로그인Três gols, uma assistência e um tornozelo latejando.
Ainda assim, a primeira coisa que procurei ao deixar o campo foi o rosto de Helena.
Não encontrei.
A cabine do EsporteFoco estava vazia, e por um segundo absurdo pensei que ela tivesse fugido. Depois Lucas me acertou pelas costas com uma toalha molhada e o vestiário inteiro começou a gritar “jantar” como se aquela fosse a música oficial do clube.
— Vocês são muito infantis — reclamei, sem conseguir parar de sorrir.
— Três gols na estreia e o homem está preocupado com sobremesa — Juninho disse.
— Prioridades.
Otávio Dutra entrou antes que respondessem. O barulho morreu aos poucos.
Ele esperou o silêncio completo, olhou para o placar desenhado no quadro e depois para mim.
— Boa estreia, Duarte.
Duas palavras. Vindas dele, pareceram uma convocação para a seleção.
— Obrigado, professor.
— Agora esquece. Quarta-feira tem treino e domingo tem outro jogo. Quem vive de estreia morre no segundo tempo da temporada.
Assenti. A frase era para todos, mas seus olhos permaneceram em mim.
No corredor, uma pequena multidão de repórteres esperava. Armani surgiu antes que eu alcançasse a zona mista e ajeitou a gola da minha camisa.
— A FOGO quer fechar amanhã — disse. — O valor triplicou.
— Boa noite pra você também.
— Sua noite está excelente. Meu trabalho é garantir que continue assim.
— E a Helena?
Armani abriu um sorriso de empresário diante de uma cláusula favorável.
— Melhor investimento que você nem precisou fazer.
Aquilo me incomodou.
Eu tinha provocado Helena porque ela me irritava e porque era bonita, não para transformar a mulher num degrau da minha carreira. Mas as câmeras já estavam ligadas. Na zona mista, perguntaram mais sobre a aposta do que sobre o segundo gol.
— Helena vai decidir se cumpre a parte dela — respondi. — O que eu queria provar, provei no campo.
Foi a declaração mais madura que consegui produzir enquanto meu corpo inteiro queria perguntar onde ela estava.
Encontrei-a perto do estúdio móvel do canal. Havia duas pessoas desmontando luzes ao redor, mas ela estava sozinha diante de uma bancada, assistindo aos lances no tablet.
— Vai fingir que não me viu? — perguntei.
Helena ergueu os olhos.
— Estou tentando descobrir se o terceiro gol foi competência ou falha coletiva da defesa.
— E o resultado da investigação?
— Infelizmente, competência.
O elogio veio tão contrariado que valeu por dois.
Aproximei-me da bancada. Ela cheirava a perfume cítrico e café frio. O cabelo antes preso estava solto, marcado pelo fone.
— Você me deve duas coisas.
— Eu disse que admitiria ao vivo. Não disse quando.
— E o jantar?
— Também não disse que seria sozinha.
— Está mudando as regras.
— Estou refinando o contrato. Devia ter trazido seu empresário.
Ela tocou na tela e o replay do meu primeiro gol começou novamente. Fiquei observando o reflexo do vídeo nos olhos dela.
— Amanhã — Helena disse. — Vou reconhecer no LenaTV que errei. Quanto ao jantar, Alice chamou algumas pessoas para um samba na Lapa. Você pode aparecer.
— Algumas pessoas?
— É o máximo de intimidade que três gols compram.
— Por enquanto.
Helena prendeu a respiração por uma fração de segundo. Se eu não estivesse tão perto, talvez não percebesse.
— Não confunda aposta com interesse, Miguel.
— Não estou confundindo.
— Ótimo.
— O interesse veio antes.
Ela fechou o tablet.
— Oito e meia. Vou mandar o endereço. Se chegar atrasado, sua dívida caduca.
— A dívida é sua.
— Na minha versão, não.
Helena passou por mim sem se despedir. Acompanhei o movimento dela até a porta, tentando não parecer um homem que acabara de levar um drible sem bola.
