Mag-log inAcordei com a boca seca, a cabeça latejando e a lembrança da mão de Matias na minha cintura.
Não nessa ordem.
Fiquei deitada olhando para o teto de madeira enquanto a noite voltava em partes: karaokê, Lorena rindo, a moto inclinando, a caminhonete, a bronca. Depois a boca dele. Café, palheiro e o segundo em que me beijou de volta antes de decidir ser responsável por nós dois.
Você bebeu.
Virei de lado e enfiei o rosto no travesseiro.
Era irritante que ele tivesse razão. Eu sabia o que queria, mas estava bêbada. Ele parar tinha sido a atitude correta.
A parte menos adulta do meu cérebro ainda traduzia responsabilidade como rejeição.
O celular marcava nove e meia. Havia mensagens de Lorena, duas chamadas de Clara e um áudio de Lúcia enviado do quarto ao lado.
Você está viva? Tia Maria descobriu que a moto não voltou. Boa sorte.
Minha mãe me esperava à mesa.
Não gritou.
Maria nunca precisava.
— Quem trouxe você?
— Matias.
— A moto não está lá fora.
— Eu bebi. Ele achou melhor eu não pilotar.
— Ele achou.
Sentei e alcancei a garrafa de água.
— Eu também achei. No final.
— Você podia ter se machucado.
— Eu sei.
— Sabe hoje.
Não tentei brincar.
— A senhora está certa. Foi irresponsável.
Minha mãe me observou e empurrou o prato de pão de queijo na minha direção.
— Sua sorte é que Matias é um bom homem.
Lúcia tossiu dentro do café.
Chutei a perna dela por baixo da mesa.
Depois do café, liguei para o bar. A moto estava guardada e eu buscaria mais tarde. Primeiro precisava acompanhar Lúcia até a Santa Cruz para ajudar dona Helena no orquidário.
Eu podia não ir.
Também podia passar o resto da manhã pensando na única coisa que Matias tinha feito depois de me beijar.
Parar.
— Vai parecer covarde — Lúcia avisou.
— Você tem dezoito anos. Não deveria dar conselhos tão irritantes.
— Ele deixou marca no seu queixo.
— Isso não é chupão.
— Então a barba dele tem vocação artística.
Bati a porta do banheiro na cara dela.
A Santa Cruz ficava a menos de dez minutos. No caminho, abri a conversa com Matias três vezes.
Não havia mensagem.
Era ridículo sentir falta de uma coisa que ele nunca prometera mandar. Ainda assim, parte de mim esperava um “chegou bem?” ou até uma nova bronca sobre água e responsabilidade. Recebi apenas o silêncio que eu mesma dissera não querer transformar em significado.
Guardei o telefone antes que Lúcia percebesse.
Havia galpões, silos, caminhões, placas de controle sanitário e funcionários circulando em ritmo preciso. A fazenda desmontava a fantasia fácil do homem de chapéu. Matias não passava o dia encostado numa cerca esperando mulher da cidade aparecer. Tinha uma operação inteira acontecendo antes de eu acordar.
Matias não brincava de cowboy.
Ele estava perto do curral falando com Joel. Jeans, botas sujas, camisa clara com as mangas dobradas.
Meu corpo reconheceu antes de mim.
— Bom dia, Matias! — Lúcia chamou.
Ele olhou para ela. Depois para mim.
O olhar passou pelo meu queixo e demorou um segundo.
— Melhorou?
— Nunca estive mal.
Joel disfarçou um sorriso.
— Sua moto está segura — Matias disse. — Posso mandar buscar depois.
— Eu mesma busco.
— Pode.
O diálogo morreu cedo demais.
Eu esperava alguma referência ao beijo. Um sinal de constrangimento. Qualquer evidência de que ele também tinha passado a manhã lembrando.
Matias se voltou para Joel.
— O veterinário chega às onze. Separa o lote três.
Fui descartada por uma agenda de gado.
Dei três passos e parei.
— Matias.
Ele olhou.
— Sobre ontem...
— Não vai acontecer de novo.
A resposta veio limpa.
Meu orgulho recebeu primeiro.
— Que alívio. Eu ia pedir exatamente isso.
Matias apertou os lábios.
— Ótimo.
— Perfeito.
Nenhum de nós se moveu.
Se não fosse acontecer de novo, não havia motivo para o silêncio ficar tão cheio.
Matias foi o primeiro a desviar os olhos.
