เข้าสู่ระบบA mão de Miguel permaneceu na minha cintura por dois segundos.
Talvez três.
Tempo suficiente para eu registrar o calor dos dedos através da blusa, o cheiro limpo de banho recente e o fato de que o peito dele estava perto demais do meu rosto. Quando recuperei o equilíbrio, afastei-me como se nada tivesse acontecido.
— Reflexo bom — comentei.
— Sou pago para isso.
— Você é pago para chutar bola.
— O resto eu faço de graça.
Ele disse sem baixar a voz, mas a frase encontrou um espaço particular entre nós. Peguei meu copo sobre a mesa e bebi para não responder.
O jantar coletivo funcionou por aproximadamente vinte minutos. Lucas contava histórias do vestiário, Juninho discutia com Alice sobre quem tinha escolhido o pior jogador da rodada e Miguel, sentado à minha frente, participava de todas as conversas sem parar de me observar.
O olhar não percorreu meu corpo nem tentou me despir. Ficou no meu rosto, esperando.
Eu estava acostumada com homens que tentavam ocupar meu espaço antes que alguém percebesse que não tinham sido convidados. Miguel fazia o contrário. Esperava que eu abrisse uma brecha e, quando abria, já estava lá.
— Você não vai comer? — perguntou, apontando para a porção de carne acebolada.
— Estou comendo.
— Duas azeitonas não são jantar.
— E três gols não fazem uma carreira.
— Fazem um encontro.
— Isso não é um encontro.
Alice, ao meu lado, soltou uma risada dentro do copo.
— Imagina se fosse — ela disse.
Chutei sua canela por baixo da mesa.
Pouco depois, Lucas e Juninho foram atender torcedores. Alice desapareceu em direção ao palco com a mulher que conhecera. O bar ficou mais cheio, o samba mais alto e o ar parado. Eu tinha saído do estádio sem almoçar, passado a tarde trabalhando e bebido três copinhos de cachaça como se meu corpo tivesse vinte anos e nenhuma conta a prestar.
Quando me levantei para ir ao banheiro, o chão demorou a acompanhar.
Miguel segurou meu cotovelo.
— Você está bem?
— Perfeitamente.
— Helena.
— Não usa esse tom comigo.
— Que tom?
— O de pessoa sensata. Não combina com você.
Tentei dar mais um passo. Uma onda de calor atravessou meu rosto, seguida de um enjoo súbito. Consegui chegar ao corredor do banheiro antes de passar mal.
Quando saí, depois de lavar o rosto e prometer nunca mais confiar em cachaça com nome de fruta, Alice me esperava junto à porta. Miguel estava alguns passos atrás.
— Vou te levar para casa — ela disse.
— Seu carro está onde?
Alice fez uma careta.
— No estacionamento da Rua do Lavradio. Só que tem fotógrafo na saída. Um deles perguntou se você vai embora com o camisa 23.
Fechei os olhos por um instante.
— Como sabiam que estávamos aqui?
Ninguém respondeu.
Miguel se aproximou apenas o necessário para eu ouvi-lo acima da música.
— Meu prédio fica a cinco minutos e tem garagem fechada. Você pode descansar lá até melhorar. Alice vem com a gente.
Encarei-o.
— Isso parece o começo de uma decisão muito ruim.
— Então decide você. Posso chamar segurança, táxi, ambulância ou sua mãe. Só não vou deixar você sair tonta no meio de câmera.
Alice tocou meu braço.
— Eu vou junto. Se você quiser ir para casa depois, eu te levo.
Eu estava consciente o bastante para entender o risco e indisposta demais para enfrentar uma calçada cheia de celulares. Concordei.
Saímos pela cozinha. O carro de Miguel esperava numa rua lateral, dirigido por um segurança do clube. Alice foi no banco da frente. Miguel e eu ocupamos o banco de trás, com espaço suficiente entre nós para caber todo o manual de ética jornalística.
Ainda assim, o joelho dele encostou no meu numa curva.
Nenhum dos dois se mexeu.
O apartamento era enorme, mobiliado e impessoal. Parecia um lugar preparado para fotografias de anúncio, não para alguém morar. Havia caixas fechadas junto à parede e uma camisa do Auriverde dobrada sobre uma poltrona, deslocada no meio de móveis novos.
