LOGINSophia
Chloe não me deu nem tempo para colocar a bolsa sobre o sofá. — Agora que você finalmente chegou, pode parar de fingir que é uma pessoa ocupada. Soltei uma risada. — Eu sou uma pessoa ocupada. — Hoje não. — Quem decidiu isso? — Eu. Charlotte apareceu na sala, cruzando os braços. — Infelizmente, ela acha que manda em todas nós. — Porque eu mando — Chloe respondeu. Brooklyn passou por nós carregando uma garrafa de água. — Você só manda porque ninguém tem paciência para discutir. Katherine riu. — E porque a gente gosta dela. — Finalmente alguém reconheceu meu valor. Observei as quatro e balancei a cabeça. Era impossível passar alguns minutos com elas sem começar a rir. Desde a época da escola, tínhamos sido assim. Cinco personalidades completamente diferentes que, de alguma maneira, funcionavam juntas. Chloe era incapaz de ficar cinco minutos em silêncio. Charlotte conseguia transformar qualquer discussão em uma negociação. Brooklyn tinha uma solução prática para quase tudo. Katherine observava mais do que falava e, quando finalmente dizia alguma coisa, normalmente era justamente o que ninguém tinha percebido. E eu... Ainda tentava entender como tinha conseguido sobreviver àquelas quatro. — Vamos almoçar? — Katherine perguntou. — Finalmente! — Chloe respondeu. — Eu organizei tudo e estou com fome desde as nove. — Você tomou café às dez — Charlotte lembrou. — Isso não conta. Seguimos para o jardim, onde uma mesa havia sido preparada sob uma área coberta. O almoço passou entre conversas, risadas e histórias que só faziam sentido para nós. Percebi o quanto tinha sentido falta daquilo. Não do luxo da casa. Não do barco. Nem da praia. Da sensação de estar perto de pessoas que não esperavam que eu fosse perfeita. — E você? — Charlotte perguntou, olhando para mim. — Como está o hospital? Apoiei o garfo no prato. — Intenso. — Isso significa ruim? — Brooklyn perguntou. — Significa que continuo trabalhando demais. — Então nada mudou — Chloe comentou. — Praticamente nada. — E a Fundação? Respirei fundo antes de responder. — Também está ocupando bastante tempo. Charlotte apoiou os braços sobre a mesa. — Você vai mesmo assumir tudo? Fiquei alguns segundos em silêncio. A pergunta parecia simples, mas carregava um peso que eu conhecia bem. Aos poucos, as responsabilidades sobre a Fundação Jones estavam deixando de ser apenas uma possibilidade futura. Estavam se aproximando. — Vou — respondi. — De verdade? — Chloe perguntou. — De verdade. Katherine inclinou a cabeça. — E a medicina? — Não vou abandonar. — Então como pretende fazer as duas coisas? — Brooklyn perguntou. Dei de ombros. — Vou precisar reorganizar algumas coisas. Minha rotina, meus horários no hospital... talvez reduzir alguns plantões quando for necessário. Chloe fez uma expressão dramática. — Quando começar tudo isso, precisamos nos despedir. Porque nunca mais vamos ver você. Ri. — Exagerada. — Estou apenas me preparando emocionalmente. — Não precisa. Daqui a quinze dias eu viajo. Chloe ergueu as sobrancelhas. — Que viagem? — Seul. As quatro olharam para mim. — Você vai para Seul? — Katherine perguntou. Assenti. — Tenho uma conferência médica. — E só? — Charlotte perguntou. — Também preciso resolver algumas questões da Fundação por lá. Era verdade. Apenas não era tudo. Chloe abriu um sorriso. — Você podia ter contado isso antes. — Eu descobri recentemente. — E vai ficar quanto tempo? — Alguns dias. Brooklyn apoiou o queixo na mão. — Nunca fui para Seul. — Nem eu — Katherine respondeu. Olhei para as duas. — Vocês estão planejando uma viagem agora? — Não seria uma ideia ruim — Chloe respondeu. Charlotte riu. — Você conhece a Chloe. Daqui a cinco minutos ela vai estar procurando hotel. — Já estou pensando nisso. Balancei a cabeça. — Vocês são impossíveis. Por alguns minutos, a conversa continuou sobre