LOGINCinco minutos depois do início da partida, Miguel recebeu a bola no meio-campo e transformou minha paz num corredor aberto.
O Maracanã jogava de branco e azul-claro. Da cabine do EsporteFoco, eu enxergava o número 23 avançando entre dois marcadores do Carioca. Ele tinha um jeito estranho de correr: o tronco um pouco inclinado, os braços soltos, como se chegasse atrasado a algum lugar que só ele sabia onde ficava.
O primeiro zagueiro tentou fechar o lado direito.
Miguel cortou para dentro.
O segundo veio no corpo. Ele protegeu a bola, esperou o goleiro sair e tocou por cima.
A rede se mexeu.
O estádio explodiu.
— O menino é bom — Zeca gritou ao meu lado.
Zeca havia jogado com meu pai na seleção e se considerava autorizado a comentar qualquer coisa, inclusive meu silêncio.
— Foi um gol — respondi, ajeitando o fone. — Até atacante ruim faz de vez em quando.
— Você vai sofrer nesse jantar.
— Não haverá jantar.
No gramado, Miguel correu em direção à arquibancada, beijou o escudo e se virou para a cabine de imprensa. Não havia como saber se conseguia me enxergar atrás do vidro.
Mesmo assim, levantou um dedo.
O câmera do nosso canal encontrou meu rosto.
Sorri.
Profissionalismo é a arte de desejar a morte de alguém sem perder o enquadramento.
Aos vinte e nove minutos, Juninho avançou pela lateral e cruzou para a área. Miguel poderia ter finalizado. Em vez disso, deixou a bola passar entre as pernas, desmontando a marcação, e o meia do Maracanã marcou o segundo.
Uma assistência inteligente.
Anotei no tablet com mais força do que o necessário.
Velocidade explicava a arrancada, não aquele lance. Miguel lia o movimento antes de acontecer.
Aquilo me incomodou mais do que o gol.
Meu pai costumava dizer que atacante comum corria atrás da bola e craque chegava onde ela ainda nem estava. Eu passara a infância ouvindo aquilo na sala de casa, enquanto ele congelava lances na televisão e me obrigava a explicar o que aconteceria depois. Miguel teria sido aprovado naquele teste. A constatação produziu um orgulho que não me pertencia e, logo depois, uma vontade infantil de vê-lo errar.
No intervalo, entrei ao vivo para analisar o primeiro tempo.
— O Maracanã encontrou espaço nas costas dos laterais — expliquei, enquanto o replay passava atrás de mim. — Miguel Duarte aproveitou bem a desorganização do Carioca, marcou e participou do segundo gol. É uma boa estreia até aqui.
O apresentador sorriu de São Paulo.
— Boa estreia? Helena, o rapaz já conseguiu arrancar um elogio seu. Isso vale dois gols.
— Não vamos desvalorizar a moeda nacional.
— E o jantar?
— Próxima pergunta.
Quando saímos do ar, Carlos enviou apenas três emojis de fogo. O corte da minha reação ao gol já tinha mais visualizações do que a análise tática.
Era esse o problema da internet: eu podia estudar uma partida inteira, mas bastava um homem bonito olhar na minha direção para transformarem meu trabalho em preliminar.
O segundo gol de Miguel veio aos doze minutos do segundo tempo. Ele recebeu de costas, girou sobre o zagueiro e bateu cruzado. Dessa vez não comemorou diante da cabine. Correu para abraçar Juninho e apontou para quem tinha dado o passe.
Dois.
Meu estômago apertou.
— Você ficou pálida — Zeca observou.
— A iluminação é ruim.
— O restaurante deve ser muito caro.
— Cala a boca, Zeca.
O Carioca diminuiu aos vinte e seis. O jogo ficou mais físico. Miguel levou uma pancada no tornozelo e permaneceu no chão por tempo suficiente para o estádio prender a respiração.
Eu também.
