Share

Capítulo 3

Author: Estela Vieira
Na manhã seguinte, Luiza acordou naturalmente, no seu horário de sempre. Assim que abriu a cortina, percebeu que tudo do lado de fora estava completamente branco.

A previsão do tempo não havia anunciado, mas a neve que caía era intensa. Mesmo através do vidro, Luiza parecia sentir o frio penetrante.

Ela trocou para um vestido de tricô e estava se arrumando no banheiro quando ouviu um barulho alto e caótico vindo do corredor. O som era tão grande e desordenado que, para quem não soubesse, poderia acreditar que uma equipe de reforma havia invadido a casa.

— Maia, o que está acontecendo... — Luiza prendeu os cabelos de forma casual e abriu a porta do quarto. No entanto, assim que viu o que estava acontecendo, ficou completamente sem palavras.

Não era uma equipe de reforma, mas a cena diante dela mais parecia o rastro de um furacão.

A casa, que normalmente era impecável, estava um caos absoluto.

As almofadas que deveriam estar no sofá da sala agora estavam na porta do seu quarto, manchadas com algo que parecia uma sujeira marrom escura.

Um vaso, que havia caído no chão, estava quebrado em pedaços, e a pintura pendurada no corredor — uma obra de arte avaliada em milhões — tinha sido completamente destruída.

Era uma visão que, no mínimo, deixava qualquer um de queixo caído.

Maia estava quase implorando enquanto corria atrás de Michel:

— Meu anjo, por favor, não mexa nisso! Esse é o conjunto de louças favorito da Sra. Luiza...

Antes que Maia pudesse terminar sua frase, ouviu-se o som de algo se quebrando.

Michel, com a atitude de um pequeno tirano, mostrou a língua e respondeu com um tom provocador:

— Blá, blá, blá! Eu quero brincar, sim! Tio Ethan disse que essa casa agora é minha. E você, sendo só uma empregada, não manda em mim!

Assim que terminou de falar, Michel levantou os olhos e viu Luiza parada ali, encarando-o friamente. Ele imediatamente encolheu o pescoço, quase por reflexo.

Aquela bruxa o havia assustado tanto na noite anterior que ele até teve pesadelos. Sonhou que o Papai Noel e um monstro o perseguiam a noite toda.

Mas Michel tinha um plano. Ele precisava se livrar daquela bruxa! Sua mãe tinha dito que, assim que essa mulher saísse, tio Ethan pertenceria apenas a eles dois.

Luiza manteve o olhar calmo e disse:

— Brinque. Pode brincar à vontade.

— Sério? — Michel não conseguia acreditar. Ele havia destruído tantas coisas que aquela mulher gostava, e ela não estava nem um pouco brava?

Luiza, apoiada no corrimão da escada, lançou um olhar para Gabriela, que estava no andar de baixo e parecia alheia a tudo. Com um sorriso leve, ela assentiu:

— Claro. Mas tem uma coisa. Não toque na pintura que está pendurada na sala de estar. Essa é a minha peça favorita.

Luiza não sabia ao certo se toda aquela confusão tinha sido ideia de Gabriela ou do próprio Michel.

Mas isso não importava. Afinal, ela também não era uma pessoa que levava desaforo para casa.

Alguém já havia lhe ensinado que, quando fosse maltratada, ela deveria revidar dez ou até cem vezes mais.

Michel piscou os olhos e respondeu:

— Ah, tá bom!

O menino saiu correndo antes mesmo de terminar a frase.

Maia estava visivelmente frustrada:

— Sra. Luiza, a senhora e o Sr. Ethan estão mimando demais esse menino...

— Não tem problema. — Luiza respondeu com calma. — Não se preocupe em impedir. Ele é o único neto da família Soares, e a felicidade dele é mais importante que qualquer coisa. Afinal, Gabriela também não está cuidando dele, né? Devemos respeitar o estilo de criação dela. Caso contrário, se algo acontecer, nem você nem eu poderemos arcar com as consequências.

— Está bem. — Maia respondeu a contragosto. — Mas vou dizer, a senhora é boazinha demais. As pessoas acabam achando que podem pisar em você.

Luiza sorriu levemente, sem responder. Em vez disso, perguntou:

— A gente tem alguma caixa de presente sobrando?

— Que tipo de caixa?

— Qualquer uma que caiba algo do tamanho de uma folha A4.

— Deve ter no depósito. — Maia respondeu com sua boa memória. — Vou pegar uma para a senhora.

Depois de receber a caixa, Luiza se trancou novamente no quarto.

Ela colocou o acordo de divórcio, já assinado, dentro da caixa. Com muito cuidado, ela encontrou uma fita e começou a fazer um laço bonito em forma de borboleta.

De repente, um estrondo alto ecoou do andar de baixo.

Luiza, no entanto, agiu como se não tivesse ouvido nada. Com dedos delicados, ela apertou o laço até que ficasse perfeito. Satisfeita, ela balançou a cabeça em aprovação.

— Ficou lindo. Perfeito.

