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Ferro-aquecido

last update publish date: 2026-10-06 22:34:15

Anne Scarlate.

Salen levou Luna para beber água.

Eu tinha que entrar. Odiava entradas triunfais e já estava atrasada.

Os guerreiros dessa matilha abriram as portas. Ajeitei meu vestido e olhei para os dois guerreiros enviados conosco pelo clã dos Anciões.

Foi quando o cheiro dele chegou ao meu faro… ferro aquecido.

Só assim para nos reconhecermos, perto o suficiente depois de tudo o que ele…

Limpei a garganta. Levantei a cabeça e entrei.

Me certifiquei de não olhar para o lado direito. Era de onde o cheiro vinha.

Como eu iria dizer à minha filha que ele era seu pai, eu ainda não sabia. Mas meu estômago embrulhou ao entrar naquele lugar.

Antes, quando saí, os olhares eram de pena. Hoje eram de surpresa absoluta, enquanto os guerreiros do clã dos Anciões caminhavam ao meu lado.

Meu pai.

Meus pés quase falharam. Sorri ao vê-lo. O único que nunca me fez mal. Era por ele que eu estava ali hoje.

Ao seu lado, minha mãe soltou o copo, completamente chocada por eu ainda existir. Talvez ela esperasse que eu estivesse morta. Meu pai pegou o copo antes que caísse no chá.

— Senhorita Anne? — A voz do beta da Lua de Sangue escorregou um oitavo. — Representante dos Anciões? — Ele olhou rapidamente ao redor.

— Sim. — Assenti. — Venho hoje comunicar à matilha Lua de Sangue e suas… — Olhei em volta e a vi. Minha irmã, num canto, segurando um menino pequeno. — …suas matilhas associadas às novas leis dos Anciões contra as invasões das feras sem humanidade.

Ele assentiu.

— A senhorita participará da reunião com nosso alfa antes disso?

— Por que a pergunta? — Encarei o homem, que mexeu na gola. — Estou aqui para isso.

Ele assentiu novamente, olhando para os lados. Eu sabia. Tinha certeza de que a fera dele estava se comunicando com a de Conan. Eu senti o tremor.

— Venha comigo, senhorita.

Assenti.

Mesmo com o coração desesperado, eu não ia demonstrar. Os anos de treinamento com os Anciões valeram muito. Soltei o ar devagar quando o cheiro dele começou a ficar mais forte.

Depois do corredor, o beta abriu a porta.

— Podem ficar aqui. Quando Salen chegar, mandem-no entrar. — Informei aos guardas, que assentiram. — Obrigada.

Olhei para o beta. Ele me encarava como se eu fosse um fantasma.

Entrei.

O homem estava de costas, olhando pela janela, mãos nos bolsos. O ar estava sufocante, mas continuei parada ali, respirando normalmente por fora.

A pele acima do meu peito coçou e, em seguida, ardeu.

— Você desapareceu — murmurou ele, ainda parado.

— Alfa Conan, tenho assuntos para tratar. As feras são mais importantes do que o meu possível desaparecimento.

Merda. Salen estava com a documentação, mas ainda bem que eu havia decorado tudo depois de ler para tantos alfas.

Ele se virou.

Pisquei.

Olhar cansado. Cabelos bagunçados demais. Olhar pesado… mesmo assim, postura imponente. Ombros largos que o faziam parecer ameaçador. Só não para mim.

— Por que foi embora?

Franzi as sobrancelhas. Meu coração deu um salto, mas me mantive firme.

— Podemos começar a reunião?

— Por que não usou seu sobrenome? Por que não me avisou que era você?

— O que diabos deu em você? — Minha voz quase tremeu, mas eu a control ei. — Isso não é uma visita entre amigos.

Ele deu um passo para trás. Meu peito se apertou. Respirei fundo.

— Sou uma representante e estou trabalhando. Apenas isso.

Ele ficou em silêncio, me olhando por tempo demais.

— Cadê os documentos para que eu possa levar aos Anciões?

