de que ele se desvencilhasse, ela colocou toda a força que ainda tinha nos braços. Cada osso doía.

Ao pensar no acordo de divórcio na gaveta, o retorno de Maia, o coração de Fabiano, que ela jamais conseguiria prender… Estava claro que era hora de colocar um ponto final.

Ivone fechou os olhos, tomada por uma dor profunda, mas ainda assim zombando de si mesma por dentro.

— Quando você casou comigo, você não tinha escolha. Eu só quero ouvir, pela última vez, o que você realmente sente.

Os dedos longos de Fabiano seguravam os óculos. Ele abaixou o olhar, observando Ivone com frieza.

— Que joguinho você tá querendo inventar agora? — Perguntou ele.

— Finge que é a última pergunta que eu vou te fazer. — Disse Ivone, afrouxando devagar os braços.

Ela levantou o rosto, encarou Fabiano de frente. Os olhos castanhos, limpos e firmes, não tinham um traço de hesitação quando ela falou, sílaba por sílaba:

— Se a avó não tivesse colocado as ações do grupo como moeda de troca, você teria aceitado se casar comigo?

No fundo, ela sabia que aquela pergunta nem precisava ser feita. Mas ela se recusava a desistir sem ouvir uma resposta explícita. Aquela era a única chance que ela se permitia. Depois daquela noite, não importava o que Fabiano dissesse, ela não voltaria ao assunto.

Fabiano estreitou levemente os olhos, como quem analisava uma peça de xadrez. De repente, ele sorriu. Era um sorriso que não chegou perto dos olhos.

— Isso importa? — Retrucou ele.

Os olhos escuros dele se cravaram nela, e ele deu um passo à frente.

— Naquela época, você bateu o pé em que queria casar comigo e não se importou com mais nada. Agora vem com esse discurso… O que é que você quer? — Perguntou ele.

Sem os óculos para suavizar o olhar, os olhos de Fabiano mostraram toda a dureza que escondiam. A pressão que ele exercia com a simples presença parecia esmagar o ar. O frio cortante naquela expressão fez Ivone recuar um passo, sem pensar.

Ele segurou a cintura dela com uma só mão, puxando‑a de volta. Ele abaixou a cabeça, prendendo o olhar dela. Depois, o olhar dele desceu até a boca de Ivone, ainda levemente inchada dos beijos de minutos antes. Ele se inclinou, deixando o calor da respiração bater direto no ouvido dela.

— Você quer saber o que eu realmente sinto? Eu tenho medo de que você não aguente ouvir. — Murmurou ele.

A pressão dos dedos na cintura dela sumiu de repente. Sem o apoio, a perna esquerda de Ivone falhou, e ela despencou sentada no chão. Ela olhou, perdida, para a direção em que ele tinha ido, e o corpo inteiro começou a tremer sem controle.

Um sedã preto parou diante do portão principal da Mansão Grande Venice. Fabiano entrou no carro, arrancou a gravata frouxa e a jogou de lado. As pernas longas ficaram abertas, num gesto relaxado, mas tudo nele exalava tensão.

O carro estava aquecido, mas, no instante em que ele entrou, o ar pareceu congelar.

Rui lançou um olhar rápido pelo retrovisor, depois voltou a atenção para a frente e ligou o motor.

— Sr. Fabiano, a Maia acabou de me ligar. O irmão dela se meteu numa confusão, parece que mandou uns caras baterem em alguém. — Informou ele.

— Em quem? — Perguntou Fabiano.

— Ela disse que foi num sujeito que se meteu onde não devia. A pessoa não corre risco de vida, levou uns machucados só. Mas a polícia já rastreou até a família Dias, e a Maia tá bem preocupada. — Explicou Rui, sem esconder nada.

Fabiano acendeu um cigarro. A chama destacou o desenho rígido da sobrancelha dele por um instante.

— Vai na delegacia e resolve isso. — Ordenou ele.

Fabiano tinha saído da Mansão Grande Venice na noite anterior. A notícia chegou aos ouvidos de Paula só na manhã seguinte.

À mesa do café, Paula pensou em dizer alguma coisa para confortar Ivone, mas Ivone se antecipou, sorrindo enquanto colocava alguns pedaços de abacate no prato da avó:

— Vó, vamos só comer direitinho. A gente não fala de coisa chata agora, porque ela estraga o apetite.

Na noite passada, depois da ligação de Maia, Fabiano tinha ido embora, chamado por ela. Ivone não chegou a dormir no quarto de lua‑de‑mel dos dois. Ela voltou para o antigo quarto dela, aquele que ficava bem ao lado do quarto de Fabiano.

Antes, Ivone sempre dava um jeito de ter algum pretexto para ir atrás de Fabiano. Ele se irritava com a insistência dela, mas, em todos esses anos, nunca tinha trocado de quarto.

Depois que terminou o café com Paula, Ivone se preparou para ir embora. A perna ainda estava machucada, então ela não tinha condições de dirigir. Ela pediu ao mordomo que providenciasse um carro.

Enquanto esperava, ela tirou da bolsa um tubo de pomada para desinchar. Ela tinha encontrado aquela pomada em cima da mesinha do corredor, do lado de fora do quarto, quando acordou de manhã. Era o mesmo tipo que Dulce tinha usado nela no condomínio Vida Doce. Ela não fazia ideia de quem tinha deixado ali.