Logo em seguida, alguém bateu apressadamente na porta. Era Maia, que dizia com urgência:

— Sra. Luiza! A senhora precisa descer! O Michel destruiu a obra-prima do Sr. João!

Luiza levantou-se rapidamente, com o rosto sombrio:

— Você está falando daquela pintura na sala de estar?

— Sim... — Maia confirmou com um aceno de cabeça.

Luiza desceu apressada, tão rápido que acabou torcendo o pé no caminho.

Quando ela chegou lá embaixo, Michel levantou o queixo com um ar de superioridade, como se dissesse: “E aí? O que você vai fazer agora?”

Luiza se virou para Maia e perguntou:

— Você já ligou para a família Soares?

— Ainda não.

— Então ligue.

Assim que Luiza terminou de falar, Michel correu na direção dela como um pequeno foguete e gritou:

— Não pode reclamar! Sua bruxa, não deixo você dedurar!

Luiza não teve tempo de desviar e, para sua surpresa, não imaginava que um ataque de uma criança pudesse ser tão forte. Ela perdeu o equilíbrio e caiu no chão, batendo o cóccix, sentindo uma dor incômoda.

— Luiza, você está bem? — Gabriela se apressou em ajudá-la a se levantar, enquanto falava com um tom que parecia ao mesmo tempo de preocupação e de desculpa. — O Michel é assim porque eu acabo mimando demais ele. Quando ele está brincando, às vezes perde a noção. Mas é coisa de criança, não fica brava com ele.

Luiza apoiou a mão nas costas, ainda sentindo dor, e olhou para a pintura na parede que agora tinha um buraco enorme. Ela soltou uma risada fria e perguntou:

— Então quer dizer que deixar ele destruir as coisas da casa dos outros também é culpa de você mimá-lo?

Os olhos de Gabriela imediatamente se encheram de lágrimas. Ela rebateu, com a voz trêmula:

— Eu só descuidei por um momento. Você precisa mesmo me culpar tanto assim?

— Ah, foi só um momento de descuido. — Luiza assentiu lentamente, lançando um olhar para a bagunça generalizada na casa. — E em uma manhã, ele conseguiu destruir tudo isso. Então me diga, exatamente em que momento você realmente cuidou dele?

— Luiza! — Gabriela perdeu a paciência. Sem ninguém por perto para assistir, ela deixou de lado qualquer fachada de gentileza e respondeu com dureza. — Você precisa mesmo ser tão implacável? Vai levar isso para a Dona Paula? E acha que ela vai fazer alguma coisa comigo por causa de uma pintura velha...

— Permita-me corrigir você. Não é uma pintura velha. É a última obra que Sr. João pintou em vida.

Luiza falou com uma voz calma, sem se alterar.

Enquanto as palavras ainda ecoavam, um carro preto entrou no pátio. A família Soares havia chegado rapidamente.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Esquece, Ethan! A Senhora Está Noiva do CEO Mais Poderoso   Capítulo 770

    De manhã, nevava de novo em Rivara.Nina ficou de pé diante da janela de vidro do hotel, olhando os garis lá embaixo empurrarem a neve acumulada para as laterais da calçada, até aparecer o asfalto cinza‑azulado da rua.O celular vibrou duas vezes em cima da mesa de cabeceira.Ela se virou, caminhou até lá e pegou o aparelho. Era uma mensagem de Cauã.[Mana, o contrato já foi assinado?]Ela digitou a resposta:[Ainda não. Eu vou aí hoje de manhã.]A resposta dele chegou na mesma hora:[Valeu, mana.]Nina guardou o celular no bolso e entrou no banheiro para se arrumar.Às nove e meia da manhã, Nina chegou pontualmente à sede do Grupo Duarte.Virgínia vinha logo atrás dela, com um calhamaço de documentos do governo nas mãos, falando em voz baixa sobre alguns detalhes.Nina ouvia enquanto atravessava o saguão do térreo em direção aos elevadores.Quando a porta do elevador se abriu, havia ali dentro alguns funcionários do Grupo Duarte. Quando eles viram Nina, todos recuaram instintivamente,

  • Esquece, Ethan! A Senhora Está Noiva do CEO Mais Poderoso   Capítulo 769

    Dois dias depois, em Rivara.Assim que Nina e Virgínia saíram pelo portão de desembarque, uma mulher de terninho social se aproximou, calorosa e ao mesmo tempo muito respeitosa.— Dona Nina, eu sou a secretária do Sr. Douglas. Ele teve uma reunião hoje de manhã da qual ele não conseguiu sair, então ele pediu para eu vir buscar a senhora. Ele está esperando a senhora na empresa.— Obrigada.Em seguida, Nina virou a cabeça para Virgínia:— Você vai lá cuidar do que eu te pedi primeiro.Quando o carro entrou no estacionamento subterrâneo da sede do Grupo Duarte, já estava quase na hora do almoço.Nina acompanhou a secretária até o andar da presidência. Quando a porta do elevador se abriu, Douglas estava justamente saindo da sala de reuniões.Ele carregava uma pasta com um contrato recém‑assinado. Quando ele a viu, ele deu alguns passos largos em direção a ela.— Nina. — Ele pegou naturalmente a pasta que ela trazia na mão, com um sorriso surgindo no canto dos lábios. — Você finalmente che

