ANMELDENVitória respirou fundo, sentindo o ar frio queimar seus pulmões. Seu instinto materno gritava para proteger Vicente, mas a razão dizia que ele já estava perdido. Mariana e Cecília estavam lá dentro. Ela não podia simplesmente ir embora. Tentava controlar a respiração enquanto deslizava o dedo na tela do celular, com as mãos tremendo tanto que mal conseguia acertar as letras. Vasculhou os contatos com urgência, o coração batendo descompassado, até encontrar o nome que procurava: *Charles Durdday*.Ela nunca tinha falado diretamente com ele. Conhecia-o de vista, das festas da família; o irmão de Mariana era o primeiro que precisava saber onde ela estava, pois tinha os recursos, o poder e certamente estava movendo céus e terra para encontrar a irmã. Agora não havia tempo para cerimônias.Apertou o botão de mensagem e começou a digitar, as palavras saindo rápidas, quase sem pensar, as mãos voando sobre a tela:*"Charles, eu sei onde estão a Mari e a Cecília. Por favor, venha. Não sei quan
O ar da tarde estava frio, carregado do cheiro de terra molhada e grama cortada que vinha do jardim abandonado. Vitória estacionou o carro a uma distância segura, observando a fachada do velho sobrado. Ela havia seguido o filho o dia inteiro, desde que a nora ligara preocupada, dizendo que Vicente andava estranho, saindo de casa sem explicação e voltando tarde, com olheiras profundas.Quando viu Vicente sair do sobrado e caminhar em direção ao carro, Vitória não pensou duas vezes. Saiu do veículo, atravessou a rua em passos rápidos e bateu com os nós dos dedos no vidro da janela do motorista.Vicente levou um susto. Seu rosto empalideceu ao reconhecer a mãe do outro lado do vidro:— Mãe? O que você está fazendo aqui?— Abre a porta — ela ordenou, a voz firme apesar do tremor interno.Vicente hesitou, mas acabou destravando a porta. Vitória entrou, sentou-se no banco do carona e bateu a porta com força. O silêncio dentro do veículo era denso, carregado de tensão:— Quem são os homens l
Mais tarde, o ar frio da manhã tocou o rosto de Vicente assim que ele cruzou a porta do velho sobrado. Ele respirou fundo, sentindo o cheiro de terra molhada e grama cortada, um alívio imediato depois do cheiro de mofo e suor que impregnava a velha casa de infância há muito tempo abandonada. Havia acabado de conversar com os sequestradores que ele mesmo havia contratado; até agora, tudo estava correndo conforme o planejado e logo teria o dinheiro do resgate em suas mãos.Lá dentro, porém, os três homens que Vicente havia contratado para o sequestro não compartilhavam da mesma sensação de alívio. Eles estavam amontoados na sala empoeirada, as cortinas cerradas, a única luz vindo de um abajur de mesa que projetava sombras distorcidas nas paredes descascadas:— Esse filhinho de papai acha que manda em tudo, hein? — Bruno rosnou, cuspindo no chão de madeira. — Chega aqui, dá ordens, fala em soltar a ruiva antes do combinado...— Ele está nervoso — Sérgio ponderou, os dedos tamborilando na
O dia seguinte amanheceu cinzento sobre Londres, mas Vitória já estava de pé desde cedo, colocando água para ferver na cozinha iluminada. Ela vestia um avental sobre uma blusa de linho clara, os cabelos loiros presos de qualquer jeito, e preparava chá de hortelã quando a campainha tocou:— Vicente? Meu querido — ela exclamou ao abrir a porta, surpresa. — Não esperava visitas hoje.O filho de Vitória entrou com um sorriso rápido, os olhos um pouco inquietos sob a luz da manhã. Ele beijou o rosto da mãe com afeto, as bochechas rosadas pelo vento frio da rua:— Estava passando por perto, resolvi aparecer — ele disse, os dedos tamborilando na chave do carro.Vitória o conduziu até a cozinha, onde o chá já começava a soltar vapor:— Sente-se, vou pegar uma xícara para você. Prove estes biscoitos de aveia que fiz ontem.Vicente sentou-se à mesa, mas seus olhos vagavam pela sala, sem se fixar em nada:— Como estão as crianças? — Vitória perguntou, despejando água na xícara. — O pequeno Bruno
A noite inteira passou como um borrão de escuridão e metal frio. Mariana não conseguira pregar o olho. Passara horas tateando as paredes do porão, os dedos percorrendo cada fenda, cada parafuso, cada centímetro de concreto úmido. Nada. A porta era maciça, sem fechadura visível do lado de dentro. A única luz vinha de uma fresta estreita perto do teto, por onde a claridade cinzenta do dia seguinte começava a se infiltrar.Ninguém aparecera desde que as trancaram. Nenhuma voz, nenhum passo, nenhuma explicação. Apenas o silêncio pesado e o cheiro de mofo e terra batida.Mariana estava sentada no chão, as costas apoiadas na parede de tijolos, quando ouviu o gemido. Baixo, abafado, mas inconfundível.— Cecília?Silêncio. Depois outro gemido, mais longo.— Cecília, você está bem?— Não — a voz saiu rouca, trêmula. — Não estou.Mariana se levantou com dificuldade, as pernas dormentes, e caminhou até o canto onde Cecília estava sentada sobre uma manta fina que encontraram jogada no chão. Ela e
Mariana voltou ao perceber que havia esquecido a bolsa; o silêncio entre elas se estendeu por um longo momento. Cecília ainda estava sentada no tapete rosa, os dedos entrelaçados sobre a barriga, o olhar perdido no chão de madeira. Mariana permanecia de pé, a toalha pendurada no ombro, sentindo o suor esfriar sobre a pele: — Você esqueceu sua bolsa — Cecília disse finalmente, a voz baixa. — No vestiário. Peguei para você. Ela estendeu a bolsa que Mariana havia deixado para trás. Mariana a pegou com um movimento automático, os dedos roçando os de Cecília: — Obrigada. Cecília ergueu os olhos, e havia algo diferente neles. Algo que Mariana não sabia nomear: — Não somos amigas — Cecília disse, a voz firme, sem hesitação. — E nunca vamos ser. Mariana não respondeu. Apenas esperou: — Eu sei que já passei de todos os limites — Cecília continuou, as palavras saindo devagar, como se cada uma custasse um esforço. — Sei que fiz coisas terríveis. Coisas que não têm perdão. Mas esta gestaç







