ANMELDEN“Dante Ferretti” Duas semanas. Duas semanas desde que li aquela carta, descobri coisas que passei décadas acreditando serem verdades e decidi que não descansaria enquanto não colocasse um ponto final nisso tudo. Mas, enquanto o mundo parece ter continuado girando normalmente, dentro da minha casa o tempo parece ter escolhido outra velocidade. Principalmente porque meus filhos parecem ter decidido que já está na hora de mostrar que estão crescendo. — Ai… A voz de Amy me faz levantar os olhos do notebook. Ela está sentada no sofá, com uma das mãos apoiada sobre a barriga, fazendo uma careta engraçada. Fecho o computador imediatamente e me levanto. — O que foi? — Nada. Eles só estão se mexendo. Muito. Me aproximo e ajoelho na frente dela, colocando a mão sobre sua barriga. Quase imediatamente, sinto um movimento. Depois outro. Sorrio sem perceber. — Estão ficando mais fortes, Piccola. — Eu avisei. Amy passa os dedos pelos meus cabelos. — Vinte e oito sem
“Dante Ferretti” Olho para Amy, tentando decidir se ela está se divertindo às minhas custas ou se realmente não fazia ideia de que Victor e Paige estavam se encontrando. Pelo sorriso que ela tenta esconder, já tenho minha resposta. É claro que sabia. — Você poderia ter me avisado — murmuro, apenas para ela. — E perder a oportunidade de ver sua cara? — sussurra, dando de ombros. — Você já ia descobrir mesmo. Balanço a cabeça, mas não consigo evitar um sorriso. À nossa frente, Victor parece completamente alheio à nossa conversa. Já Paige está ocupada demais tentando manter os olhos no próprio prato. Desvio os olhos novamente para os dois. Conheço Victor Bosio há anos. Já o vi negociar contratos milionários, enfrentar reuniões que fariam qualquer outra pessoa perder a paciência e tomar decisões importantes sem demonstrar o menor nervosismo. Mas agora, basta Paige sorrir para ele para que toda aquela segurança pareça desaparecer. E ela não parece exatamente indiferente a isso.
Já está quase anoitecendo quando saímos da casa. O céu começa a ganhar tons alaranjados, e as sombras das árvores se estendem pelo caminho enquanto caminhamos até o carro. Nas minhas mãos, carrego uma pequena coleção de brinquedos que, oficialmente, foram sequestrados. Dante abre a porta traseira e olha para mim. — Sabe, Piccola… estou começando a ter medo de deixar você sozinha por muito tempo. — Por quê? — Porque estou imaginando você esperando eu dormir, pegando as chaves e voltando para cá para sequestrar o restante dos meus brinquedos. Rio, colocando os brinquedos no banco traseiro. — Você deveria se sentir grato, meu amor. Alguém finalmente se preocupou em dar aos seus filhos a chance de brincar com os brinquedos do pai. — Então agora você está fazendo tudo isso pelos nossos filhos? — Exatamente. Então, de nada por isso. Meu marido solta a risada baixa que amo arrancar dele e, por um segundo, isso já é suficiente para apagar o peso de tudo o que aconteceu nesta casa.
“Amy Ferretti” O cheiro de poeira, madeira antiga e papel envelhecido nos recebe assim que ele abre a porta do escritório. O mesmo cheiro do restante da casa, o que é compreensível, já que a casa provavelmente está fechada desde a morte de Charles, há um ano e meio. Dante solta minha mão e entra primeiro. Sigo seus passos e fecho a porta. Meu olhar percorre as estantes, os móveis cobertos de poeira e alguns quadros espalhados pelas paredes. Até que Dante para diante de um deles, estende a mão, segura a moldura e tira o quadro da parede. Fico olhando para a pintura por alguns segundos. — Você acabou de tirar um Picasso da parede? Dante apoia o quadro no chão. — Sim. — Por quê? Ele aponta para a parede e só então percebo a porta metálica escondida atrás da pintura. — Ah. Um cofre. Claro. Dante para diante dele, cruza um braço sobre o peito e apoia a outra mão no queixo. Paro ao lado dele, imitando a mesma posição, e fico observando por alguns segundos. — O
“Sei que essa talvez seja a parte mais difícil de acreditar, principalmente depois desses anos ouvindo apenas a versão que deixei para vocês. Mas é a verdade, meu filho. Sem que ninguém soubesse, eu observei tudo. Inclusive você. Principalmente você. Vi você crescer e deixar de ser o menino que corria até a porta para me receber e se tornar o homem que todos passaram a respeitar. Vi seu primeiro negócio dar certo. Vi todos os outros que vieram até você conseguir construir seu próprio nome sem precisar do meu. E, talvez, essa seja a parte que mais me dói admitir: senti orgulho de você em cada etapa. Porque ser seu pai nunca deixou de ser a coisa mais importante da minha vida.” Paro de ler, precisando de um momento para respirar fundo e não chorar, mas é em vão. Passo a mão rapidamente pelo rosto, tentando esconder a lágrima que já escapou. — Passei a vida inteira achando que ele tinha escolhido ir embora — murmuro, sem tirar os olhos da carta. — Nunca ligou. Nunca mandou uma
Fico olhando para o envelope por alguns segundos, sem conseguir desviar os olhos do meu nome. A caligrafia é desconhecida, mas o nome no final não precisa de assinatura para me dizer quem escreveu. Meu pai. Passo o polegar devagar pela borda do papel, sentindo uma inquietação crescer no peito. — Amor? O que é isso? A voz dela faz com que eu finalmente me levante. Amy permanece ao meu lado, ainda segurando o pequeno caminhão de madeira, mas agora nem parece lembrar que estava me provocando. — É do meu pai — digo, sem saber por que minha voz sai tão baixa. — Quer abrir? — pergunta, olhando para o envelope. Respiro fundo, sem responder imediatamente. Por algum motivo, a pergunta parece mais difícil do que deveria. Porque, até alguns minutos atrás, eu achava que tinha vindo até esta casa atrás de respostas sobre o testamento. Agora, tenho uma carta escrita pelo meu pai nas mãos. E não faço ideia do que vou encontrar dentro dela. Solto o ar devagar e assinto. — Quero. Passo