Quando Ivone chegou perto do jardim, ela parou. Ela levantou o rosto para encarar o ipê que se erguia à frente, com mais de dois andares de altura.

Os ipês‑brancos de Cidade Uíge só floresciam em abril. Naquele dezembro, os galhos estavam completamente nus.

Ela se lembrou do dia em que chegou à casa dos Moraes pela primeira vez, justamente na época em que os ipês‑rosas floresciam.

Naquele ano, ela tinha sete anos, e Fabiano, doze. O sol batia forte no jardim. Fabiano estava parado sob o ipê, ouvindo o empregado apresentar a "garotinha que ia morar com eles". Ele lançou um olhar frio na direção de Ivone e se limitou a dizer:

"Desde que ela não venha encher o meu saco, tudo bem."

— Ivone, você tá mesmo de parabéns. O seu marido desapareceu e você ainda tem tempo pra ficar admirando uma árvore pelada que não tem nem folha. — A voz, carregada de ironia gelada, veio pelas costas.

Ivone não precisou se virar para saber. Quem tinha chegado era o primo caçula de Fabiano, Carlos Moraes.

Carlos e Fabiano nunca se deram bem. Ivone não tinha o menor interesse em conversar com ele. Ela apenas deu um passo à frente para ir embora.

— Ei… — Carlos abriu o passo, ergueu o braço e bloqueou a frente dela, com um meio sorriso provocador. — Você não quer saber onde o Fabiano instalou a Maia pra morar?

Os passos de Ivone pararam.

Ao ver que ela tinha interrompido o movimento, Carlos sorriu de canto, andou devagar até ficar de frente para ela e a encarou de cima, erguendo a sobrancelha:

— No fim das contas, você já tá casada com ele há três anos. O meu querido priminho é de uma frieza exemplar…

Ivone enfiou as duas mãos nos bolsos e cortou a frase dele no meio:

— O que acontece entre mim e o Fabiano diz respeito só a nós dois. Não tem nada a ver com você. Em vez de perder tempo cuidando da minha vida, você devia pensar em como vai fazer pra se manter em pé dentro da Moraes Capital.

A frase entrou em Carlos como um espinho.

O rosto dele endureceu. Ele agarrou o braço de Ivone com força e disparou, sarcástico:

— "Entre vocês dois"? Você é que fantasia um casamento. Em algum momento o Fabiano tratou você como esposa?

Foi como levar um tapa no meio do pátio. O constrangimento queimou o rosto de Ivone, e o coração dela se apertou com força.

Todo mundo, em toda a família Moraes, sabia que Fabiano jamais tinha reconhecido Ivone como esposa de verdade.

— Ele me tratar como esposa ou não, eu continuo sendo sua cunhada. Se você botar a mão em mim de novo, eu começo a gritar. Vamos ver quem corre por você. — Ivone puxou o braço com força e se soltou.

Dentro da Mansão Grande Venice, Carlos realmente não tinha coragem de passar muito da linha. Assim que ela falou isso, ele ficou só ali, sob a sombra do ipê, lançando um olhar sombrio na direção dela.

— No dia em que você descobrir tudo, eu quero ver a cara que você vai fazer. — Disse ele, por fim.

Ivone não respondeu. Quando entrou no carro, ela levou a mão à perna esquerda, que também doía.

— Senhora, vamos para a emissora? — Perguntou o motorista, em tom respeitoso. Era dia útil, e ele não sabia que Ivone tinha ganhado alguns dias de folga.

— Vamos. — Respondeu ela.

Ivone ainda tinha uma pauta de entrevista pela metade. E, como a cabeça dela estava um caos, um pouco de trabalho poderia, pelo menos, distrair.

Na redação da emissora, Ivone era uma repórter sênior, focada em investigação social. Ela se especializava em desmascarar empresas suspeitas e estabelecimentos ilegais. Só nessa última frente, ela já tinha ajudado a tirar das mãos de quadrilhas uma quantidade considerável de adolescentes, meninos e meninas forçados à prostituição.

Mal tinha chegado à redação, Ivone foi chamada pelo editor Edson.

Ele fechou a porta da sala, pediu que ela se sentasse e ficou alguns segundos calado, medindo as palavras.

Ao se deparar com o olhar dela, aberto e sinceramente confuso, ele suspirou:

— Ivone, eu preciso te contar uma coisa. A gente já descobriu quem mandou te bater. Mas…

— Eles têm muita força, né? — Ivone não pareceu nem um pouco surpresa. Para mandar espancar uma repórter, ou o sujeito era muito burro ou tinha costas largas demais.

Edson colocou uma xícara de café em frente a ela, sobre a mesa. Em seguida, ele falou, com o rosto pesado:

— Eu perguntei pra todo mundo que eu conheço. A pessoa que mandou te atacar foi o irmão da ex‑namorada do Fabiano. O próprio Fabiano foi lá e deu um jeito de livrar ele. E, de quebra, ainda tirou da reta os três caras que te bateram. Tem policial podre na delegacia que trabalha pra família Moraes…

Tudo o que ele disse depois disso, Ivone quase não ouviu.

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