Miguel trouxe água, um comprimido para dor de cabeça ainda lacrado e uma toalha limpa. Alice esperou até eu beber dois copos e recuperar a cor.
— Quer que eu fique? — perguntou.
— Não precisa. Já estou melhor.
Ela olhou para Miguel.
— Se ela aparecer morta, eu entrego sua localização em tempo real, seu CPF e uma foto ruim da sua adolescência para a polícia.
— Justo.
Depois que Alice saiu, percebi a mancha na frente da minha blusa. Água, suor e alguma coisa que eu preferia não investigar.
— Você tem uma camiseta? — perguntei.
Miguel abriu uma gaveta no corredor e me entregou uma branca, larga, com o número 23 estampado nas costas.
Troquei de roupa no banheiro. Quando voltei, ele havia arrumado o quarto, deixado outra garrafa de água na mesa de cabeceira e colocado uma bacia perto da cama sem fazer qualquer comentário humilhante.
— Você vai dormir onde?
— No sofá.
— Eu não vou dormir aqui.
— Tudo bem. Descansa meia hora e eu mando te levarem para casa.
Sentei na beirada da cama. Miguel permaneceu junto à porta, mantendo uma distância que eu não tinha pedido, mas agradeci.
— Por que as flores? — perguntei.
— Porque você parecia o tipo de mulher que recebe muita coisa cara e pouca coisa escolhida.
A resposta atingiu um lugar que a bebida não alcançava.
— Você não me conhece.
— Ainda não.
Ele disse aquilo sem avançar, sem transformar a frase numa cobrança. Fui eu quem olhou para a boca dele. Fui eu quem sentiu a vontade imprudente de descobrir se Miguel beijava com a mesma confiança com que chutava.
Ele percebeu.
— Se eu chegar mais perto — falou baixo —, você vai se arrepender amanhã?
A pergunta devolveu lucidez ao quarto.
— Vou.
Miguel assentiu.
— Então boa noite, Helena.
Fechou a porta e me deixou sozinha.
Deitei vestindo o número dele, irritada por ele ter feito exatamente a coisa certa.
HelenaA mão de Miguel permaneceu na minha cintura por dois segundos.Talvez três.Tempo suficiente para eu registrar o calor dos dedos através da blusa, o cheiro limpo de banho recente e o fato de que o peito dele estava perto demais do meu rosto. Quando recuperei o equilíbrio, afastei-me como se nada tivesse acontecido.— Reflexo bom — comentei.— Sou pago para isso.— Você é pago para chutar bola.— O resto eu faço de graça.Ele disse sem baixar a voz, mas a frase encontrou um espaço particular entre nós. Peguei meu copo sobre a mesa e bebi para não responder.O jantar coletivo funcionou por aproximadamente vinte minutos. Lucas contava histórias do vestiário, Juninho discutia com Alice sobre quem tinha escolhido o pior jogador da rodada e Miguel, sentado à minha frente, participava de todas as conversas sem parar de me observar.O olhar não percorreu meu corpo nem tentou me despir. Ficou no meu rosto, esperando.Eu estava acostumada com homens que tentavam ocupar meu espaço antes q
MiguelTrês gols, uma assistência e um tornozelo latejando.Ainda assim, a primeira coisa que procurei ao deixar o campo foi o rosto de Helena.Não encontrei.A cabine do EsporteFoco estava vazia, e por um segundo absurdo pensei que ela tivesse fugido. Depois Lucas me acertou pelas costas com uma toalha molhada e o vestiário inteiro começou a gritar “jantar” como se aquela fosse a música oficial do clube.— Vocês são muito infantis — reclamei, sem conseguir parar de sorrir.— Três gols na estreia e o homem está preocupado com sobremesa — Juninho disse.— Prioridades.Otávio Dutra entrou antes que respondessem. O barulho morreu aos poucos.Ele esperou o silêncio completo, olhou para o placar desenhado no quadro e depois para mim.— Boa estreia, Duarte.Duas palavras. Vindas dele, pareceram uma convocação para a seleção.— Obrigado, professor.— Agora esquece. Quarta-feira tem treino e domingo tem outro jogo. Quem vive de estreia morre no segundo tempo da temporada.Assenti. A frase era