Às oito e quarenta e três, entrei num bar apertado da Lapa ao lado de Juninho e Lucas. O samba ocupava o espaço inteiro. Havia gente dançando entre as mesas, copos erguidos, suor, perfume e o cheiro de carne acebolada vindo da cozinha.
Encontrei Helena perto do palco.
Ela usava uma blusa preta de alças e uma calça jeans que não tinha nada de jornalista esportiva. Alice estava ao lado, falando com uma mulher de cabelo curto. Quando Helena me viu, conferiu o relógio de pulso.
— Treze minutos atrasado.
— Trânsito.
— Desculpa de jogador sem preparo.
— Posso compensar pagando a conta.
— Vai precisar. Eu escolhi as cachaças mais caras.
Entreguei a ela um pequeno buquê embrulhado em papel pardo.
Helena olhou para as flores e depois para mim.
— O que é isso?
— Meu pai disse que, quando eu fosse fazer promessa para mulher, era melhor prometer flor. Gol depende dos outros deixarem.
Por um instante, ela não encontrou uma resposta.
Foi a primeira vez que a vi sem uma.
Então pegou o buquê e aproximou o rosto das flores.
— Não pense que isso melhora sua análise tática.
— Mas melhora minhas chances?
— Ainda estou calculando.
O samba mudou. Alguém esbarrou em Helena, e minha mão foi até sua cintura antes que eu pensasse. Ela baixou os olhos para meus dedos. Não se afastou imediatamente.
Quando tornou a me encarar, já não parecia haver câmera, microfone ou plateia entre nós.
— Ainda está calculando? — perguntei.
— O quê?
— Minhas chances.
Helena apertou o papel pardo ao redor das flores. Seu olhar desceu até minha boca e voltou.
— Não abuse da sorte, camisa 23.
Ela não pediu que eu tirasse a mão.
HelenaA mão de Miguel permaneceu na minha cintura por dois segundos.Talvez três.Tempo suficiente para eu registrar o calor dos dedos através da blusa, o cheiro limpo de banho recente e o fato de que o peito dele estava perto demais do meu rosto. Quando recuperei o equilíbrio, afastei-me como se nada tivesse acontecido.— Reflexo bom — comentei.— Sou pago para isso.— Você é pago para chutar bola.— O resto eu faço de graça.Ele disse sem baixar a voz, mas a frase encontrou um espaço particular entre nós. Peguei meu copo sobre a mesa e bebi para não responder.O jantar coletivo funcionou por aproximadamente vinte minutos. Lucas contava histórias do vestiário, Juninho discutia com Alice sobre quem tinha escolhido o pior jogador da rodada e Miguel, sentado à minha frente, participava de todas as conversas sem parar de me observar.O olhar não percorreu meu corpo nem tentou me despir. Ficou no meu rosto, esperando.Eu estava acostumada com homens que tentavam ocupar meu espaço antes q
MiguelTrês gols, uma assistência e um tornozelo latejando.Ainda assim, a primeira coisa que procurei ao deixar o campo foi o rosto de Helena.Não encontrei.A cabine do EsporteFoco estava vazia, e por um segundo absurdo pensei que ela tivesse fugido. Depois Lucas me acertou pelas costas com uma toalha molhada e o vestiário inteiro começou a gritar “jantar” como se aquela fosse a música oficial do clube.— Vocês são muito infantis — reclamei, sem conseguir parar de sorrir.— Três gols na estreia e o homem está preocupado com sobremesa — Juninho disse.— Prioridades.Otávio Dutra entrou antes que respondessem. O barulho morreu aos poucos.Ele esperou o silêncio completo, olhou para o placar desenhado no quadro e depois para mim.— Boa estreia, Duarte.Duas palavras. Vindas dele, pareceram uma convocação para a seleção.— Obrigado, professor.— Agora esquece. Quarta-feira tem treino e domingo tem outro jogo. Quem vive de estreia morre no segundo tempo da temporada.Assenti. A frase era