  • Esquece, Ethan! A Senhora Está Noiva do CEO Mais Poderoso   Capítulo 768

    Cauã e Lilian saíram um atrás do outro, guiados apenas pela pouca luz que escapava de dentro da casa.De repente, Lilian parou e chamou por ele:— Cauã.Ele virou o rosto para olhar para ela.— Hum?— Por tudo o que aconteceu hoje... Obrigada.— Você não precisa me agradecer.— Eu não estou te agradecendo só por educação. — Lilian falou com expressão séria. — Eu estou falando de verdade.O vento gelado do fim do inverno assobiava pelo beco, deixando o ar ainda mais vazio e cortante.— Vamos. A gente conversa no carro. — Cauã ficou em silêncio por alguns segundos antes de dizer.Eles saíram do beco e entraram no carro preto estacionado ali em frente.Lilian conferiu a hora. Ela sabia muito bem que ele provavelmente tinha vindo direto do aeroporto, e uma amargura difícil de definir se espalhou em silêncio pelo peito dela.Cauã ligou o ar‑condicionado no quente. Só quando a temperatura dentro do carro subiu um pouco, ele virou o rosto para ela.— Eu vou colocar umas pessoas para ficarem d

  • Esquece, Ethan! A Senhora Está Noiva do CEO Mais Poderoso   Capítulo 767

    Cauã olhou para o próprio celular.— O chefe de vocês se chama Ronan? Ele é careca, saiu da cadeia há dois anos, tem uma dúzia de capangas e vive de agiotagem e cobrança.Ele falou como se estivesse falando do tempo, mas o rosto do homem da jaqueta de couro foi mudando pouco a pouco.— Como é que você sabe…— Eu sei bem mais do que isso. — Cauã ergueu os olhos para encará‑lo. — O seu chefe levou um tombo feio no mês passado e já avisou que não está mais pegando serviço em Cidade A. E você vem, justamente agora, bater na porta errada.O homem da jaqueta engoliu em seco. Ele ficou encarando Cauã por alguns segundos antes de arriscar:— Você… É da família Frota?Cauã não confirmou nem negou. Ele só balançou o celular na mão, com a voz neutra:— Quer que eu ligue agora para o seu chefe? Aí ele vem pessoalmente buscar vocês.O homem ficou calado por alguns segundos, enquanto uma camada fina de suor aparecia na testa.Ele só conseguia sobreviver naquele meio porque tinha faro para perigo. O

  • Esquece, Ethan! A Senhora Está Noiva do CEO Mais Poderoso   Capítulo 766

    Yago, ao ouvir aquilo, ficou com os olhos injetados de sangue. Ele avançou e apontou o dedo para o rosto de Lilian, rugindo:— Que porra é essa que você está falando?! Ele é o seu irmão! Seu irmão de sangue! Você está vendo que vão arrancar a mão dele e mesmo assim você não quer dar dinheiro? Você ainda tem coração?— Se eu tenho coração ou não, você já joga isso na minha cara há mais de vinte anos. — Lilian ergueu os olhos para Yago. — Se você realmente se importasse com ele, por que, quando ele começou a se afundar em dívida, você não fez nada para segurar ele?Yago ficou sem reação por alguns segundos com o contra‑ataque. Em seguida, ele elevou ainda mais o tom:— Ele é o seu irmão!— Então a dívida dele tem que cair nas minhas costas? — Lilian não se alterou; ela apenas devolveu a pergunta em um tom calmo. — Você, de mão na consciência, me diz: desde que ele era pequeno, você já ensinou para ele o que é responsabilidade?Aquela frase acertou Yago em cheio. O rosto dele ficou vermel

  • Esquece, Ethan! A Senhora Está Noiva do CEO Mais Poderoso   Capítulo 765

    Cauã tinha ficado dois dias em Rivara. Ele e Douglas já tinham deixado praticamente todos os detalhes da parceria fechados, restando apenas uma pequena parte de questões técnicas, que dependeria de o time de engenharia montar um plano específico para, depois, eles voltarem a alinhar.Naquela noite, Douglas convidou Cauã para jantar.Os dois comiam e conversavam. Douglas continuava sendo um homem de poucas palavras, mas, de vez em quando, ele soltava uma ou outra piada leve, sem muito peso, bem diferente da rigidez do primeiro encontro.No meio do jantar, o celular de Cauã tocou. Ele olhou de relance para o visor e, na mesma hora, se levantou e se afastou para atender.Ninguém sabia o que o outro lado tinha dito, mas, em segundos, o rosto de Cauã fechou completamente.— O irmão dela? O que ele aprontou agora? — Ele perguntou, com a voz já gelada.O funcionário respondeu do outro lado da linha, claramente tenso:— Ele apanhou de novo. Desta vez os cobradores foram direto atrás da Lilian.

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status