Quando ele se levantou mancando, senti alívio antes de conseguir impedir. Irritante. Não queria que se machucasse, obviamente. Eu não era um monstro. O que me contrariou foi acompanhar cada tentativa dele de apoiar o pé, como se a resposta também dissesse respeito a mim.
Otávio quase o substituiu. Miguel fez um sinal pedindo para ficar.
Nos acréscimos, o placar mostrava quatro a um para o Maracanã. A aposta tinha deixado de ser importante. Eu já teria de admitir ao vivo que o subestimei. Restava a ele marcar outro gol mancando contra uma defesa fechada.
Afrouxei os dedos ao redor do tablet.
Então o goleiro do Carioca saiu jogando errado.
Miguel interceptou a bola.
O estádio se levantou antes do chute. Ele driblou o goleiro, mas ficou sem ângulo. Um zagueiro correu para a linha. Outro fechou a passagem. Qualquer jogador sensato tocaria para trás.
Miguel não tinha sido contratado para ser sensato.
Ele bateu de esquerda.
A bola passou entre a trave e o pé do defensor.
Gol.
Por alguns segundos, não ouvi nada além da torcida. Miguel correu até a lateral, parou diante do setor de imprensa e levantou três dedos.
Depois apontou para mim.
A câmera do estádio acompanhou. Meu rosto apareceu no telão acima do campo.
— Filho da mãe — murmurei.
O microfone preso à minha roupa ainda estava aberto.
Zeca dobrou o corpo de tanto rir.
No telão, Miguel levou a mão aos lábios e disse alguma coisa que não consegui ouvir.
Não precisava.
Li perfeitamente o movimento da boca.
Escolhe o restaurante.
HelenaA mão de Miguel permaneceu na minha cintura por dois segundos.Talvez três.Tempo suficiente para eu registrar o calor dos dedos através da blusa, o cheiro limpo de banho recente e o fato de que o peito dele estava perto demais do meu rosto. Quando recuperei o equilíbrio, afastei-me como se nada tivesse acontecido.— Reflexo bom — comentei.— Sou pago para isso.— Você é pago para chutar bola.— O resto eu faço de graça.Ele disse sem baixar a voz, mas a frase encontrou um espaço particular entre nós. Peguei meu copo sobre a mesa e bebi para não responder.O jantar coletivo funcionou por aproximadamente vinte minutos. Lucas contava histórias do vestiário, Juninho discutia com Alice sobre quem tinha escolhido o pior jogador da rodada e Miguel, sentado à minha frente, participava de todas as conversas sem parar de me observar.O olhar não percorreu meu corpo nem tentou me despir. Ficou no meu rosto, esperando.Eu estava acostumada com homens que tentavam ocupar meu espaço antes q
MiguelTrês gols, uma assistência e um tornozelo latejando.Ainda assim, a primeira coisa que procurei ao deixar o campo foi o rosto de Helena.Não encontrei.A cabine do EsporteFoco estava vazia, e por um segundo absurdo pensei que ela tivesse fugido. Depois Lucas me acertou pelas costas com uma toalha molhada e o vestiário inteiro começou a gritar “jantar” como se aquela fosse a música oficial do clube.— Vocês são muito infantis — reclamei, sem conseguir parar de sorrir.— Três gols na estreia e o homem está preocupado com sobremesa — Juninho disse.— Prioridades.Otávio Dutra entrou antes que respondessem. O barulho morreu aos poucos.Ele esperou o silêncio completo, olhou para o placar desenhado no quadro e depois para mim.— Boa estreia, Duarte.Duas palavras. Vindas dele, pareceram uma convocação para a seleção.— Obrigado, professor.— Agora esquece. Quarta-feira tem treino e domingo tem outro jogo. Quem vive de estreia morre no segundo tempo da temporada.Assenti. A frase era