HelenaCinco minutos depois do início da partida, Miguel recebeu a bola no meio-campo e transformou minha paz num corredor aberto.O Maracanã jogava de branco e azul-claro. Da cabine do EsporteFoco, eu enxergava o número 23 avançando entre dois marcadores do Carioca. Ele tinha um jeito estranho de correr: o tronco um pouco inclinado, os braços soltos, como se chegasse atrasado a algum lugar que só ele sabia onde ficava.O primeiro zagueiro tentou fechar o lado direito.Miguel cortou para dentro.O segundo veio no corpo. Ele protegeu a bola, esperou o goleiro sair e tocou por cima.A rede se mexeu.O estádio explodiu.— O menino é bom — Zeca gritou ao meu lado.Zeca havia jogado com meu pai na seleção e se considerava autorizado a comentar qualquer coisa, inclusive meu silêncio.— Foi um gol — respondi, ajeitando o fone. — Até atacante ruim faz de vez em quando.— Você vai sofrer nesse jantar.— Não haverá jantar.No gramado, Miguel correu em direção à arquibancada, beijou o escudo e s
MiguelNo meu primeiro treino como possível titular do Maracanã, errei um gol que minha mãe faria de chinelo.A bola veio limpa da direita. Eu estava sozinho na pequena área, com tempo suficiente para escolher o canto, agradecer a Deus e talvez responder mais uma provocação da Helena. Chutei por cima.Otávio Dutra apitou tão forte que o som pareceu atravessar meu crânio.— Duarte! Aqui!Corri até a lateral. O treinador esperou que eu chegasse antes de apontar para o campo.— Sabe o que tem ali?— Um gol.— Engraçadinho. Tem dez jogadores tentando entender como você se move. Se você correr para a câmera em vez de correr para o espaço, vai assistir à estreia do banco.Assenti. Não havia resposta boa.Desde a coletiva, meu nome tinha virado brincadeira nacional. A aposta aparecia no celular de todo mundo. O perfil do clube ganhou seguidores. O meu quase dobrou. Armani dizia que era excelente. Otávio tratava cada notificação como se fosse um quilo a mais amarrado nas minhas pernas.— Esqu
HelenaO sorriso que apareceu no rosto de Miguel Duarte não fazia parte do treinamento de mídia.Eu conhecia sorrisos treinados. Convivia com eles desde criança. Jogador sorria quando queria esconder medo, presidente sorria antes de demitir técnico e homem poderoso sorria quando acreditava que uma mulher não tinha percebido a ameaça.O de Miguel era diferente.Ele estava nervoso e tinha acabado de decidir se divertir com isso.— Quantos gols eu preciso fazer para você admitir que errou? — repetiu, apoiando os antebraços sobre a mesa.O presidente do Maracanã soltou uma risada curta. Otávio Dutra não achou graça. Carlos, meu diretor, assistia à transmissão do escritório e provavelmente já procurava no Google se era possível demitir alguém por telepatia.Levei o microfone de volta à boca.— Um gol não prova uma contratação.— Então escolhe um número.— Futebol não funciona assim.— Sua pergunta funcionou.A sala reagiu com aquele ruído baixo de gente que pressente um corte viral. Um cin
“O Maracanã comprou um craque ou só mais um produto de marketing?”A pergunta saiu da televisão pela terceira vez porque eu tinha recuado o vídeo pela terceira vez. Eu chamava aquilo de estudo do adversário. Na terceira repetição, já era teimosia com Wi-Fi.Helena Albuquerque ocupava a tela inteira da sala, sentada diante de um microfone preto, com a camisa do EsporteFoco e um sorriso que não chegava aos olhos. Atrás dela, congelada numa tela azul, estava uma foto minha comemorando um gol pelo Auriverde. Boca aberta, punho erguido, barro até no joelho.Não era exatamente a imagem que eu escolheria para ser apresentado ao país.— Dez gols em oito jogos no estadual — ela continuou. — É uma média excelente. A pergunta é contra quem. Sair de uma divisão pequena para o atual campeão brasileiro exige mais do que velocidade e uma boa história de superação.Parei o vídeo antes que ela repetisse a parte do produto de marketing.O apartamento ficou silencioso de novo.Eu ainda não tinha me acos







