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Capítulo 3 — A camisa mais pesada

ผู้เขียน: Bella Prudencio
last update วันที่เผยแพร่: 2026-09-04 01:49:38

Miguel

No meu primeiro treino como possível titular do Maracanã, errei um gol que minha mãe faria de chinelo.

A bola veio limpa da direita. Eu estava sozinho na pequena área, com tempo suficiente para escolher o canto, agradecer a Deus e talvez responder mais uma provocação da Helena. Chutei por cima.

Otávio Dutra apitou tão forte que o som pareceu atravessar meu crânio.

— Duarte! Aqui!

Corri até a lateral. O treinador esperou que eu chegasse antes de apontar para o campo.

— Sabe o que tem ali?

— Um gol.

— Engraçadinho. Tem dez jogadores tentando entender como você se move. Se você correr para a câmera em vez de correr para o espaço, vai assistir à estreia do banco.

Assenti. Não havia resposta boa.

Desde a coletiva, meu nome tinha virado brincadeira nacional. A aposta aparecia no celular de todo mundo. O perfil do clube ganhou seguidores. O meu quase dobrou. Armani dizia que era excelente. Otávio tratava cada notificação como se fosse um quilo a mais amarrado nas minhas pernas.

— Esquece a jornalista — ele continuou. — O Carioca não vai te dar três gols porque você tem olhos bonitos.

— Ela acha meus olhos bonitos?

Otávio me encarou por dois segundos.

— Banco, Duarte.

— Entendi. Foco no espaço.

Lucas, o zagueiro que me marcava no treino, esperou o técnico se afastar para bater no meu ombro.

— Se for fazer promessa pra mulher, promete flor. Gol depende da gente deixar.

— Você vai deixar?

— Nem se pagar o jantar pra mim também.

Voltamos ao coletivo. Na jogada seguinte, parei de procurar o lance bonito. Recuei dois passos, arrastei Lucas comigo e abri o corredor para Juninho avançar. Quando a defesa se reorganizou, ataquei o espaço entre os zagueiros.

A bola chegou rasteira.

Dessa vez, chutei antes de pensar.

Rede.

Otávio não elogiou. Apenas anotou alguma coisa na prancheta. Para ele, acertar era o mínimo.

Para mim, aquele gol devolveu ar aos pulmões.

Depois do treino, encontrei Armani na área reservada aos jogadores. Ele segurava dois celulares e falava num terceiro por um fone sem fio.

— O FOGO quer conversar — anunciou assim que desligou. — Campanha nacional de desodorante. Você, a camisa e essa história com a Helena.

— Não existe história com a Helena.

— Melhor ainda. História que não existe dá menos trabalho e rende igual.

Peguei uma garrafa de água da geladeira.

— Eu nem joguei ainda.

— A internet não espera currículo. Espera assunto.

— E se eu for mal?

Armani guardou um dos celulares. O entusiasmo diminuiu apenas o suficiente para eu perceber.

— Então o assunto acaba. Por isso você precisa jogar bem.

Armani não estava me ameaçando. Não precisava. A verdade fazia o serviço por ele.

No Auriverde, eu podia passar uma partida sem marcar e ainda seria o artilheiro do campeonato. No Maracanã, havia três atacantes no banco que custaram mais do que toda a estrutura do meu antigo clube. Minha contratação tinha sido barata para eles. Errar comigo também seria.

Eu ainda lembrava de Marcelo, presidente do Auriverde, empurrando o contrato pela mesa e dizendo que minha vida estava resolvida. Não estava. O documento tinha páginas suficientes para esconder qualquer coisa, e o amigo que pedi para ler trabalhava com Direito Penal. Armani garantiu que cuidaria do resto. Na época, acreditei porque precisava acreditar em alguém.

Agora, sempre que ele dizia que uma oportunidade era boa demais para recusar, eu me perguntava para quem.

No vestiário, meu armário já tinha uma placa prateada com meu sobrenome. Passei o polegar sobre as letras, sentindo uma saudade repentina do espaço apertado onde eu dividia banco com cinco jogadores e o chuveiro só esquentava quando queria.

Meu pai ligou quando eu estava saindo.

— E aí, filho? Sobreviveu?

— Quase fui pro banco por causa de uma jornalista.

— Não. Quase foi pro banco porque perdeu gol. A jornalista nem estava em campo.

Parei no corredor.

Meu pai tinha esse talento irritante de retirar a decoração dos problemas.

— Todo mundo só fala da aposta.

— Deixa falar. Quando a bola rolar, ela não vai saber seu número de seguidores.

— Ela sabe o número da minha camisa.

— Então faça valer.

Antes de entrar no carro, chegou a escalação preliminar da estreia. Li a lista duas vezes.

Miguel Duarte, camisa 23, entre os titulares.

Sentei ao volante sem ligar o motor. Meu pulso corria na velocidade dos acréscimos.

Abri o I*******m. Helena havia publicado um story diante do estádio, segurando uma placa improvisada.

NÃO COMPREI VESTIDO.

Respondi antes de ter tempo de consultar o bom senso.

Leva o microfone. Você vai precisar admitir que errou.

Os três pontinhos apareceram quase imediatamente.

E você leva dinheiro. Eu escolhi um restaurante caro.

Fiquei olhando para a resposta até a tela apagar.

Pela primeira vez desde que cheguei ao Rio, a estreia não parecia o acontecimento mais perigoso da semana.

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