เข้าสู่ระบบEstela CamachoHeitor chegou às oito da manhã num carro preto que parecia alérgico à estrada de terra.Veio com Beatriz, um assessor chamado Mauro e duas malas para uma reunião que, segundo ele, duraria apenas uma hora. Minha mãe os recebeu com café. Vó Rosa perguntou se eram fiscais. Lúcia filmou escondida até eu mandar guardar o celular.Sentamos na sala. Heitor abriu uma pasta e colocou três cópias de um documento sobre a mesa.— Não vou assinar nada — falei.— Ainda não sabe o que é.— Você trouxe advogada e papel. Nunca é pedido de desculpa.Clara ocupou a poltrona ao meu lado. Tinha passado a noite lendo meu contrato original, assinado quando eu ainda precisava de autorização dos meus pais para viajar.Heitor ignorou a provocaç
Estela CamachoHeitor me ligou quarenta e três segundos depois que encerrei a transmissão.O tempo exato de perceber que eu o havia desobedecido diante de um milhão de pessoas.Não atendi.Ligou outra vez. Recusei. Na terceira, desliguei o celular e o coloquei virado para baixo sobre a mesa da varanda.Minha mãe me entregou uma xícara de café.— Você falou bem.— Ele vai me matar.— Quem?— Meu chefe.— Você não é milionária?— Sou.— Então compra outro chefe.Olhei para ela. Maria bebeu o próprio café como se tivesse resolvido uma questão simples.— Não funciona assim.— Quase nada funciona até alguém com dinheiro e raiva decidir que funciona.Vó Rosa riu da cozinha. Lúcia continuava atualizando as redes, os olhos arregalados.— Um milhão e trezentas mil pessoas viram ao vivo. Estão chamando o Matias de cowboy protetor.— Ele vai odiar.— Estão fazendo edição com vocês.— Ele vai odiar mais.Liguei o telefone novamente. Havia vinte e duas chamadas, mensagens da assessoria e um comuni
Matias CruzO primeiro carro chegou antes das duas da tarde.O segundo estacionou na entrada vinte minutos depois. Às três, havia seis pessoas diante da porteira, duas câmeras, um drone e uma mulher de salto tentando convencer Joel de que tinha autorização para entrar.Antes disso, a manhã tinha sido normal. Eu conferira o resfriamento, discutira preço de ração e ajudara a empurrar uma caminhonete atolada. Era o tipo de dia que se media por tarefas concluídas. Bastou uma fotografia para o trabalho perder o próprio nome. De repente, todo telefonema começava com Estela, e ninguém perguntava da chuva.Minha mãe recebeu mensagens de parentes que não falavam com ela havia meses. Joel descobriu que a filha adolescente seguia Estela e agora queria saber se a cantora estava escondida na casa principal. Dois funcionários pediram para tirar foto caso ela voltasse.Eu não estava irritado porque Estela era famosa.Estava irritado porque fama parecia uma cerca que só funcionava de um lado. Todo mu
Estela CamachoEm menos de uma hora, Matias deixou de ser um homem e virou categoria.E eu virei novamente um erro público.Cowboy misterioso. Caipira gato. Fazendeiro desconhecido. Novo vício de Estela Camacho.Rolei a tela com o polegar enquanto cada legenda piorava. Um portal resgatou fotografias minhas aos dezenove anos, magra demais e saindo de uma clínica. Outro publicou um vídeo antigo em que eu mal conseguia atravessar a porta de uma festa. A foto do beijo era atual. O resto construía a história que vendia melhor.Eu havia recaído. Eu estava descontrolada. Eu abandonara o estúdio para me esconder no interior com um homem bruto.O detalhe de que eu não usava drogas havia anos ocupava duas linhas no fim de uma matéria.O corpo reagiu antes da razão. Minha nuca esfriou. A saliva adquiriu um gosto metálico, e por um segundo eu não estava no or
Estela CamachoAcordei com a boca seca, a cabeça latejando e a lembrança da mão de Matias na minha coxa.Não nessa ordem.Fiquei deitada, olhando para o teto de madeira, enquanto a noite voltava em partes: o karaokê, Lorena rindo, a moto inclinando, a caminhonete, a bronca. Depois a boca dele. O gosto de pinga e palheiro. A barba raspando meu rosto. O instante em que ele me beijou como se tivesse passado horas tentando não fazer aquilo.E a frase final.Você bebeu.Virei de lado e enfiei o rosto no travesseiro.Era irritante que o homem tivesse razão. Eu sabia o que queria, mas estava bêbada. Ele interromper antes que avançássemos era a atitude correta. Ainda assim, a parte mais infantil do meu cérebro traduzia responsabilidade como rejeição.O celular marcava nove e meia. Havia mensagens de Lorena, duas chamadas de Clara e um á
Matias CruzEstela bebeu seis litrões divididos com Lorena.Eu contei porque alguém precisava contar.Depois da provocação na minha mesa, ela voltou ao karaokê e fingiu que eu não existia. Cantou, riu, fumou dois cigarros e aceitou mais um copo que não precisava. A amiga estava menos alterada. Estela se movia com a confiança perigosa de quem ainda não percebera que o chão mudava de lugar.Eu deveria ter ido embora.Tinha trabalho antes do sol nascer. Joel me esperaria às cinco para conferir os animais do lote novo. A vida que eu escolhera não abria espaço para vigiar cantora teimosa.Mesmo assim, fiquei.Quando ela pagou a conta e saiu em direção à motocicleta, levantei.— Deixa a moça — o dono do bar falou.— A estrada não vai deixar.Alcancei Estela quando ela colocava o capacete. Errou a fivela duas vezes. Depois tentou subir, tropeçou na própria perna e puxou a moto junto.Segurei seus braços antes que o peso caísse sobre ela.— Meu Deus, Estela.— Eu estou bem.— Não está nem em







