MasukAugusto ficou olhando fixamente para ela. No olhar dele havia dor, havia impotência e ainda tinha um traço de frustração difícil de explicar.Depois de muito tempo em silêncio, ele finalmente falou, devagar:— Alice, você precisa mesmo ser assim? Você não cansa? Eu só quero que você fique do meu lado sem preocupação nenhuma. Eu quero casar com você, quero uma vida tranquila, só nós dois.Quando ela ouviu a palavra “casar”, o coração da Alice pareceu ser perfurado por alguma coisa afiada.Ela quis, com todas as forças, dizer para ele que, no momento em que ele a trancou numa clínica psiquiátrica e subiu ao altar com a Débora, qualquer possibilidade entre os dois tinha morrido ali.No momento em que ele fechou os olhos para o que a Mônica fez com a mãe dela, no momento em que ele machucou a irmã dela, ele já tinha se tornado o inimigo dela.Mas ainda não era hora de puxar a rede e mostrar as cartas. Ela precisava entrar oficialmente no núcleo do Grupo Moretti, tocar nos projetos e nos re
Laís me contou o que tinha acontecido à tarde no parque de diversões:— Eu fui com o papai e com a Alice no parque. A montanha-russa quebrou do nada e eu caí de lá de cima. A Alice correu e me abraçou, a gente rolou juntas no chão.Ela passou a mão pelo próprio braço.— Eu só ralei um pouquinho aqui, mas a Alice bateu a cabeça. Houve muito sangue. Levaram ela pro hospital de ambulância.Eu senti como se alguma coisa pesada tivesse travado no meu peito. Era uma sensação ruim, difícil de descrever.Além da culpa e do choque, ainda existia uma outra coisa estranha crescendo dentro de mim, uma emoção que eu não conseguia nomear, só sentia que ela aumentava, silenciosa.Quando nós voltamos para o complexo turístico, Laís já estava dormindo.Eu peguei a minha filha no colo, levei ela até o quarto da Rafaela e coloquei as duas para dormirem juntas. Só depois disso eu e Thiago voltamos para o nosso quarto.Mas eu ainda estava presa no que Laís tinha me contado no caminho. Aquilo não saía da mi
Eu virei o rosto para a janela e fiquei olhando para fora, com um nó estranho no peito, cheia de sentimentos misturados demais para dar nome.Quando nós chegamos ao resort, havia tantas atividades e programas diferentes que eu acabei esquecendo aquele leve desconforto da viagem.O dia passou voando. Rafaela se divertiu como há muito tempo eu não via, correndo, rindo, brincando sem parar. E eu, naquele raro momento de descanso, finalmente consegui soltar um pouco do peso que carregava nos ombros.À noite, eu tinha acabado de assistir a um filme ao ar livre com Dona Joana e Rafaela. Quando eu ia voltar para o quarto para descansar, o celular vibrou no meu bolso e começou a tocar insistente. Era a Laís.O meu coração apertou na hora. Eu temi que tivesse acontecido alguma coisa com a minha filha na casa da família Moretti, então atendi imediatamente.— Sou eu. — A voz do Augusto veio pelo telefone, carregada de impaciência. — Aconteceu um imprevisto aqui em casa e eu não tenho como ficar c
Eu fiquei sem reação por um instante e, por mais que eu tentasse, eu não consegui encontrar nenhum argumento para rebater.Mesmo assim, a preocupação dentro de mim não diminuiu nem um pouco. Alice era irmã da Mônica. Como é que eu podia simplesmente confiar nela?Quando eu pensei em tudo o que a Mônica já tinha feito — aquelas atitudes absurdas e cruéis —, eu fiquei com medo de que Alice pudesse usar as mesmas armas contra a minha filha....O carro seguiu em frente, em ritmo tranquilo, em direção à casa da família Ribeiro.Quando nós chegamos, Rafaela estava deitada de bruços no tapete da sala, montando blocos de construção.Assim que nos viu entrar, a menina veio correndo na nossa direção:— Tia Débora, tio Thiago, vocês voltaram! A gente vai passar o fim de semana num resort?Eu sorri, afaguei de leve os cabelos dela e, em seguida, olhei para o sofá, onde Dona Joana, de óculos de leitura, tricotava concentrada.— Vó, a senhora não quer ir com a gente pro resort também? — Eu disse, n
No segundo seguinte, a voz amarga do Augusto ecoou pelo viva-voz do celular:— Débora… Você me odeia tanto assim? Nem olhar pra mim você consegue mais?O clima à mesa endureceu na mesma hora. O sorriso da Dona Joana perdeu parte do calor, e os olhos do Thiago escureceram num instante, carregados por uma sombra pesada.Eu já estava prestes a desligar a ligação na cara dele quando Thiago estendeu a mão e pegou o celular da frente da Laís.A voz dele saiu baixa e fria, carregada de uma pressão silenciosa que pareceu ocupar a sala inteira:— Augusto, você quer ver a Débora, não quer? Tudo bem. Daqui a pouco eu e ela vamos levar a Laís pessoalmente até você.Assim que terminou de falar, a chamada caiu.Augusto desligou sem dizer mais nada, deixando para trás apenas o constrangimento pesado que tomou conta da sala de jantar.O silêncio se prolongou por alguns segundos. Thiago colocou o celular de volta sobre a mesa e ergueu os olhos para mim.— Já terminou de comer? — Perguntou ele.A voz de
— Rafaela! — Laís lançou imediatamente um olhar de reprovação para ela e corrigiu, toda séria. — A professora falou que menino e menina não podem ir juntos pro banheiro, muito menos tomar banho juntos! Isso não existe!O meu coração disparou. Eu me aproximei e sentei ao lado das duas, forçando a voz a soar o mais calma possível:— Eu estava tomando banho no meu quarto. Acho que não ouvi vocês baterem por causa do barulho da água. E então, o que vocês queriam falar comigo?Laís hesitou por um instante. Quando ergueu o rosto para me olhar, os olhos dela estavam cheios de cautela:— O papai… O papai acabou de me ligar. Ele falou que amanhã quer me levar pra passear. Eu posso ir?— E você quer ir? — Eu acariciei a bochecha dela e perguntei num tom suave.Laís assentiu com força, e o brilho de expectativa nos olhos dela quase transbordou. Afinal, desde o meu divórcio com o Augusto, fazia muito tempo que ela não via o pai.Mas, no instante seguinte, a expressão da pequena murchou. Ela abaixo