No orquidário, dona Helena me recebeu sem comentar meu estado, o que me fez gostar dela imediatamente. Ajudei a trocar dois vasos enquanto Lúcia falava por nós três.
— Maria disse que você puxou seu pai — Helena comentou.
— No temperamento ou no cigarro?
— Na pressa.
Apertei terra demais em torno de uma raiz. Helena afrouxou com os dedos.
— Planta sufoca quando a gente aperta para garantir que fique.
— Isso é sobre a orquídea?
— Por enquanto.
Do lado de fora, ouvi a voz de Matias dando instruções. Grave, controlada, perto o suficiente para interferir na minha respiração.
Helena me entregou outro vaso.
— Ele também tem problema com pressa. Só finge melhor.
— Não pretendo ficar tempo suficiente para analisar.
— Então está tudo resolvido.
O sorriso dela dizia o contrário.
Tentei me concentrar na planta. Do lado de fora, Matias chamou Joel, corrigiu alguma coisa sobre um lote e depois riu de uma resposta que eu não ouvi. O som foi curto, quase arrancado dele por acidente.
Pensei no homem que havia parado o beijo.
Depois no homem que beijara de volta antes disso.
As duas versões eram verdadeiras, e eu não gostava de não saber qual me irritava mais.
— Está enterrando a raiz de novo — Helena avisou.
Afrouxei a mão.
— A senhora observa demais.
— É o que sobra para quem cria planta e filho teimoso.
Meu celular vibrou no bolso.
Uma vez.
Duas.
Dez.
Pensei que fosse Clara insistindo sobre o single.
Quando abri a tela, encontrei cento e quarenta e sete notificações, três ligações da assessoria e uma mensagem de Heitor em letras maiúsculas.
Lúcia abriu o próprio telefone.
— Prima...
Na tela dela havia uma fotografia minha dentro da caminhonete.
Minhas mãos no rosto de Matias.
A mão dele na minha cintura.
Nossas bocas juntas.
A legenda dizia:
ROCKSTAR RECAÍDA? ESTELA CAMACHO É FLAGRADA BÊBADA COM COWBOY MISTERIOSO EM GOIÁS.
O ar saiu do meu corpo.
Ampliei a foto.
Ao fundo, quase engolido pela escuridão, havia um reflexo cinza entre as árvores.
O mesmo carro que eu tinha visto no aeroporto.
O beijo que não devia acontecer tinha virado notícia antes do almoço.
Matias CruzMeu pai dizia que favor vinha com corda.Não porque toda ajuda fosse ruim. Porque homem desesperado só enxergava a ponta oferecida e esquecia de perguntar quem segurava o outro lado.Levei a proposta do show à cooperativa com essa frase ocupando minha cabeça. Estela não foi. Disse que a presença dela faria alguns votarem para agradar e outros recusarem por raiva. Pela primeira vez desde que chegara, ficou longe de uma decisão que podia usar sua fama.Isso contou mais do que eu gostaria.— Quem administra o dinheiro? — seu Anselmo perguntou.— A cooperativa.— E a gravadora?— Não entra sem contrato aprovado por nós.Davi folheou a proposta simples que Clara preparara.— Custos de palco, segurança, energia, banheiro. Isso não se paga sozinho.— Lorena traz patrocínio de duas marcas. Estela cobre a própria equipe artística.— Isso é dinheiro dela — Davi disse.— É custo do trabalho dela, não do nosso.A distinção tinha sido explicada por Estela num áudio de quatro minutos. E
Estela CamachoTransformei ciúme em quatro acordes e odiei todos.O estúdio improvisado da escola rural tinha uma mesa antiga, seis placas de espuma emprestadas e um cheiro permanente de giz. Clara instalou a interface. Lorena chegou de Goiânia com dois microfones, uma caixa de cabos e a falta de delicadeza que eu precisava.— Então a ex é bonita, competente e sabe usar bota — resumiu.— Eu não disse bonita.— Disse “precisa”. Na sua língua, é pior.Liguei a Laurão.— Podemos trabalhar?— Podemos, mas você vai tocar cada acorde como se quisesse arrancar o coque dela.Clara ajustou o ganho.— Usa isso.— Usar ciúme é conselho artístico irresponsável.— Você usou raiva em três álbuns.— Com excelentes resultados — Lorena completou.Toquei a sequência do celeiro. A nota de Matias permanecia ali, abrindo espaço. Cantei a frase que nascera depois da conversa sobre meu pai. Lorena entrou com uma harmonia baixa. Na segunda passagem, a música ganhou estrada, poeira e uma mulher que não sabia
