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Capítulo 5

Author: Pink Whisky
Ivone apertou com tanta força os dedos trêmulos que as unhas rasgaram a própria pele. A palma da mão começou a arder. A sala estava silenciosa de um jeito quase sufocante.

— Ivone… Ivone… — Edson chamou, com as sobrancelhas profundamente franzidas.

Ivone parecia uma escultura de gelo, imóvel. Demorou um bom tempo até que ela conseguisse mexer os lábios endurecidos. Quando falou, a expressão dela estava estranhamente calma:

— Pode falar.

Ao vê‑la tão contida, sem choro nem explosão, Edson ficou ainda mais preocupado. Ele temeu que ela fizesse alguma besteira.

Mas o que ele tinha pra dizer não podia ser escondido. A escolha, no fim, teria que ser dela.

Ele empurrou um cheque na direção dela:

— Isso é a indenização que a família Dias tá oferecendo.

Queria dizer: eles queriam resolver tudo por baixo dos panos.

Ivone levantou o olhar. O valor era de cinco milhões, em cheque nominal. Ela não imaginava que os machucados dela "valessem" tanto assim.

Edson ainda tentou emendar algumas frases, dizendo que entendia a revolta dela, que o importante era a saúde, que ela não devia se culpar por nada.

— Tá bem. Eu entendi. — Disse Ivone.

Ela pegou o cheque, levantou-se da cadeira com um movimento preciso e saiu da sala.

A porta se fechou com um clique quase inaudível. Edson ficou olhando para ela, ainda com as sobrancelhas tensas. Em outras ocasiões, quando Ivone tinha sido ameaçada ou pressionada, ela sempre tinha escolhido enfrentar a situação de cabeça erguida, comprando briga com gente grande, nunca aceitando "acordo" nenhum. Ela pegava o dossiê, ligava a câmera, e ia até o fim.

Mas, desta vez, a pessoa protegida era alguém que a família Moraes fazia questão de blindar. Mesmo que Edson quisesse lutar por Ivone, a rede de contatos dele jamais seria páreo para o poder dos Moraes.

Se Ivone resolvesse realmente deixar por isso mesmo, ele teria que admitir que se sentia decepcionado. No passado, ele tinha enxergado justamente naquela repórter sem medo que não se curvava para poder algum, a pessoa certa para aquele tipo de pauta. Por isso tinha entregado a ela os trabalhos mais perigosos, os mais delicados.

Para expor a sujeira escondida na sociedade, era preciso exatamente aquela coragem que Ivone carregava. E, ainda assim, agora ela aceitava o dinheiro e virava as costas?

Mas era a vida dela. A decisão era dela.

Talvez ela estivesse precisando do dinheiro para algum problema pessoal. No fim das contas, ela era só uma mulher jovem, órfã, sem ninguém por ela. Quem era ele para julgar?

Ivone voltou para a própria mesa e mergulhou direto na edição da entrevista pendente. Trabalhou sem parar até o fim do expediente, sem sair da emissora um minuto sequer.

No dia seguinte, ela apareceu para trabalhar como se nada tivesse acontecido.

Os colegas já sabiam que ela tinha sido agredida. Alguns, mais próximos, foram até a mesa dela para se solidarizar, convidando para sair, tomar alguma coisa depois do trabalho, tentar animar um pouco. Ela recusou um por um, com educação.

— Se eu tivesse levado uma surra daquelas e ficasse com a cara igual a um leitão inchado, eu também não ia ter coragem de ir pra barzinho nenhum. — Comentou Vera Rodrigues, apoiada de lado na mesa de Ivone, segurando um copo de café recém‑comprado. Os cabelos longos, em ondas marcadas, reforçavam o ar sensual dela.

Vera e Ivone eram rivais, competiam diretamente. Na avaliação do fim do ano, as duas queriam o mesmo título de excelência profissional.

— Eu não "quase" virei um leitão, obrigada. — Respondeu Ivone, pegando o café da mão dela sem cerimônia. Ela tomou um gole, sem desviar o olhar, e semicerrando os olhos, completou. — E obrigada pelo café. É exatamente o que eu gosto. Você anda me observando faz tempo, né?

— Quem disse que era pra você? Devolve! — Vera quase pulou, fingindo que ia tomar o copo de volta.

Ivone tomou mais um gole:

— Agora já bebi. Vai fazer o quê?

Vera não chegou a tentar arrancar o café da mão dela de verdade. Ela só soltou um "tss" irritado e deixou o olhar percorrer Ivone de cima a baixo:

— Você não tem vergonha nenhuma, né? Apanhou daquele jeito e ainda aparece aqui como se nada tivesse acontecido?

Vendo Vera ali, provocando como uma criança implicante, Ivone não sentiu raiva. Pelo contrário, achou a cena curiosamente fofa.

Quando Vera já ia saindo, rebolando o quadril, Ivone a chamou:

— Vera, deusa, você não tem aquele cartão VIP do Clube JX?

— Pra quê? — Vera se animou na hora ao ouvir Ivone, que parecia uma Miss Brasil em versão jornalista, chamá‑la de "deusa". — Você quer usar?

Ivone piscou para ela:

— Se você me emprestar o cartão, eu te passo o contato do cirurgião que operou minha pálpebra dupla.

Os olhos de Vera quase saltaram:

— Então eu tava certa, você fez plástica mesmo!

