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Boa tarde, senhor lobo

last update Veröffentlichungsdatum: 27.10.2026 00:45:51

Passo os dedos pelos cabelos, tentando ajeitar o coque desajeitado que fiz às pressas naquela manhã. Algumas mechas loiras escapam do penteado e caem ao redor do meu rosto. Desisto de prendê-las novamente e volto minha atenção para o caderno aberto sobre a carteira.

O professor está explicando a matéria de Farmacologia, mais especificamente os mecanismos de ação dos medicamentos, seus efeitos no organismo e os cuidados que devemos ter ao administrá-los. No segundo ano de Enfermagem, já começamos a perceber que cada detalhe importa. Um erro aparentemente pequeno pode trazer consequências sérias para um paciente.

Anoto mais algumas informações, tentando acompanhar a explicação, embora meus olhos insistam em desviar para o caderno de Mônica, que está sentada ao meu lado.

Ela parece completamente absorta na redação que está escrevendo. A ponta da língua aparece discretamente no canto da boca enquanto ela relê uma frase, apaga uma palavra e a substitui por outra. Seu cenho franzido denuncia o quanto está levando aquela tarefa a sério.

Inclino um pouco o corpo para espiar o que ela escreveu. Leio algumas linhas e um sorriso surge espontaneamente em meus lábios.

— Está ficando muito bom! — sussurro, tomando cuidado para não chamar a atenção do professor.

Mônica ergue os olhos na minha direção, mas, em vez de sorrir, solta um suspiro dramático e volta a encarar o papel.

— Tem que ficar perfeito. Estamos falando de uma redação para o senhor Lobo! Qualquer erro, por menor que seja, e ele vai me matar! — murmura, apertando a caneta entre os dedos.

Preciso cobrir a boca com a mão para abafar a risada.

— Não é para tanto! — retruco baixinho, lançando um olhar rápido para o professor, que continua explicando a matéria diante do quadro.

— Ah, claro! É muito fácil falar quando você não precisa entregar nada para ele!

Arqueio uma sobrancelha, fingindo indignação.

— Eu também precisei fazer a redação, caso você tenha esquecido.

— Mas você é organizada. Isso é completamente diferente! — Ela aponta a caneta para mim, como se tivesse acabado de apresentar o argumento definitivo. — Aposto que fez tudo com uma semana de antecedência, revisou umas cinquenta vezes e ainda teve tempo de dormir tranquilamente.

Um sorriso convencido se espalha pelo meu rosto.

— Na verdade, fiz na semana passada.

Mônica para de escrever.

Devagar, vira a cabeça na minha direção, os olhos estreitados em uma expressão de pura incredulidade.

— Eu odeio você.

Solto uma risadinha e volto a me sentar direito na cadeira.

— Não odeia, não.

— Neste exato momento? Odeio, sim.

— Você vai superar.

Ela revira os olhos com tanta força que quase tenho medo de que fiquem presos naquela posição. Em seguida, volta a atenção para a redação, resmungando alguma coisa incompreensível.

— Só estou esperando amanhã para enviar a minha por e-mail — acrescento, abrindo o caderno novamente. — Já revisei tudo e acho que ficou boa.

— Por favor, pare de falar. Você está prejudicando minha paz interior.

Mordo o lábio para conter outra risada.

É impossível não gostar de Mônica. Ela consegue transformar até uma simples tarefa acadêmica em uma questão de vida ou morte. E, embora eu saiba que o senhor Ackles não é exatamente conhecido por sua paciência com os alunos, duvido que ele seja o monstro que ela insiste em descrever.

Volto a copiar o que está escrito no quadro, tentando recuperar o fio da explicação. O professor continua falando sobre os cuidados na administração de medicamentos, ressaltando a importância de conhecer as doses, as contraindicações e as possíveis reações adversas.

Faço mais uma anotação, sublinho uma informação importante e, por um breve instante, tudo parece voltar ao normal.

Até Mônica se inclinar na minha direção e sussurrar:

— Se ele descontar um único ponto por causa de uma vírgula, vou abandonar a Enfermagem e abrir uma barraca de pastel.

Dessa vez, não consigo segurar a gargalhada.

...

Estou parada junto à porta do banheiro feminino, esperando Mônica terminar de se arrumar. Entediada, enrolo uma mecha loira ao redor do dedo, desfazendo o movimento logo em seguida, apenas para repeti-lo alguns segundos depois.

Deveria estar pensando na aula que acabou de terminar, nas anotações que ainda preciso passar a limpo ou em qualquer outra coisa que não envolva o homem que parece ter se instalado permanentemente nos meus pensamentos.

Mas, aparentemente, meu cérebro decidiu dificultar minha vida.

Meu coração dá um salto inesperado quando escuto a voz de um aluno cumprimentando alguém no corredor.

— Boa tarde, senhor Ackles!

Reconheço o nome antes mesmo de me virar.

