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Capítulo 2 — A aposta

last update 게시일: 2026-09-04 01:49:16

Helena

O sorriso que apareceu no rosto de Miguel Duarte não fazia parte do treinamento de mídia.

Eu conhecia sorrisos treinados. Convivia com eles desde criança. Jogador sorria quando queria esconder medo, presidente sorria antes de demitir técnico e homem poderoso sorria quando acreditava que uma mulher não tinha percebido a ameaça.

O de Miguel era diferente.

Ele estava nervoso e tinha acabado de decidir se divertir com isso.

— Quantos gols eu preciso fazer para você admitir que errou? — repetiu, apoiando os antebraços sobre a mesa.

O presidente do Maracanã soltou uma risada curta. Otávio Dutra não achou graça. Carlos, meu diretor, assistia à transmissão do escritório e provavelmente já procurava no G****e se era possível demitir alguém por telepatia.

Levei o microfone de volta à boca.

— Um gol não prova uma contratação.

— Então escolhe um número.

— Futebol não funciona assim.

— Sua pergunta funcionou.

A sala reagiu com aquele ruído baixo de gente que pressente um corte viral. Um cinegrafista ajustou o foco. Duas repórteres ergueram os celulares. Eu deveria ter encerrado ali.

Mas havia uma coisa que eu detestava mais do que jogador cheio de confiança: parecer acuada por um.

— Três gols — respondi. — Faça três na estreia e eu admito, ao vivo, que subestimei você.

Miguel inclinou a cabeça. De perto, era fácil enxergar o contraste entre o terno caro e as mãos inquietas. A aliança inexistente chamou minha atenção por um segundo desnecessário.

— Só isso?

— Você queria o quê? Uma estátua?

— Um jantar.

A gargalhada veio de todos os lados. Minhas orelhas queimaram, mas mantive a expressão imóvel. Ele não desviou os olhos.

— Se eu fizer um gol, você admite que errou — continuou. — Se eu fizer três, janta comigo.

— Isso é uma coletiva ou um aplicativo de relacionamento?

— Você começou perguntando se eu era propaganda. Estou oferecendo a chance de conferir o produto.

Dessa vez até Otávio Dutra riu.

Filho da mãe.

— Faça os três primeiro, camisa 23.

— Então está combinado?

A resposta certa era não. A resposta profissional era lembrar que eu estava ali trabalhando e que ele havia transformado uma pergunta legítima numa cantada diante de cinquenta pessoas.

Três gols numa estreia contra o Carioca eram improváveis. O Maracanã tinha um elenco forte, mas Miguel mal havia treinado com o grupo. Provavelmente começaria no banco. Aceitar uma aposta impossível me parecia uma maneira eficiente de recuperar o controle.

— Está combinado.

O assessor encerrou a coletiva menos de cinco minutos depois. Eu ainda guardava o microfone quando o celular começou a vibrar.

Dois repórteres me cercaram antes que eu alcançasse o corredor. Um perguntou se eu costumava aceitar encontros de jogadores. O outro quis saber se já tinha escolhido a roupa. Nenhum deles se interessou pelos números que me levaram a questionar a contratação: diferença de nível entre os campeonatos, pouca experiência profissional, valor baixo da negociação. Eu tinha feito o trabalho. Miguel tinha produzido o espetáculo. Adivinhe qual dos dois cabia melhor numa manchete.

Respondi que a aposta era consequência de uma pergunta esportiva. Enquanto falava, ouvi alguém repetir ao fundo que nossa química era inegável.

Química. A palavra preferida de quem assiste a uma mulher perder o controle de uma conversa e decide chamar aquilo de romance.

CARLOS: Você enlouqueceu?

CARLOS: Me liga AGORA.

LÍVIA: Amiga, você marcou um encontro em rede nacional?

PAI: Esse menino está debochando do nosso nome.

A mensagem do meu pai apagou qualquer satisfação que eu pudesse sentir.

Luizinho Albuquerque tinha passado a vida sendo reconhecido antes de entrar nos lugares. Quando eu era pequena, desconhecidos pediam que ele me colocasse no chão para poder abraçá-lo. Aos vinte e cinco, eu continuava sendo apresentada como filha dele antes de ser chamada de jornalista.

Ele tinha conseguido minha primeira entrevista no EsporteFoco. Nunca deixou que eu esquecesse.

Saí da sala evitando a multidão de repórteres. No corredor, encontrei Carlos em videochamada. Atendi antes que ele tentasse uma terceira vez.

— Era para você ser menos pessoal — ele disse, sem cumprimento.

— Eu fiz uma pergunta sobre a contratação.

— E saiu com um jantar marcado.

— Só se ele fizer três gols.

Carlos passou a mão pela testa.

— A hashtag Camisa23 já está entre os assuntos mais comentados. ApostaComALena entrou agora. O corte tem quatrocentas mil visualizações.

Olhei pelo vidro do corredor. Do outro lado, Miguel posava com a camisa do clube. Quando o fotógrafo pediu que virasse de costas, o número 23 apareceu inteiro.

Ele me viu.

Em vez de sorrir, levantou três dedos.

Mostrei o dedo do meio abaixo da linha da janela, onde as câmeras não alcançavam.

O sorriso dele veio devagar.

— Helena? — Carlos chamou. — Você está me ouvindo?

— Estou. O quadro está sob controle.

— Que quadro?

— Modo de dizer.

Desliguei antes que ele fizesse outra pergunta.

Na saída do centro de treinamento, havia notificações demais para contar. Memes, montagens, enquetes. Alguém já tinha colocado meu rosto ao lado do dele com corações e a frase enemies to lovers.

Entrei no carro do canal e fechei a porta.

Abri o I*******m, procurei o perfil de Miguel e encontrei uma publicação feita havia menos de um minuto. Era a foto dele de costas, segurando a camisa 23.

A legenda tinha apenas três palavras.

Escolhe o restaurante.

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