Matias Cruz A reunião da cooperativa começou com trinta e uma cadeiras, quarenta e três pessoas e nenhuma confiança sobrando. Produtor não precisava de convite para discutir água. Alguns ficaram de pé no fundo do galpão. Outros trouxeram pastas, contas e fotografias de reservatórios baixos. Bianca montou a apresentação sem equipe de filmagem ou logomarca maior do que o assunto. Ela sabia entrar num lugar. Estela sentou ao lado de Clara na última fileira. Tinha pedido para assistir porque a campanha citava a cooperativa. Perguntou antes. Eu disse sim. Bianca mostrou projeções de chuva, vazão e custo. A captação do rio exigia licença, tubulação e uma estação de tratamento pequena. Sozinhos, levaríamos dois anos para juntar o dinheiro. A AgroVale prometia concluir em seis meses. — E em troca? — Davi perguntou. — Gestão técnica da distribuição por dez anos, preferência de compra sobre a produção e servidão de passagem nas propriedades participantes. O galpão encheu de vozes. — Ser
Estela Camacho O lado vazio da cama conseguiu dizer cinco coisas antes que eu me sentasse. Arrependimento. Erro. Pressa. São Paulo. Trinta dias. Meu corpo ainda guardava o peso de Matias, mas a cabeça já produzia uma versão em que ele vestira a roupa no escuro para não precisar me encarar. Encontrei minha camiseta no chão e o jeans dobrado sobre uma cadeira. Dobrado. Aquilo piorava tudo. Homem que dobrava roupa depois do sexo era capaz de organizar uma fuga em planilha. Vesti-me, lavei o rosto na pia estreita e abri a porta. O celeiro estava vazio. Do lado de fora, o trabalho seguia sem respeitar crise emocional: motor ligado, homens descarregando ração, uma caminhonete entrando pela porteira. Voltei para a casa de hóspedes sem perguntar por ele. Clara ligou assim que fechei a porta. — Heitor está furioso. — Entre na fila. — A equipe confirmou que você mandou desligar. Beatriz diz que vocês estavam dentro do acordo. — Milagre jurídico. — Aconteceu mais alguma coisa? Olhei
Matias CruzEstela disse que me queria, disse que queria aquilo e disse que avisaria se mudasse de ideia. Ouvi as três frases do jeito que eu ouvia previsão de chuva: inteiras, sem pular a parte que diz quando parar.Só então abri o botão do jeans.Ela levantou o quadril para me ajudar. Tirei a calça e a calcinha juntas e fiquei um segundo parado, de joelhos na beirada da cama estreita, só olhando. Fazia uma semana que eu desviava do cheiro de erva-doce que o sabonete da casa de hóspedes deixava nela quando passava pelo corredor da sede. Ali não havia corredor.Beijei a parte de dentro do joelho, a coxa, esperando qualquer sinal de recuo. O sinal que veio foi a mão no meu cabelo, as pontas dos dedos duras de corda de guitarra, empurrando para baixo.A boceta dela estava molhada e quente. Na primeira passada de língua, Estela arqueou as costas e agarrou o lençol com as duas mãos.Fui com calma. Usei o mesmo tempo que tinha marcado na coxa para a música dela no celeiro: mais lento do que
Estela CamachoAbri a porta ainda usando a camiseta suja da madrugada.— Quem autorizou vocês?Mauro correu até mim com uma prancheta.— Mandamos a agenda ontem. Cotidiano do casal, café da manhã e depoimentos sobre a adaptação rural.— Mandar não é receber consentimento.Caio mantinha a câmera baixa. Os outros dois operadores não. Uma lente apontou para minhas pernas, para a porta aberta, para o interior da casa.Entrei na frente.— Desliga.O homem olhou para Heitor.— Ela mandou desligar — Matias falou atrás deles.A câmera baixou.Heitor atravessou o terreiro com aquela calma treinada que fazia ameaça parecer reunião.— Estamos perdendo a melhor janela de interesse. As imagens de ontem superaram todas as projeções.— Então publique as autorizadas.— O público quer intimidade.— O público também quer que eu caia de um palco. Nem por isso entrego.— Seu contrato prevê registros de bastidores.— O acordo com Matias prevê autorização de lugar e horário. Você não tem nenhum dos dois.H