a viagem. Restaurantes, lugares que gostariam de conhecer, diferenças culturais e até a possibilidade de eu trazer alguma coisa para cada uma. Entrei na brincadeira. Era fácil conversar sobre Seul quando ninguém sabia o verdadeiro motivo pelo qual aquela viagem havia chegado até mim. E ninguém precisava saber. Depois do almoço, Chloe se levantou. — Certo. Chega de comida. Brooklyn riu. — Você acabou de dizer que estava com fome. — Agora estou com vontade de andar de barco. — Essa lógica é preocupante — Charlotte comentou. — Vocês vêm ou não? Peguei minha bolsa. — Vamos. Recolhemos algumas coisas e caminhamos juntas até o píer. O vento vindo do mar mexia nos meus cabelos enquanto eu caminhava ao lado das minhas amigas. O sol refletia na água e, ao longe, algumas embarcações balançavam suavemente sobre as ondas. Por alguns minutos, simplesmente aproveitei. Sem pensar no hospital. Sem pensar na Fundação. Sem pensar no envelope. Sem pensar no motivo daquela viagem. Quando chegamos ao barco, Chloe entrou primeiro. — Última chance para desistir! — Você fala isso como se alguém aqui fosse sensata — respondi. As cinco começaram a rir. Entrei por último. Escolhi um lugar ao lado de Katherine, coloquei a bolsa perto dos pés e tirei os óculos de sol. O motor foi ligado. Chloe aumentou a música. Brooklyn reclamou. Charlotte mandou diminuir. Katherine começou a rir. Eu apenas me encostei no banco e fechei os olhos por alguns segundos, sentindo o vento no rosto. Naquele instante, consegui esquecer tudo. Até o celular vibrar dentro da bolsa. Abri os olhos. Peguei o aparelho sem pressa. A tela acendeu. Uma nova notificação. Li a mensagem. E o sorriso desapareceu lentamente do meu rosto. Algumas coisas nunca ficavam realmente longe.John O despertador tocou às seis e quinze da manhã, mas eu já estava acordado havia alguns minutos. Fiquei olhando para o teto do quarto, tentando lembrar por que tinha acordado tão cedo, até que ouvi uma batida na porta. — Joon-ho? Você está acordado? A voz da minha mãe atravessou a porta. — Estou. — Então abra. Soltei uma risada baixa antes de me levantar. Quando abri a porta, encontrei minha mãe segurando uma capa de roupa e me olhando com aquela expressão que deixava claro que ela já estava cuidando de tudo enquanto eu ainda tentava organizar os pensamentos. — Você separou o terno? — Separei. — A gravata? Parei por um segundo. — Acho que sim. Ela estreitou os olhos. — “Acho”? — Está na mala. Minha mãe entrou no quarto sem esperar convite. — Ainda bem que você é agente do FBI e não depende de mim para investigar criminosos. Porque para encontrar uma gravata você precisaria de uma equipe inteira. — Bom dia para você também. Ela sorriu enquanto colocava a capa sobr
Sophia Assim que entrei no quarto, fechei a porta atrás de mim e fiquei alguns segundos encostada nela. A noite ainda estava na minha cabeça. John. A conversa no carro. O jeito como ele tinha insistido em continuar me vendo em Boston. Fechei os olhos por um instante. — Isso não vai dar certo. Falei baixo, como se ouvir a própria voz tornasse a decisão mais fácil. Mas não parecia convencer nem a mim mesma. Deixei a bolsa sobre a poltrona e fui até a mala. No dia seguinte seria corrido demais para deixar tudo para a última hora. A conferência ocuparia boa parte do dia, eu ainda teria compromissos antes de partir e meu voo seria de madrugada. Abri o zíper. Comecei a separar as roupas usadas, dobrando cada peça antes de colocá-la de volta. O conjunto que eu havia usado no evento foi para o fundo da mala. O jeans e a camisa que tinha usado naquela noite ficaram separados por alguns segundos antes de eu também guardá-los. Quando peguei o celular para conferir o horário, a tela