HelenaCinco minutos depois do início da partida, Miguel recebeu a bola no meio-campo e transformou minha paz num corredor aberto.O Maracanã jogava de branco e azul-claro. Da cabine do EsporteFoco, eu enxergava o número 23 avançando entre dois marcadores do Carioca. Ele tinha um jeito estranho de correr: o tronco um pouco inclinado, os braços soltos, como se chegasse atrasado a algum lugar que só ele sabia onde ficava.O primeiro zagueiro tentou fechar o lado direito.Miguel cortou para dentro.O segundo veio no corpo. Ele protegeu a bola, esperou o goleiro sair e tocou por cima.A rede se mexeu.O estádio explodiu.— O menino é bom — Zeca gritou ao meu lado.Zeca havia jogado com meu pai na seleção e se considerava autorizado a comentar qualquer coisa, inclusive meu silêncio.— Foi um gol — respondi, ajeitando o fone. — Até atacante ruim faz de vez em quando.— Você vai sofrer nesse jantar.— Não haverá jantar.No gramado, Miguel correu em direção à arquibancada, beijou o escudo e s
MiguelNo meu primeiro treino como possível titular do Maracanã, errei um gol que minha mãe faria de chinelo.A bola veio limpa da direita. Eu estava sozinho na pequena área, com tempo suficiente para escolher o canto, agradecer a Deus e talvez responder mais uma provocação da Helena. Chutei por cima.Otávio Dutra apitou tão forte que o som pareceu atravessar meu crânio.— Duarte! Aqui!Corri até a lateral. O treinador esperou que eu chegasse antes de apontar para o campo.— Sabe o que tem ali?— Um gol.— Engraçadinho. Tem dez jogadores tentando entender como você se move. Se você correr para a câmera em vez de correr para o espaço, vai assistir à estreia do banco.Assenti. Não havia resposta boa.Desde a coletiva, meu nome tinha virado brincadeira nacional. A aposta aparecia no celular de todo mundo. O perfil do clube ganhou seguidores. O meu quase dobrou. Armani dizia que era excelente. Otávio tratava cada notificação como se fosse um quilo a mais amarrado nas minhas pernas.— Esqu
HelenaO sorriso que apareceu no rosto de Miguel Duarte não fazia parte do treinamento de mídia.Eu conhecia sorrisos treinados. Convivia com eles desde criança. Jogador sorria quando queria esconder medo, presidente sorria antes de demitir técnico e homem poderoso sorria quando acreditava que uma mulher não tinha percebido a ameaça.O de Miguel era diferente.Ele estava nervoso e tinha acabado de decidir se divertir com isso.— Quantos gols eu preciso fazer para você admitir que errou? — repetiu, apoiando os antebraços sobre a mesa.O presidente do Maracanã soltou uma risada curta. Otávio Dutra não achou graça. Carlos, meu diretor, assistia à transmissão do escritório e provavelmente já procurava no Google se era possível demitir alguém por telepatia.Levei o microfone de volta à boca.— Um gol não prova uma contratação.— Então escolhe um número.— Futebol não funciona assim.— Sua pergunta funcionou.A sala reagiu com aquele ruído baixo de gente que pressente um corte viral. Um cin
“O Maracanã comprou um craque ou só mais um produto de marketing?”A pergunta saiu da televisão pela terceira vez porque eu tinha recuado o vídeo pela terceira vez. Eu chamava aquilo de estudo do adversário. Na terceira repetição, já era teimosia com Wi-Fi.Helena Albuquerque ocupava a tela inteira da sala, sentada diante de um microfone preto, com a camisa do EsporteFoco e um sorriso que não chegava aos olhos. Atrás dela, congelada numa tela azul, estava uma foto minha comemorando um gol pelo Auriverde. Boca aberta, punho erguido, barro até no joelho.Não era exatamente a imagem que eu escolheria para ser apresentado ao país.— Dez gols em oito jogos no estadual — ela continuou. — É uma média excelente. A pergunta é contra quem. Sair de uma divisão pequena para o atual campeão brasileiro exige mais do que velocidade e uma boa história de superação.Parei o vídeo antes que ela repetisse a parte do produto de marketing.O apartamento ficou silencioso de novo.Eu ainda não tinha me acos