O maxilar dele se moveu devagar. Caminhou até a mesa, puxou papéis da gaveta e os estendeu para mim.

Eu nem sabia que ainda guardava tanta raiva. Por um segundo me vi batendo a cabeça dele contra a mesa. E foi gratificante.

Olhei para ele quando percebi que ele não soltava os documentos.

— Olhe nos meus olhos, Anne. Diga que não sente nossa ligação.

Olhei dentro dos olhos dele. Meu coração acelerou.

— Conan, nossa ligação se quebrou no dia em que você subiu diante de todos e disse: “Eu, Conan Later, rejeito você, Anne Scarlate, como minha companheira.”

Ele soltou os papéis. Eu os puxei devagar para perto de mim.

Sentia o coração preso na garganta, mas era difícil de mostrar. O homem à minha frente quase acabou comigo.

— Você não aceitou. Você sumiu — murmurou.

Senti o gelo correr pelas minhas veias.

Naquela época, enquanto ele chamava minha irmã ao seu lado e aproveitava para me rejeitar.

Eu tive medo, vergonha dos olhares e sai correndo.

Mas não quis dizer que não aceitava.

— Eu aceito, Conan. Aceito a sua rejeição. — murmurei

Já que era isso que ele queria.

Mas ele negou, devagar.

— Eu não…

Levantei uma sobrancelha. Ele ia continuar, mas a porta se abriu com um baque alto.

Respirei fundo. Lianna e minha mãe entraram.

— O que você faz aqui? — Lianna tentou me intimidar com a voz firme.

Mas eu senti que havia uma rachadura ali.

— Estou em reunião. Quem são vocês para entrar sem aviso? — Conan parou ao meu lado.

Olhei para ele. Eu não precisava dele para me defender.

— Eu sou a mãe do seu filho, Conan — Lianna fez bico.

Por um segundo eu quis rir.

Era mãe do filho dele e minha irmã que ironia.

Continuei segurando os documentos com as duas mãos na frente do meu corpo.

Eu não tinha o que temer.

— Eu sou o alfa e essa é minha matilha, exijo respeito até mesmo de você — ele cuspiu.

O que estava acontecendo? Eles não eram um casal? Por que ele estava tratando ela daquela forma?

— Alfa, minha filha… — minha mãe começou.

Me olhando com desdém.

Sabemos quem é a filha preferida.

— Saiam as duas e aprendam a respeitar minhas ordens, ou nunca mais pisem nas minhas terras.

Foi aí que eu arregalei os olhos, encarando-o.

Ele tinha perdido o juízo? Ela ainda era a alfa da matilha aliada à dele, ou não?

Mesmo assim, minha mãe e minha irmã estavam mais baixas do que eu imaginava, usando a criança para tentar transformá-lo em capacho.

Ainda bem que eu deixei tudo para trás.

— Alfa, se desejar, terminaremos isso em outra hora. — falei.

Eu não iria participar dessa palhaçada.

— Não. — Ele me olhou.

— Não finja que é a certinha… — olhei para minha irmã.

— Lianna! — O grunhido dele estralou nos meus ouvidos.

Por que diabos…

— Mamãe! Mamãe! — Olhei para a porta e vi Luna entrando correndo. — Estava te procurando mamãe.

Me abaixei e a peguei no colo.

Olhei para a porta e vi Salen entrando correndo com olhos arregalados.

Não era uma boa hora.

— Eu já disse, filha. Não invada as reuniões da mamãe — sussurrei, apertando suavemente a ponta do nariz dela.

Luna riu, ficando vermelhinha.

— Desculpa, mamãe — mordeu o lábio de cima.

Seus grandes olhos mel como os do pai mudaram de direção lentamente.

— Oi… você é o alfa da lua de sangue? É meu papai? — Luna abriu um grande sorriso.

Segui o olhar dela devagar.

Meu coração congelou, eu falaria antes dela aparecer assim.

Conan estava petrificado no lugar, a pele morena bronzeada do seu rosto estava branca, enquanto ele olhava para minha filha.

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