E, quando finalmente o faço, lá está ele.

Caminhando pelo corredor com a mesma postura de sempre, como se aquele lugar inteiro lhe pertencesse. Impecável e implacável. Duas palavras que, na minha opinião, foram inventadas especificamente para descrevê-lo.

O senhor Ackles não precisa levantar a voz para chamar atenção, tampouco fazer qualquer esforço para impor sua presença. Existe algo na maneira como caminha, na expressão permanentemente séria e na tranquilidade quase arrogante com que parece ignorar tudo ao redor que faz as pessoas abrirem caminho para ele.

Inclusive eu, que, naquele momento, mal consigo me lembrar de como respirar normalmente.

Sua barba por fazer é perfeitamente aparada, desenhando o contorno do maxilar de um jeito que considero injustamente atraente. Meu olhar se demora ali por alguns segundos, e uma ideia tão inconveniente quanto absurda atravessa minha mente: como será sentir a textura dos pelos sob meus dedos?

Engulo em seco e desvio os olhos por um instante, como se isso fosse suficiente para me livrar do pensamento.

Não é.

Seus cabelos negros estão cuidadosamente penteados, embora alguns fios rebeldes escapem do lugar, quebrando a perfeição do penteado na medida certa. Por algum motivo, esse pequeno detalhe o torna ainda mais atraente. Ele não parece o tipo de homem que tolera desordem, e, ainda assim, aqueles fios insistem em contrariar qualquer tentativa de controle.

Talvez seja justamente isso que me chama a atenção.

Ou talvez eu esteja apenas procurando desculpas para continuar olhando.

O terno escuro veste seu corpo com uma precisão quase irritante, acompanhando a largura dos ombros e destacando o físico musculoso sem que ele precise fazer absolutamente nada para isso. Tudo nele parece calculado, desde os sapatos impecáveis até a maneira como mantém uma das mãos próxima ao bolso da calça enquanto caminha.

Então, seus olhos encontram os meus.

Verdes. Intensos. Gelados.

Sinto um arrepio percorrer minha espinha, embora o corredor esteja longe de estar frio. Há algo naquele olhar que me faz sentir como se ele fosse capaz de perceber cada pensamento inconveniente que tento esconder.

Desvio os olhos depressa, mas já é tarde demais para fingir que não estava olhando.

Meu olhar acaba descendo até seus lábios. São firmes, de contorno bem definido, quase sempre comprimidos naquela expressão séria que parece fazer parte de sua natureza.

Passo a língua pelos meus próprios lábios, e minha imaginação, traidora como sempre, resolve preencher a distância entre nós com uma fantasia que eu jamais teria coragem de admitir em voz alta.

Imagino aqueles lábios tocando minha pele.

Meu estômago se contrai, e sinto o calor subir lentamente pelo pescoço até alcançar minhas bochechas. Minha intimidade começa a lubrificar.

Meu Deus, preciso urgentemente encontrar um hobby.

De preferência, um que não envolva fantasiar com professores insuportavelmente atraentes.

Endireito a postura e tento assumir uma expressão neutra, torcendo para que meu rosto não esteja tão vermelho quanto parece. O problema é que o senhor Ackles continua se aproximando, e cada passo dele parece diminuir não apenas a distância entre nós, mas também a pouca capacidade que me resta de agir normalmente.

Quando chega à minha altura, ele sequer diminui o ritmo.

— Boa tarde, senhorita Rodrigues.

A voz grave e firme me alcança antes que eu consiga organizar os próprios pensamentos.

Pisco, surpreendida por ele saber exatamente quem sou, embora, considerando o quanto é exigente com seus alunos, talvez isso não devesse me causar tanta surpresa.

— Boa tarde, senhor Ackles — respondo baixinho.

Baixinho demais, provavelmente.

Ele continua caminhando sem olhar para trás, e não tenho certeza se sequer ouviu minha resposta.

Fico acompanhando sua figura por alguns segundos, até que ele desaparece na curva do corredor.

Só então solto o ar que nem percebi estar prendendo nos pulmões.

Levo uma das mãos ao peito, tentando convencer meu coração a abandonar aquele ritmo absurdo.

É ridículo.

Completamente ridículo.

Ele apenas me cumprimentou. Duas palavras, uma expressão indiferente e sequer um segundo de atenção além do necessário.

E, ainda assim, aqui estou eu, encostada à porta do banheiro feminino, com as bochechas quentes e pensamentos que definitivamente não deveriam envolver um homem como ele.

Passo as mãos pelo rosto e fecho os olhos por um instante.

— Você precisa se controlar, Rodrigues — murmuro para mim mesma.

— Controlar o quê?

Abro os olhos de repente.

Mônica está parada na porta do banheiro, observando-me com uma sobrancelha arqueada e um sorriso suspeito nos lábios.

Droga.

Há quanto tempo ela está ali?

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