John O caminho de volta ao hotel foi mais silencioso do que a ida. Não era um silêncio desconfortável. Sophia estava olhando pela janela, acompanhando as luzes de Seul enquanto eu dirigia pelas ruas que eu conhecia desde criança. Eu queria prolongar aquela noite. Talvez por isso, quando parei diante do hotel, não desliguei o carro imediatamente. Sophia soltou o cinto e olhou para mim. — Obrigada pela noite. — Eu que agradeço. Ela sorriu e levou a mão à maçaneta, mas antes que abrisse a porta, perguntei: — Quando você volta para casa? Ela parou. — Amanhã. — Amanhã? — É meu último dia em Seul. A conferência termina à tarde e meu voo é de madrugada. Olhei rapidamente para ela. — Então você praticamente não vai dormir. — Provavelmente não. Ri baixo. — Minha irmã vai casar amanhã. Sophia abriu um sorriso. — É verdade. Você tinha me contado. — Então amanhã vai ser um dia importante para nós dois. — Parece que sim. Por alguns segundos, ficamos em silêncio. Eu sabia qu
SophiaEu já tinha perdido a conta de quantas vezes havia rido naquela noite.John parecia conhecer Seul de um jeito diferente do que eu tinha visto até então. Não como alguém que estudou os lugares mais famosos para impressionar uma visitante, mas como alguém que realmente pertencia àquela cidade.Ele apontava uma rua e contava que passava por ali quando era criança. Mostrava uma pequena loja onde costumava comprar alguma coisa depois da escola. Em outra esquina, parou diante de uma cafeteria e disse que aquele lugar existia desde antes de ele sair da Coreia.Eu gostava de ouvir.Talvez porque, pela primeira vez desde que cheguei, eu não estivesse conhecendo apenas Seul.Estava conhecendo John.— Você sempre morou nessa região? — perguntei enquanto caminhávamos.— Não exatamente. Minha família mudou algumas vezes, mas boa parte da minha infância aconteceu por aqui.— Então você conhece tudo.— Quase tudo.— Quase?— Eu também tenho lugares que ainda não conheço.— Isso é difícil de a
JohnParei o carro em frente ao hotel alguns minutos antes do horário combinado.Desliguei o motor, mas não saí imediatamente.Olhei para o prédio iluminado à minha frente e passei a mão pelo volante.Eu tinha pensado bastante em onde levar Sophia.Seul tinha restaurantes sofisticados, bares elegantes, lugares que combinavam perfeitamente com alguém como ela. Afinal, depois de vê-la no palco naquela manhã, eu tinha entendido melhor o tamanho do mundo em que ela vivia.Mas não era isso que eu queria mostrar.Queria mostrar a Seul que eu conhecia.Aquela que não precisava de reserva, roupa cara ou uma mesa exclusiva para ser bonita.Ainda assim, havia uma dúvida que não saía da minha cabeça.E se ela não gostasse?Sophia era herdeira da Fundação Jones. Eu não fazia ideia de que tipo de lugares ela costumava frequentar. Talvez estivesse acostumada a restaurantes sofisticados, hotéis cinco estrelas e programas muito mais elaborados do que os que eu tinha pensado.Eu poderia levá-la a um r
SophiaQuando finalmente entrei no quarto do hotel, a primeira coisa que fiz foi tirar os sapatos.Meus pés agradeceram no mesmo instante.Deixei a bolsa sobre a poltrona perto da janela e caminhei até a cama, ainda sentindo no corpo o peso das horas que havia passado em pé. O evento tinha terminado havia pouco, mas parecia que eu estava ali há dias.Sentei na beirada do colchão e soltei o ar devagar.O silêncio do quarto foi quase um abraço.Depois de uma manhã inteira cercada por vozes, apresentações, perguntas e cumprimentos, aquele espaço parecia distante de tudo. Tirei o blazer e o deixei sobre a poltrona, passei as mãos pelos cabelos presos e, antes que percebesse, já estava deitada.Fechei os olhos por alguns segundos.Eu estava cansada.Muito cansada.O corpo queria ficar ali.Minha cabeça, porém, ainda estava cheia.O discurso.A Fundação.As pessoas que eu havia conhecido.Meu pai.E, inevitavelmente, John.Abri os olhos e virei o rosto na direção da mesa de cabeceira.Meu c







