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A Gordinha que virou CEO
A Gordinha que virou CEO
Author: Gacha mania

Passado de Raquel I

Author: Gacha mania
last update publish date: 2025-12-18 20:43:11

O recreio sempre parecia mais longo para Raquel do que para qualquer outra criança.

O sinal tocava, as outras crianças corriam para o pátio como se aquilo fosse liberdade, mas para ela era quase uma sentença. O coração começava a bater mais rápido antes mesmo de sair da sala. As mãos ficavam suadas. O estômago, apertado. Raquel já sabia o que vinha depois.

O pátio da escola era grande, barulhento, cheio de risadas, gritos e passos apressados. O sol refletia no chão de cimento quente, e o cheiro de merenda misturava-se ao de poeira. Em teoria, era um lugar de diversão. Na prática, para Raquel, era um campo de batalha.

Ela caminhava devagar, segurando a mochila contra o peito como se aquilo pudesse protegê-la. O uniforme ficava sempre apertado demais. A camiseta esticava na barriga, a saia subia quando ela sentava. Ela sentia os olhares antes mesmo de ouvir as palavras.

— **Olha lá a gordinha chegando.**

A voz vinha quase sempre do mesmo lugar. Marcelo.

Ele estava encostado perto do muro, rodeado pelos amigos, com aquele sorriso torto de quem se divertia machucando. Marcelo era popular. Bom de bola. Alto para a idade. Sabia exatamente como usar isso.

Raquel fingia não ouvir. Aprendera cedo que reagir só piorava tudo. Baixava a cabeça e seguia em direção ao canto mais afastado do pátio, onde quase ninguém ia. Ali, sentava-se sozinha, com o lanche intacto nas mãos.

Mas ignorar nunca foi suficiente.

— **Ei, Raquel!** — Marcelo chamou, alto o bastante para todo mundo ouvir. — Se você comer tudo isso, o banco vai quebrar!

As risadas explodiram ao redor. Algumas crianças riam alto. Outras riam baixo. Algumas fingiam não ver. Nenhuma ajudava.

Raquel sentiu o rosto queimar. A garganta se fechou. Ela olhou para o lanche, depois para o chão, desejando desaparecer. O pão parecia grande demais. Tudo parecia grande demais nela.

— **Deixa ela**, — disse um dos amigos de Marcelo, ainda rindo. — Ela deve estar treinando pra virar uma bola.

As palavras entravam fundo, como pequenas lâminas. Não sangravam por fora, mas doíam por dentro. Raquel apertou os dedos com força, cravando as unhas na palma da mão. Não ia chorar. Não ali. Não na frente deles.

Ela já tinha chorado antes. E aprendera que chorar só dava mais motivos para rirem.

O sinal tocou anunciando o fim do recreio. Para Raquel, soou como um alívio tardio. Ela se levantou rápido, guardou o lanche sem comer e caminhou de volta para a sala, sentindo as pernas pesadas, como se cada passo exigisse um esforço enorme.

Naquele dia, como em tantos outros, ela voltou para casa em silêncio.

A mãe percebeu. Sempre percebia.

— **Como foi a escola hoje?** — perguntou enquanto mexia a panela no fogão.

Raquel deu de ombros.

— Normal.

Era sempre essa resposta. “Normal” significava ruim, mas suportável. Significava que ninguém tinha batido nela. Que ninguém tinha empurrado. Só palavras. Só risadas. Só aquele peso constante no peito.

À noite, sozinha no quarto, Raquel sentou na cama e abriu o caderno. As letras eram o único lugar onde ela se sentia segura. Ali, ninguém ria. Ninguém apontava. Ninguém dizia que ela era grande demais, lenta demais, errada demais.

Ela escrevia com cuidado, como se cada palavra fosse um tijolo de algo que ainda não existia, mas que um dia existiria. Um futuro onde ela não seria invisível. Onde ninguém poderia chamá-la de nada.

Na escola, os anos passaram, mas o padrão não mudou.

Marcelo cresceu. O bullying também.

— **Se continuar assim, ninguém vai te amar**, — ele disse uma vez, no corredor, quando ela tinha doze anos.

Raquel não respondeu. Mas aquelas palavras ficaram. Ficaram por muito tempo.

Ela começou a se esconder em roupas largas. A sentar no fundo da sala. A ocupar menos espaço do que o próprio corpo ocupava. Aprendeu a pedir desculpa por existir. A rir de si mesma antes que rissem dela.

Mas algo dentro dela não quebrou.

Ficou trincado. Machucado. Mas não quebrou.

Na última semana de aula do ensino fundamental, houve uma apresentação no auditório. Raquel foi obrigada a subir ao palco para apresentar um trabalho. As mãos tremiam. O coração parecia querer fugir do peito.

Ela viu Marcelo na plateia. Viu o sorriso dele. Viu os amigos cutucando uns aos outros.

Ela quase desistiu.

Quase.

Mas então respirou fundo. Lembrou das noites escrevendo. Das promessas silenciosas que fazia a si mesma sem perceber. E falou.

A voz saiu trêmula no começo, mas firme no final. O auditório ficou em silêncio. Pela primeira vez, ninguém riu.

Raquel desceu do palco com as pernas bambas, mas com algo novo no peito. Não era felicidade. Era determinação.

Naquele dia, sentada sozinha no quarto, ela se olhou no espelho por um longo tempo. Viu o corpo que tanto odiara. Viu as marcas invisíveis que carregava. Viu a menina que sobrevivia todos os dias.

— **Um dia…** — sussurrou para si mesma — **ninguém vai me humilhar. Ninguém vai me diminuir. Nunca mais.**

Ela não sabia como. Não sabia quando. Mas acreditou.

E essa crença, frágil e silenciosa, foi a semente de tudo.

O que Raquel ainda não imaginava era que o passado nunca desaparece de verdade.

Às vezes, ele só espera o momento certo para voltar…

mais forte, mais cruel — e de frente para ela.

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