Ela sempre tinha pensado a mesma coisa:

"Como é que alguém nasce com uma pálpebra dupla tão perfeita assim?"

Vera praticamente correu de volta até a própria mesa, puxou a carteira e tirou de lá um cartão preto, entregando para Ivone, ansiosa por resposta.

Com o cartão VIP em mãos, Ivone se inclinou até chegar bem perto do ouvido de Vera.

— Na verdade, minha pálpebra foi operada dentro do útero da minha mãe. — Sussurrou Ivone.

Dentro do útero… Ou seja, era natural.

A expressão de Vera passou por todas as fases possíveis em segundos. Em seguida, ela começou a bater o pé no chão:

— Ivone, sua mentirosa!

— Obrigada pelo cartão. — Disse Ivone, acenando por cima do ombro sem olhar para trás.

Ao sair da emissora, Ivone passou num shopping e comprou uma roupa leve, mas adequada para uma festa.

Ela trocou a saia curta que a vendedora tinha sugerido por uma calça justa que cobria bem as coxas, escondendo os hematomas. Com uma bota de cano alto e uma maquiagem levemente mais marcada, ela ganhou um ar de ousadia fria, perigosa e irresistível.

Ela então seguiu de carro para o Clube JX, um lugar discreto, frequentado por jovens ricos em busca de diversão.

Quando ela chegou à entrada, os seguranças barraram a passagem.

Ivone continuou com uma das mãos apoiada no volante e ergueu um cartão de convidada VIP.

— Eu vim para a festa de aniversário do herdeiro da família Dias. — Disse ela. — Do Gabriel Dias.

Naquela noite, o aniversariante era Gabriel Dias, o herdeiro da família Dias, e a festa estava acontecendo justamente naquele Clube.

Bastava olhar para ver que Ivone, com aquela produção caprichada, só podia ter ido para a festa. E, mais do que isso, o cartão VIP nas mãos dela era um passe livre.

Os seguranças abriram caminho na mesma hora.

Quanto mais ela avançava, mais alto ficava o som da música, grave e ensurdecedor.

Ivone pegou uma taça das mãos de um garçom, fingindo beber, enquanto deixava o olhar passear pelo meio da multidão, em busca de Gabriel.

Gabriel era conhecido em Cidade Uíge como um dos herdeiros mais descontrolados da cidade. O cabelo vermelho vivo tornava fácil localizar ele em qualquer lugar.

A aparição de uma mulher lindíssima no meio da festa chamou atenção na hora. Homens e mulheres viraram o rosto para olhar Ivone.

Ela raramente se arrumava daquele jeito. O corpo era impecável: cintura fina, quadril marcado, as pernas longas realçadas pela calça justa e pelas botas de cano alto. Sem falar no rosto, tão bonito que parecia irreal.

Era exatamente por isso que, nas reportagens de rua, ela costumava usar máscara, para não virar alvo do olhar de todo homem que passava.

Um dos caras se aproximou, pronto para puxar conversa, mas Ivone se adiantou com um sorriso educado:

— Desculpa, eu sou convidada do Gabriel.

Ao ouvir que ela era "convidada do Gabriel", os mais ousados perderam a coragem de insistir.

Não demorou muito para Ivone localizar, bem no centro da agitação, o dono daquele cabelo vermelho.

Perto da piscina interna, uma mulher encharcada tinha acabado de ser empurrada para dentro d’água. Gabriel jogou um maço de dinheiro em direção aos rapazes que estavam à volta.

— Hahahaha… — Ele ria, debochado. — É só isso que vocês aguentam? Vamos lá, capricha!

— Gabriel. — Chamou alguém, dando um tapa leve no ombro dele.

— Quem é? — Gabriel resmungou, virando a cabeça, irritado. Tudo o que ele viu foi uma sombra escura se aproximando, seguida de um estrondo seco.

A garrafa de bebida se espatifou contra a cabeça dele.

No mesmo instante, gritos agudos cortaram o som da pista. A música parou bruscamente. O clima congelou. Até o barulho da água na piscina cessou.

O sangue começou a pingar da testa de Gabriel, escorrendo pela lateral do rosto, até cair na piscina. A água, limpa até segundos antes, se tingiu com pequenas flores vermelhas espalhadas na superfície.

— Quem foi o filho da puta que me acertou? — Gabriel berrou, pegando a garrafa mais próxima para revidar.

Só que outra garrafa chegou primeiro, atingindo de novo a cabeça dele.

Uma voz clara, fria como gelo, ecoou:

— Quem você acha que foi? Eu vim justamente pra te dar a lição que você merece hoje!

Todos ali prenderam a respiração. Ninguém poderia imaginar que, na própria festa de aniversário, Gabriel fosse levar duas garrafadas na cabeça.

Cambaleando, Gabriel passou a mão pelo rosto para afastar o sangue dos olhos. No meio do borrão vermelho, ele conseguiu enxergar um rosto de beleza absurda, completamente sereno.

Quando ele reconheceu Ivone, o pouco de cor que restava no rosto dele desapareceu, dando lugar a uma expressão distorcida. O olhar ficou escuro, carregado de ódio.

— Muito bom. — Rosnou ele. — Aquele dia eu devia ter mandado quebrarem você até a morte. Agora você vem se oferecer pra morrer na minha frente?
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