HelenaCinco minutos depois do início da partida, Miguel recebeu a bola no meio-campo e transformou minha paz num corredor aberto.O Maracanã jogava de branco e azul-claro. Da cabine do EsporteFoco, eu enxergava o número 23 avançando entre dois marcadores do Carioca. Ele tinha um jeito estranho de correr: o tronco um pouco inclinado, os braços soltos, como se chegasse atrasado a algum lugar que só ele sabia onde ficava.O primeiro zagueiro tentou fechar o lado direito.Miguel cortou para dentro.O segundo veio no corpo. Ele protegeu a bola, esperou o goleiro sair e tocou por cima.A rede se mexeu.O estádio explodiu.— O menino é bom — Zeca gritou ao meu lado.Zeca havia jogado com meu pai na seleção e se considerava autorizado a comentar qualquer coisa, inclusive meu silêncio.— Foi um gol — respondi, ajeitando o fone. — Até atacante ruim faz de vez em quando.— Você vai sofrer nesse jantar.— Não haverá jantar.No gramado, Miguel correu em direção à arquibancada, beijou o escudo e s
MiguelNo meu primeiro treino como possível titular do Maracanã, errei um gol que minha mãe faria de chinelo.A bola veio limpa da direita. Eu estava sozinho na pequena área, com tempo suficiente para escolher o canto, agradecer a Deus e talvez responder mais uma provocação da Helena. Chutei por cima.Otávio Dutra apitou tão forte que o som pareceu atravessar meu crânio.— Duarte! Aqui!Corri até a lateral. O treinador esperou que eu chegasse antes de apontar para o campo.— Sabe o que tem ali?— Um gol.— Engraçadinho. Tem dez jogadores tentando entender como você se move. Se você correr para a câmera em vez de correr para o espaço, vai assistir à estreia do banco.Assenti. Não havia resposta boa.Desde a coletiva, meu nome tinha virado brincadeira nacional. A aposta aparecia no celular de todo mundo. O perfil do clube ganhou seguidores. O meu quase dobrou. Armani dizia que era excelente. Otávio tratava cada notificação como se fosse um quilo a mais amarrado nas minhas pernas.— Esqu
HelenaO sorriso que apareceu no rosto de Miguel Duarte não fazia parte do treinamento de mídia.Eu conhecia sorrisos treinados. Convivia com eles desde criança. Jogador sorria quando queria esconder medo, presidente sorria antes de demitir técnico e homem poderoso sorria quando acreditava que uma mulher não tinha percebido a ameaça.O de Miguel era diferente.Ele estava nervoso e tinha acabado de decidir se divertir com isso.— Quantos gols eu preciso fazer para você admitir que errou? — repetiu, apoiando os antebraços sobre a mesa.O presidente do Maracanã soltou uma risada curta. Otávio Dutra não achou graça. Carlos, meu diretor, assistia à transmissão do escritório e provavelmente já procurava no Google se era possível demitir alguém por telepatia.Levei o microfone de volta à boca.— Um gol não prova uma contratação.— Então escolhe um número.— Futebol não funciona assim.— Sua pergunta funcionou.A sala reagiu com aquele ruído baixo de gente que pressente um corte viral. Um cin
“O Maracanã comprou um craque ou só mais um produto de marketing?”A pergunta saiu da televisão pela terceira vez porque eu tinha recuado o vídeo pela terceira vez. Eu chamava aquilo de estudo do adversário. Na terceira repetição, já era teimosia com Wi-Fi.Helena Albuquerque ocupava a tela inteira da sala, sentada diante de um microfone preto, com a camisa do EsporteFoco e um sorriso que não chegava aos olhos. Atrás dela, congelada numa tela azul, estava uma foto minha comemorando um gol pelo Auriverde. Boca aberta, punho erguido, barro até no joelho.Não era exatamente a imagem que eu escolheria para ser apresentado ao país.— Dez gols em oito jogos no estadual — ela continuou. — É uma média excelente. A pergunta é contra quem. Sair de uma divisão pequena para o atual campeão brasileiro exige mais do que velocidade e uma boa história de superação.Parei o vídeo antes que ela repetisse a parte do produto de marketing.O apartamento ficou silencioso de novo.Eu ainda não tinha me acos







